sábado, 20 de março de 2021

A Comuna, o Estado e a revolução Analisando os textos de Marx sobre a Comuna, Daniel Bensaïd defende um acerto de contas com o mito de um Marx ultra-jacobino, hiper-estatista e centralizador ao extremo

, Daniel Bensaïd defende um acerto de contas com o mito de um Marx ultra-jacobino, hiper-estatista e centralizador ao extremo

 Muitos leitores de Marx lhe criticam por um implacável determinismo econômico. É necessário acreditar que isso se dá, na maioria dos casos, por ignorância de seus escritos políticos, como sua trilogia sobre As lutas de classes na França, O 18 de brumário de Luís Bonaparte e A guerra civil na França.1 Se vinte anos separam o primeiro texto do último, não deixam de constituir uma trilogia na qual se desenha uma concepção da política, da representação, do Estado, da democracia. Estes três textos constituem, até certo ponto, a outra cara da crítica marxista da modernidade, frequentemente ignorada por leitores tapados pelo grande sol da crítica da economia política – O Capital.

Da República “tout court” à República social

“Ao impor a República”, o proletariado parisiense conquistou em 1848 o terreno para sua própria luta pela emancipação, mas “de nenhuma maneira a própria emancipação”, já que a classe operária era “ainda incapaz de realizar sua própria revolução”.Michelet o havia pressentido a partir de 1846: “Meio século bastou para ver a burguesia sair do povo, elevar-se sobre sua atividade e sua energia e, repentinamente, em meio a seu triunfo, desabar sobre si mesma”.3 Assim amadurecia “o gérmen obscuro desta revolução desconhecida” que se percebia nos sans-culotterie parisienses de 1793: “Os republicanos clássicos tinham atrás de si um espectro que marchava rapidamente e que havia ganhado velocidade: o republicanismo romântico de centenas de cabeças, de mil escolas, que chamamos hoje socialismo”.4 É este mesmo espectro que vem atormentar a Europa nas primeiras linhas do Manifesto do Partido Comunista, redigido nos últimos dias de 1847, e que fará sua irrupção algumas semanas mais tarde sobre o cenário europeu.

Marx data o nascimento oficial da II República em 4 de maio. Mas o lugar e a data de seu nascimento real, “não é a revolução de fevereiro, mas sim a derrota de junho”. O proletariado vencido força a República apenas declarada a aparecer como o Estado cujo objetivo declarado era “a perpetuação da escravidão assalariada”: “a burguesia não tem rei, a forma de seu reino é a República” que realiza em seu “reino anônimo” “a síntese da Restauração e da Monarquia de Julho”. Em sua forma acabada, a República constitucional realiza a coalizão de interesses do partido da ordem. Não haverá mais a República “tout court” [a simples República]. Será social ou não será mais do que uma caricatura de si mesma, a máscara de uma nova opressão.

No momento em que Marx publica O 18 de brumário, Blanqui ⎼ encarcerado na fortaleza de Belle-Ille ⎼ escreve algo similar a seu amigo Maillard: “O que é então que somos obrigados a fazer depois de tanto tempo, senão a guerra civil? E contra o que? Ah! Eis aqui precisamente a questão que esforça-se para confundir na obscuridade das palavras; porque se trata de impedir que as duas bandeiras inimigas se coloquem diretamente em frente uma da outra […]”5. E é por isso que os socialistas devem, de agora em diante, se distinguir dos simples republicanos burgueses que querem “reiniciar fevereiro, mas nada mais”.

Em A luta de classes na França e em O 18 de brumário, Marx começou a extrair, invocando o nome de Blanqui, as implicações estratégicas da prova de junho de 1848: “[…] o proletariado se agrupa cada vez mais em torno do socialismo revolucionário, em torno do comunismo, para o qual a própria burguesia inventou o nome de Blanqui; esse socialismo é a declaração da revolução permanente”.6 Fórmula famosa, que retoma em forma de consigna [palavra de ordem] na conclusão de sua Carta à Liga dos Comunistas: “O ‘grito de guerra’ dos trabalhadores deve ser, de agora em diante, ‘a revolução permanente’!” Consigna enigmática, que une, problematicamente juntos, o ato e o processo, o momento e a duração, o acontecimento e a história.

A revolução permanente tem uma dimensão imediatamente europeia. Os territórios nacionais são os campos de batalha parciais de uma guerra civil de maior amplitude. Até o esmagamento, entre 1918 e 1923, das revoluções alemã, húngara e italiana, os revolucionários europeus, começando pelos bolcheviques, pensaram sua ação nesta representação europeia do espaço estratégico. É a conclusão que tira Marx, a partir de As lutas de classes na França: “A nova Revolução francesa se vê obrigada a deixar imediatamente o solo nacional e a conquistar o terreno europeu, o único onde pode se realizar a revolução social do século XIX”, já que “ninguém poderia afirmar que o mapa da Europa seja definitivo”.7 A relação entre guerra e revolução, então, se inscreve de imediato nesta perspectiva continental.

Introduzindo, em 1891, na reedição do texto de Marx sobre A guerra civil na França, Engels volta a profetizar: “A anexação das províncias francesas não empurrou a França para os braços da Rússia? E não paira diariamente sobre nossas cabeças a espada de Dâmocles de uma guerra em cujo primeiro dia todas as alianças firmadas entre os soberanos se dispersarão ao vento como farelo, uma guerra da qual nada se sabe ao certo a não ser a absoluta incerteza de sua origem*, uma guerra de raças que sujeitará a Europa inteira à devastação por obra de 15 ou 20 milhões de homens armados”. Uma guerra de raças! Assim como da guerra surgiu a revolução da Comuna, da Grande Guerra surgirá a revolução de Outubro e da Segunda Guerra Mundial as revoluções chinesa, grega, vietnamita e iugoslava, mas a qual preço: sobre um monte de ruínas e cadáveres cada vez mais imponente, cujo peso morto pesará cada vez mais sobre a vida e o cérebro dos (sobre)viventes, até o ponto de transformar em pesadelos os sonhos de emancipação.

Um novo Leviatã burocrático

1850-1871: De As lutas de classes em França A guerra civil na França. Entre os dois escritos, ascensão, declínio e queda do Império. Como muito bem destacou Maximilien Rubel, essa sequência oferece a Marx o material para meditar sobre este estranho fenômeno político moderno que é o “bonapartismo” e reconsiderar através dele a questão do Estado e sua relação com a sociedade civil.8

Ressurge assim, à luz da braseira da Comuna, a crítica da burocracia, iniciada a partir de 1843 no Manuscrito de Kreuznach [Crítica da filosofia do direito de Hegel] e deixada em construção ou retomada somente de maneira esparsa em escritos de circunstância. O espírito corporativo do antigo regime sobrevive, escrevia então, na burocracia como produto da separação entre Estado e sociedade civil: “O mesmo espírito que, no interior da sociedade, cria a corporação, cria, no Estado, a burocracia […] A burocracia é o formalismo de Estado da sociedade civil”. Ela é “a consciência do Estado, a vontade de Estado, o poder de Estado, personificada em uma corporação, formando uma sociedade particular e fechada dentro do Estado”. Ela “não pode ser um tecido de ilusões práticas: é a ilusão mesma do Estado”, e o espírito burocrático é “um espírito fundamentalmente jesuítico e teológico: os burocratas são jesuítas do Estado e teólogos do Estado; a burocracia é a República sacerdotal”.9 E quanto ao burocrata “tomado individualmente”, o fim do Estado “se converte em seu objetivo privado: preocupado em ascender aos postos mais elevados, é o carreirismo”. A supressão da burocracia só seria possível “se o interesse geral se tornasse efetivamente ⎼ e não, como em Hegel, no pensamento, na abstração ⎼ o interesse particular; o que só pode ser feito se o interesse particular se torna efetivamente o interesse geral”. Forma finalmente encontrada da emancipação, a Comuna de Paris aparece precisamente aos olhos de Marx como a crítica em ato do Estado burocrático e como o interesse particular que se tornou efetivamente no interesse geral. De modo que “a maior medida” tomada pela Comuna não é uma invenção doutrinária ou um paraíso artificial, não é o estabelecimento de um falanstério ou de uma Icária, mas a “sua própria existência”, incluindo seus limites e contradições. A Comuna foi assim “a antítese direta do Império” ou também “a forma positiva da República social”, sonhada desde os Três Gloriosos de 1830 e as jornadas sangrentas de junho de 1848.

