quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Adorno: A psicanálise da adesão ao fascismo

Do blog da Boitempo
Por Theodor W. Adorno
 
 
Durante a última década, a natureza e o conteúdo dos discursos e panfletos de agitadores fascistas americanos foram submetidos à pesquisa intensiva de cientistas sociais. Alguns desses estudos, realizados segundo as linhas da análise de conteúdo, resultaram numa exposição abrangente [que se encontra] no livro Prophets of deceit, de L. Löwenthal e N. Guterman1. A imagem global obtida é caracterizada por dois traços principais. Em primeiro lugar, com a exceção de algumas recomendações bizarras e completamente negativas – confinar estrangeiros em campos de concentração ou expatriar sionistas –, o material de propaganda fascista nesse país preocupa-se pouco com questões políticas concretas e tangíveis. A maioria esmagadora das declarações dos agitadores é dirigida ad hominem. Elas são obviamente baseadas mais em cálculos psicológicos que na intenção de conseguir seguidores por meio da expressão racional de objetivos racionais. O termo “incitador da turba”, apesar de censurável por seu desprezo inerente pelas massas, é em boa medida adequado, já que expressa a atmosfera de agressividade emocional irracional propositadamente promovida por nossos pretensos hitleristas. Se é desrespeitoso chamar as pessoas de “turba”, é precisamente o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas em uma “turba”, isto é, uma multidão inclinada à ação violenta sem nenhum objetivo político sensato, e criar a atmosfera do pogrom. O propósito universal desses agitadores é instigar metodicamente o que, desde o famoso livro de Gustave Le Bon, é comumente conhecido como “psicologia das massas”.
 
Em segundo lugar, o método dos agitadores é verdadeiramente sistemático e segue um padrão rigidamente estabelecido de “dispositivos” definidos. Isso não se liga apenas à unidade fundamental do propósito político – a abolição da democracia mediante o apoio de massa contra o princípio democrático –, mas mais ainda à natureza intrínseca do conteúdo e da apresentação da própria propaganda. A similaridade das expressões de vários agitadores – das figuras bem conhecidas, como Coughlin e Gerald Smith, aos pequenos disseminadores provincianos de ódio – é tão grande que basta em princípio analisar as declarações de um deles para conhecê-los todos2. Além disso, os próprios discursos são tão monótonos que, assim que se fica familiarizado com o número muito limitado de dispositivos em estoque, o que se encontra são intermináveis repetições. De fato, a reiteração constante e a escassez de idéias são ingredientes indispensáveis da técnica toda.
 
“Como seria impossível para o fascismo ganhar as massas por meio de argumentos racionais, sua propaganda deve necessariamente ser defletida do pensamento discursivo; deve ser orientada psicologicamente, e tem de mobilizar processos irracionais, inconscientes e regressivos.”
 
Na medida em que a rigidez mecânica do padrão é óbvia e ela mesma expressão de certos aspectos psicológicos da mentalidade fascista, não se pode evitar o sentimento de que o material de propaganda de tipo fascista forma uma unidade estrutural com uma concepção comum total, consciente ou inconsciente, que determina cada palavra que é dita. Essa unidade estrutural parece se referir à concepção política implícita tanto quanto à essência psicológica. Até agora, deu-se atenção científica apenas à natureza destacada e de certo modo isolada de cada dispositivo; as conotações psicanalíticas dos dispositivos foram sublinhadas e elaboradas. Agora com os elementos esclarecidos suficientemente, chegou a hora de centralizar a atenção no sistema psicológico em si – e pode não ser inteiramente acidental que o termo invoque a associação da paranóia –, o qual compreende e gera esses elementos. Isso parece ser o mais apropriado, caso contrário a interpretação psicanalítica dos dispositivos individuais permanecerá algo fortuita e arbitrária. Um tipo de quadro de referência teórica terá de ser desenvolvido. Na medida em que os dispositivos individuais pedem quase irresistivelmente uma interpretação psicanalítica, não é senão lógico postular que esse quadro de referência deveria consistir na aplicação de uma teoria psicanalítica mais abrangente e básica ao método global do agitador.
 
