quarta-feira, 28 de outubro de 2020

John Locke, pai do liberalismo, contra a liberdade

Nivaldo T. Manzano (28/10/20)

Para o pai do liberalismo clássico, redivivo em tempos neoliberais, a propriedade privada era um direito NATURAL quando dizia respeito à propriedade dele, a de seus amigos e a dos súditos de Sua Majestade, não porém quando se tratava da terra dos indígenas, que justificava expropriar - o que somente pode ocorrer pela violência e assassinatos, como a história o demonstrou.

Leia: Por John Quiggin (12/09/20) 

Para os liberais clássicos (muitas vezes chamados de “libertários” no contexto dos Estados Unidos), os documentos que fundaram o liberalismo são o Segundo Tratado sobre o Governo e Carta Sobre a Tolerância de John Locke, que estabelecem a defesa de um governo limitado, que respeite os direitos de propriedade privada e que tolere as diferenças religiosas. Locke viveu na Inglaterra (e passou cinco anos em exílio na Holanda) durante o século XVII, e sua obra é normalmente interpretada em termos das lutas entre o rei inglês e o parlamento, no período que compreende da Guerra Civil até a “Revolução Gloriosa” de 1688, em que a dinastia absolutista dos Stuart foi derrubada.

Para aqueles que realmente chegam a ler os Tratados, há algumas passagens desagradáveis nas quais Locke justifica a escravidão (como aplicada a prisioneiros tomados na guerra) e onde ele nega que sua teoria de direitos de propriedade se aplicaria a sociedades de caçadores-coletores, como as dos nativos americanos. Mas essas questões parecem tão distantes do contexto social de Locke na Inglaterra do século XVII que soam como meros apartes, irrelevantes para a argumentação principal.

Considerando tanto sua própria vida quanto seu impacto histórico, porém, Locke pode ser considerado de maneira mais apropriada como um filósofo estadunidense do que como um filósofo inglês, embora nunca tenha cruzado o Oceano Atlântico em pessoa. Pesquisas recentes sobre Locke têm se concentrado em fatos que sempre foram bem conhecidos, mas que, como outros fatos históricos desagradáveis, têm sido negligenciados ou desconsiderados. Essa reavaliação histórica implica uma compreensão nova e radicalmente diferente sobre a sua filosofia política.

Em uma carreira de fortunas flutuantes, Locke esteve intimamente envolvido com assuntos estadunidenses. Como secretário do conde de Shaftesbury, então chanceler do tesouro, Locke ajudou na redação das Constituições Fundamentais da Carolina. Ele foi secretário do Conselho de Comércio e de Plantações (1673-74) e membro da Junta Comercial (1696-1700), com responsabilidade sobre as colônias americanas. Ele foi um grande investidor no comércio inglês de escravos por meio da Royal African Company (“Companhia Real Africana”) e da Bahama Adventurers Company (“Companhia de Aventureiros Bahama”).

Portanto, quando Locke escreveu sobre a escravidão e as condições sob as quais a propriedade da terra poderia ser adquirida, as condições americanas eram muito mais diretamente relevantes ao seu pensamento do que as da Inglaterra, onde a escravidão mobiliária era desconhecida e onde a aquisição original da terra não passava de uma ficção histórica.

Dada a sua reputação como defensor dos direitos de propriedade e de liberdade pessoal, Locke tem sido acusado de hipocrisia por seu papel promovendo e se beneficiando da escravidão e da expropriação de populações indígenas, ações que parecem contradizer sua posição filosófica. Essa acusação é benevolente demais com ele.

As verdadeiras contradições podem ser encontradas nos escritos filosóficos de Locke, que foram projetados para se adequar às suas posições políticas na Inglaterra, onde ele apoiava a resistência às pretensões absolutistas do católico James II, e na América, onde ele fazia parte da classe dominante escravista (mesmo que de longe).

