sábado, 26 de maio de 2018

Documentando os Estados Unidos no Golpe de 2016 – Parte 3, por Carlos Coimbra

Documentando os Estados Unidos no Golpe de 2016 – Parte 3
por Carlos Coimbra
O presente faz parte de uma série de três artigos sobre documentos secretos vazados ou documentos públicos que indicam uma presença cada vez mais forte dos Estados Unidos no cenário político brasileiro após o anúncio das reservas de petróleo na camada pré-sal pela Petrobras em 2007.
O primeiro artigo sobre o tema pode ser lido aqui.
E o segundo está aqui.
Documentos antigos e nem tão antigos, demonstram que no passado os Estados Unidos da América participaram de diversos golpes ao redor do mundo. Incluindo o apoio a ditaduras sanguinárias para manter os seus interesses geopolíticos.
O exemplo mais prático e clássico vem da abertura pública de documentos antigos da CIA e de outros departamentos dos EUA que atestam a participação do governo Lyndon Johnson no Golpe Militar de 1964. Vide aqui um exemplo (em inglês):
Neste link pode-se ler um telegrama datado de 27 de março de 1964, em que Gordon diz textualmente:
“Se a nossa influência deve ser usada para ajudar a evitar um grande desastre aqui - o que poderia fazer do Brasil a China dos anos 1960 - é aqui que tanto eu como todos os meus assessores seniores acreditamos que nosso apoio deve ser colocado, (…) que medidas sejam tomadas o mais rapidamente possível para se preparar para uma entrega clandestina de armas de origem não americana, a ser disponibilizada aos apoiadores de Castello Branco em São Paulo.”
(Telegrama de Lincoln Gordon, embaixador dos EUA no Brasil, à Casa Branca e à CIA, 27/03/1964)
A operação acima descrita foi denominada “Operação Brother Sam” e contou com apoio logístico e militar por parte dos EUA para que o golpe de 1964 fosse bem sucedido.
Do ponto de vista de comunicação diplomática ou mesmo secreta, os telegramas são um dos principais meios de contato entre os diversos atores que compõem um diálogo internacional.
Nos dias de hoje é correto afirmar que não é preciso esperar décadas até a abertura de documentos diplomáticos secretos. Atualmente há uma organização que se encarrega de vazar milhares de telegramas ou emails confidenciais a partir de fontes governamentais anônimas. Essa organização se chama WikiLeaks. Não é à toa que seu fundador, Julian Assange, está escondido na Embaixada do Equador em Londres, na iminência de ser preso por autoridades do mundo ocidental, sob alegações claramente falsas criadas com o único propósito de extraditá-lo para os EUA.
Abaixo, a terceira parte de uma lista de documentos, que podem ser acessados por qualquer pessoa. Este é um recorte particular de algo muito mais amplo e portanto os leitores podem investigar o problema atacando-o a partir de outros documentos além dos expostos abaixo.
Documento no 11: Lava Jato, manifestações pró-impeachment e a mão dos EUA
Emails da empresa de inteligência privada Stratfor vazados pelo WikiLeaks (sobre Rogério Chequer):
Na parte 2 da presente série de artigos, foram discutidos alguns dos emails da agência privada de inteligência denominada Stratfor. Foram mostrados que cerca de 5.000 emails vazados trataram dos assuntos “pré-sal” e “Dilma Rousseff” no período compreendido entre 2009 e 2011.
A Stratfor, como já visto, é uma empresa que se mostra publicamente como uma editora de publicações sobre geopolítica. No entanto, internamente presta serviços de inteligência a empresas importantes como a Dow, a Raytheon e a Lockheed Martin, e a órgãos do governo norte-americano como o Departamento de Defesa e os Fuzileiros Navais. As táticas da Stratfor são extremamente agressivas. Vide por exemplo trecho de um email confidencial vazado que contém uma explanação das técnicas da empresa em como obter informações de um agente secreto israelense sobre a doença de Hugo Chavez, enviado pelo CEO George Friedman à analista (hoje vice-presidente) Reva Bhalla: “Você tem que assumir o controle dele. Controle significa controle financeiro, sexual ou psicológico... O objetivo é iniciar nossa conversa na próxima fase.”
Um ator de certo destaque entre 2014 e 2015 que aparece em emails da Stratfor é o empresário brasileiro Rogério Chequer (que em 2018 acenou como candidato ao governo de São Paulo pelo partido NOVO). Chequer fundou o movimento de rua denominada “Vem pra Rua”, movimento que atuou em todo o Brasil em manifestações engrossadas pela mídia, principalmente Rede Globo, contra o governo Dilma ou mesmo a favor do impeachment da mesma.
Chequer é descrito em artigo da revista norte-americana “Institutional Investor”, de julho de 2007, como co-fundador da empresa Atlas Capital, de fundos de investimento (aqui: https://www.institutionalinvestor.com/article/b150nxsgdnw80k/alternatives-rethinking-the-abcs-of-gdps). Nessa época Chequer morava nos EUA. Ele aparece em um email confidencial de 2009 da Stratfor, numa lista de “membros”, com seus respectivos endereços (vide aqui, a lista está como anexo do email: https://wikileaks.org/gifiles/docs/89/8925_new-gift-list-.html). Naquele momento ele morava em West Harrison, New York.
Não se sabe por quê, Rogério Chequer voltou ao Brasil na mesma época em que, coincidentemente: 1) ocorreram as denúncias de Snowden sobre as escutas da NSA feitas à Petrobras; 2) Thomas Shannon sai da Embaixada dos EUA e volta ao Departamento de Estado; 3) tem início a Operação Lava Jato. Ao que indica, Chequer voltou ao Brasil devido a problemas com sua empresa norte-americana. Aqui, fundou empreendimento muito mais modesto e depois decolou com o “Vem pra Rua”.
Antes das manifestações pró-impeachment e anti-PT de 2014, majoritariamente financiadas pela FIESP (e mesmo pela JBL, vide Parte 1), outras movimentos de mesmo cunho, contra o governo do PT, não deram certo por não terem força publicitária e nem consonância com a grande mídia. Foi o caso do movimento “Cansei”, liderado pelo empresário, hoje prefeito de São Paulo, João Doria Junior, em 2007. Na ocasião, o Consulado-Geral dos EUA em São Paulo se reportou à CIA sobre o fiasco do movimento, dizendo que o mesmo não tinha futuro. Vide o telegrama aqui: https://wikileaks.org/plusd/cables/07SAOPAULO777_a.html
Além do “Vem pra Rua” de Rogério Chequer, o “Movimento Brasil Livre” (MBL) foi outro que se destacou politicamente nas manifestações de rua pró-impeachment em 2014. Membros fundadores do MBL autodeclaradamente receberam treinamento em uma organização denominada “Estudantes pela Liberdade” (EPL), que tem filiais em vários países do mundo. O EPL é ligado à Atlas Network e ao Students for Liberty International, organização que prega a economia liberal como contraponto à esquerda mundial. O diretor-executivo do EPL foi um dos criadores originais do MBL. Uma das lideranças atuais do MBL, Kim Kataguiri, também é membro do EPL. Uma longa reportagem sobre a relação entre EPL e MBL foi publicada na Gazeta do Povo em 22 de junho de 2017. Vide aqui:
A mão dos Estados Unidos claramente aparece no caso do EPL pois este está ligado a um dos maiores conglomerados industriais do mundo, a Koch Industries (grande indústria do petróleo), cujos donos, os famosos irmãos Koch, são grandes apoiadores do liberalismo econômico, pertencentes ao Partido Republicano dos EUA e defensores de uma espécie de “evangelização” mundial anti-esquerda. Nesse caso, o Students for Liberty foi fundado na chamada Koch Summer Fellows em 2007 com o objetivo de inserir o ideário de direita dentro de escolas e universidades dos EUA e outros países. As diversas ações e lobbies das fundações ligadas aos irmãos Koch são um capítulo a parte, que incluem agressão ao meio ambiente e processos judiciais nas áreas trabalhista e de direitos civis.
Sistematicamente o MBL tem negado que recebe apoio direto das indústrias Koch ou dos institutos relacionados aos Koch. De qualquer forma, o MBL e o EPL são crias diretas do Students for Liberty, originado na Koch Summer Fellows. Além disso, o Students for Liberty é um membro associado do State Policy Network, uma rede de ações da direita dos EUA, esta sim declaradamente vinculada a institutos Koch e com financiamento destes. Vide aqui, por exemplo, com informações da Source Watch:
Site oficial da Koch Industries:
Sites oficiais da Charles Koch Foundation e do Charles Koch Institute:
Documento no 12: Patrick Duddy, a Rede Globo, Pedro Parente e o Mercado Financeiro
Telegrama para uso oficial do Consulado-Geral dos EUA em São Paulo vazado pelo WikiLeaks:
Patrick Dennis Duddy foi Cônsul-Geral dos EUA em São Paulo e Chargé d’Affaires na Embaixada dos EUA em Brasília até 2007. A partir de agosto daquele ano ele assumiu a Embaixada dos EUA na Venezuela e foi expulso por Hugo Chavez em setembro de 2008, acusado de promover conspiração e espionagem. O currículo de Duddy apresentado pela WACC Global Energy descreve-o como especialista na área de energia e petróleo, tendo servido em São Paulo não só como Cônsul-Geral, mas também como componente sênior da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Neste documento de outubro de 2016 ele é anunciado como palestrante do tema “Petróleo, Populismo e América Latina”:

