Sojicultores brasileiros na Bolívia são derrotados pela vitória de Luís Arce
Artigos, ensaios, pesquisas de interesse geral - política, cultura, sociedade, economia, filosofia, epistemologia - que merecem registro
sábado, 24 de outubro de 2020
Sojicultores brasileiros na Bolívia são derrotados pela vitória de Luís Arce
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Da involução da espécie humana surgiu o homo bolsonaurus

Opaís está destroçado e o presidente da República conta com a aprovação de 40% dos brasileiros. É nessa situação paradoxal que nós nos encontramos, depois de sete meses de pandemia, quase 150 mil mortes e uma depressão econômica sem precedentes. Com o perdão de Carlos Drummond de Andrade, que confusão de coisas ao crepúsculo!
À luz dos traumas acumulados nos últimos meses, refazemos todos os dias os cálculos do tamanho do estrago causado por esse desastre histórico. As contas indicam invariavelmente uma tendência de alta, para falar na língua do mercado, sócio investidor do cataclismo civilizacional em curso no Brasil.
Trata-se mesmo de uma regressão pesada – social, moral, cognitiva –, com consequências que se estenderão além do fim do ciclo político dominado por Bolsonaro, não importa quanto ele durar. A eventual reeleição de Donald Trump no mês que vem seria o bilhete para o abismo. Mas, com ou sem Trump, algumas consequências da catástrofe bolsonariana serão provavelmente irreversíveis – é o caso da devastação ambiental.
Também devem durar muitos anos, talvez décadas, os efeitos da expansão das armas de fogo na vida civil, do ódio às universidades e do descaso pela ciência, do desmonte generalizado dos órgãos da cultura, da deslaicização do Estado, da militarização e do rebaixamento do ensino, do retrocesso na legislação de trânsito, dos esforços para aparelhar a Polícia Federal e criar – com a Abin, com a inteligência militar, com o rapaz que é ministro da Justiça, com tudo – uma polícia política. O leitor se lembrará de outros itens dessa cruzada obscurantista sem paralelo.
O que pode significar, nessas condições, a tão esperada volta à normalidade pós-pandemia? Que sociedade é essa que vai sendo forjada nos escombros do Pacto pela Democratização encarnado na Constituição de 1988? Que aspirações ainda poderemos ter como nação, se e quando sairmos desse pântano de estupidez e truculência?
São questões óbvias e urgentes, mas que não parecem tirar o sono de quem deveria se preocupar. O fato é que Bolsonaro foi digerido pelas instituições democráticas, não obstante seu empenho em acabar com elas. Ele engoliu o establishment político e econômico. E pagou bem barato por isso: bastou dar de comer ao Centrão, distribuindo ração fisiológica aos piores do Congresso. À civilização, não foi preciso fazer nenhuma concessão. Pelo contrário. A maneira como o presidente lidou com a pandemia bastaria para que fosse destituído dez vezes do cargo e julgado criminalmente. Mas não. Enquanto o mundo nos olha com um misto de perplexidade e pena – somos hoje uma excrescência internacional –, internamente a tônica está na acomodação.
O topo da pirâmide segue entretido com reformas (tributária, administrativa, qualquer uma), farejando brechas por onde continuar faturando. Entre as massas, o auxílio emergencial apaziguou por ora o desespero, e os “sem-tudo” agradecem ao presidente pela iniciativa que na verdade foi do Congresso. Líderes de oposição não se comportam à altura da hora histórica, com uma ou outra exceção. Agem como se o pêndulo da política ainda funcionasse no eixo democrático e pudéssemos aguardar tranquilos pela alternância de poder em 2022. Salvo engano, isso se tornou mais do que duvidoso.
Feitas as contas, quem melhor enfrentou Bolsonaro foi a ema do Palácio da Alvorada. Ali não tem conversa, não tem cooptação, não tem cloroquina. Não deixa de ser sintomático que o legado de Voltaire e Diderot esteja sendo defendido entre nós à base de bicadas por uma espécie que lembra um galináceo gigante e desengonçado de olhos esbugalhados.