Um dos primeiros exemplos da flexibilidade doutrinária de Locke pode ser encontrado em sua Carta sobre a tolerância. Embora a argumentação pela tolerância religiosa pareça geral, Locke consegue encontrar razões para excluir dela os católicos e os ateus. Portanto, no contexto da Inglaterra do século XVII, o único grupo que se beneficiaria da política de tolerância proposta por Locke eram os dissidentes protestantes da Igreja da Inglaterra – não surpreende, portanto, que esse fosse o grupo ao qual Locke pertencia.

A teoria da propriedade de Locke é igualmente voltada ao seu próprio benefício. Geralmente ela é vista como uma ficção histórica, usada para justificar os direitos de propriedade existentes atualmente, apesar do fato de que eles não podem ter realmente sido adquiridos da maneira que Locke sugere. Como objetou Hume, “não há propriedade em objetos duráveis, como terras ou casas, quando cuidadosamente examinados ao passar de mão em mão, que não devam, em algum período, ter sido fundadas em fraudes e injustiças.”

Isso é verdade, evidentemente. Considerando o contexto estadunidense, no entanto, Locke não está oferecendo uma teoria sobre a aquisição original das terras. Em vez disso, sua teoria é voltada para a expropriação, projetada especificamente para justificar as “fraudes e injustiças” a que se refere Hume.

A ideia central de Locke é que os agricultores, ao misturar seu trabalho com o solo, adquirem assim uma titularidade sobre ele. Ele imediatamente enfrenta a objeção de que antes da chegada da agricultura, caçadores e coletores trabalhavam na terra e ganhavam seu sustento à partir dela. Então, ao que parece, o futuro fazendeiro teria chegado tarde demais. O exemplo óbvio, a que ele se refere várias vezes, é o dos colonos europeus chegando à América. A resposta de Locke é dupla.

Em primeiro lugar, ele invoca sua alegação usual de que há terra suficiente para todos e que, portanto, se apropriar de alguma porção de terra para a agricultura não pode ser prejudicial para os caçadores-coletores. Isso é obviamente uma bobagem. Pode se conceber que isso tenha sido verdade para o primeiro agricultor (embora mesmo nos fundamentos malthusianos padrão não haja razão para se supor isso), ou para o segundo ou para o quinquagésimo, mas em algum ponto a terra deve deixar de ser suficiente para sustentar a população de caçadores-coletores preexistente. Nesse ponto, muito antes de todas as terras terem sido adquiridas pelos agricultores, sua teoria falha.

Locke certamente devia saber que sua alegação era falsa – não como uma questão de raciocínio abstrato, na história distante, mas em termos de fatos contemporâneos. Seus Tratados Sobre o Governo foram publicados em 1689, um ano após a expllosão da Guerra do Rei William (o teatro norte-americano da Guerra dos Nove Anos). A questão central nessa guerra, como em uma série de conflitos anteriores, era o controle do comércio de peles, a forma economicamente mais significativa de atividade de caçadores-coletores. Mas subjacente a isso estava a pressão geral decorrente da expansão constante da agricultura europeia em terras anteriormente pertencentes a tribos indígenas.

Como capitalista e acionista de empresas estadunidenses como a Bahama Adventurers (voltada ao comércio de escravos), Locke dificilmente poderia ignorar esses fatos. Na verdade, ele se refere nos Tratados aos contatos americanos que lhe forneciam suas informações.

A verdadeira defesa de Locke é que, independentemente de haver muito ou pouco dela, a terra não cultivada essencialmente não possui valor. Todo  – ou quase todo – o valor, diz ele, viria dos esforços dos fazendeiros que melhoram a terra. Visto que Deus teria nos dado a terra para que fizéssemos melhorias nela, ela deveria pertencer por direito àqueles que a melhoram.