No telegrama citado logo acima, datado de 23 de maio de 2005, de conteúdo sensível, Duddy descreve a visita do Embaixador dos EUA no Brasil (provavelmente John Danilovich) ao estado do Rio Grande do Sul. O telegrama tem marcadores como “Economia”, “Energia”, “Investimentos Externos”.
Um trecho do telegrama que chama a atenção é quando Duddy descreve a visita da delegação à RBS (Globo Rio Grande do Sul), citando o vice-presidente da RBS da época, Pedro Parente, e a própria RBS como grandes aliados. Leia abaixo o trecho em questão, que tem uma nota de destaque:
“O Embaixador almoçou com o conselho editorial do grupo de mídia RBS, o maior grupo regional de mídia da América Latina, que opera nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. (…) Pedro Parente, que foi Chefe de Gabinete do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), é o Vice-Presidente Executivo da RBS. (Nota: Tradicionalmente nós temos excelente acesso e excelentes relações com o grupo. Fim da Nota.)”
Pedro Pullen Parente, citado no telegrama acima, é um nome chave para se entender o Golpe de 2016. Mais conhecido como “ministro do apagão”, desempenhou diversas funções no Brasil, no Poder Executivo. Ministro Chefe da Casa Civil do governo FHC (1999-2002) e Ministro Interino de Minas e Energias daquele mesmo governo (2002). Nesta última função foi quando ocorreu o tal “apagão”, uma pane no sistema elétrico brasileiro por falhas de planejamento no contingenciamento por termoelétricas.
Em sua história profissional, Parente também demonstrou e demonstra uma grande veia para os cargos empresariais. Após sua saída do governo FHC, de fevereiro de 2003 até dezembro de 2009, ele exerceu a função citada por Duddy, a de Vice-Presidente Executivo do Grupo RBS, afiliada da Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. De Janeiro de 2010 até abril de 2014 Parente foi CEO e Presidente da multinacional Bunge Brasil, uma das principais empresas do agronegócio no país. Mas não para por aí. Após sua saída da Bunge, ele fundou uma empresa de gestão de fortunas, o grupo PRADA de empresas de gestão financeira e consultoria empresarial, onde é sócio executivo. Além disso, é Presidente (Chairman) dos Conselhos de Administração da BMF&Bovespa, do Grupo ABC, da SBR-Global, e do Arlon Latin America Private Equity Fund, além de assumir assento no Conselho da RBS em 2016. Sem falar que nos 1990 foi consultor do FMI. E desde 2016, além das funções acima expostas, Parente é o presidente da Petrobras, nomeado por Michel Temer.
Fica claro, pelo acima exposto, que Pedro Parente é mão forte na Globo, pois foi vice-presidente de uma afiliada importante; mão forte no Mercado Financeiro, pois é executivo de diversos grupos ligados ao setor, mas principalmente do Conselho de Administração da Bovespa; e, obviamente, mão forte na Petrobras. Além de contar, da nota expressiva do então Cônsul em SP, Patrick Duddy, com total apoio dos Estados Unidos.
O grupo Globo, da família Marinho, detém a Rede Globo e a Rádio Globo, além de muitos outros empreendimentos que mostram uma clara tez monopolista na área das comunicações televisivas abertas ou a cabo. O ponto de partida da empresa foi o jornal “A Noite”, em 1911 e “O Globo”, em 1925, ambos fundados pelo patriarca Irineu Marinho. O filho, Roberto Marinho, transformou o jornal no grande grupo que é hoje: o maior conglomerado de mídia e comunicação da América Latina e um dos maiores do mundo. Roberto Marinho obteve concessão para a transmissão televisiva, inaugurando a Rede Globo em 26 de abril de 1965, um ano após o golpe militar.
A Rede Globo, desde o princípio, tem forte laço com empresas dos Estados Unidos. Para citar o exemplo mais simples, a estrutura técnica para a sua primeira transmissão em 1965 foi totalmente construída pelo grupo americano Time-Life, que possuía participação nos lucros e dava consultoria à Globo por meio do executivo Joe Wallach. Na época, isso gerou polêmica e até uma CPI. O próprio ex-diretor da Globo, José Bonifácio Sobrinho (o “Boni”), em 2010 deu uma entrevista à revista Imprensa dizendo que o acordo “Globo Time-Life” era completamente ilegal. Leia a entrevista aqui:
Por outro lado, historicamente a Rede Globo se expandiu em todo o território nacional graças à captação de várias afiliadas. Uma delas pertence ao poderoso grupo RBS, do Rio Grande do Sul. O grupo, da família Sirotsky, por si só, já é um dos maiores grupos de comunicação do Brasil e a maior afiliada da Globo em solo nacional. Em 2015, a Globo e a RBS foram envolvidas em duas grandes operações da Polícia Federal: a Operação Zelotes e a Operação Pavlova. Ambas as investigações, ao contrário do que ocorre com a Lava-Jato, estão sob sigilo. No entanto, documentos da Polícia Federal vazados em outubro de 2015, divulgados pelo jornalista gaúcho Juremir Machado, apontam crimes financeiros e de formação de quadrilha praticados pela Globo/RBS. Vide aqui:
A sinergia entre Parente e o grupo Globo é perfeita. Principalmente no que concerne ao desmonte da Petrobras. Por exemplo, em 19 de abril de 2018, a Federação Única dos Petroleiros soltou a seguinte notícia (vide aqui: http://www.fup.org.br/ultimas-noticias/direto-dos-sindicatos/item/22546-canalhas-pedro-parente-anunciam-venda-da-refap-e-transpetro):