O poder de Estado é “dali em diante abolido”, escreve então Marx a respeito das seis semanas de liberdade comunal. Abolido? A palavra parece contradizer as polêmicas contra Proudhon ou Bakunin, nas quais Marx se opunha à ideia de que uma tal abolição, do trabalho assalariado ou do Estado, poderia ser decretada. Se tratava antes de um processo em que era necessário começar a reunir as condições para a redução do tempo de trabalho, a transformação das relações de propriedade, a modificação radical da organização do trabalho. O segundo esboço de A guerra civil na França matiza fortemente o que se pode entender por abolição. Enquanto “antítese direta do Império”, a Comuna “deveria ser um órgão de ação e não parlamentar, executivo e legislativo ao mesmo tempo”: “Em uma palavra, todas as funções públicas, mesmo as raras funções que haviam sido atribuídas a um governo central, deveriam ser assumidas por agentes comunais e colocadas, consequentemente, sob a direção da Comuna. É, entre outras coisas, um absurdo dizer que as funções centrais, não as funções de autoridade sobre o povo, mas as que são requeridas pelas necessidades gerais e ordinárias do país, não poderiam mais estar asseguradas. Estas funções deveriam existir, mas os próprios funcionários não poderiam mais, como no velho aparelho governamental, elevar-se sobre a sociedade real, porque as funções deveriam ser assumidas por agentes comunais e submetidas, consequentemente, a um controle verdadeiro. A função pública deveria deixar de ser uma propriedade pessoal […]”.10 Não se trata então de interpretar o definhamento do Estado como a absorção de todas suas funções na autogestão social ou na simples “administração das coisas”. Algumas destas “funções centrais” devem seguir existindo, mas como funções públicas sob controle popular. Neste caso, o definhamento do Estado não significa o definhamento da política ou sua extinção na simples gestão racional do social. Pode significar tanto a extensão do âmbito da luta política pela desburocratização das instituições como a colocação em deliberação permanente da coisa pública.

Escritos no calor do acontecimento, os textos sobre a Comuna permitem ajustar contas com o mito de um Marx ultra-jacobino, hiper-estatista e centralizador ao extremo, diante de um Proudhon girondino, libertário e descentralizador. Certamente, ele enfatiza que a constituição comunal, que quebra o poder do Estado moderno, “se tomou erroneamente como uma tentativa de romper em uma federação de pequenos Estados, conforme os sonhos de Montesquieu e dos Girondinos, esta unidade das grandes nações que, ainda que engendradas em sua origem pela violência, passou a ser agora um potente fator da produção social”. E se quis ver também erroneamente na Comuna “que quebra o poder do Estado moderno, […] uma lembrança da vida das comunas medievais” que precederam este poder de Estado.11 A centralização estatal pôde desempenhar um papel útil para remover os particularismos feudais e alargar o horizonte, logo para defender a revolução contra as conspirações do Antigo regime. Mas contra o Estado parasita e burocrático vitorioso e sua centralização governamental, Marx sustenta uma lógica de descentralização solidária em uma perspectiva de aliança entre os camponeses oprimidos pela Paris-capital e os trabalhadores parisienses oprimidos pela reação provincial: “Paris, capital das classes dominantes e de seu governo, não pode ser uma ‘cidade livre’, e a província não pode ser ‘livre’ porque Paris é a capital. A província só pode ser livre com a Comuna em Paris”.12 Este antagonismo entre a Paris-capital e a Paris-comuna é o cenário original de uma luta entre duas forças sociais e dois princípios políticos. As classes dominantes não cessam de querer esconjurar o espectro da Paris-comuna, várias vezes ressuscitado (em 1936 com as greves da Frente Popular, em 1945 com a insurreição e a Libertação de Paris, em 68 com sua greve geral e suas barricadas).

O que queria a Paris-comuna era “quebrar o sistema de unidade artificial que se opõe à verdadeira união viva da França”, pois a unidade imposta até então era “uma centralização despótica, ininteligível, arbitrária e onerosa”. A unidade política em torno da Comuna havia sido o contrário: “a associação voluntária de todas as iniciativas locais” e “uma delegação central das comunas federadas”.13 O Marx comunardo vai então até mesmo retomar, por sua conta, a fórmula de Montesquieu de uma República federativa concebida como “uma sociedade de sociedades que formam uma nova que pode crescer através de seus numerosos associados”.

O que é a ditadura do proletariado?

A Comuna como forma finalmente encontrada da emancipação ou da ditadura do proletariado, ou as duas, indissociavelmente unidas? Isso é o que declara Engels, vinte anos depois, na conclusão de sua introdução a A guerra civil na França: “Pois bem, senhores, querem saber que ditadura é essa? Observem a Comuna de Paris. Essa era a ditadura do proletariado”.14

Se, como declara Engels, a Comuna “era a ditadura do proletariado”, importa saber precisamente o que era a Comuna. Ela suprime “todos os mistérios e pretensões do Estado”, dotando-se de mandatários sob controle popular permanente, remunerados como operários qualificados. Sua medida mais importante é “sua própria organização, que se improvisou com o inimigo estrangeiro em uma porta e o inimigo de classe na outra”.15 A Comuna “não suprime a luta de classes”, mas representa “a libertação do trabalho”, como “condição fundamental de toda vida individual e social”. Cria assim “o ambiente racional” no qual pode começar ⎼ começar somente ⎼ a desenvolver-se a emancipação social.16 É “essa esfinge que perturba o entendimento burguês”: é simplesmente “ a forma sob a qual a classe operária toma o poder político”.17 Diante da violência despótica dos possuidores, Marx retoma então “o audacioso lema  revolucionário”: “Abaixo a burguesia! Ditadura da classe operária!”.18

Esta forma, é necessário destacar tanto como é fácil esquecer, mantém o sufrágio universal e a representação territorial das comunas e bairros: “A Comuna devia ser composta de conselheiros municipais dos diversos distritos (como Paris foi o iniciador e o modelo, essa será nossa referência) eleitos por sufrágio de todos os cidadãos, responsáveis e revogáveis a qualquer momento. A maioria desta assembleia se compunha naturalmente de operários ou de representantes conhecidos da classe trabalhadora”.19 Na Carta de 31 de maio de 1871 ao Conselho geral da AIT, Marx insiste: “o sufrágio universal devia servir ao povo constituído em comunas” e “nada podia ser mais estranho ao espírito da Comuna do que substituir o sufrágio universal por uma investidura hierárquica. Não prevê restrição baseada em critérios sociais ao direito de voto. Expressa somente sua convicção de que a maioria política corresponderá “naturalmente” à maioria social. Quanto à relação entre os representantes e representados, os mandatários e os mandantes, trata-se de um controle permanente concretizado pelos princípios de responsabilidade e revogabilidade. Os representantes têm de permanentemente prestar conta de seus atos e em caso de litígio com os representados, colocar em jogo seu mandato. Nesta passagem do segundo esboço de A guerra civil na França, não faz menção ao mandato imperativo, como no caso da Carta à AIT de 31 de maio de 1871, onde se menciona como uma constatação que, até nas menores aldeias, as comunas rurais deveriam “administrar seus assuntos por uma assembleia de delegados, em qualquer momento revogáveis e vinculados pelo mandato imperativo dos eleitores”. 20 Tanto a revogabilidade é consequência da responsabilidade do eleito frente a seus eleitores, como o mandato imperativo acaba por paralisar a deliberação democrática: se o mandatário não é mais do que o porta-voz do interesse particular de seus mandantes, sem possibilidade de modificar seu ponto de vista em função da discussão, nenhuma vontade geral pode surgir, a adição dos interesses particulares ou corporativos se neutraliza, e a esterilidade do poder constituinte termina por fazer a cama para uma burocracia que se eleva sobre essa vontade fragmentada enquanto pretende encarnar o interesse geral.

