domingo, 29 de abril de 2018

Negócio bilionário coloca educação pública em perigo e sob investidores estrangeiros

Compra da Somos Educação pela Kroton Educacional sinaliza lógica mercantil do projeto de educação do governo golpista
Leonardo Fernandes
O documento intitulado “A travessia social”, uma espécie de plano de governo do então vice-presidente da República, Michel Temer, antes mesmo de consolidado o golpe de Estado em 2016, já anunciava o objetivo da equipe ministerial golpista: privatizar ‘tudo o que for possível’. 
Errou quem achava que as privatizações se resumiriam às empresas públicas de interesse do mercado. Na mira dos empresários estão os setores estratégicos de desenvolvimento social, como a educação. Na última semana, a empresa Kroton Educacional, líder no setor de educação superior privada no Brasil, acertou a compra do controle acionário da Somos Educação, antiga “Abril Educação”, por um valor de R$ 4,6 bilhões. 
O negócio bilionário disparou um sinal de alerta entre especialistas em educação, como o professor e reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Leher. “A preocupação é imensa. Em primeiro lugar, porque a rigor, nós não deveríamos falar que se trata de uma negociação entre duas empresas educacionais. Porque essas empresas estão sob controle de fundos financeiros, fundos de investimento. Então, na realidade, é um movimento que leva à concentração do setor educacional pelos fundos de investimento. São operações que devem ser entendidas dentro da lógica financeira”.
Uma lógica que, para Raquel Caetano, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, não objetiva uma melhor formação das crianças e jovens inseridas no sistema educacional. “O  objetivo é ampliação de mercado e obtenção de lucros e a educação passa a ser um meio para esse negócio”, afirma a professora, que alerta ainda para os resultados nefastos da nova lógica educacional do Brasil.
“O resultado disso será um grande negócio a ser comercializado pelo mercado de capitais e a transformação dos alunos em clientes-consumidores que irão reproduzir na sociedade as relações mercantis, onde tudo se vende e tudo se compra, uma prática utilitarista e entre outros, a desvalorização docente. A educação pública passará por um processo de precarização ainda maior que o congelamento de recursos, criando um ambiente apropriado para parcerias, contratos de gestão, terceirização”, completa. 
A compra deverá ser formalizada pela Saber Serviços Educacionais, subsidiária da Kroton, dedicada ao setor de educação básica. Com a aquisição da Somos, a Saber atenderá 37 mil estudantes em escolas próprias, 1,2 milhão em escolas particulares parceiras, além de 25 mil em cursos de idiomas. “No caso da educação superior, a Kroton possui hoje um número de matrículas maior do que as 63 universidades públicas federais brasileiras. Então isso dá uma extensão do problema. Cada vez mais temos uma parcela muito grande da juventude sendo formada dentro de uma lógica do capital financeiro, em busca dos seus lucros”, afirma Leher.
Além de atuarem diretamente na educação a fusão das empresas colocará sob controle único a edição de livros didáticos que são distribuídos nas escolas públicas do Brasil. Isso porque a Somos Educação é também dona de editoras como a Ática, a Scipione e a Saraiva. “Essa é uma situação que coloca o Brasil numa posição vergonhosa de ser hoje talvez o país sob maior influência de investidores financeiros, inclusive estrangeiros, pois grande parte desses fundos tem capital externo, influenciando de maneira muito marcada a formação de jovens e crianças que estão sob a influência desses grupos”, critica Leher. 
Golpe na Educação Pública
Segundo os especialistas, o negócio anunciado entre a Kroton e a Somos Educação, segue a lógica da política educacional inaugurada a partir do golpe de 2016. “É importante dizer que a reforma do Ensino Médio, desde a sua concepção, esteve sob o interesse de grupos empresariais privados com o objetivo de indicar a direção das políticas educacionais e influenciar no conteúdo da proposta de educação”, afirma Caetano. 
Segundo Leher, a médio prazo, essa política terá consequências graves para a qualificação da força de trabalho brasileira em relação ao restante do mundo. “O Brasil está se transformando numa plataforma de exportação de commondities, de produtos de baixo valor agregado tecnológico. E hoje o sistema educacional está cada vez mais direcionado para a formação do trabalho simples, de baixa complexidade, de modo que, com essas iniciativas educacionais nós vamos ter uma exército industrial de reserva, ou seja, uma quantidade muito grande de força de trabalho de baixa qualificação, o que dá respaldo à lógica de hiperexploração que está presente, por exemplo, na reforma trabalhista”. 
A operação ainda está sujeita à aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).