“(…) Pedro Parente anunciou na manhã dessa quinta-feira (19) que irá vender 60% da Refap, e também das refinarias Presidente Getúlio Vargas (Repar), Abreu e Lima (RNEST) e Landulpho Alves (Rlam). O modelo de venda inclui os chamados ativos logísticos (dutos e terminais) administrados pela Transpetro, ou seja, no RS, inclui a venda do Terig, Tedut e Tenit. Apesar da modelagem ainda não ter sido aprovada pela direção da empresa, esta venda reduzirá fortemente a presença da Petrobrás no setor de refino.”
O grupo Rede Globo atualmente funciona como uma espécie de escudo de Parente. Primeiramente, em 2015, a Globo trabalhou incessantemente para destruir a imagem da Petrobras frente a opinião pública. Para depois erguer a imagem de Parente como baluarte da salvação da empresa. Por exemplo, no mesmo mês em que o pedido de impeachment de Dilma Rousseff foi aceito por Eduardo Cunha na Câmara Federal, o editorial de “O Globo” tinha o seguinte título: “O pré-sal pode ser patrimônio inútil” (publicado em 20/12/2015). Vide o texto completo aqui:
O editorial é praticamente uma ode ao entreguismo, uma lamentação ao fato de a Petrobras controlar 30% do pré-sal. E repete a mesma ladainha, falsa, de que a empresa estava, à época, com as finanças em frangalhos por causa da corrupção. [Na realidade, o grande prejuízo da Petrobras, em 2015, ocorreu, como muito bem analisa Luis Nassif no artigo https://jornalggn.com.br/noticia/a-petrobras-a-greve-dos-caminhoneiros-e-o-caso-pedro-parente-por-luis-nassif, por motivos como reavaliação do balanço, em função da redução dos preços dos derivados.]
Um trecho chave do editorial mencionado de “O Globo” pode ser aqui reproduzido:
“Agora, na atual conjuntura, não há mais interesse no pré-sal brasileiro. Nem a Petrobras tem como tocar a exploração como estabelece a legislação estatista, com 30% obrigatórios de todos os consórcios e monopólio da operação. Se já seria difícil antes do petrolão, hoje, com as finanças da estatal arruinadas pela corrupção, é impossível.”
Esse editorial pessimista escrito na era Dilma é bem diferente de um outro editorial de “O Globo” escrito em 09/07/2017. Agora, na era Temer, Pedro Parente assume a empresa e se encarrega de pulverizá-la e lançá-la ao sabor dos interesses estrangeiros, especialmente dos Estados Unidos. O editorial referido, intitulado “O avanço da Petrobras na recuperação”, canta aos quatro ventos as qualidades do “clarividente” General Geisel, que não se intimidou de se abrir a grupos privados multinacionais do petróleo, e pinta, como sempre, o PT como o vilão que não deveria ter existido. Eis abaixo um trecho que resume a ópera bufa:
“Um dos incontáveis nacionalistas que passaram pela empresa, Geisel teve, porém, a clarividência de permitir, já no Planalto, que a empresa assinasse contratos de risco com grupos privados multinacionais (…). Isso foi essencial para a empresa firma-se [sic] como símbolo de eficiência e geradora de tecnologia. (…) Já no ciclo lulopetista, foi à ruína devido aos delírios estatistas e à corrupção. (…) Com as mudanças feitas na administração de Pedro Parente, depois da saída de Dilma Rousseff do Planalto, a empresa entrou em um ciclo de forte recuperação. (…) Por esta nova política, crescem as importações de combustíveis por terceiros, numa concorrência benéfica para a Petrobras, interessada em vender pelo menos parte da BR Distribuidora, outra medida saudável.”
Leia todo o editorial aqui:
A evolução dos conteúdos dos editoriais mostram que a mão mágica de Pedro Parente fez os Marinho se transformarem de achacadores das políticas de soberania a defensores do atual cinismo entreguista.
A Rede Globo teve um papel fundamental nas tentativas de privatização da Petrobras durante o governo FHC. Na época, a frase do ministro Sérgio Motta retumbava aos quatro ventos na programação global: “[a Petrobras é] como um paquiderme que consumia US$ 9 bilhões em importações, prejudicando a balança comercial e a sociedade brasileira". Para Motta, o então diretor da ANP, David Zylbersztajn, tinha o dever de desmontar ‘osso por osso” a estatal. Nessa época a Globo costumava chamar os petroleiros de “marajás” e já armava o circo de sucateamento midiático da estatal.
Um dos pontos principais que unem Duddy, Globo e Parente é que as novas políticas desenvolvidas por Pedro Parente na Petrobras beneficiaram sobremaneira os Estados Unidos. Principalmente por elevar a dependência do Brasil à importação de diesel americano (de 41% em 2015 para 80% em 2017 de toda importação de diesel). A Associação de Engenheiros da Petrobras (AEPET) atribui a isso um dos principais motivos para a elevação de preços do diesel e a decorrente paralisação de caminhoneiros no mês de maio de 2018. Vide a nota da AEPET aqui:
Vide também o importante artigo de Luis Nassif analisando a política de Parente sobre o preço dos combustíveis:
Documento no 13: Aloysio Nunes vai a Washington
Email do Diretório Nacional do Partido Democrata dos EUA vazado pelo WikiLeaks:
Uma das cenas mais surpreendentes ocorridas no processo de impeachment de Dilma Rousseff foi a ida do Senador Aloysio Nunes (PSDB) a Washington um dia depois da aprovação pelo Congresso do prosseguimento do processo de impeachment  em 17 de abril de 2016. À época na oposição, Nunes atuou como um dos mais acirrados defensores do impeachment. Atualmente, no governo Michel Temer, ele é o Ministro das Relações Exteriores desde março de 2017.