Se para saber o que era a ditadura do proletariado no espírito de Marx e Engels era suficiente observar a Comuna, essa “ditadura” aparece muito respeitosa do sufrágio universal e do pluralismo político. Suas primeiras medidas consistem em uma desburocratização e desmilitarização do Estado Leviatã, em disposições que se enquadrariam no que se chamaria hoje de uma democracia participativa, e em medidas elementares de justiça social. Não tem muito de um poder ditatorial e [tem] muito pouco de um regime de exceção, exceto a suspensão da ordem legal existente em prol do exercício do poder constituinte inalienável de um povo soberano.

A Comuna, o Estado e a revolução

Para Lênin como para Marx e Engels, a questão do Estado é então indissociável daquela da ditadura do proletariado, como organização da força e da violência, “tanto para reprimir a resistência dos exploradores como para dirigir a grande massa da população”. Se essa “ditadura” tem um caráter de classe, não se concebe no entanto como uma ditadura corporativa. Se trata de tomar o poder “para conduzir o povo inteiro ao socialismo”. A fórmula evoca o conceito de hegemonia, que terá lugar na social-democracia russa para definir a relação entre o proletariado e o campesinato na aliança operária e camponesa, muito antes de Gramsci lhe dar um novo alcance estratégico. Já se trata de formar um bloco histórico, sem esquecer que “pelo papel que desempenha na grande produção, o proletariado é o único capaz de ser o guia de todas as classes trabalhadoras exploradas mas incapazes de uma luta independente pela sua libertação”.

Depois da tomada do poder, o Estado subsiste inicialmente, mas “como Estado burguês sem burguesia”. Esta fórmula paradoxal servirá de novo a Lênin para pensar de maneira inédita o tipo de Estado resultado da revolução russa. Mas um Estado burguês sem burguesia não é ao mesmo tempo um Estado proletário. O Estado burguês sem burguesia vai, assim, se tornar o terreno sobre o qual vão desabrochar os perigos profissionais do poder e o refúgio no qual se desenvolve uma nova forma de excrescência burocrática parasitária da sociedade. Em O Estado e a revolução, Lênin rompe radicalmente com o “cretinismo parlamentar” do marxismo ortodoxo, mas conserva a ideologia gestionária. Assim, imagina-se ainda que a sociedade socialista “não será mais do que um escritório, uma oficina, com uma igualdade de trabalho e igualdade de salário”. Tais fórmulas lembram certas páginas onde Engels sugere que o definhamento do Estado significará também o definhamento da política em favor de uma simples “administração das coisas”, cuja ideia se empresta dos saint-simonianos; isto é, a uma simples tecnologia de gestão do social, onde a abundância presumida dispensaria o estabelecimento de prioridades, de debater as alternativas, de fazer viver a política como espaço de pluralidade.

Como ocorre frequentemente, uma utopia de aparência libertária se transforma em uma utopia autoritária. O sonho de uma sociedade que não seria “nada mais que um único escritório e uma única oficina”, com efeito, não tomaria o lugar de uma boa organização administrativa. Do mesmo modo, um “Estado proletário”, concebido como um “cartel de todo o povo”, pode facilmente conduzir à confusão totalitária da classe, do partido e do Estado. Ao querer torcer o pescoço ao legalismo institucional da II Internacional, Lênin torce o bastão da crítica no outro sentido. Rompe com as ilusões parlamentares, mas se interdita ao mesmo tempo de pensar as formas políticas do Estado de transição.

É este o ponto cego que Rosa Luxemburgo vai colocar em evidência. Se ela assume plenamente a noção de ditadura do proletariado em sentido amplo ⎼ “nenhuma revolução foi finalizada de outro modo  que não pela ditadura de uma classe” ⎼, também avisa os social-democratas russos: “Ao que parece, nenhum social-democrata se deixa levar pela ilusão de que o proletariado possa se manter no poder. Se pudesse se manter, então isso acarretaria o domínio de suas ideias de classe. Suas forças não são suficientes atualmente, porque o proletariado, no sentido mais estrito da palavra, constitui precisamente, no império russo, a minoria da sociedade. No entanto, a realização do socialismo por uma minoria está incondicionalmente excluída, pois a ideia do socialismo exclui justamente a dominação de uma minoria”. Este artigo de 1906 prefigura e anuncia o famoso folheto de 1918 sobre a Revolução Russa. Contrariamente aos socialistas ortodoxos da social-democracia alemã, saúde a revolução e os bolcheviques que “ousaram” abrir a via ao proletariado internacional ao tomar o poder. Destaca as responsabilidades que resultam para os revolucionários europeus, a começar pelos alemães: “Na Rússia, o problema não podia ser mais do que colocado. Não podia ser solucionado na Rússia. Neste sentido, o futuro pertence em toda parte ao bolchevismo”. O futuro da revolução russa se joga então, em larga medida, na arena europeia e mundial.

No entanto, os bolcheviques russos tiveram também sua parte de responsabilidade. Rosa critica suas medidas relativas à reforma agrária e a questão nacional. Ao criar não uma propriedade social, mas uma nova forma de propriedade privada agrária, o parcelamento dos grandes domínios “aumenta as desigualdades sociais no campo” e gera massivamente uma nova pequena-burguesia agrária cujos interesses entrarão inevitavelmente em contradição com os do proletariado. Do mesmo modo, a aplicação generalizada do direito à autodeterminação para as nacionalidades do império czarista só resulta na “autodeterminação” das classes dirigentes destas nacionalidades oprimidas, pois “o separatismo” é “uma armadilha puramente burguesa”. Lênin e seus amigos “inflaram artificialmente o preciosismo de alguns professores universitários e de alguns estudantes para fazer um fator político”. Em matéria de política agrária e a política das nacionalidades, os bolcheviques haviam pecado por excesso de ilusão democrática, enquanto, inversamente, subestimaram o desafio democrático da questão institucional.A questão da Constituinte

É o famoso debate sobre a dissolução da Assembleia Constituinte. Rosa não é surda aos argumentos segundo os quais era necessário “romper essa constituinte caduca”, e que portanto “nasceu morta”, que estava atrasada quanto à dinâmica revolucionária, tanto por suas modalidades eletivas como pela imagem deformada que dava do país. Mas então, “era necessário promover sem demora novas eleições para uma nova Constituinte!”. No entanto, Lênin e Trótski (em seu folheto de 1923 sobre As lições de outubro) excluem por princípio toda forma de “democracia mista”, defendida pelos austro-marxistas.

Para Trótski, aqueles que, no partido, fetichizam a Constituinte, são os mesmo que, segundo ele, haviam vacilado pelo legalismo diante da decisão da insurreição. Se, em outubro, a insurreição foi “canalizada pela via soviética e associada ao 20º congresso dos sovietes”, não se tratava, segundo ele, de uma questão de princípio, mas “de uma questão puramente técnica, ainda que de uma grande importância prática”. Esse choque entre a decisão militar e a instituição democrática é propício à confusão dos papéis entre o partido e o Estado, mas também entre o estado de exceção revolucionário e a norma democrática. Esta confusão se eleva a seu auge em Terrorismo e comunismo, folheto redigido também na urgência da guerra civil que é a forma paroxística do estado de exceção.