Este é exatamente o raciocínio da maioria da Suprema Corte no caso Kelo versus Cidade de Nova Londres. A Sra. Kelo e seus vizinhos estavam de fato ocupando o terreno em questão, mas, assim o Tribunal concluiu, eles não eram capazes ou não estavam dispostos a fazer o melhor uso dele. Assim, a única maneira da cidade garantir o melhor uso econômico do terreno em questão seria usar seu eminente poder de domínio de aquisição compulsória.


Tudo isso se relaciona ao ponto que levantei anteriormente, que a credibilidade de qualquer teoria lockeana na defesa dos direitos de propriedade em relação ao Estado que os estabeleceu depende da existência de uma fronteira, para além da qual existe terra utilizável e sem limites. Isso, por sua vez, exige o apagamento (mentalmente e geralmente também na realidade brutal) das pessoas que já vivem além dessa fronteira e que obtêm seu sustento da terra em questão.

Agora, vamos à questão da escravidão em Locke. A reputação de Locke como um oponente da escravidão repousa em parte em um mal-entendido e em parte no fato de que ele oferecia uma justificativa mais limitada para a escravidão do que autores anteriores.

No que diz respeito ao mal-entendido, a declaração freqüentemente citada de Locke de que a “ESCRAVIDÃO é um estado tão vil e miserável para o homem, e tão diretamente oposta ao temperamento generoso e a coragem de nossa nação; que dificilmente se poderia conceber que um inglês, muito menos um cavalheiro, devesse advogar por ela” soa como uma declaração de condenação absoluta. Na verdade, no entanto, ela pode ser mais apropriadamente compreendida como uma versão inicial do chauvinismo expresso no sentimento de que “os britânicos nunca, nunca, nunca serão escravos.”

A intenção de Locke nessa passagem era demolir a ideia de Sir Robert Filmer de que ingleses (incluindo ingleses americanos) poderiam concordar voluntariamente em se submeter a um governo com as reivindicações absolutistas dos Stuarts – era a essa submissão que o termo “escravidão” se referia. Ao mesmo tempo, ele permitia a escravidão mobiliária absoluta, com poder de vida e morte, no caso de “prisioneiros tomados em uma guerra justa”. Em seu trabalho sobre a Constituição das Carolinas, Locke estendia o mesmo poder absoluto aos proprietários de escravos afro-americanos.

Há aí uma contradição óbvia. Embora os africanos fossem frequentemente escravizados como resultado de guerras, não havia razão para se supor que essas guerras fossem justas e obviamente seria impossível estender essa justificativa para os seus filhos.

Como resultado, alguns estudiosos de Locke concluíram que sua posição política entrava em uma contradição hipócrita com suas visões teóricas – o que parece generoso demais com Locke como teórico.

Como vimos, sua teoria da propriedade em geral tem exatamente as mesmas características: uma defesa, em tons liberais, dos direitos dos ingleses à propriedade e à liberdade, usada para justificar a privação desses direitos aos povos indígenas. Da mesma forma, em suas tão celebradas Cartas sobre a Tolerância, ele conseguiu encontrar razões para excluir católicos e ateus, de modo que os únicos beneficiários da tolerância proposta eram protestantes dissidentes como ele.

Locke é muito americano em outro aspecto crucial. Seus escritos foram amplamente ignorados na Inglaterra e ganharam proeminência quase que inteiramente por causa de sua influência sobre os fundadores dos Estados Unidos.

Mais precisamente, os princípios de Locke se adequavam perfeitamente aos Federalistas Sulistas que dominaram os primeiros anos dos Estados Unidos. Por um lado, justificavam a rebelião contra a Coroa Britânica; por outro lado, rejeitavam qualquer interferência nos direitos de propriedade, incluindo a posse de escravos. De forma mais ampla, a teoria de Locke se colocava em oposição às possibilidades democráticas radicais da Revolução Americana, representadas por figuras como Benjamin Franklin e Thomas Paine.