Essa inusitada visita de Nunes a Washington foi amplamente discutida em artigo de Glenn Greenwald, Andrew Fishman e David Miranda para o Intercept (publicado em 18 de abril de 2016):
Um trecho importante do artigo acima:
“O Senador Nunes vai se reunir com o presidente e um membro do Comitê de Relações Internacionais do Senado, Bob Corker (republicano, do estado do Tennessee) e Ben Cardin (democrata, do estado de Maryland), e com o Subsecretário de Estado e ex-Embaixador no Brasil, Thomas Shannon, além de comparecer a um almoço promovido pela empresa lobista de Washington, Albright Stonebridge Group, comandada pela ex-Secretária de Estado de Clinton, Madeleine Albright e pelo ex-Secretário de Comércio de Bush e ex-diretor-executivo da empresa Kellogg, Carlos Gutierrez. (…) A viagem de Nunes a Washington foi divulgada como ordem do próprio Temer. (…) Temer está furioso com o que ele considera uma mudança radical e altamente desfavorável na narrativa internacional, que tem retratado o impeachment como uma tentativa ilegal e anti-democrática da oposição, liderada por ele, para ganhar o poder de forma ilegítima. O pretenso presidente enviou Nunes para Washington, segundo a Folha, para lançar uma ‘contraofensiva de relações públicas” e combater o aumento do sentimento anti-impeachment ao redor do mundo, o qual Temer afirma estar “desmoraliz[ando] as instituições brasileiras’.”
Na verdade, a viagem e seu cronograma foram publicizados no próprio site do PSDB:
Mas incrivelmente o assunto também surge em email confidencial do Diretório do Partido Democrata dos EUA (DNC) datado de 20 de abril daquele ano. O assunto fulcral do email é uma análise das atividades do Senador do partido concorrente (Republicano), Robert (“Bob”) Corker. Desde 2015, Bob Corker atua como Presidente do Comitê do Senado dos EUA para Assuntos Exteriores. Eis o trecho de interesse do email citado:
“Há rumores de que Bob Corker se encontrou com o líder da oposição brasileira de centro-direita no que diz respeito ao impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff. (…) O Sen. Aloysio Nunes, do partido de centro-direita do PSDB, está se reunindo com o presidente e membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado, o republicano Bob Corker do Tennessee, e outros para discutir a situação no Brasil.”
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Após a descoberta das gigantescas reservas de petróleo na camada pré-sal, durante o governo Lula, o Brasil e seu potencial energético se transformaram em assunto altamente citado em telegramas ou emails de agentes importantes do governo norte-americano. Após isso, ocorreram alguns golpes de estado na América Latina, escutas do serviço secreto americano são reveladas, a Operação Lava-Jato entra em vigor e movimentos de rua começam a desacreditar o governo Dilma. O golpe é estimulado diariamente pela grande mídia e finalmente Dilma é levada por Eduardo Cunha ao patíbulo político. A elite brasileira acha tudo muito natural. Assumem o poder aqueles que documentalmente já foram informantes dos Estados Unidos, alinhando-se fortemente às políticas desejadas por aquele país, majoritariamente à vontade do Mercado Financeiro e ao chamado “Deep State”, que é o Estado Profundo dos EUA, cujas cartas são dadas por organizações como a Koch Industries, como os banqueiros Rockfellers, entre outros.
Os três artigos escritos sobre o tema indicam algumas possíveis conclusões sobre a relação PRÉ-SAL/EUA/GOLPE. Uma delas é a de que a Operação Lava Jato desempenhou papel fundamental na desvalorização da imagem da Petrobras. Criou a falsa identidade entre corrupção na empresa e funcionamento da empresa. O juiz Sérgio Moro, pequena cria do Departamento de Estado dos EUA, é o agente catalisador desta reação química meticulosamente planejada. A Petrobras perde ativos não porque deixou de produzir, mas porque foi pintada como besta-fera a ser domada, defenestrada e vendida. A grande mídia desconstrói a imagem do partido que incentivou o pré-sal e a soberania (o PT) como destruidor da empresa; e ao mesmo tempo, também pinta o entreguista Pedro Parente como salvador da pátria.
O pré-sal é figura central em telegramas confidenciais enviados ao Departamento de Estado ou à CIA, em que grandes empresas como a Chevron e a Exxon discutem o tema com políticos brasileiros que assumiram o poder junto com Michel Temer. O pré-sal também aparece como tema recorrente em milhares de emails da empresa de inteligência norte-americana Stratfor. Dilma Rousseff, e no mesmo período Petrobras, são alvos de escuta da maior agência de inteligência dos EUA, a NSA.
A partir de 2016, o governo brasileiro foi tomado de assalto e a olhos vistos vê-se o triunvirato MÍDIA/JUDICIÁRIO/MERCADO dando as cartas como nunca antes. A máquina de alimentar uma elite de valores pobres, atrasados, coloniais funciona a todo vapor. Máquina que funciona sob o aval, inteligência e bênção de nosso senhor, o grande irmão do norte, o Tio Sam.
Carlos H. Coimbra-Araújo é professor e pesquisador da Universidade Federal do Paraná na área de física e aproveitamento de energia. Autor, entre outros, de “Energy-Environmental Implications Of Shale Gas Exploration In Paraná Hydrological Basin, Brazil” (Renewable and Sustainable Energy Reviews), publicado pela Editora Elsevie