A abordagem de Rosa Luxemburgo é diferente. Aceita os argumentos formulados pelos bolcheviques para dissolver a Constituinte, mas se preocupa com essa confusão entre a exceção e a norma: “O perigo começa ali onde, fazendo da necessidade virtude, eles [os dirigentes bolcheviques] procuram fixar em todos os pontos da teoria uma tática que lhes foi imposta por condições fatais e propô-la ao proletariado internacional como modelo de tática socialista”. É isso que está em jogo, para além da questão da Constituinte, é a vitalidade e a eficácia da democracia socialista mesma. Rosa destaca a importância da opinião pública, que não poderia se reduzir a um engodo ou a um teatro de sombras. Toda a experiência histórica “nos mostra ao contrário que a opinião pública irriga constantemente as instituições representativas, as penetra, as dirige. Como explicar então as brincadeiras divertidíssimas que, em todo Parlamento burguês, os representantes do povo às vezes nos deixam ver, quando, animados subitamente por um espírito novo, fazem ouvir entonações perfeitamente inesperadas? Como explicar que, de vez em quando, múmias ressecadíssimas ganhem ares de juventude, que os pequenos Sheidemann inteiramente desnudos encontrem repentinamente em seu coração entonações revolucionárias quando a cólera ressoa nas fábricas, nas oficinas e nas ruas? Essa ação constantemente viva da opinião e da maturidade política das massas deveria, pois, justo no período revolucionário, ser abandonada diante do esquema rígido das insígnias de partidos e das listas eleitorais? Pelo contrário! É justamente a revolução que, por sua efervescência ardente, cria essa atmosfera política vibrante, receptiva, que permite às ondas da opinião pública, ao pulso da vida popular atuar instantaneamente, milagrosamente sobre as instituições representativas”. Ao invés de comprimir este “pulso da vida popular”, os revolucionários devem deixá-lo prevalecer, já que constitui um poderoso corretivo ao pesado mecanismo das instituições democráticas: “E se o pulso da vida política da massa bate mais rápido e mais forte, sua influência se faz então mais imediata e mais precisa, apesar dos clichês rígidos dos partidos, das listas eleitorais obsoletas, etc. Certamente, toda instituição democrática, como toda instituição humana, tem seus limites e suas lacunas. Mas o remédio que encontraram Lênin e Trótski – suprimir diretamente a democracia – é pior do que o mal que supõem curar: causa a obstrução da fonte viva de onde teriam podido brotar os corretivos às imperfeições congênitas das instituições sociais, a vida política ativa, enérgica, sem entraves, da grande maioria das massas populares”.

As advertências de Rosa ganham então, retrospectivamente, todo o seu sentido. Temia em 1918 que as medidas de exceção temporariamente justificáveis se convertessem na regra em nome de uma concepção puramente instrumental do Estado como aparelho de dominação de uma classe sobre outra. A revolução consistiria então, somente, em fazê-lo trocar de mãos: “Lênin disse que o Estado burguês é um instrumento de opressão da classe trabalhadora, o Estado socialista um instrumento de opressão da burguesia, que não é, num certo sentido, mais do que um Estado capitalista invertido. Essa concepção simplista omite o essencial: para que a classe burguesa possa exercer sua dominação, não necessita ensinar e educar politicamente o conjunto da massa popular, ao menos não além de certos limites rigorosamente traçados. Para a ditadura proletária, esse é o elemento vital, a respiração sem a qual não ela poderia existir”.

A nova sociedade se inventa sem manual de instruções. O programa do partido só oferece “os grandes marcos que indicam a direção”, e ainda estas indicações só tem um caráter indicativo, de baliza e advertência, mais do que um caráter prescritivo. Certamente, o socialismo “pressupõe uma série de medidas coercitivas contra a propriedade”, etc., mas, se “se pode decretar o aspecto negativo, a destruição”, não ocorre o mesmo com o “aspecto positivo, a construção: terra nova, mil problemas”. Para resolver esses problemas, são necessárias a liberdade mais ampla, a atividade mais ampla, e da mais ampla parte da população. Não é a liberdade, mas o terror que desmoraliza: “Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida se murcha em todas as instituições públicas, vegeta, e a burocracia resta como o único elemento ativo”. Em O Estado e a revolução, o mesmo Lênin entreviu esta funcionalidade social da democracia política. Para alguns marxistas, para os quais o direito de autodeterminação das nações oprimidas era irrealizável sob o capitalismo e se tornaria supérfluo sob o socialismo, respondia de modo antecipado: “Esse raciocínio, supostamente espiritual mas na realidade errôneo, poderia se aplicar a toda instituição democrática, já que um democratismo rigorosamente consequente é irrealizável no regime capitalista e, no regime socialista, toda democracia terminará por ser extinta. […) Desenvolver a democracia até o final, buscar as formas deste desenvolvimento, submetê-las à prova da prática, esta é uma das tarefas essenciais da luta pela revolução social. Tomado separadamente, nenhum democratismo, qualquer que seja, levará ao socialismo, mas na vida, o democratismo jamais será “tomado separadamente”. Ele será “tomado de conjunto”; exercerá também uma influência sobre a economia, estimulará sua transformação”. 21

Notas

1 As lutas de classes na França (1850), Œuvres politiques, tomo I, La Pléiade, 1994; O 18 de brumário de Luís Bonaparte, Paris, coleção Folio, 2002; A guerra civil na França, Paris, Edições sociais, 1968.
2 Marx, As lutas de classes na França, pp. 244-246.
3 Michelet, O Povo. Em 1832, Blanqui já declarava, em seu informe à Sociedade dos Amigos do povo: “Não se deve dissimular que há uma guerra de morte entre as classes que compõem a nação” (Blanqui, São necessárias as armas, Paris, La Fabrique, 2007, p. 80).
4 Michelet, História da Revolução francesa, Paris, Laffont, tomo II, p. 474.
5 Blanqui, opcit., p. 176.
6 Marx, As lutas de classes na França, p. 324 e 262. Em sua décima segunda tese sobre o conceito de história, Walter Benjamin denunciará em bloco a social-democracia por, no decurso de três décadas, quase ter chegado a apagar o nome de um “Blanqui, cujos acentos de bronze abalaram o século XIX”.
7 Engels, O Pó e o Reno [Le Pô et le Rhin].
8 Ver Maximilien Rubel, Karl Marx diante do bonapartismo, publicado em Karl Marx, As lutas de classes na Françaopcit., Paris, Folio, 2002.
9 Marx, Crítica da filosofia do direito de Hegel, Paris, 10-18, 1976, p. 143.
10 Marx, A guerra civil na França, p. 260.
11 Ibid., p. 44.
12 Ibid., p. 227.
13 Ibid., p. 231.
14 Ibid., p. 302.
15 Ibid., p. 215.
16 Ibid., p. 216.
17 Ibid., p. 256.
18 As lutas de classes na França, p. 261.
19 Ibid., p. 261.
20 Em Lênin, particularmente em O Estado e a revolução, encontram-se os princípios de responsabilidade e revogabilidade, mas não o de mandato imperativo.
21 Lênin, O Estado e a revolução, em Œuvres, tomo 25, éditions de Moscou, p. 489.


* Para este trecho citado de Engels, retiramos a tradução de “A guerra civil na França” (Boitempo, 2011, p. 190). Comparando com a citação francesa, feita por Bensaïd, há uma diferença que merece ser indicada. Nela se lê: “l’absolue incertitude de son issue”. Ou seja, “a absoluta incerteza quanto a seu resultado”, e não origem (grifos nossos) (N.T.)

Resumo de contribuição apresentada por Daniel Bensaïd no “ciclo Marx”, na Universidade de Verão da LCR, ocorrida em Port Leucate de 24 a 29 de agosto de 2007. Traduzido do espanhol por Pedro Barbosa para o Blog da Boitempo.

