quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Uexkuüll sobre bbb significação e repreesentação

 Significação sem representação: a teoria pragmática da significação de Jakob von Uexküll

 

Meaning without representation: Jakob von Uexküll's pragmatic theory of meaning

 

 

Arthur Octávio de Melo Araújo

Departamento de Filosofia, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, Espírito Santo, Brasil

 

 


Resumo

Este trabalho procura mostrar que a teoria da significação de Jakob von Uexküll é implicitamente uma teoria pragmática. Como teoria pragmática, ela coincide com alguns aspectos da crítica da filosofia analítica à noção de representação mental ao longo do Século XX, por exemplo, entre autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, desde o pragmatismo de Charles S. Peirce e William James. De modo similar, a teoria de Uexküll coincide com aspectos da crítica de Francisco Varela à noção de representação nas ciências cognitivas e sua ideia de 'trabalhar sem representação'. E, finalmente, procuro indicar uma possível alternativa não-representacionista nas ciências cognitivas, assim como uma alternativa de tratar o problema da 'lacuna explicativa' (explanatory gap). © Cien. Cogn. 2012; Vol. 17 (2): 098-114.

Palavras-chave: significação; representação; pragmatismo; ciências cognitivas.


Abstract

This work aims to show that Jakob von Uexküll's theory of meaning is implicitly a pragmatic theory. As pragmatic theory of meaning it seems to coincide with some aspects of the critics of the analytical philosophy to notion of mental representation during the 20th century, for example, among authors like Austin, Ryle and Wittgenstein since from the pragmatism of Charles S. Peirce and William James. Similarly, Uexküll's theory of meaning coincides with some aspects of Francisco Varela's critic to the notion of representation in cognitive sciences and his idea of 'working without representation'. And finally I seek to indicate an eventual non-representational alternative to the cognitive sciences, as well as an alternative of dealing with the problem of the explanatory gap. © Cien. Cogn. 2012; Vol. 17 (2): 098-114.

Keywords: meaning; representation; pragmatism; cognitive sciences.


 

 

Introdução

A partir dos chamados anos cibernéticos na década de 40 do Século XX, a noção de 'representação' tornou-se central entre as ciências cognitivas na década de 70. No entanto, como assinala Jean-Pierre Dupuy (1996, p. 138-9), as ciências cognitivas retomaram o espírito cibernético dos anos 40 de 'deconstrução da metafísica do sujeito'. Na tradição de Leibniz, considerado o 'patrono' da cibernética por Norbert Wiener (1948/1985, p. 35), a ideia é que um modelo de cálculo, combinação entre lógica simbólica e matemática, no nível de análise, podia representar os processos de informação em animais (humanos e não-humanos) e máquinas. Assim, a estratégia cibernética procurou unificar o estudo de diferentes tipos de sistemas naturais e artificiais de processamento de informação. A partir do ideal cibernético de mecanização dos processos de informação, entre as ciências cognitivas na sua versão funcionalista, por exemplo, isso significou a crença de que a cognição humana supõe a criação de um nível representações cuja análise é completamente independente dos níveis biológico ou sócio-cultural (Gardner, 1985, p. 20). Em particular, nos anos 70, por sua influência racionalista, supostamente, quando se substituiu a 'alma' cartesiana por um software e a glândula pineal por um hardware, a noção de representação teve um papel importante no estudo funcionalista da mente entre as ciências cognitivas. Muitos cientistas cognitivos acreditavam que a mente é um software do cérebro (Block, 1995). Entretanto, o nível de estudo do software (ou nível de representação informacional) não se reduzia ao nível do hardware. De fato, o interesse nas ciências cognitivas não tinha como objeto o estudo da mente a partir do chamado problema ontológico (ou mente-cérebro). Mas, mente e cérebro estão sujeitos a uma dupla descrição matéria ou física, de um lado, e informacional ou funcional, de outro, entre dois níveis (hardware e software) independentes (Andler, 1992/1998, p. 28). A partir do racionalismo cibernético, entre as ciências cognitivas, tem lugar a noção de 'representação mental' como estados internos e referentes a entidades externas ao sistema cognitivo. Assim, o estudo da mente tornou-se estudo da cognição e cognição significava computação (Fetzer, 2000, p. 9, p. 15) - no quadro abaixo desta Introdução, ao longo do desenvolvimento das ciências cognitivas, o paradigma representacionista está presente entre os itens 1 e 2.

Varela (1998) emprega a expressão 'paradigma representacionista'. No sentido de Thomas Kuhn (1962/2007), por exemplo, podemos afirmar uma verdadeira mudança de 'paradigmas' nas ciências cognitivas entre representacionismo e não-representacionismo? Talvez sim, talvez não! Andler (1992/1998, p. 28) não hesita e afirma a existência de 'paradigmas concorrentes' e ao representacionismo de Varela ele identifica o 'cognitivismo'. Nos últimos 20 anos, no entanto, o que parece certo é que a perspectiva mudou entre filósofos e cientista cognitivos. O estudo da cognição já não corresponde somente à representação computacional dos processos referentes às atividades cognitivas (e, em particular, linguagem, memória e percepção). De um lado, consciência fenomenal e 1ª pessoa e, de outro, o que acontece fora de um sistema também estão incluídos entre o estudo dos processos cognitivos.

Elaborada por Varela (1988, p. 91), por exemplo, a noção de 'enação' caracteriza a 'emergência' ou o 'emergir' da significação como 'acoplamento estrutural' entre organismo e meio (Varela, 1988, p. 110) e, contrariamente, indica uma alternativa crítica ao 'paradigma representacionista' nas ciências cognitivas (Varela, 1996, p. 89). A partir da crítica filosófica continental à representação entre a dissensão fenomenológica (Heidegger e Merleau-Ponty) e o estruturalismo (Foucault), Varela (1988, p. 92-93) designa 'circularidade' a relação entre ação e interpretação. A ideia é tornar predominante a ação sobre a representação ou 'enação' - sistemas cognitivos são ações e interpretações e não representações do mundo. Um possível traço ancestral da noção de enação teria tido lugar na teoria da significação de Uexküll (1956/1982). Aliás, comparativamente, quanto à cognição como 'cognição distribuída' [e não representação], Andler (1992/1998, p. 20) identifica textualmente o biologista von Uexküll [grifo meu]. É inegável, portanto, o papel deste personagem na recente história das ciências cognitivas.