Parte expressiva da sociedade se identifica profundamente com Bolsonaro, ainda que ele não tenha o apoio da maioria da população. Se tivesse, podemos imaginar o que aconteceria. Tome-se como exemplo o episódio envolvendo o desembargador Eduardo Siqueira, conhecido de todos. Lá vem ele, com o peito estufadinho, fazendo a sua caminhada dominical pela orla de Santos. A máscara o incomoda, por isso ele a dispensa – a lei que se foda. Ao ser abordado pelo guarda municipal, o magistrado não precisaria alardear sua falsa intimidade com o secretário da Segurança Pública da cidade para se safar. Ele levantaria a camiseta, sacaria da cintura uma arma de fogo e resolveria o caso na bala.
Parece um delírio (é um delírio), mas no mundo idealizado por Bolsonaro as coisas seriam exatamente assim. Foi, pelo menos, o que o presidente pregou na famigerada reunião ministerial. O povo armado seria “a garantia de que não vai aparecer um filho da puta e impor uma ditadura aqui”. Ele se referia, naquele contexto, às medidas restritivas adotadas por prefeitos e governadores para evitar a propagação do vírus.
Estamos, pois, frente a frente com o Homo bolsonarus. É esse o título do ensaio que o cientista político Renato Lessa, professor da PUC do Rio, publicou no número mais recente da revista Serrote. Repleto de boas reflexões, o texto se originou do debate em que Lessa e Paulo Arantes, da USP, foram convidados a responder se o Brasil caminha ou não para uma forma de fascismo. Não é bem disso que se trata, defenderam ambos os professores, o que não torna a coisa menos tenebrosa. Do que se trata, afinal? Ao contrário do fascismo histórico, “marcado pela obsessão de trazer a sociedade para dentro do Estado”, o poder bolsonarista opera no sentido de devolver a sociedade ao estado de natureza. Tal movimento significa “fazer das assimetrias ‘naturais’ de poder o elemento de configuração básica e espontânea da sociabilidade”.
O bolsonarismo seria essa máquina de naturalização do que nos torna intoleráveis como país, um otimizador da violência, da destituição de direitos, da desigualdade que nos define desde sempre. Ele é, na expressão de Lessa, “o ponto de coagulação” capaz de garantir tanto a continuidade de práticas tradicionais quanto a dissolução dos mecanismos de contenção e a inscrição das energias espontâneas em um projeto político.
A retórica libertária invocada pelo presidente e seus adeptos se confunde com a legitimação inédita da barbárie brasileira. Basta de eufemismos. Isso é para os fracos. Tenhamos coragem de jogar fora a criança junto com a água do banho. Quem é que ainda precisa de civilização? Chegou a hora de eliminar todos os constrangimentos e mediações do estado de direito, de desregular tudo, dar vazão aos instintos mais primitivos, deixar passar a boiada, como recomendou o douto Ricardo Salles. É um projeto de predação escancarada. Não há como negar que vem sendo executado com grande êxito.

FERNANDO DE BARROS E SILVA
Repórter da piauí e apresentador do Foro de Teresina. Foi diretor de redação da revista entre 2011 e 2020
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Bolívia preparada para o novo golpe de Elon Musk?
Bolívia preparada para o novo golpe de Elon Musk?