As contradições inerentes às posições de Locke foram apontadas pelos críticos da época e resumidas por aquele conservador à moda antiga, o Dr. Samuel Johnson, que observou que: “como é que ouvimos os gritos mais altos por liberdade vindo daqueles que conduzem os negros?” (A amizade de Johnson com seu serviçal jamaicano, Francis Barber, um ex-escravo, era um testemunho impressionante de seu caráter.)

Mas a história é escrita pelos vencedores. Locke se beneficiou da mesma amnésia histórica que absolveu todos os fundadores dos Estados Unidos, principalmente Jefferson e Madison, juntamente de líderes pré-guerra civil como Calhoun e Clay, de seu papel na manutenção e na extensão da escravidão. Essa amnésia foi reforçada pelo domínio da Escola de Dunning (pró-escravidão) na discussão histórica sobre a Guerra Civil e a Era da Reconstrução dos EUA. Foi só depois do surgimento do Movimento dos Direitos Civis na década de 1960 que essas questões foram reabertas.

Se Locke for visto, corretamente, como um defensor da expropriação e da escravidão, quais são as implicações para o liberalismo clássico e para o “libertarianismo”? O mais importante é que não há justificativa para tratarmos os direitos à propriedade como direitos humanos fundamentais, no mesmo nível que a liberdade pessoal e a liberdade de expressão.

A verdadeira tradição liberal é representada não por Locke, mas por John Stuart Mill, cujo compromisso sincero com a liberdade política era consistente com sua adoção final do socialismo (reconhecidamente em uma forma mais refinada e abstrata).

Mill não era perfeito, como evidenciado por seu apoio ao imperialismo britânico, para o qual trabalhou como funcionário da Companhia das Índias Orientais, e de maneira mais geral, por seu apoio às limitações das maiorias democráticas. Mas a versão do liberalismo de Mill se tornou mais democrática à medida que a experiência demostrava que os temores sobre maiorias ditatoriais eram infundados. Em contraste, o liberalismo clássico de Locke se endureceu em um dogma proprietarianista.

Como reconheceu Mill, os mercados e os direitos de propriedade são instituições justificadas por sua utilidade, não por qualquer direito humano fundamental. Onde os mercados funcionam bem, os governos não deveriam interferir neles. Mas, onde eles falham, como acontece com tanta frequência, é inteiramente apropriado modificar os direitos de propriedade e os resultados do mercado ou substituí-los completamente pelo controle público direto.As ideias que recebemos mudam apenas lentamente, e a visão padrão de Locke como um defensor da liberdade provavelmente ainda persistirá por anos. Mesmo assim, a sua reavaliação está em andamento e o resultado é inevitável. Locke era um defensor teórico – e um participante pessoal – na expropriação e na escravidão. Seu liberalismo clássico não oferece garantia de liberdade a ninguém, exceto aos donos da propriedade privada capitalista.

https://jacobin.com.br/2020/09/john-locke-contra-a-liberdade/

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Aqui jaz a profissão de economista, como farol da humanidade

 Aqui jaz a profissão de economista, como farol da humanidade

Nivaldo T. Manzano (27/10/20)

A emergência do ECONOMISTA, como profissional que detém o segredo matemático de desatar os nós POLÍTICOS criados pela sociedade de classes, é contemporânea do golpe de Pinochet (1973), desenhado na Universidade de Chicago. Assim como um novo Moisés, ele havia chegado para conduzir os povos na travessia do mar, sem molhar os pés. Até então, o economista era um profissional que sabia mais matemática do que o contador e trabalhava no departamento de análise e apropriação de custos das empresas. E o seu prestígio nas editorias de Economia dos jornais era nenhum. Foi somente na metade da década de 1960 que os jornais criaram a editoria de Economia.
Coincidentemente com a consolidação ideológica do neoliberalismo, que converteu o Chile de Pinochet em seu laboratório e vitrine, que o economista foi alçado ao panteão dos deuses do Olimpo, a despejar a sabença da última palavra em todos os fóruns. Lembre-se, a propósito, da ascensão esplendorosa do economista e mago Delfim Netto, pai do "milagre econômico", a partir de 1967. Nessa condição, os economistas passaram a DITAR a Política para os políticos. Pois, como declarou ainda recentemente um ministro da Alemanha, "o voto não pode mudar a política econômica". Ou seja, ponha-se fim à democracia, e estará salvo o Capital.
O fracasso do neoliberalismo no Chile lança uma pá de cal no economista como farol da humanidade. .