O biólogo estoniano Jakob von Uexküll (1864-1944) teria esboçado um tipo de teoria não-representacionista da significação e, implicitamente, um tipo de teoria pragmática da significação. Constituído por 'mundo de percepção' e 'mundo de ação', o Umwelt ou 'mundo-próprio' de um organismo cria ou interpreta o meio a partir de um modo subjetivo e não diretamente acessível à observação externa1. O que é significativo ou 'objeto significante no mundo-próprio' de um organismo é aquilo que tem influência na sua ação no meio. Assim, a partir de uma perspectiva cognitiva, e de acordo com Uexküll, a significação implica ação no mundo (e não representação), o que me parece caracterizar os traços de uma teoria pragmática da significação. Uma teoria pragmática que se mostraria alternativa a certo tipo de realismo implícito nas ciências cognitivas dos anos 70 quanto a suas concepções de significação e cognição - um sistema cognitivo representa adequadamente aspectos do mundo real pré-definido. Aliás, Varela (1988, p. 100-101) já assinala uma possível alternativa de representação pragmática ao representacionismo nas ciências cognitivas que não tem implicações ontológicas ou epistemológicas.

A partir da década de 40 do Século XX, é oportuno assinalar, como parte do desenvolvimento da filosofia analítica entre diferentes autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, a crítica e a separação entre significação e representação mental levou à chamada 'virada lingüística-pragmática': analisar como as palavras são usadas e elucidar seu significado e não sua referência a um possível conteúdo mental interno. Assim, a noção de uso das palavras mostrou ser o ponto de partida de uma concepção de significado como correspondência a sua influência prática na ação ou uma concepção de significação sem representação. A significação de alguma coisa é, portanto, determinada por seu uso ou sua utilidade na ação, o que nos remete aos princípios do pragmatismo de Charles S. Peirce e William James.

Assim, comparativamente à teoria da significação de Uexküll, uma concepção pragmática da significação assume igualmente a forma de um 'monismo' como já está presente nas visões de Peirce e James (Sharov, 2001, p. 213): as distinções ou as fronteiras de significação como, por exemplo, entre matéria e mente, são operacionais, instrumentais, convenções no sentido de 3ª pessoa ou subjetivas no sentido de um componente de auto-interesse ou utilidade na 1ª pessoa. Isso implica unicamente que, para um organismo, portanto, o interesse ou a utilidade na ação geram as condições de significação e existência de alguma coisa entre as perspectiva de 1ª e 3ª pessoas. Assim, do ponto de vista de Uexküll, há tantos mundos e significação no mundo quanto há sujeitos. Ou, resumidamente, de um ponto de vista pragmático, o significado de uma alguma coisa corresponde ao seu uso e influência na ação ou o que Uexküll designa 'Umwelt' ou 'mundo-próprio' de um organismo.

Quadro histórico das ciências cognitivas (Varela, 1988, p. 24):

  • Anos cibernéticos.
  • Símbolos: a hipótese cognitivista.
  • Emergência: uma alternativa à hipótese cognitivista.
  • Enação: uma alternativa à representação.

Assim, ao contrário do paradigma representacionista nas ciências cognitivas, presentes nos itens 1 e 2 acima, a hipótese que desenvolverei aqui parte da referência aos itens 3 e 4. Esta me parece ser uma possível referência histórica e filosófica da teoria pragmática da significação de Uexküll, que coincide com a ideia de 'trabalhar sem representação' de Varela, e indica uma alternativa não-representacionista para as ciências cognitivas.

 

Experiência e significado

Teoria ou Doutrina dos Significados corresponde à Parte II da Teoria dos Mundos-Próprios e, inicialmente, Uexküll (1934/1956, p. 94; 1982, p. 141) considera a eventual transformação nas propriedades dos objetos quando eles entram no mundo-próprio de um organismo. No exemplo proposto por Uexküll, um objeto 'pedra', cujas propriedades são forma, peso, dureza, formação cristalina, etc., tem um significado primário de 'objeto neutro no caminho' ou simplesmente uma pedra no caminho ! Mas quando a pedra entra na relação com um sujeito, ocorre uma transformação no seu significado primário. Agora, ela tem o 'teor de arremesso', quando, por exemplo, se lhe é atribuído a função de instrumento de defesa na eminência do ataque de um cão. De acordo com Uexküll, a transformação no significado tem uma influência direta nas propriedades do objeto.

O significado do objeto, com efeito, corresponde à função atribuída a ele no interior de um mundo-próprio. Se considerarmos o processo de significação na ecologia entre organismo e meio, além das propriedades que são características e particulares aos objetos, a transformação do significado corresponde à emergência de uma nova propriedade e que simplesmente não existia antes como, por exemplo, quando uma pedra assume o teor de arremesso. Uexküll (1934/1982, p. 142) assinala que é na relação com o sujeito, i.e., no interior de um mundo-próprio, que podemos ver nos objetos o que os escolásticos chamavam 'propriedades em essentia e em accidentia' (respectivamente propriedades 'essenciais' e 'acessórias'). Nos respectivos vocabulários de Galileu e Locke, comparativamente, essa distinção corresponde às propriedades 'primárias' e 'secundárias' dos objetos.

Cores, sons, sabores, odores, etc., são propriedades acessórias dos objetos que, no entanto, são inseridas no quadro da natureza em função do significado atribuído a elas no mundo-próprio de um organismo. Se considerarmos o mundo-próprio do ser humano, cores, sons, sabores, odores, etc., têm significado nesse contexto particular da relação com os objetos e não têm, por outro lado, significado algum no mundo-próprio de certo tipo de morcego. O que entra no mundo-próprio de um organismo é convertido a 'objeto com significado útil'. A ideia de significado útil parece indicar um critério pragmático de relevância quanto à compreensão do significado dos objetos. No sentido de William James, comparativamente, o pragmatismo é uma teoria do significado ou significação e sua influência na ação.

Assim, considerada a teoria da significação de Uexküll, um objeto tem uma função enquanto significa algo útil ou biologicamente relevante no interior de um mundo-próprio (como cores, sons, sabores, odores, etc.). Mas a determinação pragmática do significado dos objetos não implica a negação do realismo quanto à existência e ao significado ontológico das propriedades acessórias - 'ser vermelho', por exemplo, é uma propriedade de estados físicos na superfície de certos objetos. No entanto, 'ser vermelho' corresponde a uma propriedade disposicional no interior de certos mundos-próprios no qual ela mostra ter relevância significativa na ação do organismo e sua relação com o meio.