A China não precisa inventar inimigos externos: quer saber de negócios
A China não precisa inventar inimigos externos: quer saber de negócios
Nivaldo T. Manzano (21/10/20)
Especula-se que Biden, se eleito, vai apoiar a oposição ao bolsonarismo exigindo em troca, em toda a América Latina, distanciamento da China. Isso não vai ocorrer, e aqui vão os meus palpites do porquê:
terça-feira, 20 de outubro de 2020
"Eliminem-se uns aos outros"
"Eliminem-se uns aos outros"
Nivaldo T. Manzano (20/10/20)
Para onde vai a democradura, o governo mais verde-oliva na História do Brasil
Para onde vai a democradura, o governo mais verde-oliva na
História do Brasil
É preciso observar para muito além da aparência imediata dos
fatos no Brasil de Mijair e atentar para a direção do conjunto coerente das
ações governamentais. As peças em destaque nas manchetes são o sinistro do meio
ambiente, Ricardo Sales, réu por imprividade e o general Mourão, campeão
inconteste na alocação de amigos em boquinhas ricas na Administração (direção
de Itaipu = R$ 70 mil, etc.). No comando da democradura estão os generais de
duplo ganho, instalados no Palácio do Planalto, que têm em Mijair a sua
marionete a entreter os patetas.
As iniciativas de Salles e Mourão, em especial, voltadas para
a Amazônia, levantam a ponta do véu, permitindo entrever o que implica para a
nação a escolha do Brasil como primeiro grande laboratório mundial da Global
Governance. Trata-se de um experimento que eleva ao enésimo expoente o
experimento desenhado na Universidade de Chicago e levado a cabo no Chile de
Pinochet (1973), com a diferença de que a expectativa que a nova hecatombe
política e humana ocorra sem derramamento de sangue.
A Colômbia teria sido um experimento a meio caminho entre o
que os neoliberais intentaram no Chile e que esperam agora do Brasil. Assim
como no Chile, na Colômbia a “sociedade de mercado” somente foi implantada
mediante forte intervenção das FFAA, com a diferença que na Colômbia ela
ocorreu via democrática. A Colômbia teria falhado por imperícia no emprego de
violência explícita e recursos de repressão considerados como pouco refinados,
como descarga direta e pública de armas de fogo e explosivos contra defensores
de direitos humanos (750 vítimas fatais em 2019, segundo levantamentos de ONGs)
e incompetência gerencial em pontos da agenda neoliberal, tais como tolerância
na manutenção da educação e saúde públicas. Em contraste, o Brasil de Mijair
tem conseguido - graças à conivência da imprensa -, sem grandes comoções na
sociedade, renunciar à soberania nacional, em proveito do capital estrangeiro, e
transferir funções sociais da responsabilidade constitucional do Estado para
entidades igrejeiras, mediante doação em valor correspondente de recursos
públicos, que deverão bancar a totalidade da fatura. A última medida nessa
direção foi a transferência da atenção institucional às crianças deficientes
para os amigos da ministra Damares Alves, na continuidade de ações da mesma
natureza (idosos etc.). Na área social, essas são apenas as primeiras
iniciativas da democradura, convertida ao receituário neoliberal, receituário que
não atinge a instituição FFAA. Há muito ainda a fazer com vistas à eliminação
radical de toda política social por parte do Estado.
O pacto da Global Governance, promovido pela elite financeira
mundial, sob o comando dos EUA (com Trump ou sem Trump) – como reação defensiva
aos abalos sísmicos do Capital (2008, por ex.) e à ascensão da China como
superpotência concorrente -, implica a renúncia à soberania nacional; a
instalação de uma governança única, acima dos Estados nacionais, com agenda
autoritária, que estabelece a eliminação de fronteiras econômicas; o fim de todo
direito internacional que não seja o do mercado; o fim das instituições
multilaterais, exceto as controladas pelos EUA, tais como FMI e Banco Mundial;
o esvaziamento da ONU e de suas agências; eliminação de toda legislação sobre
direitos humanos; eliminação das restrições à livre ação e circulação do
Capital, tais como agências reguladoras, normas, fiscalização e punição nas
áreas de meio ambiente e outras; eliminação das legislações trabalhista e
ambiental, eliminação radical do Estado de bem-estar social e suas implicações;
privataria das instituições de ensino em favor das entidades igrejeiras e
remodelação radical de seu conteúdo, com eliminação de tudo o que remeta ou
faça referência ao sentido dos termos comunidade e sociedade (é somente Eu e
Deus, ou o estrito individualismo, segundo o credo luterano ou calvinista) ;
abolição de legislação e normas sobre câmbio, moeda; eliminação da legislação
antidumping, de tarifas e taxas de importação e exportação.