Tal quadro de referência foi fornecido pelo próprio Freud em seu livro Psicologia das massas e análise do eu, publicado em inglês já em 1922, muito antes que o perigo do fascismo alemão parecesse ser agudo3. Não é exagero dizer que Freud, apesar de pouco interessado na fase política do problema, claramente previu a origem e a natureza dos movimentos fascistas de massa em categorias puramente psicológicas. Se é verdade que o inconsciente do analista percebe o inconsciente do paciente, pode-se também presumir que suas intuições teóricas são capazes de antecipar tendências ainda latentes em um nível racional, mas se manifestando em um nível mais profundo. Pode não ter sido por acaso que, após a Primeira Guerra Mundial, Freud tenha voltado sua atenção para o narcisismo e os problemas do eu em sentido específico. Os mecanismos e conflitos instintuais envolvidos desempenham de forma evidente um papel cada vez mais importante na época atual, considerando que, de acordo com o testemunho de analistas praticantes, as neuroses “clássicas”, como a histeria de conversão, que serviram de modelos para o método, ocorrem menos freqüentemente agora que na época do próprio desenvolvimento de Freud, quando Charcot tratou clinicamente a histeria e Ibsen fez dela tema de algumas de suas peças. De acordo com Freud, o problema da psicologia de massa está bastante relacionado ao novo tipo de aflição psicológica tão característico da época que, por razões socioeconômicas, testemunha o declínio do indivíduo e sua subseqüente fraqueza. Embora Freud não se tenha preocupado com as mudanças sociais, pode-se dizer que ele revelou nos confins monadológicos do indivíduo os traços de sua crise profunda e a vontade de se submeter inquestionavelmente a poderosas instâncias (agencies) coletivas externas. Sem jamais ter se dedicado ao estudo dos desenvolvimentos sociais contemporâneos, Freud apontou tendências históricas por meio do desenvolvimento de seu próprio trabalho, da escolha de seus temas e da evolução dos conceitos-guia.
 
https://jornalggn.com.br/noticia/adorno-a-psicanalise-da-adesao-ao-fascismo

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Os livros na corda bamba da democracia brasileira


Por José Castilho Marques Neto.