A noção de 'propriedades disposicionais' mostra ter tido interesse entre duas áreas recentes da filosofia: filosofia da ciência e filosofia da mente. No primeiro caso, entre as discussões acerca da distinção precisa entre propriedades primárias e secundárias, e, no segundo caso, quanto à significação dos conteúdos mentais. Assim as propriedades disposicionais como, por exemplo, solubilidade, fragilidade e elasticidade, que só se mostram sob certas circunstâncias particulares, como, por exemplo, imersão em líquido ou pressão, igualmente os verbos psicológicos como crer, desejar, esperar, sentir, etc., significariam uma disposição de ação e não a existência de conteúdos internos dos estados mentais (Ryle, 1949/2005, p. 209). Alguém crê, deseja, espera ou sente alguma coisa sob certas circunstâncias. Assim, de acordo com Ryle, o que determina o significado dos conteúdos mentais são certas disposições de ação e não a existência de conteúdos mentais internos.

Nos anos 40, desenvolveu-se uma nova virada lingüística agora intitulada 'virada lingüística-pragmática' na recente tradição analítica da filosofia. Além da crítica e separação entre representação e significação, diferentes autores como Austin, Ryle e Wittgenstein procuravam explorar as propriedades pragmáticas da linguagem cuja característica fundamental se remete à relação entre um termo, seu uso e sua influência na ação. A hipótese linguística-pragmática é que a significação não depende de representação pré-definida e apresenta uma concepção de significação sem representação - significar não corresponde à representação mental de alguma coisa. Assim, por exemplo, Austin (1980, p. 34) introduz a noção de erro gramatical e desloca o problema de caracterização dos conteúdos mentais internos do nível ontológico ao nível linguístico. No sentido de Austin, portanto, o problema não é o que é, mas o que significa os termos mentais visto que o termo 'mente' não corresponde à realidade ontológica de uma coisa mental ou física. Aqui, comparativamente, talvez seja oportuno mencionar a noção de 'erro categorial' de Gilbert Ryle (1949/2005). Do ponto de vista de Ryle, quando se considera a 'mente' uma coisa material ou imaterial, e se lhe aplicam categorias ontológicas fisiológicas ou psicológicas, comente-se um erro categorial. Os termos mentais, e, usualmente, são os verbos da psicologia popular (crença, desejo, intenção, sentimento, etc.), referem-se à disposição de ação e não a supostos estados internos de uma coisa material ou imaterial. Assim, por exemplo, crer ou sentir alguma corresponde à disposição de ação sob certas circunstâncias: 'A crê ou sente X, sob a circunstância C'. De certo modo, a concepção de propriedades disposicionais caracteriza uma dissolução do problema mente-corpo. Na análise conceitual de Ryle, portanto, 'mente' corresponde ao conjunto de termos referentes à descrição da ação e não à existência de alguma coisa material ou imaterial.

Austin (1949/1980, p.38), por exemplo, argumenta contra o que ele designa 'falácia descritiva' e defende que os enunciados não têm apenas (ou essencialmente) a propriedade descritiva, mas, eles têm também um caráter performativo - a ideia reflete a máxima da tese de Austin que afirma 'dizer é fazer'. Aliás, entre o início e meados do Século XX, por influência do Círculo de Viena, a análise lingüística dos termos filosóficos se remetia unicamente às proposições descritivas e redutíveis ao cálculo proposicional. Mas, a partir da crítica à falácia descritiva de Austin, em particular, tem início a chamada 'virada linguística-pragmática' na análise da linguagem: analisar como as palavras são usadas e elucidar seu significado. Assim, a análise visa identificar as propriedades pragmáticas da linguagem quando se estabelecem as relações entre as palavras e seu uso. De acordo com Austin, ao nível pragmático ou performativo das propriedades lingüísticas corresponde, portanto, o uso das palavras por sujeitos falantes.

Assim, comparativamente, além das características pragmáticas da teoria da significação de Uexküll, ela parece também assimilar a noção de propriedades disposicionais. Uma coisa torna-se 'objeto significante' no interior de um mundo-próprio, se e somente se ela mostra utilidade na ação do organismo e sua relação com o meio. A atividade significante do organismo não implica, no entanto, uma representação interna do objeto. No exemplo da teia de aranha, Uexküll (1934/1982 p. 163) mostra que a teia é um 'protótipo' do objeto. No trabalho de construção da teia, a aranha atribui a ela a função de significar o objeto (ou a mosca). Como 'réplica', a teia significa e não representa a mosca porque, evidentemente, elas não têm entre si a menor semelhança. Protótipo ou réplica é o que se designa no vocabulário da Semiótica de Peirce um 'índice'. Como um tipo de signo, um índice significa um objeto por referência a uma possível relação causal com ele (Araújo, 2010, p. 61-2). Assim, na teoria de Uexküll, a significação não implica representação do objeto. E o que parece determinar a significação de um objeto é a disposição da ação no mundo-próprio do organismo - a teia significa (e não representa) mosca no mundo-próprio da aranha.

Sharov (2001, p. 214), por exemplo, assinala a 'virada biológica de Uexküll no pragmatismo'. A partir da referência ao pragmatismo de Charles S. Peirce, William James e John Dewey, 'o que define as distinções e os limites de um sistema é subjetivo no sentido de que eles são operacionais, instrumentais ou convencionais'. Assim, as distinções ou os limites têm um significado subjetivo dado que, a princípio, este caracteriza 'auto-interesse' ou 'utilidade' para um organismo ou um sistema e, portanto, parcialmente predicável. Como se apresenta no exemplo teia e aranha é a utilidade da primeira que implica a atividade de significação do objeto 'mosca' no mundo-próprio da segunda. Uexküll não parecia ter conhecido James ou Peirce, embora pareça claro que sua teoria da significação evoque traços nitidamente pragmáticos e semióticos. O que ele considera essencial na significação é a utilidade do objeto na ação do organismo (Uexküll, 1934/1982, p. 142-143). Assim, como assinala Sharov (2001, p. 215), enquanto a semiótica de Peirce se aplica ao indivíduo capaz de usar signos, Uexküll aplica seu pragmatismo aos diferentes tipos de organismo vivos e inclusive células individuais. Talvez, resumidamente, se possa dizer que a semiótica de Peirce seja um caso particular da pragmática de Uexküll.