Mijair, no panteão da desumanidade

 Mijair, no panteão da desumanidade

Nivaldo T.Manzano

Inspirado pela figura de Jair Bolsonaro, uma das personagens mais aberrantes e abjetas da história política de todos os tempos, dei de pesquisar em busca de parentelas ideológicas que se tenham ombreado com ele na falta absoluta de sentimento de humanidade. A primeira constatação foi que dentre os mais ignóbeis já agraciados com o Prêmio Ignóbil, Mijair encontra poucos rivais: os seus admirados Augusto Pinochet; e Alfredo Stroessner, pedófilo, torturador e assassino; o presidente Duterte, nas Filipinas, que convoca civis de qualquer idade a disparar na rua contra supostos malfeitores; o torturador e sanguinário coronel Brilhante Ustra; Trump, que prende crianças em jaulas, depois de sequestrá-las dos pais…
Recuando na história, ainda no século XX, revejo como rival de Mijair a Pierre Laval (1883 – 1945), a segunda pessoa no governo colaboracionista de marechal Pétain (1856 – 1951). Ressalte-se, desde já, que à diferença de Laval, político de fôlego internacional, astuto e hábil negociador, Mijair é uma figura suburbana, primária, um explorador miúdo de rachadinhas, dotado de uma ignorância enciclopédica e de um cérebro de galinha. O que os aproxima, entre outras características comuns, é o desamor para com as crianças. o antinacionalismo e o entreguismo. Assim, por exemplo, enquanto Mijair quer ver as crianças condenadas ao trabalho infantil num mercado que ele destituiu de qualquer regulação, Laval em 1942 enviava para Auschwitz mais de SEIS MIL crianças francesas, “órfãos” de pais judeus, que as haviam precedido no mesmo destino. O governo a que servia buscava, assim, desembaraçar-se de “órfãos” inúteis e constrangedores. Essa é apenas a ponta do véu que junca de vilezas e ignomínias a ação política do segundo homem mais poderoso da França na primeira metade do século XX.
Pierre Laval imprime no inconsciente francês o recalque da Colaboração com o nazismo, que ele encarnou com prazer e obstinação. Em uma alocução radiofônica dirigida a toda a França ocupada pelo exército alemão, em 22 de junho de 1942, ele diz (voz dele): “Je souhaite la victoire de l'Allemagne..." - https://www.youtube.com/watch?v=sHAwGQoAN3A “Eu desejo a vitória da Alemanha”. Evoco nesse discurso a língua de Mijair & familícia lambendo o saco de Trump, em aberta e despudorada manifestação contrária aos interesses do Estado e do povo brasileiro, ainda mais radical -, como expressa na sua exaltação à bandeira americana e na colaboração obstinada -, do que a do militar e político Juraci Magalhães, embaixador nos EUA no governo do ditador marechal Castelo Branco. Então, Juraci Magalhães declarou: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”. Do mesmo modo como Mijair, a sua folha de serviços prestados ao entreguismo ia além da retórica. Consta que Juraci fora informante do FBI durante o último governo Vargas (1951 – 1954), tendo como interlocutor a Adolf Berle, subsecretário-adjunto de Estado para a América Latina e agente do FBI e de serviços de inteligência USA voltados à caça de políticos de esquerda no continente latino. Mijair, de sua parte, institucionalizou a colaboração do Estado brasileiro com os serviços de inteligência USA, ao abrir os bancos de dados nacionais ao Departamento de Justiça.
Voltando a Pierre Laval:
Antes de se fixar na perseguição aos judeus e aos militantes da Resistência Francesa https://pt.wikipedia.org/wiki/Resist%C3%AAncia_Francesa , Laval exibe uma carreira orientada pelo oportunismo como estratégia para construir a sua carreira política associada à construção de sua fortuna pessoal, a partir de uma infância pobre. Começa em Paris a carreira de advogado dos pobres, lixeiros, operários e crianças exploradas. “Advogado do povo” muito popular, ganha muito dinheiro e se fixa num dos mais ricos bairros de Paris. Antes disso, ele já pusera a mão na fortuna do sogro, ao se casar com a filha de um médico socialista e político. Logo cedo, adere ao Partido Socialista, da corrente influenciada por Louis Blanc, revolucionário de 1848 (contra a monarquia) e se converte em ardoroso pacifista, na contracorrente da investida fulgurante do imperialismo francês na Indochina. Em 1921 elege-se como prefeito de Aubervilliers, contra os comunistas, fazendo-se ver como vitrine socialista ao mesmo tempo em que se entrega a seu vício solitário - uma desabrida venalidade. Elege-se mais de uma vez pela esquerda socialista e busca acercar-se sempre mais da direita. Está pronto para alçar-se à grande política. Já detentor de fortuna fabulosa, em companhia de Pétain visita a Broadway, em Nova York, em 1931, onde é aclamado pela multidão. No mesmo ano, é recebido calorosamente em Berlim por representante do partido que irá elevar Hitler ao III Reich.
Em 1935, como ministro das Relações Exteriores, frente à ameaça alemã, Laval negocia uma aliança com a Itália de Mussolini e com a URSS de Stalin. A sua bandeira ideológica é uma biruta de aeroporto, que busca o vento do lado mais favorável, sem nenhuma coerência e sem nenhum escrúpulo, o que faz dele um trapaceiro contumaz.
Algumas páginas da história à frente, já na ocupação da França pelos nazistas, Laval se revela em 1942 -1943 um ativo colaboracionista na caça aos comunistas, na entrega de judeus, na imposição do trabalho obrigatório a serviço dos alemães e na perseguição policial aos militantes da Resistência. Em 1943, ele cria a Milícia francesa. A lista de malfeitos, perseguições, achaques, golpes de mão e golpes a mão armada, como ministro “plenipontenciário” e chefe da milícia e da polícia, Pierre Laval constrói na França uma carreira que faria inveja Mijair.
Vencido Hitler, Pierre Laval é detido, condenado por alta traição e executado por um pelotão de fuzilamento.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