No momento que escrevo este artigo a imprensa anuncia a invasão de cerca de 20 universidades públicas por vários órgãos policiais à mando da Justiça Eleitoral. O motivo seria a apreensão de faixas e materiais impressos denunciando a escalada autoritária, com tintas fascistas cada vez mais nítidas por parte do candidato de extrema-direita, cabendo nas apreensões até faixas que denunciam o assassinato de Marielle Franco. Pelas informações, boa parte dessas invasões foram realizadas com “mandato verbal”. Segundo a Folha de S.Paulo, a OAB-RJ considerou que “as recentes decisões da Justiça Eleitoral, com ações desencadeadas na UERJ e UFF, tentam censurar a liberdade de expressão de estudantes e professores das faculdades de Direito” e termina afirmando que “a manifestação livre, não alinhada a candidatos e partidos, não pode ser confundida com propaganda eleitoral”.
A notícia, espetacular em passado recente, já nos soa quase normal em um Brasil que assiste entre eufórico e perplexo a ascensão de valores que contrariam as visões tradicionalmente exaltadas de seu povo: cordial, alegre, não preconceituoso, tolerante com a diversidade, pacífico.
Em substituição ao brasileiro cordial hoje nos deparamos no cotidiano com o ódio de classe, de gênero, de raça, de religião, entre tantos outros que trazem a discriminação social, sexual e racial como pontas visíveis de um grande iceberg submerso na nossa sociedade adoecida pela ignorância, pelo iletramento, pelas muitas heranças perversas da escravidão. Tudo isso fermentado em um caldeirão cujo conteúdo revela discriminação, exclusão, violência, extermínio, fruto de pregação capitaneada por setores abastados e privilegiados da população.
No Brasil fomentado pelo ódio, a interlocução é escassa e vista com maus olhos. Ao invés do argumento, usa-se indiscriminadamente a força bruta e a mentira ou, para os mais refinados, a hipocrisia. Ao invés da razão, do raciocínio que leva ao entendimento, se extravasa a bílis do ressentimento que impossibilita o diálogo. Com sintomas evidentes de insanidade social, parte substantiva do Brasil parece ter abandonado a Política no seu sentido mais primário, aquela que trata das questões do bom convívio na pólis, nas cidades, onde vivem e convivem seres humanos.
O medo dos cidadãos que se enquadram nas categorias que se tornaram explicitamente indesejáveis e extirpáveis para o neofascismo crescente nas ruas, autorizados e legitimados pelo discurso de ódio e de violência travestido de política do presidenciável saudoso da ditadura, cresce diariamente. Negros, homossexuais, transgêneros, religiosos de crenças minoritárias, pessoas sem teto, indígenas, acrescentaram aos seus medos históricos a perspectiva macabra de serem atacados por bandos que simplesmente tem o desejo de os exterminar. No Brasil que quer voltar 50 anos atrás, como vociferou o líder desse descalabro em discurso recente, a exclusão ganha valor maior que a inclusão. Em nome de Deus, da família e da propriedade, baseados em conceitos tão retrógrados que até a líder da extrema direita francesa, Marie Le Pen, refutou, o extermínio de milhões de brasileiros foi moralmente autorizado.
Se esse cenário for legitimado pelas urnas no próximo domingo, o livro e sua complexa cadeia autoral, editorial, livreira e mediadora será fatalmente atingido. Por mais que parte do setor acredite que o discurso de ódio se dissolverá após o frenesi eleitoral, o peso das evidências da história do país e do mundo contesta essa hipótese ingênua que teima em desconhecer o que se passa nas ruas e como se construíram as práticas autoritárias nas muitas experiências aterradoras dos totalitarismos no século XX.
São cada vez mais frequentes as ameaças sofridas no cotidiano por editoras e livrarias que publicam ou expõem linhas editoriais de esquerda. Essa semana a editora Ivana Jinkings denunciou em rede social que a Boitempo recebeu, novamente, ameaças por telefone de uma pessoa que se identificou como Arnaldo, seguidor de Jair Bolsonaro. Tenho recebido relatos de livreiros que se sentem intimidados em expor títulos considerados “vermelhos” ou “imorais” nas suas vitrinas por medo de represálias.
É assim que o terror se espalha, censura, intimida, e faz calar a liberdade de edição e a bibliodiversidade que é a grande riqueza da indústria editorial.
Já vivemos recentemente essa história, afinal, os anos 1960 a 1980 não estão assim tão distantes. Como nos contam pesquisadores como Sandra Reimão e Flamarion Maués, que analisaram a ditadura de 1964 e sua relação com os livros, o terrorismo de extrema direita iniciado em 1968 que provocou, segundo Elio Gaspari, 17 atentados, 14 explosões e uma assalto a banco também visou editoras e livrarias. A Editora Tempo Brasileiro, a Civilização Brasileira e a Livraria Forense foram atingidas por vandalismos desses grupos extremistas. Intimidações físicas que continuaram até os estertores do regime, e disso sou testemunha ocular porque a Livraria Kairós, de minha propriedade e dos amigos Magali Nogueira e Moisés Limonad, e as livrarias Capitu e Livramento, foram atingidas por tiros na madrugada de 21 de abril de 1980.
Ações diretas de intimidação física sempre precederam a instalação da censura prévia aos livros, como a que viria a ser regulamentada pelo Decreto-lei 1.077 em 1970. É curioso verificar que existe uma absoluta identidade do Artigo 1º desse decreto com as falas atuais dos novos pretendentes a guardiães de nossas mentes e corpos: a defesa da moral e dos bons costumes estipulados por eles! É explícito o Artigo 1º: “Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação”.
Conforme mostram os pesquisadores, na prática, os mais de 400 livros proibidos eram censurados após denúncias e queixas de alguém que, ao ler o livro, o considerava atentatório à moral ou subversivo frente ao regime, o mesmo que está começando a ocorrer nos dias de hoje. Temerosas de apreensão posterior à edição, havia editoras que submetiam originais à apreciação da Polícia Federal, em processos de absoluta submissão passiva à ditadura. Na ponta da resistência é sempre bom recordar editores como Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, ou Fernando Gasparian, da Paz e Terra, entre outros.
Se recuarmos um pouco na história brasileira e buscarmos a ditadura de Getúlio Vargas, os abusos eram ainda maiores e além de apreensões de livros em editoras, livrarias e bibliotecas, provocando fechamento de algumas delas, ocorreram prisões de autores como Graciliano Ramos, Jorge Amado e Raquel de Queiroz. A pesquisadora Sandra Reimão salienta a arbitrariedade ao recordar a prisão de Cecília Meireles por ter traduzido As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, considerada subversiva.
Voltando aos nossos tristes dias, é notável que parte do mundo do livro se mantenha calada e alheia aos movimentos óbvios que buscam a restauração desse ambiente autoritário, fascista e hostil à livre circulação das ideias, opiniões e criações literárias. Me causa ainda maior espanto quando ouço de dirigentes do setor que parte significativa apoia o pretendente a tirano que se autoeleva a essa condição sem qualquer pudor. Vide o seu discurso aos seguidores no último dia domingo (21) na Avenida Paulista. Ao que parece, como boa parte da população, também parte do setor do livro não percebe que estamos prestes a viabilizar pelo voto direto uma pessoa que prega abertamente que cassará nossos direitos primários, inclusive o de pensar diferente e publicarmos o contraditório, o diverso. É como dar de presente ao carrasco a corda que nos enforcará. É negar o próprio ato de editar, de publicar livremente um livro, fruto do avanço do processo civilizatório da humanidade. De nada adiantará os avanços tecnológicos, os crescentes movimentos pela formação de leitores que são milhares pelo país, se não soubermos resistir aos retrocessos institucionais que estão anunciados por mais um salvador da pátria.
O grande editor Jason Epstein, no seu O negócio do livro, nos recorda que “publicar livros não é um negócio convencional”. E certamente cabe a esse negócio, como já demonstraram os grandes autores, editores e livreiros do Brasil e de muitos países do mundo, que resistir ao pensamento único e à restrição das liberdades democráticas é uma das nossas tarefas mais sublimes e impositivas.
Meu alento e esperança vêm quando constato que quase 5 mil , dentre autores, editores, livreiros, profissionais do livro e leitores, já assinaram o Manifesto do Livro pela Democracia entregue ao presidenciável que se comprometeu perante o Brasil a realizar uma gestão democrática, múltipla e de respeito aos direitos humanos. E que além do Manifesto, entidades como a Abeu e a Libre, e este PublishNews, se manifestaram com firmeza pela democracia. Há retrocessos, mas há também firmeza e bom senso de amplos setores da sociedade brasileira para preservar os avanços civilizatórios que conseguimos conquistar nesse difícil Brasil.