 

Significação e ciclo de função

Um elemento fundamental da teoria de Uexküll é o que ele designa 'ciclo de função'. Pode-se dizer que o ciclo de função é um 'modelo' ou uma 'estrutura' (Dupuy, 1996, p. 23): um objeto abstrato ou formal que estrutura outros objetos e, com efeito, constitui um sistema de relações funcionais.

 

Figura 1 - 'Ciclo de função' - Funktionskreis ou functional cyrcle nas versões originais em alemão (esquerda) e inglês (direita) (Kull, 2001; Uexküll, 1934/1982, p. 36; Uexküll, 2004, p. 9). Nota-se no esquema do ciclo de função uma clara distinção entre Innerwelt, Internal world ou mundo interno e o Umwelt estruturado entre percepção e ação do organismo em torno do objeto. O ciclo de função desempenha um duplo papel de descrever igualmente as características objetivas e subjetivas da experiência ou comportamento de um organismo.

 

Assim, no célebre exemplo de Uexküll (1934/1982, p. 144-5), um talo do ramo de uma flor tem, respectivamente, quatro possíveis significados dado a relação funcional entre certo organismo e ele: para uma moça, o talo significa 'adereço de cabeça'; para uma formiga, o meio de alcançar o topo; para uma larva, material de construção de seu abrigo; e, finalmente, para uma vaca, fonte de alimentação. Como forma ou estrutura, o ciclo de função descreve diferentes mundos-próprios e sua relação de significação com um objeto. Temos, com efeito, a seguinte equação:

Diferentes mundos-próprios, diferentes significados possíveis de um mesmo objeto.

Do ponto de vista de Uexküll (1934/1982, p. 154), portanto, 'o ciclo de função como ciclo de significação' descreve, na percepção e ação, a correlação funcional entre o corpo do organismo e o objeto. A ideia principal do ciclo de função talvez seja que os componentes de um mundo-próprio têm um significado funcional referente a certo organismo particular e, portanto, 'o problema primacial é o significado [e não] ... investigar os processos causais, que são sempre extremante limitados' (Uexküll, 1934/1982, p. 155).

Uexküll (1934/1982, p. 165; 1956, p. 116), com efeito, era pouco simpático ao tipo de explicação 'mecanicista', designada por ele assim - nos últimos 50 anos, diríamos explicação fisicalista - e talvez tivesse interesse por um tipo de explicação funcionalista da relação entre organismo e meio. O ciclo de função mostra a relação funcional entre organismo (ou receptor) e objeto (ou portador) de significação e, assim, descreve objetivamente o mundo-próprio subjetivo de um organismo. Não interessa tanto à explicação funcionalista de Uexküll a base material ou física de realização das atividades do organismo. Ela é abstraída da explicação. O que interessa é que o ciclo de função determina a estrutura funcional de diferentes organismos e sua relação com os objetos do meio. O ciclo de função descreve o mundo-próprio como um campo de significação: o objeto torna-se significativo ou 'objeto significante' no interior de um mundo-próprio. Assim, o interesse ou a utilidade geram na ação as condições de significação e existência de alguma coisa independentemente de uma representação externa ao organismo porque, de um ponto de vista pragmático, por exemplo, as distinções ou os limites entre organismo e meio são subjetivos (i. é, operacionais, instrumentais ou convencionais).

O ponto importante da concepção pragmática de significação de Uexküll me parece ser igualmente que ela coincide com a crítica da filosofia analítica à noção de representação. Um organismo significa e não representa ou cria uma cópia interna do objeto porque, exatamente, a significação corresponde à relação prática entre organismo e objeto no interior de um mundo-próprio. No contexto da crítica analítica à representação, por exemplo, é oportuno assinalar aqui um pequeno ensaio de Ryle (1954/1993, p. 149) dedicado à análise conceitual da 'percepção'. De um ponto de vista tradicional, a percepção corresponde à ocorrência de eventos internos fisiológicos ou psicológicos. Mas, ao contrário, Ryle empreende uma análise conceitual da percepção, exatamente nos termos semelhante a sua 'análise do conceito de mente' (Ryle, 1949/2005), e procura mostrar que perceber corresponde a significar alguma coisa.

Assim, por exemplo, verbos como 'ver' e 'ouvir' teriam função semelhante a 'vencer' um jogo. Influenciado por Wittgenstein, de acordo com Ryle, a partir de certas regras, 'ver' e 'ouvir' realizam processos de significação e não representações internas de condições fisiológicos ou psicológicos de percepção. E igualmente aos termos do 'erro categorial', identificado na análise conceitual da mente, a 'fonte do erro' consiste em supor que se possam descobrir processos internos fisiológicos ou psicológicos 'por trás das pálpebras' correspondentes à percepção de alguma coisa (Ryle, 1954/1993, p. 159; 161).

"O que espero é mostrar que existe algo que está drasticamente errado em todo programa de tentar catalogar minha visão de uma árvore como o estágio fisiológico ou psicológico final de processos (...) Não é um fenômeno intratável ou oculto, nem mesmo um fenômeno, introspectivo, porque não é fenômeno nenhum." (Ryle, 1954/1993, p. 163)

De acordo com Ryle, portanto, o que determina a significação de alguma coisa é certa disposição de ação e não necessariamente a ocorrência de eventos internos no organismo. No exemplo do talo flor de Uexküll, comparativamente, o que determina a significação é a relação prática no interior de um mundo-próprio particular - constituídos entre percepção e ação, mundos-próprios são significações e não representações do mundo. A significação tem, no entanto, também um poder causal na ação do organismo, o que me parece satisfazer o critério funcionalista de eficácia causal das propriedades internas de um sistema (e Fodor diria a eficácia causal das propriedades mentais) - organismos percebem e agem no mundo. De modo semelhante, portanto, a concepção de significação de Uexküll parece coincidir com o princípio geral da 'virada pragmática' na filosofia analítica: a concepção de linguagem como uma forma de ação e não de representação da realidade.