A derrota do neoliberalismo no Chile lançou uma pá de cal na sabença do ECONOMISTA como condutor dos povos à frente dos políticos

 A derrota do neoliberalismo no Chile lançou uma pá de cal na sabença do ECONOMISTA como condutor dos povos à frente dos políticos

Nivaldo T. Manzano (26/10/20)

A emergência do ECONOMISTA, como profissional que detém o segredo matemático de desatar os nós POLÍTICOS criados pela sociedade de classes, data do golpe de Pinochet (1973), desenhado na Universidade de Chicago. Assim como um novo Moisés, ele havia chegado para conduzir os povos na travessia do mar, sem molhar os pés. Até então, o economista era um profissional que sabia mais matemática do que o contador. E o seu prestígio nas editorias de Economia dos jornais era nenhum. A editoria de Economia nos jornais foi a última a ser criada (metade dos anos 1960).
Foi somente por ocasião do golpe chileno que o economista foi alçado no mundo ao plano das profissões mais prestigiadas, contígua à dos deuses do Olimpo (Lembra-se da ascensão esplendorosa do economista e mago Delfim Netto, pai do "milagre econômico", a partir de 1967?) Nessa condição, os economistas passaram a DITAR a Política para os políticos. Como declarou ainda recentemente um ministro da Alemanha, "o voto não pode mudar a política econômica". Ou seja, ponha-se fim à democracia, como condição para salvar o Capital.
O fracasso do neoliberalismo no Chile lançou uma pá de cal no economista como condutor dos povos. .