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Xadrez da teoria conspiratória, para Sergio Fausto e Celso Rocha Barros

Xadrez da teoria conspiratória, para Sergio Fausto e Celso Rocha Barros

Apesar de não parecer, ao contrário do lobisomem e do bicho-papão
  • a CIA existe e atua não apenas no cinema, mas no mundo real;
  • a geopolítica norte-americana não é uma história em quadrinhos de Will Eisner;
  • o interesse norte-americano pelo petróleo remonta os anos 40, quando a Esso e irmãs tentaram impedir a construção de refinarias nacionais.
O Brasil percebeu que o monopólio da exploração do petróleo pela Petrobras não vai gerar novos campos. Em cerca de um ano eles vão alterar a legislação em vigor de forma a permitir que os EUA e a Europa ocidental participem, pois só eles têm a tecnologia necessária. Essa é uma ruptura com um duradouro mito nacionalista e levará um ano para que jovens oficiais e outros sejam educados a fim de aceitar a necessidade fundamental de permitir a participação estrangeira na prospecção de petróleo. Este é um passo muito expressivo.
Algum tempo depois Geisel aprovou os contratos de risco ao capital externo.
Mas não é a CIA de 1974 o tema dessa coluna, mas o DHS (Departamento de Segurança Interna) de 2018.
Admito que às vezes sou meio implicante. E uma de minhas implicâncias é com os sabidos, que acham que tudo aquilo que eles não conhecem, não existe. Refiro-me a dois intelectuais que respeito - Sérgio Fausto e Celso Rocha Barros -, ambos ironizando as versões sobre a influência da CIA na Lava Jato, jogando-as na vala das teorias conspiratórias.
Apesar de não parecer, ao contrário do lobisomem e do bicho-papão
  • a CIA existe e atua não apenas no cinema, mas no mundo real;
  • a geopolítica norte-americana não é uma história em quadrinhos de Will Eisner;
  • o interesse norte-americano pelo petróleo remonta os anos 40, quando a Esso e irmãs tentaram impedir a construção de refinarias nacionais.
Mas, a exemplo de muitos economistas, nossos bravos cientistas sociais só acreditarão que a CIA conspira quando, daqui a algumas décadas, aparecerem as revelações em forma de livro ou de novos papéis do Pentágono mostrando as conspirações da CIA.  Eles são vítimas de um tipo especial de crendice: a superstição do ceticismo, que reza que tudo aquilo que não conheço, não existe.
Vamos aos fatos.
Por CIA, entenda-se todo o aparato de espionagem norte-americana, incluindo o NSA e o mais relevante dos departamentos, o DHS.