Embora pouco simpático a explicações mecanicistas na biologia, como zoologista, evidentemente, Uexküll não ignorava o significado da fisiologia ou os elementos temporais da análise evolucionista no estudo do mundo animal. No entanto, creio, ele parece estar comprometido com um tipo de análise estrutural do organismo por referência à relação fundamental entre mundo-próprio e significação. Assim como me parece, no sentido de Uexküll, a análise da relação mundo-próprio e significação indica a possibilidade de uma alternativa entre os campos funcional e evolutivo da biologia contemporânea. Ao contrário das explicações por causas proximais ou distais, respectivamente, explicações fisiológicas e evolutivas, Uexküll parece estar interessado no tipo de relação funcional entre o mundo-próprio e o meio. Apresentada no esquema do ciclo de função, em particular, a significação consiste na correlação estrutural entre organismo, objeto e meio (ver ilustração 1). Assim, do ponto de vista de Uexküll, o ciclo de função se mostra além do reducionismo das causas proximais da biologia fisiologista ou a determinação temporal das causas distais na biologia evolutiva no estudo dos organismos vivos.

Homologia tem sido uma noção central na biologia evolutiva e significa a semelhança entre estruturas de diferentes organismos em relação unicamente a uma mesma origem embriológica. As estruturas homológicas podem ter ou não a mesma função. O braço do homem, a pata do cavalo, a asa do morcego e a nadadeira da baleia são estruturas homológicas entre si em função da mesma origem embriológica. Mas, não há similaridade funcional entre elas. A homologia entre estruturas de dois organismos diferentes sugere que eles se originaram de um grupo ancestral comum, embora ela não indique um grau de proximidade comum: exemplos de estruturas homólogas são o braço do homem, a pata dianteira do cavalo, a asa do morcego e nadadeira da baleia.

Entre diferentes organismos, ao contrário de estruturas homólogas e independente de origem embriológica, por exemplo, a noção de estruturas análogas refere-se à semelhança entre estruturas adaptadas à execução de uma mesma função - exemplos de estruturas análogas são asas nos insetos e aves ou tubos respiratórios e pulmões que, embora tenham diferentes origens embriológicas, têm a mesma função biológica: exemplos de estruturas análogas são a asa do inseto e a asa da ave. A analogia caracteriza a semelhança entre diferentes organismos unicamente como adaptação a uma mesma função.

Assim, e independente da origem embriológica e determinação genética dos organismos, comparativamente, o que me parece ser crucial assinalar aqui é que mundos-próprios podem ser considerados a expressão de estruturas análogas - e, comparativamente a uma visão funcionalista, entre diferentes organismos, os respectivos mundos-próprios têm a mesma função biológica fundamental como campos de significação.

Assim como os funcionalistas não são partidários de explicações por padrões de homologia, do ponto de vista de Uexküll, igualmente, algo só significa alguma coisa no interior de um mundo-próprio e, portanto, a significação não pode ser determinada fora de um campo funcional de significação. E ainda, comparativamente à noção de estruturas análogas, pode-se afirmar que a implementação funcional de diferentes mundos-próprios satisfaz ao chamado princípio da 'múltipla realização'. De fato, pode-se ver o ciclo de função, por exemplo, como uma forma ou uma estrutura comum aos diferentes tipos de organismos. Independentemente do tipo de base física ou material, portanto, mundos-próprios têm a mesma função como campo de significação entre diferentes organismos. O que determina um ciclo de função são disposições funcionais e, conseqüentemente, a constituição material ou física do organismo tem um papel secundário.

Princípio da Múltipla Realização:

MP = R1 v R2 v R3 ... v Rn

MP: mundo-próprio.

R1, R2, R3, ... Rn: múltipla realização.

O princípio da múltipla realização tem sido um argumento influente contra as teorias da identidade na filosofia da mente e um forte argumento a favor do funcionalismo. Muitos filósofos (Putnam, 1967/1980) têm adotado a múltipla realização como uma alternativa não-reducionista ao reducionismo psicofísico. Em particular, é importante destacar o caráter disjuntivo do princípio da múltipla realização ao contrário da identidade reducionista psicofísica (por exemplo, 'certo tipo de dor' = 'ativação das fibras-C'). Parece plausível afirmar que, comparativamente, mundos-próprios (acima indicado MP) podem ser realizados por diferentes organismos (acima indicado R1 v R2 v R3 ... v Rn) ou eles são multiplamente realizáveis. Um traço do funcionalismo do ciclo de função de Uexküll pode ser notado na seguinte passagem:

"O fim é igual, mas, o meio é diferente ... Os meios morfogenéticos usados para permitir que os diferentes animais possam subir por uma parede lisa são variados, embora conduzam todos ao mesmo fim: ultizar como caminho o objeto significante - a parede lisa (Uexküll, 1934/1982, p. 160)... A determinação de significado é sempre a mesma, só muda radicalmente a determinação morfogenética." (ibidem, p. 161)2

Assim, comparativamente ao mundo-próprio como um tipo de estrutura analógica e funcional, parece oportuno assinalar a noção de 'acoplamento estrutural' de Varela e que, curiosamente, mostra a comparação entre dois mundos-próprios e seus respectivos campos de significação e realização múltipla: "Formulé autrement: l'historique bien différent du couplage structurel des oiseaux et des primates a fait-émerger un monde de pertinence pour chacun d'eux qui est inseparable de leur vécu" (Varela, 1988, p. 110).

Assim, do ponto de vista de Varela, a noção de 'enação' caracteriza a 'emergência' ou o 'emergir' da significação como 'mundo de pertinência' a partir do acoplamento estrutural entre organismo e meio e, comparativamente, no sentido de Uexküll, embora distintos entre si, por exemplo, entre pássaros e primatas, os mundos-próprios têm igual função biológica de determinar distintos campos de significação ou eles são multiplamente realizáveis.

A noção de 'vivido' na citação de Varela acima ('vécu'), igualmente, parece indicar a possível caracterização fenomenológica de diferentes experiências de mundo ou aquilo que caracterizaria uma interpretação particular do mundo. Da noção de 'enação' ou 'emergir', portanto, e ao contrário da 'cognição como representação adequada de um mundo exterior pré-determinado', Varela (1988, p. 90-1, 98) retoma o sentido de 'senso comum' e assinala que os critérios de pertinência cognitiva são contextuais e criativos - a cognição é atividade criativa, sensível ao contexto e incorporada. A partir da crítica filosófica à representação e da noção de corporeidade de Merleau-Ponty, Varela (1993, p. 18) estabelece os princípios da 'cognição incorporada': 'Pour Merleau-Ponty, dès lors, comme pour nous, la corporéité possède un double sens: elle designe le corps à la fois comme strucuture vécue et comme contexte ou lieu des mécanismes cognitifs'. De um lado, entende-se a corporeidade como experiência vivida no sentido fenomenológico e, de outro, como estrutura cognitiva. Aliás, é interessante destacar aqui que Merleau-Ponty (1957-8/2000, p. 271) já assinalava o significado filosófico que a noção de mundo-próprio de Uexküll poderia ter além da clássica distinção cartesiana entre alma e corpo.