Assim como na Bolívia, no Chile o marxismo de viés economicista foi derrotado.

 Assim como na Bolívia, no Chile o marxismo de viés economicista foi derrotado.

Nivaldo T. Manzano (26/10/20)

Uma vitória do plebiscito do Chile que não pode ser esquecida: Os indígenas Mapuche terão a sua etnia reconhecida e e direito de votar a nova Constituição. Assim como na Bolívia, os ameríndios integram-se ao sistema político, para corrigir o sistema representativo apodrecido pela corrupção em toda parte. É de sua tradição a representação delegada (consulta do parlamentar à comunidade a cada voto), gestão descentralizada e autogoverno, como meio de imprimir eficácia às políticas públicas e de controlar a corrupção.
A renovação´ do sistema político mediante a contribuição dos povos pré-colombianos consiste em associar a dimensão cultural à dimensão econômica, como instrumento de mobilização e ação política. No passado, ao propor o reconhecimento de tal simbiose, o peruano José Carlos Mariátegui, intelectual e patrono do marxismo na América Latina, foi expulso do movimento socialista por determinação da Terceira Internacional, controlada por Stalin.

domingo, 25 de outubro de 2020

Como fazer dinheiro do nada: Assim os EUA assumiram o controle da economia mundial.

Como fazer dinheiro do nada: Assim os EUA assumiram o controle da economia mundial.

Na véspera de assumir a presidência do FED (Federal Reserve) (1979 – 1989) Paul Volcker, em palestra na Warwick University, na Grã-Bretanha, afirmou o seguinte (ipsis verbis): “O controle da desagregação da economia mundial é de nosso interesse”. Ou seja, diante de um déficit crescente no balanço de pagamentos dos EUA, sem perspectiva de corrigi-lo, um fato inédito na sua história, Paul Volcker propôs o seguinte: “Em vez de cuidar de nosso déficit, que não tem jeito, vamos administrar o superávit dos outros” (Alemanha, França, Holanda, Japão... etc e atualmente China). E assim ocorreu: os países ricos passaram a investir 70% de seus lucros em letras do Tesouro USA e em outros papeis de Wall Street: Essa “fascinante solução” foi responsável pela “estabilidade” da economia mundial até 2008, quando adveio a crise global, na qual estamos metidos até hoje.

Ouça o brilhante economista e ex ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, aqui, em inglês https://www.youtube.com/watch?v=gGeevtdp1WQ 

O Capitalismo está devorando a democracia?

 O Capitalismo está devorando a democracia?

Houve um tempo, não distante de nós, em que não se separava o poder político do poder econômico. Nas monarquias, o poder econômico adentrou o poder político pelas mãos dos banqueiros, para endividar o Estado. Até então, o rei detinha em suas mãos, de maneira absoluta ou não, concentrado o poder político, que subordinava o poder econômico, o poder judiciário, o poder legislativo , o poder militar (funções ainda mão separadas do cetro real). Hoje, com o neoliberalismo, somos advertidos pela Casa Grande de que podem manter-se as eleições na democracia, mas o voto não pode mudar a política econômica. Daí a razão dos golpes recentes na Bolívia e no Brasil contra governos que, eleitos pelo voto, ousaram desafiar a cartilha neoliberal .
Aqui, a discussão do problema pelo conhecido economista e professor Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia. Varoufakis é um dos conferencistas mais requisitados no mundo. Aqui ele responde à indagação : Capitalism devouring Democracy?

https://www.youtube.com/watch?v=gGeevtdp1WQ