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Em comemoração aos 150 anos da Comuna de Paris, anunciamos hoje a pré-venda de O caderno azul de Jenny Marx, de Michael Löwy e Olivier Besancenot

A obra acompanha Karl Marx e sua filha Jenny Marx em uma fictícia viagem a Paris, durante os acontecimentos da Comuna. Os autores reconstroem o que seria o caderno azul de Jenny, uma espécie de diário escrito durante a passagem da dupla pela cidade.
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Durante duas semanas, os dois encontrarão os Communards. Para não ser reconhecido, Marx se disfarça, tinge o cabelo de preto e encurta sua barba, na tentativa de passar despercebido. Jenny descreve os encontros de Marx com diferentes personagens históricos, como Leo Frankel, Eugène Varlin, Charles Longuet, Elisabeth Dmitrief e Louise Michel. Ele fica fascinado com a experiência que observa e descobre uma nova forma de fazer política.


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Dicas de leitura da Boitempo para aprofundar a reflexão:

Centelhas, de Daniel Bensaïd e Michael Löwy

A guerra civil na França, de Karl Marx

As lutas de classes na França de 1848 a 1850de Karl Marx

O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx

O Estado e a revolução, de Lênin

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Daniel Bensaïd nasceu em Toulouse, na França, em 1946. Foi filósofo e dirigente da Liga Comunista Revolucionária, e um dos militantes mais destacados dos movimentos de Maio de 1968. Professor de Filosofia da Universidade de Paris VIII, faleceu no dia 12 de janeiro de 2010, aos 64 anos. Pela Boitempo, lançou Os irredutíveis: teoremas de resistênica para o tempo presente (2008), Marx, manual de instruções (2013), seu último livro escrito em vida, e, junto com Michael Löwy, o mais recente Centelhas: marxismo e revolução no século XXI, organizado por José Correia Leite

sexta-feira, 19 de março de 2021

Putin dá resposta épica a Biden, que o chamou de assassino

 Putin dá resposta épica a Biden - e isto ficará inscrito na História como epígrafe de sua genialidade como o maior estadista da atualidade, ou da Segunda Guerra Fria.


https://www.youtube.com/watch?v=LlVHBCg4Jp4

Raízes fascistas da CIA e a ‘primeira’ Guerra Fria Por Cynthia Chung Redação Paraíso Brasil 17 de março de 2021

Raízes fascistas da CIA e a ‘primeira’ Guerra Fria

Por Cynthia Ch

O passado resolvido ‘por cima’, mal resolvido, voltou.
Estamos outra vez em 1979. Está tudo pronto para que
a ‘Justiça’ re-absolva os golpistas-de-sempre e re-autoabsolva-se…”

Deputado José Genoíno, em entrevista ao canal GGN, 10/3/2021 (editado)

Em 1998, o Grupo de Trabalho Interagências de Crimes de Guerra Nazistas e Registros Governamentais Imperiais Japoneses (IWG), a pedido do Congresso, lançou o que se tornou o maior esforço para levantar o sigilo sobre um só assunto, ordenado pelo Congresso em toda a história. Como resultado, mais de 8,5 milhões de páginas de registros foram abertas ao público, em cumprimento da Lei de Divulgação de Crimes de Guerra Nazistas (P.L. 105-246) e da Lei de Divulgação do Governo Imperial Japonês (P.L. 106-567). Esses registros incluem arquivos operacionais do Escritório de Serviços Estratégicos, ESS (ing. OSS), da CIA, do FBI e da inteligência do Exército. O IWG emitiu três relatórios para o Congresso entre 1999 e 2007.

Estas informações lançam luz importante sobre o período e confirmam um dos maiores segredos da Guerra Fria – o uso que a CIA deu a extensa rede de espionagem nazista, para mover vasta campanha secreta contra a União Soviética.

Esta campanha contra a União Soviética, que começou enquanto a 2ª Guerra Mundial ainda rugia, sempre aparece como ‘explicação’ para a tolerância que Washington sempre manifesta com abusos dos direitos civis e outros atos criminosos praticados em nome do anticomunismo – como se viu nas atividades do McCarthyismo e do Programa de Contrainteligência (ing. COINTELPRO, desde 1956, não se sabe até quando). Por causa das decisões fatídicas tomadas naquele momento, a CIA não só teve rédea solta para executar intervenções antidemocráticas em todo o mundo, como também para intervenções antidemocráticas em solo norte-americano, o que continua até os dias de hoje.

Com a origem sombria da Guerra Fria vindo à tona, surgem perguntas: “Quem dirige hoje a política externa e a inteligência dos EUA? Essa ‘oposição’ pode ser justificada? E a que interesses serviu e continua a servir a Guerra Fria? O presente ensaio é o primeiro, de três, que abordará estas questões.

Allen Dulles, o agente duplo que criou o Império Americano de Inteligência

Allen Dulles nasceu em 7/4/1893 em Watertown, Nova Iorque. Formou-se em Princeton com mestrado em política em 1916 e no mesmo ano entrou para Serviço Diplomático. Pouco antes de os EUA entrarem na 1ª Guerra Mundial, Dulles foi transferido para Berna, Suíça, com todo o pessoal da embaixada. De 1922 a 1926, serviu como chefe da divisão de Oriente Próximo do Departamento de Estado.

Em 1926, formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade George Washington e aceitou um emprego na Sullivan & Cromwell, a mais poderosa firma de advocacia para empresas do país, da qual seu irmão mais velho (cinco anos mais velho) John Foster Dulles era sócio. Curiosamente, Allen só foi admitido na Ordem dos Advogados em 1928, dois anos depois de começar a trabalhar no escritório do irmão – o que aparentemente não o impediu de passar seis meses em Genebra como “assessor jurídico” da Conferência de Armamento Naval.

Em 1927, tornou-se Diretor do Conselho de Relações Exteriores, CRE, (cujos membros, destacados empresários e formuladores de políticas, tiveram papel fundamental na formação do então emergente [e hoje reemergente – como farsa] – consenso da Guerra Fria), primeiro diretor desde a fundação do Conselho em 1921. Tornou-se rapidamente amigo de Hamilton Fish Armstrong, Princetoniano como ele e editor da revista do CRE, Foreign Affairs. Juntos, escreveram dois livros: Podemos ser neutros? (1936) e EUA podem continuar neutros? (1939). Allen atuou como secretário do CRE de 1933-1944, e como seu presidente de 1946-1950.

Deve-se notar que o Conselho de Relações Exteriores é a filial americana do Royal Institute for International Affairs (aka: Chatham House) com sede em Londres, Inglaterra. Deve-se notar também que a própria Chatham House foi criada pelo Movimento da Round Table como parte do programa do Tratado de Versalhes em 1919.

Em 1935, Allen Dulles tornou-se sócio de Sullivan & Cromwell, o centro de uma intrincada rede internacional de bancos, empresas de investimento e conglomerados industriais que ajudaram a reconstruir a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial.