A história de Jair Bolsonaro - podcast produzido pelo jornal FSP


https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/podcast-presidente-da-semana-conta-a-historia-de-jair-bolsonaro-ouca.shtml?utm_source=twitter&utm_medium=social&utm_campaign=twfolha

Les généraux se bousculent au portillon du gouvernement brésilien

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A l'extrême droite toute ! Cela ne surprendra personne, maintenant que Jair Bolsonaro, en bon capitaine de l'armée brésilienne, a pris la barre du navire Brésil, il va choisir comme membres d'équipage des durs, des vrais ! Si l'on en croit Gustavo Bebianno, le chef du mouvement présidentiel, le Parti social libéral, - révélation faite au journal O Globo - "quatre ou cinq généraux" pourraient ainsi entrer dans le futur gouvernement.

Son "maître de guerre" pressenti à la Défense

Le chouchou du président élu parmi les hauts gradés est un général de 70 ans, Augusto Heleno Ribeiro Pereira (en photo ci-dessous). Il a été le premier commandant en chef de la mission de l'ONU en Haïti mais Jair Bolsonaro lui voue une admiration absolue surtout parce qu'il lui a tout appris sur la discipline : il a été son instructeur à l'académie militaire au cours des années 1970, au beau milieu de la longue dictature qui a débuté en 1964 et s'est achevée en 1985.
Lors d'une interview accordée en 2017, le nouvel homme fort du Brésil avait confié que le général Ribeiro Pereira pourrait lui demander n'importe quel poste au gouvernement, celui qu'il voudrait. Selon la presse brésilienne, c'est le ministère de la Défense qui devrait logiquement lui revenir.