 

Lacuna explicativa e ciclo de função

Talvez aqui pudéssemos ter uma possível alternativa de revisão do problema 'explanatory gap' ou 'lacuna explicativa' na filosofia da mente. De um ponto de vista tradicional, o problema tem origem a partir da disjunção e distinção ontológica entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas e sua conseqüente assimetria epistemológica: embora o traço distintivo de uma experiência mental (ver, perceber, sentir, etc.) seja uma característica de 1ª pessoa, o acesso a ela está limitado a uma descrição de 3ª pessoa. No contexto da filosofia da mente, a expressão 'experiência mental' é eventualmente designada 'consciência fenomenal'. De fato, a lacuna explicativa é um problema epistemológico. Se, por exemplo, considerado o problema mente-corpo, estados mentais são realmente estados físicos, ainda assim não se sabe como isso possa explicar o traço distintivo de uma experiência mental (ver, perceber, sentir, etc.) por meio da descrição das propriedades físicas do cérebro. Dado que, por exemplo, 'ter certa dor' é ou é idêntico à 'ativação das fibras-C' ou ela corresponde a certo estado funcional, de fato, isso não nos mostra nada quanto ao significado de ter uma experiência de sentir dor ou a consciência fenomenal de dor. Do ponto de vista fisicalista, por exemplo, se consideramos o termo 'dor' (e), ele significa 'experiência de sentir' (q) ou 'ativação das fibras-C' (p). Mas, como a experiência de sentir dor não é senão ativação das fibras-C, então, 'dor' significa ativação das fibras-C: e â†' (p v q) e p = q; logo, s â†' p. Assim, temos uma 'lacuna explicativa' entre o físico e o mental. A explicação fisicalista de 'dor' elimina o sentido fenomenológico de sentir dor da descrição da experiência de dor e 1ª e 3ª pessoas são, portanto, realidades ontologicamente distintas e disjuntivas.

Aliás, como assinala Gardner (1995, p. 20), e dado o problema da lacuna explicativa, entre as ciências cognitivas, por exemplo, uma estratégia tem sido excluir metodologicamente aspectos subjetivos, afetivos, emocionais ou fenomenais do estudo da cognição - 'qualia' ou 'o que é ser como' têm sido eventualmente alguns termos dados ao traço distintivo de uma experiência mental ou consciência fenomenal e excluídos do estudo da cognição. O modo como certas coisas parecem ser na experiência significa o que é ter uma experiência mental dessas coisas (aparência, sonoridade, cheiro, gosto, etc.) e que não parecem física ou funcionalmente relevantes no estudo da cognição.

Muitos filósofos, comparativamente, consideram existir uma lacuna explicativa entre a característica mental ou fenomenal de uma experiência e a descrição dos mecanismos físicos e biológicos geradores dessa característica no cérebro (Chalmers, 1996). O problema está, portanto, no fato de que enquanto a característica mental ou fenomenal de uma experiência tem ontologia na 1ª Pessoa, nosso acesso a ela está limitado a uma descrição física ou funcional da atividade cognitiva do cérebro na 3ª Pessoa. De fato, desde a navalha de Okcham aplicada por diferentes estratégias fisicalistas, e inclusive estratégias funcionalistas, o problema da lacuna explicativa parece resultado de uma decisão metodológica de excluir da descrição da atividade cognitiva o que caracteriza os aspectos subjetivos, afetivos, emocionais ou fenomenais porque exatamente eles não teriam acomodação entre as descrições físicas ou funcionais das propriedades do cérebro - a descrição da experiência elimina a própria experiência!

Não apenas agora, mas, a princípio, nunca a descrição de uma experiência na 3ª Pessoa vai reproduzir as características de 1ª pessoa da atividade cognitiva ou o que é ter uma experiência. E, de fato, não parece ser o caso. Mas a impossibilidade de reprodução das características de 1ª pessoa não implica sua eliminação do estudo da atividade cognitiva. Um tipo de esquizofrenia filosófica parece motivar o problema da lacuna explicativa quando ele é tido como o abismo a uma realidade inacessível ou como algo misterioso na própria experiência (Chalmers, 1996). Aliás, Chalmers é um exemplo claro da esquizofrenia filosófica (Searle, 1997, p. 145). Entre filósofos da mente que são simpáticos às estratégias cognitivistas, Chalmers é um exemplo claro. De acordo com ele, enquanto 'a cognição parece funcionalmente explicável, a consciência [fenomenal] resiste a uma explicação funcionalista' (Chalmers, 1996, p. 172). De um lado, ele advoga a impossibilidade de acomodação e acesso na 3ª pessoa às condições da experiência na 1ª pessoa; de outro, e ao mesmo tempo, afirma as condições funcionais de caracterização da atividade cognitiva. De uma perspectiva fisicalista, comparativamente, o problema da lacuna explicativa se mostra como parte de uma estratégia de explicação que exatamente exclui da explicação o que torna cognitiva uma atividade do cérebro. Que alternativa teríamos de lidar com a lacuna explicativa diante desse quadro de esquizofrenia filosófica?

Eu diria que uma estratégia de explicação da atividade cognitiva que não inclua a perspectiva de 1ª pessoa não é completa. O ciclo de função de Uexküll caracteriza um modelo pragmático de significação de uma experiência e significação sem representação a partir da descrição de 3ª pessoa. O cérebro é, por exemplo, um sistema dinâmico e interativo com o mundo. Um mundo de significação emerge e se abre aos diferentes mundos-próprios - o estudo da atividade cognitiva do cérebro não está separado de um mundo-próprio que concede a ela significação. Assim, a enação (Varela, 1988, p. 112) corresponderia à emergência de um mundo de distintas significações comparativamente aos distintos modos de experiência ou, no sentido de Uexküll, aos distintos mundos-próprios. Igualmente, assim como me parece, o ciclo de função mostra características semelhantes à noção de enação, como acoplamento estrutural entre organismo e meio avançada por Varela, e que, portanto, incluiria a perspectiva de 1ª pessoa.