Depois que Hitler assumiu o controle, na década de 1930, John Foster Dulles continuou a representar cartéis alemães como IG Farben, apesar de já integrados na crescente máquina de guerra nazista e ajudou-os a garantir o acesso a materiais fundamentais de guerra. (1)

Embora o escritório de Berlim da Sullivan & Cromwell, (cujos advogados foram forçados a assinar sua correspondência com “Heil Hitler”) tenha sido fechado em 1935, os irmãos Dulles continuaram a fazer negócios com a rede financeira e industrial nazista; como Allen Dulles juntando-se à diretoria do J. Henry Schroder Bank, subsidiária norte-americana do banco londrino que a revista Time chamaria em 1939 de “impulsionador econômico do eixo Roma-Berlim”. (2)

Os irmãos Dulles, especialmente Allen, trabalharam muito de perto com Thomas McKittrick, velho amigo de Wall Street que foi presidente do Banco de Compensações Internacionais, BCI (ing. BIS). Cinco de seus diretores seriam posteriormente acusados de crimes de guerra, incluindo Hermann Schmitz, um dos muitos clientes do escritório de advocacia dos Dulles envolvidos com o BCI. Schmitz foi CEO da IG Farben, o conglomerado químico que ganhou fama por fabricar o gás Zyklon B, gás utilizado nos campos de morte de Hitler, e por fazer uso extensivo de trabalho escravo durante a guerra. (3)

David Talbot escreve em seu (port.) “O Tabuleiro de Xadrez do Diabo”:

“O secreto BCI tornou-se parceiro financeiro crucial para os nazistas. Emil Puhl – vice-presidente do Reichsbank de Hitler e sócio próximo do McKittrick – uma vez chamou o BCI de a única “agência estrangeira” do Reichsbank. O BCI lavou centenas de milhões de dólares em ouro nazista saqueado dos Tesouros dos países ocupados”.

O Banco de Compensações Internacionais, BCI, está sediado na Suíça, a própria região que Allen Dulles trabalharia tanto durante a Primeira como na 2ª Guerra Mundial.

O Escritório de Serviços Estratégicos (ESE; ing. OSS) foi formado em 13 de junho de 1942 como uma agência de inteligência em tempo de guerra durante a 2ª Guerra Mundial. Foi decisão tomada pelo Presidente Franklin Roosevelt. William J. Donovan foi escolhido por Roosevelt para construir a agência e foi criada especificamente para tratar das necessidades secretas de comunicação, decodificação e espionagem relevantes para a estratégia de guerra; para interceptar a inteligência inimiga e identificar aqueles que se coordenavam com a Alemanha e o Japão nazistas.

O ESE foi o primeiro de seu tipo, diferente de tudo que jamais houvera nos EUA. Para Roosevelt a tal agência detinha imenso poder para abuso, se caísse em mãos erradas e nunca poderia ser autorizada a continuar, uma vez que a guerra contra o fascismo fosse ganha.

Allen Dulles foi recrutado para a ESE logo no início. E em 12 de novembro de 1942 foi rapidamente transferido para Berna, Suíça, onde viveu na rua Herrengasse, n. 23 durante a 2ª Guerra Mundial. Sabendo o papel sombrio que a Suíça desempenhou durante toda a 2ª Guerra Mundial com seu estreito apoio à causa nazista e o envolvimento próximo de Allen Dulles em tudo isso, deve-se perguntar, neste momento, o que diabos estariam pensando Donovan e Roosevelt?

Bem, Dulles não era o único mestre do xadrez envolvido nesse jogo de apostas altas. “Queriam Dulles em claro contato com seus clientes nazistas para que pudessem ser facilmente identificados” (4), disse John Loftus, antigo investigador nazista de crimes de guerra do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.

Em outras palavras, Dulles foi enviado à Suíça como espião americano, com o pleno conhecimento de que ele era de fato um agente duplo, a missão era obter informações sobre as redes americana, britânica e francesa, dentre outras, que estavam secretamente apoiando a causa nazista.

Problema com este plano era que o espião britânico MI6 William Stephenson conhecido como o “Homem Chamado Intrepid” foi supostamente escolhido para manter Dulles sob controle (5); pouco sabia Roosevelt, na época, quão funda foi a toca do coelho.

Entretanto, como Elliott escreveria em seu livro “As He Saw It”, Roosevelt estava muito consciente de que a política externa britânica não estava na mesma página com suas opiniões sobre um mundo do pós-guerra:

“Sabe, muitas vezes os homens do Departamento de Estado tentaram esconder mensagens para mim, atrasá-los, retê-los de alguma forma, só porque alguns daqueles diplomatas de carreira ali não estão de acordo com o que eles sabem que eu penso. Eles deveriam estar trabalhando para Winston. Na verdade, muitas vezes, eles estão [trabalhando para Churchill]. Pare para pensar neles: qualquer número deles está convencido de que o caminho para a América conduzir sua política externa é descobrir o que os britânicos estão fazendo e depois copiar isso”! Foi-me dito… há seis anos, para limpar aquele Departamento de Estado. É como o Ministério das Relações Exteriores Britânico….”.

Quando a verdadeira lealdade das finanças do BCI e de Wall Street ficou clara durante a guerra, Roosevelt tentou bloquear os fundos do BCI nos Estados Unidos. Quem interveio com sucesso, em defesa dos interesses do banco, foi ninguém menos que Foster Dulles, contratado como consultor jurídico do McKittrick. (6)

Deve-se notar também que o presidente do Banco da Inglaterra, Montague Norman, permitiu a transferência direta de dinheiro para Hitler, porém, não com o dinheiro da própria Inglaterra, mas com 5,6 milhões de libras de ouro de propriedade do Banco Nacional da Tchecoslováquia.

Com o fim da guerra se aproximando, o Projeto Safehaven, operação de inteligência americana concebida por Roosevelt, foi criado para rastrear e confiscar bens nazistas que estavam escondidos em países neutros. Era preocupação legítima que, se os membros da elite nazista alemã conseguissem esconder grandes tesouros, poderiam esperar o que fosse necessário e tentar recuperar o poder, em futuro não tão distante.

Foi Allen Dulles que, com sucesso, empatou e sabotou a operação Roosevelt, explicando em um memorando de dezembro de 1944 a seus superiores do ESE que seu escritório de Berna não tinha “pessoal adequado para fazer trabalho eficaz neste campo e atender a outras demandas”. (6)

E enquanto Foster trabalhou arduamente para esconder os ativos americanos de grandes cartéis alemães como IG Farben e Merck KGaA, e proteger essas subsidiárias de serem confiscadas pelo governo federal como propriedade alienígena, Allen cobria a retaguarda de seu irmão e estava bem posicionado para destruir provas incriminatórias e bloquear quaisquer investigações que ameaçassem os dois irmãos e seu escritório de advocacia.

“A destruição dos registros nazistas capturados foi a tática favorita de Dulles e seus [associados] que ficaram para trás para ajudar a dirigir a ocupação da Alemanha do pós-guerra” – declarou John Loftus, ex-investigador nazista de crimes de guerra do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. (7)

Não há dúvida de que, depois de vencida a guerra, Roosevelt pretendia processar os irmãos Dulles e muitos outros que foram cúmplices no apoio à causa nazista. Roosevelt estava ciente de que os irmãos Dulles e Wall Street haviam trabalhado duro contra sua eleição; estava ciente de que grande parte de Wall Street estava apoiando os alemães contra os russos na guerra, ele estava ciente de que não estavam satisfeitos com a manipulação da Grande Depressão, indo atrás dos grandes banqueiros, como J.P. Morgan, mediante a Comissão Pecora, e odiavam Roosevelt por isso. Mas acima de tudo discordavam da visão de Roosevelt, de um mundo pós-guerra. De fato, opunham-se violentamente a ele, como visto por sua tentativa de assassinato poucos dias depois de ganhar as eleições, e com a exposição do General Smedley Butler, que foi transmitida pela televisão, de como um grupo de oficiais da Legião Americana pagos pelos homens de J.P. Morgan (8) abordou Butler no verão de 1933 para liderar um golpe de Estado contra o Presidente Roosevelt – tentativa fascista de ocupar os Estados Unidos em plena luz do dia.

Roosevelt só tomou posse dia 4 de março de 1933. Ficou claro assim que Wall Street não precisava esperar para ver o que o presidente faria: já tinham ideia muito boa de que Roosevelt pretendia perturbar o equilíbrio do controle imperial, com Wall Street e a cidade de Londres como seus centros financeiros. Era claro que, sob Roosevelt, os dias de Wall Street estariam contados.