Un général du génie bien placé pour les Transports

Un général plus jeune, Oswaldo Ferreira, âgé de 64 ans, pourrait quant à lui hériter du ministère des Transports. Il faut dire que dans l'armée brésilienne, il commandait le département de génie et de construction. Récemment, le ministre pressenti a expliqué très franchement au journal Estado de Sao Paulo que dans les années 1970, à l'époque où il avait en charge de construire des routes, "Il n'y avait ni le Parquet ni Ibama (l'agence environnementale brésilienne) pour embêter le monde". Et pour cause, la dictature tenait le pays d'une main de fer...

domingo, 28 de outubro de 2018

O que a Turquia de Erdogan ensina sobre um Brasil de Bolsonaro



 morte da democracia turca não surgiu do dia para noite
 Brasil vivencia uma decisão histórica. O resultado da atual eleição presidencial irá determinar não apenas quem governará o país nos próximos quatro anos, mas também que tipo de país o Brasil será no longo prazo. Há uma enorme raiva, agitação e medo no ar. Tudo isso me lembra de uma eleição que ocorreu no meu próprio país – e que mudou a Turquia para sempre.
Há não muito tempo atrás, a Turquia era uma democracia imperfeita que pretendia ser membro da União Europeia. No início dos anos 2000, o país experimentou uma das piores crises econômicas da sua história. Concomitantemente, escândalos de corrupção expuseram esquemas existentes em todo o sistema político. As pessoas estavam furiosas. Elas queriam punir os partidos e os políticos responsáveis pela corrupção e má administração. Elas queriam mudança, independentemente de onde ela viesse.
Nesse processo surgiu Recep Tayyip Erdogan, um político popular islâmista que prometia limpar todo o sistema político da Turquia, tirar o país da crise econômica e restaurar o orgulho nacional. Suas falas entusiasmaram as massas. Sua agenda econômica liberal agradou o mercado. Em 2002, os eleitores turcos jogaram para escanteio os partidos tradicionais e deram ao de Erdogan – o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD) – um poderoso mandato para governar o país.
Na prática, Erdogan não era nem um liberal e nem um democrata. Ele elogiou os sultões do império otomano, e comparou o regime democrático a um trem, do qual “você desembarca quando chega ao seu destino”. Ele desprezava esquerdistas, judeus, feministas e homossexuais. Em 1998, ele foi condenado por incitar ódio religioso. (Mas, para ser justo, ele nunca apoiou explicitamente as execuções extrajudiciais ou a tortura, como Bolsonaro)
Nem todos os que votaram no PJD compartilhavam da visão de mundo de Erdogan. No entanto, motivados por sua energia reformista, e ávidos por algo novo, decidiram subestimar suas tendências autoritárias. Muitos argumentavam que a tradição turca de democracia parlamentar, de constituição secular e de um judiciário fortemente independente acabaria por forçar o líder de fala dura a moderar seu discurso e a respeitar as regras democráticas.
O presidente turco Tayyip Erdogan Foto: Divulgação / AFP / Assessoria de Imprensa do governo turco
O presidente turco Tayyip Erdogan Foto: Divulgação / AFP / Assessoria de Imprensa do governo turco
De fato, Erdogan inicialmente apresentou um discurso de tom conciliatório. Mas isso começou a mudar à medida que seu governo passou a se tornar mais poderoso. Com o apoio de um influente pastor chamado Fethullah Gülen (a versão turca do pastor Edir Macedo), os islâmistas gradualmente tomaram controle das instituições-chave do país, do Judiciário, das Forças Armadas, e da mídia.
A visão de Erdogan para uma “nova Turquia” incluía mais religião, mais machismo e menos democracia. Ele chegou a dizer que a separação democrática entre poderes seria um “obstáculo” para o seu governo, e pressionou por mudar o sistema parlamentarista turco em prol de um sistema presidencialista poderoso, similar ao da Rússia de Putin.
As escolas religiosas começaram a substituir as escolas seculares. A teoria da evolução despareceu dos manuais livros textos de biologia. Em 2004, parlamentares do PJD tentaram aprovar uma lei criminalizando o adultério. Erdogan disse que as mulheres não tinham sido criadas igual aos homens. Ele disse às mulheres que focassem em suas tarefas como donas de casa e mães. Entre 2002 e 2010, as taxas de homicídio de mulheres cresceram 14 vezes no país. Graças à juízes conservadores, os criminosos frequentemente receberam penas levas.
Intolerante ao dissenso, Erdogan chamou seus críticos de “traidores”, “terroristas” e “inimigos do povo”. Ele se recusou a participar de debates antes das eleições e escolheu os jornalistas que poderiam entrevistá-lo. A censura da internet cresceu. Meios de comunicação críticos ao governo passaram a ser assediados por autoridades tributárias e militantes “do Chefe”, como Erdogan era chamado por seus seguidores. Por volta de 2011, a Turquia havia se tornado o país com o maior número de jornalistas presos do mundo. Milhares de cidadãos foram levados ao tribunal por insultarem o líder turco.
Enquanto isso, a corrupção, que o PJD havia prometido erradicar, não desapareceu. No final de 2013, um enorme escândalo foi descoberto, envolvendo altas autoridades governamentais e a própria família de Erdogan com alegações de suborno e lavagem de dinheiro. Ele obteve uma decisão judicial para proibir os meios de comunicação de noticiarem o caso, e destituiu os juízes e procuradores responsáveis pela investigação. Nenhuma denúncia de corrupção contra membros do governo foi investigada desde então.
“O Chefe” havia prometido ordem e estabilidade à Turquia. Mas violência e instabilidade se tornaram os principais traços de seu regime. A polícia, equipada com novos e vastos poderes, suprimiu manifestações populares pacíficas com força bruta. Quando o PJD perdeu a maioria no Parlamento em 2015, em vez de aceitar a derrota, Erdogan reiniciou uma guerra sangrenta contra os curdos. Enquanto soldados perseguiam jovens militantes em cidades pobres de população curda, ele convocou novas eleições, vencidas pelo PJD em decorrência da exploração do crescente fervor militarista no país.
Após ter sofrido uma tentativa malsucedida de golpe militar em 2016, o governo turco declarou estado de emergência. Erdogan se referiu à tentativa como um “presente de Deus” e começou a governar por decreto executivo. Mais de 170 mil funcionários públicos foram demitidos, incluindo quatro mil juízes e procuradores. 80 mil pessoas foram presas e 189 meios de comunicação foram fechados. Temendo por sua liberdade, milhares de jornalistas, acadêmicos e intelectuais, incluindo muitos antigos apoiadores de Erdogan, fugiram do país.