Mas, é importante assinalar aqui a distinção entre dois sentidos de 'representação' indicados por Varela (1988, p. 99-0): (1) 'representação do estado do mundo'; e (2) 'noção pragmática de representação'. De acordo com Varela, no primeiro sentido, temos um tipo de concepção realista de representação cuja significação corresponde a uma assimilação interna de um mundo pré-determinado - 'um sistema opera a partir de representações internas' (Varela, 1988, p. 99). A chamada 'metáfora do computador' talvez seja o que ilustra melhor o imperativo de determinação entre representação e significação nas ciências cognitivas. Assim como o próprio sistema, a significação depende de representações internas já pré-definidas. Aliás, ao contrário de Ryle e Wittgenstein, Jerry Fodor (1978) parece sustentar, ao modo de um internalismo cartesiano, que as explicações do significado dos conteúdos mentais dependem do reconhecimento de representações internas, privadas e pré-definidas de um sistema.

"L'hypothèse cognitiviste prétend que la seule façon de rendre compte de l'intellegence et de l'intentionnalité est de postuler que la cognition consiste à agir sur la base de représentations qui ont une réalité physique sous la forme de code symbolique dans le cerveau ou une machine ... L'hipothèse est donc que les ordinateurs offrent um modèle mécanique de la pensée, ou, en d'autres mots, que la pensée s'effectue par une computation physique de symboles." (Varela, 1988, p. 38-9)

No segundo sentido, ao contrário, uma noção pragmática de representação destitui a assimilação interna de um mundo pré-determinado e a significação se constitui como circularidade entre ação e interpretação - 'a representação pragmática não veicula implicação epistemológica ou ontológica' (Varela, 1988, p. 100). Aliás, uma circularidade ação e interpretação que, de modo semelhante, o ciclo de função descreve como o mundo-próprio de um organismo entre seus campos de percepção e significação - ver exemplo do talo da flor: é a ação e a interpretação do organismo que determina a significação do talo. Assim, comparativamente, do ponto de vista de Varela, a partir da noção pragmática de representação, a ideia é tornar predominante a ação sobre a representação ou 'enação' - sistemas cognitivos constituem ações e interpretações e não representações de um mundo pré-determinado. E de acordo com o modelo do ciclo de função de Uexküll, a noção de circularidade entre ação e interpretação avançada por Varela se mostra como uma possível alternativa de lidar com o problema da lacuna explicativa.

O que parece ser crucial na teoria da significação de Uexküll, portanto, é que a noção de 'mundo-próprio' caracteriza objetivamente no comportamento a característica subjetiva da experiência de mundo de um organismo. Assim, as distinções ou os limites de um organismo ou sistema têm um significado subjetivo no sentido de que são operacionais, instrumentais ou convencionais entre dois domínios distintos de significação. Como descrição de diferentes mundos-próprios, o ciclo de função tem uma dupla função ou circularidade entre o que se designam os pontos de vista de 1ª e 3ª pessoas - ver Ilustração 1.

Do ponto de vista de 1ª pessoa, por exemplo, as distinções e os limites são, de fato, subjetivas e parcialmente predicáveis no sentido de que são determinadas a partir do ponto de vista de um organismo - de novo, ver exemplo do talo de flor. Quanto ao ciclo de função, no sentido do ponto de vista de 1ª pessoa, portanto, temos as seguintes alternativas:

  • Alternativa que não aceita modelos determinísticos ou probabilísticos, i.e., é um modelo 'observador-independente';
  • Concepção de determinismo subjetivo (como expectativa ou meta de um sujeito) - organismos e sistemas cognitivos são intérpretes de 1ª ordem.

Do ponto de vista de 3ª pessoa, no entanto, o ciclo de função caracteriza os limites e as distinções a partir de observadores externos e, comparativamente ao ponto de vista de 1ª pessoa, são também operacionais, instrumentais ou convencionais. Mas, no sentido da 3ª pessoa, a diferença é que os limites ou as distinções são interpretações de interpretações de 1ª ordem. Para Uexküll, comparativamente, o problema primordial consiste em saber como um observador pode reconhecer, decodificar ou representar sem distorcer os processos de significação característicos dos diferentes mundos-próprios.

 

Segunda Cibernética e lacuna explicativa

Aqui, me parece oportuno citar uma referência de Varela na Introdução ao trabalho do biofísico austríaco Heinz von Foerster (1984, p. xiii) sobre 'sistemas auto-observantes' cuja característica fundamental mostra uma 'coerência interna' ou 'eigenbehaviour' (ou 'comportamento próprio' - um neologismo entre 'eigen' do alemão e 'behaviour' do inglês). Como nome expressivo da história recente da cibernética no Século XX, a partir da década de 60, Foerster é considerado o inventor da 'cibernética de segunda ordem', ou 'cibernética da cibernética'. No sentido da cibernética de segunda ordem, portanto, o investigador é parte do sistema investigado. O investigador precisa estar ciente de que nunca pode ver como um sistema funciona a partir de uma visão exterior a ele porque está associado ciberneticamente ao sistema observado: quando um investigador observa um sistema, ele afeta e é afetado por ele.

As ciências cognitivas entre 1ª e 2ª Cibernéticas:

 

 

Entre 1ª e 2ª Cibernéticas, as ciências cognitivas se desenvolvem entre paradigmas representacionalista e não-representacionalista. No primeiro paradigma, Varela (1988, p. 14-15) considera ser o domínio ortodoxo das ciências cognitivas.

Grande parte das ideias de Varela teve a influência decisiva de Foerster e ele mesmo reconhece sua dívida. Se, como assinala Varela (1984, p. xviii), a 'primeira cibernética' corresponde ao estudo de 'sistema observados' e supostamente, associados à noção de representação, ao contrário, na 'segunda cibernética', o estudo tem como objeto 'sistema observantes'. E 'objeto' significa 'sinais de eigenbehaviour' e não uma realidade dada à representação objetiva de um observador exterior. No sentido de Foerster (1984, p. 2; 5-7), por exemplo, embora não seja representacional, a relação entre sistemas observantes e meio é estrutural, o que nos remete, novamente, ao ciclo de função de Uexküll, i.e., a significação é resultado de uma relação funcional entre organismo e meio.