Mas Roosevelt não viveu para além da guerra, e sua morte permitiu a rápida entrada de um golpe ‘suave’, contido dentro dos corredores do governo e de suas agências. E qualquer um que tivesse sido estreitamente associado com a visão de FDR foi empurrado para os bastidores.

David Talbot escreve em seu “The Devil’s Chessboard”:

“Dulles estava mais envolvido com muitos líderes nazistas do que com o Presidente Roosevelt”. Dulles não só desfrutou de familiaridade profissional e social com muitos membros da elite do Terceiro Reich que antecedeu a guerra; ele também compartilhou com aqueles homens muitos dos objetivos do pós-guerra”.


A verdadeira história da origem da Guerra Fria

Em seu livro “The CIA, Vietnam and the Plot to Assassinate John F. Kennedy”, L. Fletcher Prouty descreve como, em setembro de 1944, enquanto servia como capitão nas Forças Aéreas do Exército dos EUA e estava estacionado no Cairo, foi-lhe pedido para conduzir o que lhe foi dito que seriam 750 tripulantes da Força Aérea dos EUA que haviam sido abatidos nos Bálcãs durante ataques aéreos nos campos de petróleo de Ploesti. Essa informação foi baseada em seu encontro com oficiais da inteligência britânica que haviam sido informados por seus Serviços Secretos de Inteligência e pelo ESE.

Prouty escreve:

“Voamos para a Síria, encontramos o trem de carga de Bucareste, carregamos os Prisioneiros de Guerra (ing. POWs) em nossa aeronave e começamos o voo de volta ao Cairo. Entre os 750 prisioneiros de guerra americanos estavam algo como uma centena de agentes de inteligência nazistas, além de dezenas de agentes nazistas simpatizantes, dos Balcãs. Haviam sido misturados nessa operação do Escritório de Serviços Estratégicos, ESE, para tirá-los do caminho do exército soviético que havia marchado para a Romênia em 1º de setembro.

Esta operação de setembro de 1944 foi a primeira grande atividade de seu tipo, pró-Alemanha nazista e antissoviética, na Guerra Fria. Com a ajuda do ESE, muitos seguiram em rápida sucessão, incluindo a fuga e o voo cuidadosamente planejado do General Reinhart Gehlen, chefe dos serviços secretos do exército alemão, para Washington, em 20 de setembro de 1945”.

No livro, Prouty discute o modo como, mesmo antes da rendição da Alemanha e do Japão, já se ouviam os primeiros murmúrios da Guerra Fria, e que aqueles murmúrios partiram, particularmente, de Frank Wisner em Bucareste e de Allen W. Dulles em Zurique, que eram ambos fortes proponentes da ideia de que teria chegado a hora de se juntarem novamente a centros de poder nazistas selecionados, a fim de dividir a aliança ocidental da União Soviética.

Prouty escreve:

“Foi esta facção secreta dentro do ESE, coordenada com facção similar da inteligência britânica e suas políticas, que encorajou os nazistas escolhidos a conceberem o conceito divisório de uma “Cortina de Ferro”, para meter uma cunha na aliança com a União Soviética já em 1944 – para salvar os próprios pescoços, para salvar certos centros de poder e suas riquezas, e para despertar ressentimento contra os russos, logo no momento de seu maior triunfo militar”.

A versão “história oficial” marcou os britânicos como os primeiros a reconhecer a “ameaça comunista” na Europa Oriental, e que Winston Churchill teria sido ‘autor’ da expressão “Cortina de Ferro”, ao se referir às ações dos países do bloco comunista da Europa Oriental. E que teria criado a expressão após o fim da 2ª Guerra Mundial. Não.

Churchill não é autor nem da frase nem da “Cortina de Ferro”

Pouco antes do fim da 2ª Guerra Mundial na Europa, o ministro alemão das Relações Exteriores Conde Lutz Schwerin von Krosigk fez um discurso em Berlim, publicado no London Times em 3/5/1945, no qual ele usou a expressão “Cortina de Ferro”, já corrente na propaganda nazista. A mesma expressão reapareceria precisamente no mesmo contexto, usada por Churchill, menos de um ano depois.

Depois daquele discurso alemão, apenas três dias após a rendição alemã, Churchill escreveu a Truman, para expressar sua preocupação com o futuro da Europa e para dizer que uma “Cortina de Ferro” tinha sido fechada. (9)

Em 4 e 5 de março de 1946, Truman e Churchill viajaram de Washington para o Missouri, onde, no Westminster College em Fulton, Churchill enunciou para a história oficial: “De Stettin no Báltico até Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu por todo o continente”.

As implicações disso são enormes. Aí se tem não só a origem da fonte que tropeçou na suposta ameaça da Guerra Fria vinda da Europa Oriental, o próprio inimigo nazista dos Aliados, ainda durante os combates da 2ª Guerra Mundial, mas também vem à tona o fato de que menos de um mês após a morte de Roosevelt, a “Grande Estratégia” já havia sido superada.

Já não haveria qualquer equilíbrio entre as quatro potências (EUA, Rússia, Grã-Bretanha e China) planejado em um mundo pós-guerra: haveria sim uma Cortina de Ferro, que cobriria de sombra mais da metade do mundo.

Os parceiros nessa nova estrutura de poder global seriam EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Japão, três dos vencedores da 2ª Guerra Mundial e dois dos derrotados. Não importava que a Rússia e a China, apenas alguns momentos antes, estivessem morrendo e lutando ao lado dos Aliados.

Com a Declaração de Independência de Ho Chi Minh, em 2/9/1945, os franceses entrariam no Vietnã apenas poucas semanas após a 2ª Guerra Mundial, terminando com a união dos EUA, alguns meses após o discurso da Cortina de Ferro de Churchill. Assim, em pouco mais de um ano após uma das guerras mais sangrentas da história, França e EUA desencadearam o que seria uma guerra indochinesa de várias décadas… já em nome da “liberdade” e contra uma suposta ameaça comunista.

Prouty escreve:

“Assim que a ilha de Okinawa ficou disponível como local de lançamento para [a planejada invasão do Japão pelos EUA], os suprimentos e equipamentos para uma força invasora de pelo menos meio milhão de homens começaram a ser entregues, depositados em pilhas de 5-6 m de altura, por toda a ilha. Com a rápida rendição do Japão, a invasão maciça não ocorreu, e este enorme estoque de equipamentos militares não foi necessário. Quase imediatamente, os navios de transporte da Marinha dos EUA começaram a aparecer no porto de Naha, Okinawa. Aquelas montanhas de material de guerra foram novamente carregadas naqueles navios. Eu estava em Okinawa naquela época. Durante negócios na área portuária, perguntei ao capitão do porto se todo aquele novo material estava sendo devolvido aos EUA.

Sua resposta foi direta e surpreendente: ‘Diabos, não! EUA nunca mais verão essas coisas! Metade deste material, suficiente para equipar e sustentar pelo menos cento e 50 mil homens, está indo para a Coréia; a outra metade, para a Indochina’.’’


O Padrinho da CIA

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
João 8:31-32. Inscrição escolhida por Allen Dulles para o saguão da Sede da CIA.

Em 20/9/1945, o Presidente Truman dissolveu o ESE, algumas semanas após o fim oficial da 2ª Guerra Mundial. Era a coisa certa a fazer, considerando que a ESE nunca deveria existir fora do tempo de guerra, e o Presidente Roosevelt teria feito a mesma coisa, se não tivesse falecido em 12/4/1945.

No entanto, Truman foi muito ingênuo ao pensar que um pedaço de papel bastaria. Truman também não tinha qualquer compreensão da luta de facções entre os patriotas de Roosevelt, que realmente queriam derrotar o fascismo, contra aqueles que acreditavam que se tratava sempre de uma guerra com a União Soviética e estariam dispostos a trabalhar com “ex-”fascistas para atingir tal objetivo.