Em abril de 2017, ainda sob vigência do estado de emergência e com líderes-chave da oposição na prisão, a Turquia realizou um referendo sobre o regime presidencialista. Por meio de uma campanha criticada por observadores internacionais como não tendo sido nem livre nem justa, 51% dos eleitores votaram por conceder formalmente a Erdogan poderes quase ditatoriais.
A morte da democracia turca não surgiu do dia para noite. Ela veio gradualmente, por meio das urnas, com o consentimento de milhões de cidadãos. Pouco a pouco, nós trocamos nossas liberdades fundamentais por ganhos econômicos de curto prazo e por um falso senso de segurança. Ironicamente, nós temos agora um sistema político sem prestação de contas, que produz não apenas corrupção e insegurança, mas graças à imprudência administrativa de um autocrata imprevisível, também um desastre econômico.
Na Turquia, nós aprendemos por meio de uma difícil lição que não há caminho fácil para resolver nossos complexos problemas sócio-políticos. Aprendemos que a democracia é frágil e pode ser assassinada por um demagogo que explora a raiva e os preconceitos das pessoas. E aprendemos ainda que as liberdades civis, uma vez retiradas, são bem difíceis de serem reconquistadas.
Mas era tarde demais. Meu país já se transformou, tornando-se irreconhecível para mim. O Brasil, por outro lado, está hoje à beira de uma decisão fatídica. Eu sinceramente espero que os brasileiros escolham de forma mais prudente do que nós, turcos, e não se submetam a um falso Messias.
*Professor Visitante, IRI-USP

sexta-feira, 26 de outubro de 2018