Peça 1 – o controle das informações pelos EUA

  • Fato. Nos anos 2.000, os EUA montaram a NSA, para espionagem eletrônica, e o DHS, para coordenar todos os departamentos envolvidos na luta contra o terrorismo.
  • Fato. A NSA espionou a presidente Dilma Roussef e a Petrobrás.
  • Fato: a partir dos atentados às torres Gêmeas, houve a montagem de um sistema de cooperação internacional entre Ministérios Públicos e Polícias Federais de diversos países. O DHS sempre foi o parceiro mais aparelhado, o que mais dispõe de informações.
  • Fato: a luta contra o terrorismo e as organizações criminosas evoluiu para a luta contra a corrupção. Os EUA conseguiram aprovar, no âmbito da OCDE, uma legislação específica que traz para a jurisdição norte-americana qualquer crime que, em algum momento, passe pelo dólar.
  • Fato: a invasão de um hotel na Suíça por policiais do FBI, levando prisioneiros para serem julgados em Nova York, alguns dos quais, dirigentes brasileiros de futebol. Ou seja, brasileiros, detidos na Suiça e julgados nos EUA.

Peça 2 – os EUA como xerifes do mundo

Com a cooperação internacional e com a legislação anticorrupção, aprovada no âmbito da OCDE, os EUA se tornam os xerifes do mundo.
Criou-se uma situação que colocou nas mãos do Departamento de Justiça a seleção dos temas de corrupção a serem investigados. Porque ele detem a informação.
Sugiro aos bravos cientistas políticos uma leitura caprichada do ensaísta francês Hervé Juvin, sob o título sugestivo: “Da luta anticorrupção ao capitalismo do caos, oito temas sobre uma revolução do direito”, sobre a discussão do uso geopolítico que os EUA fazem da cooperação internacional. Ele explica, bem depois de termos pioneiramente levantado o tema aqui no GGN como alguns bancos franceses, como o BNP, deixaram de ocupar a liderança mundial – após a crise do sistema financeiro norte-americano em 2008 – com receio do poder de retaliação dos EUA, escudado na tal Lei Anticorrupção aprovada no âmbito da OCDE. Segundo suas estimativas, para as empresas europeias, significou um custo direto entre 40 e 50 bilhões de euros e custo indireto de mais de 200 bilhões de euros.

Peça 3 – os dois temas, futebol e petróleo

Os nossos bravos analistas políticos são convidados a assistir a entrevista dada ao GGN por Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, para entender o papel das sucessivas “primaveras” na definição da nova ordem mundial, escudada no partido do Ministério Público e do Judiciário dos diversos países.
Jamil tem contato direto com o FBI a partir das denúncias que levantou sobre a FIFA.
Diz ele que, a partir das manifestações de 2013, fontes do FBI comentaram com ele que o Brasil já estava pronto para enfrentar seus grandes escândalos.
Dois emergiram de imediato, de interesse direto dos EUA: o petróleo e o futebol.
O petróleo, por razões óbvias de negócios e segurança interna. O futebol, por interesse direto dos grupos de mídia norte-americanos. Tenho um livro à espera de uma editora, no qual historio bem a questão da mídia na expansão do capitalismo norte-americano. Enquanto não sai, aqui vai um pequeno resumo.
No pós-guerra, a expansão dos EUA teve como ponta de lança suas multinacionais. O único território protegido, ao sul do Equador, era a mídia. Primeiro, porque rádio e TV aberta dependiam de concessões públicas – mercado dominado politicamente pela mídia nativa. Depois, pelas próprias legislações nacionais, impedindo a entrada de capital estrangeiro.
A TV a cabo e a Internet romperam com essa blindagem. Mas os grupos externos esbarravam em um problema de pulverização da audiência. Como explica o próprio Jamil, na Inglaterra os programas de maior audiência não passam de 5 pontos. Quando entra futebol, consegue-se até 15 pontos de audiência.
A força das mídias nativas, portanto, residia na audiência proporcionada pelo futebol. O monopólio das transmissões esportivas pela Globo é a prova maior da importância do esporte na audiência.
O modelo de corrupção da FIFA surgiu desse know how brasileiro, desenvolvido pela Globo e por João Havelange e exportado para o mundo.
Desde a delação premiada de J. Hawila, a Globo está na mira da Justiça norte-americana. No âmbito da cooperação internacional, o FBI conseguiu apoio de Ministérios Públicos de quase todos os países, menos do brasileiro. E as raízes dessa blindagem estão no pacto tácito entre Globo e MP, no transcorrer das manifestações de 2013, em torno da PEC 37.
Dias antes das denúncias da JBS, aliás, o Ministério Público Espanhol divulgou denúncias contra a rede Globo. Nossos cientistas poderiam se indagar qual a razão de um escândalo brasileiro, cometido por uma empresa brasileira, a Globo, em um evento esportivo brasileiro, a Copa Brasil, com autoridades brasileiras, Ricardo Teixeira, Del Nero etc. foi apurado pelo MP espanhol. E sumiu do noticiário e das atividades do Ministério Público brasileiro.
Uma denúncia da Justiça norte-americana fecharia os acordos internacionais da Globo, seu acesso ao mercado financeiro internacional.
Por necessidade ou convicção, o fato é que a Globo foi peça chave em um golpe que escancarou o petróleo ao capital externo, e, ao mesmo tempo, conseguiu se blindar junto ao MPF brasileiro. Se os doutos analistas tiverem uma narrativa melhor para explicar esses fatos, o GGN está à sua disposição.