Truman pensava no ESE como bolha homogênea: não compreendia a intensa luta que se travava dentro do governo dos EUA e comunidade de inteligência, pelo futuro do país. Não via que havia o Escritório de Serviços Estratégicos (ESE) de Roosevelt, e que havia outro Escritório de Serviços Estratégicos, subterrâneo, de Allen Dulles.

Logo depois, em 18/9/1945, a CIA foi fundada – evento que Truman lamentaria como o e maior arrependimento de toda a sua presidência. Truman não tinha ideia do tipo de canais clandestinos que corriam nos bastidores. Pouco sabia na época, mas viria a descobrir parcialmente, que o desmantelamento do ESE, que tirara o comando de William J. Donovan como chefe da inteligência dos EUA, americana abrira a porta para as piranhas.

Os patriotas da FDR foram expurgados, incluindo o próprio William J. Donovan, a quem Truman negou o cargo de diretor da CIA. Em vez disso, Truman, insensatamente, atribuiu-lhe a tarefa de chefiar um comitê que estudava os bombeiros do país.

Em abril de 1947, Allen Dulles foi convidado pelo Comitê de Serviços Armados do Senado a apresentar suas ideias para uma agência de inteligência forte e centralizada. O memorando que produziu ajudaria a formatar a legislação que deu origem à CIA mais tarde, ainda no mesmo ano.

Dulles, insatisfeito com a “timidez” da nova CIA, organizou o relatório do Comitê Dulles-Jackson-Correa, sobre o qual Dulles naturalmente assumiu rapidamente o controle, o qual concluiu sua avaliação fortemente crítica da CIA, ao exigir que a agência estivesse disposta a iniciar essencialmente uma guerra com a União Soviética. A CIA, declarou “tem o dever de agir”. A agência “foi dotada, por lei, de ampla autoridade”. Era hora de aproveitar ao máximo esse poder generoso, insistiu o comitê, vale dizer, Dulles em pessoa.

Dulles, impaciente com o ritmo lento da CIA em desencadear o caos no mundo, criou um novo posto avançado de inteligência chamado Gabinete de Coordenação de Políticas, GCP (ing. OPC) em 1949. Frank Wisner (que trabalhava como advogado de Wall Street para o escritório Carter, Ledyard & Milburn e era ex-ESE, obviamente do ‘setor’ de Dulles) foi trazido como chefe do GCP, e rapidamente trouxe a unidade para as artes negras da espionagem, incluindo sabotagem, subversão e assassinato (10). Em 1952, a GCP tinha 47 estações no exterior, e seu pessoal contava com quase três mil funcionários, com outros três mil contratados independentes em campo.

Essencialmente, Dulles e Wisner estavam operando sua própria agência privada de espionagem.

O GCP era administrado com pouca supervisão governamental e poucas restrições morais. Muitos dos recrutas da agência eram “ex” nazistas. (11) Dulles e Wisner estavam envolvidos numa guerra sem limites com o bloco soviético – e de fato sem qualquer supervisão governamental.

Como Prouty mencionou, a evacuação sombria dos nazistas escondidos entre os prisioneiros de guerra seria a primeira de muitas operações desse tipo, incluindo a evacuação do General Reinhart Gehlen, oficial chefe da inteligência do exército alemão, para Washington, em 20/9/1945.

A maior parte da inteligência reunida pelos homens de Gehlen foi extraída da enorme população de prisioneiros de guerra soviéticos – que chegou a 4 milhões de pessoas – e que ficou sob controle dos nazistas. A exaltada reputação de Gehlen como ‘mago da inteligência’ derivou do uso generalizado da tortura na organização dirigida por ele. (12a)

Gehlen entendeu que a aliança EUA-soviética inevitavelmente se romperia (com suficiente sabotagem), proporcionando uma oportunidade para que pelo menos sobrevivessem alguns elementos da hierarquia nazista, os quais uniriam forças com o Ocidente, contra Moscou.

Conseguiu convencer os americanos de que sua inteligência sobre a União Soviética era indispensável; que se os EUA quisessem vencer contra os russos, precisariam trabalhar com ele e mantê-lo seguro. Portanto, em vez de serem entregues aos soviéticos como criminosos de guerra, como Moscou exigia, Gehlen e seus principais subordinados foram embarcados num navio de tropas, de volta à Alemanha! (12b)

Inacreditavelmente, a equipe de espionagem de Gehlen foi instalada pelas autoridades militares americanas em um complexo na vila de Pullach, perto de Munique, sem supervisão. Ali puderam viver seu sonho de reconstituir a estrutura de inteligência militar de Hitler dentro do sistema de segurança nacional dos EUA. Com o generoso apoio do governo americano, a Organização Gehlen – como veio a ser conhecida – prosperou em Pullach, tornando-se a principal agência de inteligência da Alemanha Ocidental. (12c) E não poderia ser surpresa para ninguém que “antigos” oficiais da SS e da Gestapo tivessem sido trazidos, incluindo pessoas como o Dr. Franz Six. Mais tarde, Six seria preso pelos agentes de contraespionagem do Exército dos EUA. Condenados por crimes de guerra, Six cumpriu apenas quatro anos de prisão; e semanas após sua libertação voltou ao trabalho na sede de Gehlen, em Pullach! (13a)

Para aqueles que chegaram a acreditar durante a guerra que os russos seriam seus verdadeiros inimigos (enquanto morriam em combate pela mesma causa que os americanos!), não foi comprimido difícil de engolir. Mas houve um recuo.

Muitos na CIA opuseram-se veementemente a qualquer associação com “ex” nazistas, incluindo o Almirante Roscoe Hillenkoetter, primeiro diretor da CIA, que em 1947 instou fortemente o Presidente Truman a “liquidar” a operação de Gehlen. Ainda não se sabe com clareza o que impediu que isso acontecesse. Mas sabe-se que Gehlen teve algum apoio muito poderoso em Washington, inclusive dentro do establishment de segurança nacional, com o apoio primário da facção Dulles. (13b)

Walter Bedell-Smith, que sucedeu Hillenkoetter como Diretor da CIA, apesar de ter trazido Allen Dulles e de o ter feito deputado, absolutamente não o apreciava. Enquanto Smith se preparava para renunciar, algumas semanas após a posse de Eisenhower, Smith informou Eisenhower que seria insensato dar a Allen a direção da agência. (14) Adiante, Eisenhower lamentaria profundamente não ter ouvido esse bom conselho.

Com a vitória de Eisenhower-Nixon – efeito culminante de anos de estratégia política dos Republicanos de Wall Street –, os escolhidos para chefiar o Departamento de Estado e CIA foram ninguém menos que Foster e Allen Dulles, respectivamente. Assim continuaram a dirigir as operações globais da nação mais poderosa do mundo.

Por esta razão, a eleição presidencial de 1952 entrou para a história como o triunfo da “elite do poder”. (15) [Continua].*******

NOTAS

  1. David Talbot,Devil’s Chessboard, pg 21.
  2. Ibid., pg 22.
  3. Ibid., pg 27.
  4. Ibid, pg 26.
  5. Ibid, pg 23.
  6. Ibid., pg 28.
  7. Ibid., pg 29.
  8. Ibid., pg 26.
  9. L. Fletcher Prouty,The CIA, Vietnam and the Plot to Assasinate John F. Kennedy, pg 51.
  10. David Talbot,Op. Cit., pg 128.
  11. Ibid., pg 128.

12 (a,b,c)     Ibid., pg 228.

13 (a,b)         Ibid., pg 229.

  1. Ibid., pg 174.
  2. C. Wright Mills,The Power Elite, 15/2/2000.

Esse artigo foi retirado do site “Strategic Culture Foundation” , do dia 12 de março de 2021.

Tradução: Coletivo Vila Mandinga