Em resumo, a democradura verde-oliva, a serviço da Casa
Grande, intenta instalar no País uma república bonapartista neoliberal stricto
sensu, a “sociedade de mercado”, uma réplica atualizada do Circo Romano, cujas
regras impostas aos condenados limitavam-se a uma só: “Eliminem-se uns aos
outros”. Um espetáculo oferecido aos que o promovem para o seu exclusivo
gáudio, ainda que sob o aplauso dos pobres de direita.
No caso do Brasil, o fiador e protagonista do pacto são as
FFAA, como é possível ver-se, entre outras evidências, na sua estratégia de
entrega da Amazônia, região que abrange 59% do território nacional e que somada
ao bioma Amazônia além-fronteiras equivaleria ao sexto país do mundo em
extensão. Em cada uma das mineradoras há pelo menos um militar na diretoria, de
dupla remuneração; e as FFAA, com dinheiro público, dão total apoio à logística
de saque e à evacuação dos minérios e demais riquezas naturais. Todas as saídas
do País, portos, aeroportos e fronteiras secas têm por sobre a vigilância da PF
o comando das Três Armas.
Daí a criação, sob a autoridade do general Mourão, do Comando
da Amazônia, do qual estão excluídos todos os governadores do Norte e do qual
não consta nenhuma autoridade civil e nenhum civil. Todos os órgãos de
informação sobre clima e sobre meio ambiente, controle e monitoramento de
satélites foram transferidos para mãos militares. Uma penca de oficiais acaba
de ser nomeada (15/10/2020) para o controle dos serviços de dados sob a
responsabilidade do Estado. Em contrapartida, os promotores civis da Global
Governance comprometem-se, mediante patrocínio da Casa G, a monitorar a imprensa
na implementação da estratégia, entre cujos objetivos inclui-se a remoção da
memória nacional a tortura e o assassinato praticados pelo golpe militar de
1964, com vistas a legitimar e consolidar a democradura – um pacto entre FFAA,
Casa Grande e as chefias dos Três Poderes. Como braço auxiliar ideológico e de
repressão, têm-se as entidades igrejeiras, a milícia de Mijair e as forças
para-militares.
Observe que nos dois últimos meses todos os jornais e
publicações periódicas da imprensa comercial trazem matérias indicativas da
normalização do governo Mijair pelos membros do pacto não escrito, com vistas à
sua reeleição 2022.
Minha argumentação funda-se na evidência de que a ideologia
neoliberal e os seus promotores encontram-se sob intenso assédio da opinião
pública em razão da concentração mundial da renda, crescimento da desigualdade
social em velocidade irrefreável e perda de legitimidade do capitalismo. Depois
de ensaios frustrados, por terem estacionado a meio caminho, em nova tentativa de
criar a sua grande vitrine para o mundo decidiram radicalizar no caso do
Brasil, por nele encontrar terreno fértil. Por que terreno fértil? O Brasil
apresenta baixa coesão social, cultural e cívica (= baixa capacidade de organização
social e resistência política); ausência do sentido de comunidade; elevado
índice de analfabetismo funcional; exclusão social e marginalidade em grande
escala; baixíssima impregnação social da institucionalidade; baixíssimo índice
de leitura (um dos mais baixos do mundo, segundo a revista The Economist); e o
segundo país mais ignorante do mundo, em anos seguidos, segundo a pesquisa
internacional do Instituto Ipsos (ignorante = desconhecimento do próprio
contexto)