Peça 4 – como foi montada a Lava Jato

Entendidos esses fatos, vamos à Lava Jato.
Com o controle das informações, e com o novo aparato legal da Lei Anticorrupção, o Departamento de Justiça viu-se, assim, na condição de definir o tema a ser investigado, bastando, para tanto, selecionar o tema e as provas a serem enviadas aos diversos parceiros. Os alvos poderiam ter sido bancos de investimento, fundos de investimento, multinacionais fornecedores de equipamentos. No entanto, concentrou-se na Petrobras e nos principais concorrentes de empresas norte-americanas na África e na América Latina: as empreiteiras.
A respeito disso, assistam a palestra do funcionário do Departamento de Justiça, Kenneth Blanco, em evento do Atlantic Council – grupo de lobby nos EUA, especializado em atuar junto à máquina pública e que tem, como um de seus conselheiros, o ex-PGR Rodrigo Janot, que participou do evento em questão.
No seu pronunciamento, Blanco esmiúça a intimidade que mantém com outros PGRs da América Latina. E mostra a estratégia de cooperação com a Lava Jato, que consistia em alimentar juiz e procuradores informalmente (atenção, sabichões: entendem o significado desse “informalmente”, de não passar pela supervisão de nenhum órgão de Estado, Itamaraty ou Ministério da Justiça?) para instruir as denúncias. Aqui, uma explicação didática de como a luta contra a corrupção tornou os EUA xerifes do mundo.
  • Fato - O DHS trabalhou com o juiz Sérgio Moro, procuradores e delegados de Curitiba no caso Banestado, tendo, inclusive, identificado remessas de José Serra para o exterior. Entenda aqui como Serra percebeu esse jogo muito antes do Instituto Fernando Henrique Cardoso, dirigido por seu aliado Sérgio Fausto
  • Fato. O Departamento de Justiça alimentou Moro e procuradores informalmente com informações, visando instruir o processo da Lava Jato, como explicou o próprio Kenneth Blanco no vídeo indicado acima.
  • Fato. Enquanto PGR, Rodrigo Janot foi a Washington, chefiando uma missão da Lava Jato, encontrou-se com a advogada Leslie Caldwell, procuradora-adjunta encarregada da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos e até dois anos antes, sócia do escritório Morgan Lewis de Nova York, o maior escritório a atuar junto ao setor Eletronuclear norte-americano. Um mês depois, estourou o escândalo da Eletronuclear, graças aos documentos que Janot recebeu de Leslie Caldwell.

Peça 5 – a título de conclusão

Esses são os fatos e as deduções.
Em cima deles podem ser construídas outras narrativas. Como, por exemplo, a de que a DHS e a CIA aplicam a lei anticorrupção apenas porque o protestantismo tornou os EUA um país virtuoso. Ou que as sucessivas confraternizações entre grupos de lobby norte-americanos, Sergio Moro, procuradores da Lava Jato, João Dória, Pedro Parente, simbolizam apenas a vitória da fé e da virtude de um grupo de brasileiros ilibados, contra o caráter fraco e predatório de sociedades intrinsicamente corruptas como a nossa.
Mas, aí, nossos cientistas teriam que abrir mão de qualquer veleidade analítica, e se igualar a Luís Roberto Barroso, Sérgio Moro e Deltan Dallagnoll, os atores e intérpretes de um país à beira do caos.
PS – Quando menciono o respeito que tenho por ambos, Sérgio Fausto e Celso Rocha Barros, não recorri à retórica da ironia. É respeito genuíno, sim.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Os sindicatos perdem força, enquanto os movimentos de trabalhadores ganham força


Nationwide, the battle for worker rights and protections is often being waged by non-traditional organizations that can do what formal unions can't.
In November of 2012, 200 workers in New York City walked off their fast-food restaurant jobs to participate in a one-day strike protesting the low pay and poor working conditions endemic to the fast food industry. It was, according to the New York Times, “the biggest wave of job actions in the history of America’s fast-food industry.”
It also marked the first concrete action taken by the Fight for $15 movement, which has since won (or played a decisive role in) a series of prominent victories, even as traditional unions in the private sector continue to bleed members and as the GOP romped to electoral victory in 2016. The Fight for $15 movement isn’t a traditional union (although it’s supported by one); participants in its campaigns don’t pay dues, and it doesn’t negotiate contracts on behalf of those participants. Instead, it’s the most visible example of an “alt-labor” group, a broad label that applies to a host of organizations that aren’t traditional unions but that nonetheless aim to improve workers’ lives. As membership in traditional unions has fallen, these groups have grown dramatically in both number and influence, seeking to fill in the gaps left.
Janice Fine, a professor at Rutgers University and the research and strategy director at the Center for Innovation in Worker Organization, has been studying these groups, particularly workers’ centers, since 1992, and she recently gave us a primer on the alt-labor movement. Our conversation has been edited and condensed.
Let’s start with the basics. When people talk about alt-labor groups, what kinds of groups are they referring to?
They’re talking about organizing groups that don’t do collective bargaining, so they’re a little bit different from the way people generally think about labor unions that enter into negotiations with employers, that have a contract with employers that gets re-opened every few years and negotiated, that have a standardized way of operating, a standard structure of local organization, and members who pay dues and then are represented at their workplace.
They’re talking about worker centers—which are community-based worker organizations that are led by workers that do a combination of service, advocacy, and organizing. Or we’re talking about unions that don’t have traditional collective bargaining structures but work in a slightly different way. So, for example, Fight for $15 is’t a union but was and is heavily financially supported and backed by the Service Employees International Union. And then you also have the community organizations that are very committed to economic justice—those also fall under the rubric of alt-labor. Another kind of alt-labor organization would be OUR Walmart. Or the National Domestic Workers Alliance, or the National Guestworkers Alliance, or the National Day Labor Organizing Network. Those are the national federations that have local chapters.
In some ways, these groups have some advantages over traditional labor unions, right?
A key thing here is that traditional unions are prohibited by the National Labor Relations Act from doing secondary boycotts, but alt-labor organizations are not prevented from engaging in them. And we’re currently in a moment when a lot of the power or control lies with employers that are higher up the supply chain.
This becomes really important. For example, if the Coalition of Immokalee Workers had been a union, they wouldn’t have been able to go after Taco Bell, they would have had to stick to only doing boycotts and pickets and actions at the level of the grower. But the growers were saying “We don’t have the power, we don’t have the money to increase pay for farm workers because we don’t get enough money from the brands who are buying our tomatoes.” The Coalition of Immokalee Workers was able to go up the chain, to the companies that really mattered.
Another example would be if you look at the janitorial sector. There are these small subcontractors that often are actually doing the cleaning but they’re contracting with building services companies and building owners. Or if you look at the garment industry: The people who are sewing the clothes are working for small subcontractors; those subcontractors are being contracted by manufacturers; the manufacturers are being contracted by retailers; and the retailers are signing deals with the largest chains. There are so many examples where—particularly now with the gig economy and the rise of subcontracting—the employer of record is connected to a much larger operation. And so if you are only able to engage in tactics that target your immediate employer, there’s a huge disconnect in the 21st century between where the power is and where the law forces an organization to remain.
Since these groups can’t do collective bargaining and they can’t organize strikes, at least not in the traditional sense, what do their tactics look like?
In terms of tactics, there are all kinds of things that workers can do—say, picketing a restaurant where workers haven’t been paid the wages that they’re due. And then a lot of these organizations have really focused on changing local policy and passing policies at the state and local level that raise standards in sections of the labor market that have been really hard to get to through direct pressure on employers. The Retail Action Project in New York led the way on new policies around fair scheduling, or the Chinese Progressive Association of San Francisco led the way on raising the minimum wage, or the Restaurant Opportunity Center is fighting to get rid of the tipped minimum wage, or the National Domestic Workers Alliance and its affiliates pioneered the Domestic Workers Bill of Rights, which has now passed in eight states.
It’s interesting now, though, to see how many of these groups are essentially pushing for industry-wide policies—minimum wage, fair scheduling, etc.
It’s true, although the thing to remember is that many of these are just setting minimums in labor markets. And so, often when workers are covered by union contracts, the standards are much higher than the minimum. So, yes, the idea is that what people are no longer able to set through collective bargaining, they’re at least attempting to set a floor because part of what’s happened is there's been this deterioration of wages and conditions and the main way that those were addressed was through unionization.
Do you have any thoughts on the future of these kinds of groups? On the one hand, traditional unions are obviously still under fire, and these alt-labor groups face challenges, especially with respect to stable funding streams. But you’re also seeing growing concern about the rights of workers, and you’re seeing a lot of energetic support at the state and local level for many of these worker-friendly policies. Do you think these alt-labor groups will continue to notch up wins?
I think that these organizations have succeeded during a period when so many have failed.
There’s a lot of innovation going on in this area. For example, OUR Walmart. Walmart is this gigantic entity and it was very difficult to figure out how to organize a union at Walmart, but Walmart workers were facing low wages, poor treatment, and poor conditions. And OUR Walmart, over many years, pushed Walmart to make all kinds of changes to increase protections, to raise the base wage twice, and to now look at various kinds of paid family leave. It is an alt-labor organization that has pushed Walmart to some pretty important responses that I think most people didn’t think would be possible.
I think that there’s great promise in these organizations. Thirty-three states and 16 cities and counties have adopted minimum wage laws higher than the federal level. Five states, 20 cities, and one county have enacted paid sick leave laws. Eight states have passed domestic workers bill of rights. One hundred cities and counties have banned the box. These are all very important developments in terms of worker rights. I expect that that kind of innovation will continue to make differences and produce breakthroughs.
This story originally appeared on Pacific Standard, an editorial partner site. Subscribe to the magazine in print and follow Pacific Standard on Twitter to support journalism in the public interest.