Assim, na teoria pragmática da significação de Uexküll, comparativamente à cibernética de segunda ordem, o ciclo de função tem o duplo papel de caracterizar as distinções e os limites ente os pontos de vista de 1ª e 3ª pessoas: de um lado, é a caracterização de uma experiência vivida no sentido fenomenológico (e sinal de eigenbehaviour); e, de outro, é a caracterização dos mecanismos cognitivos de um organismo ou um sistema (e o observador como parte do objeto observado). O ciclo de função, portanto, toma a forma de um conceito-operador de caracterização operacional, instrumental ou convencional entre dois domínios de distintas significações. Assim, comparativamente ao desenvolvimento da cibernética como parte do desenvolvimento da teoria dos sistemas, me parece razoável afirmar que mundos-próprios constituem sistemas observantes e sinais de eigenbehaviour. E considerando o desenvolvimento da cibernética de segunda ordem, é exatamente o duplo papel do ciclo de função que indica e se aproxima de uma possível 'alternativa à representação' e a estratégia de 'trabalhar sem representação' nas ciências cognitivas (Varela, 1988, p. 113).

A partir do duplo papel do ciclo de função, portanto, Uexküll procura estabelecer conceito-operador de caracterização do comportamento animal além da clássica distinção cognitivista entre 'descrição' e 'existência' (Berthoz & Petit, 2006, p. 45). De um lado, a caracterização na 3ª pessoa como descrição do comportamento e, de outro, no sentido da 1ª pessoa, a caracterização da existência como experiência. Como vimos acima, o problema da lacuna explicativa é a oposição entre 1ª e 3ª pessoas no estudo da atividade cognitiva. Mas, ao contrário, o duplo papel do ciclo de função entre descrição e existência parece sugerir o que Varela (1988, p. x) designa 'uma circulação entre uma primeira pessoa e um discurso externo à experiência humana'. Existência teria o sentido de experiência na 1ª pessoa enquanto descrição significaria o discurso na 3ª pessoa. Como assinalado anteriormente, de acordo com uma visão pragmática, para um organismo ou um sistema, as fronteiras ou os limites de significação são sempre instrumentais, operacionais ou convencionais entre 1ª ou 3ª pessoas.

Talvez tivéssemos aqui uma possível alternativa de lidar com esquizofrenia filosófica da lacuna explicativa. Para as ciências cognitivas, de acordo com Varela, portanto, o que significaria a circulação entre 1ª e 3ª pessoas? A princípio, ela significaria uma estratégia não-representacionista. Ao invés de representação, a ação cognitiva é sempre interpretação pragmática ou significação entre as distinções ou os limites de dois domínios. Por exemplo, Uexküll afirma que o trabalho do biólogo consiste em investigar o 'sujeito' dos diferentes mundos-próprios. Assim, considerando as distinções e os limites no esquema do ciclo de função, o que significa o sujeito senão um domínio de 1ª pessoa ou característica de uma experiência de mundo? E quanto ao trabalho do biólogo? Dado a perspectiva de 3ª pessoa, ele significa o domínio de descrição objetiva do comportamento. A partir da noção de duplo sentido da corporeidade tirada de Merleau-Ponty, comparativamente, o duplo papel do esquema do ciclo de função entre 1ª e 3ª pessoas parece indicar o que Varela (1993, p. 18-19), respectivamente, assinala ser a 'circulação entre ciências cognitivas e experiência humana'.

De acordo com Varela (1993, p. 36), portanto, do ponto de vista da enação, a circulação entre experiência e ciências cognitivas torna-se central. Ao contrário das estratégias representacionalistas, como, por exemplo, entre neurocientistas cognitivos, cognição e experiência são realidades separadas - estuda-se a cognição a partir da análise das propriedades neurofuncionais do cérebro independentemente de nossa interação com ele. E o cérebro é um sistema dinâmico e constantemente interativo com o mundo. Ainda de acordo com Varela (1993, p. 36-37 - Figure 1.4), portanto, 'uma descrição científica, que seja biológica ou mental, é ela mesma um produto da estrutura de nosso próprio sistema cognitivo'. O que a descrição científica mostra é nossa atividade reflexiva a partir de um 'plano de fundo' de nossas experiências e práticas biológicas ou culturais. E, comparativamente, na 'cibernética de segunda ordem' ou 'cibernética da cibernética' de Foesrter, o investigador é parte do sistema investigado e constituem ambos partes de um sistema cognitivo entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas.

 

Significação e circulação entre 1ª e 3ª pessoas

Assim, creio, é possível uma alternativa ao problema da lacuna explicativa e a significação de uma experiência entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas. Ao invés de determinar as condições de possibilidade de significação de uma experiência a partir de critérios externos a ela, de fato, a distinção de significado entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas mostraria ser conceitual e não ontológica: o conceito de uma coisa (por exemplo, 'dor') teria dois modos de significação ou referência:

E = 'dor'; p = significado fenomenológico de dor na 1ª pessoa (ou experiência de sentir certo tipo de dor); ou q = significado epistemológico de dor na 3ª pessoa (ou descrição da ativação das fibras-C). Logo, 'dor' significa uma experiência de sentir alguma coisa ou ativação das fibras-C: [e -> (p v q)].

A significação de 'dor' se mostra entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas e, no entanto, não implica uma distinção ontológica entre ambas - 'p' e 'q' são modos complementares de significação de uma única realidade 'E'. A noção de modos complementares de significação mostraria uma alternativa à concepção tradicional da lacuna explicativa como resultado da distinção ontológica entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas. Ao invés da distinção ontológica, 1ª e 3ª pessoas correspondem a distintos níveis de significação.

No período entre o 'Tractatus Lógico-Philosophicus' (1922) e as 'Investigações Filosóficas' (1952), aqui, comparativamente, talvez seja oportuno assinalar uma parte da 'filosofia da psicologia' de Wittgenstein referente à assimetria de uso dos verbos psicológicos entre 1ª e 3ª pessoas. Além do tema da assimetria, a filosofia da psicologia de Wittgenstein corresponde ao estudo do comportamento dos verbos psicológicos e sua referência ao conteúdo interno de uma experiência entre 1ª e 3ª pessoas. Assim, por exemplo, seria o caso de um uso dos verbos psicológicos em que não haveria uma 1ª pessoa, um 'eu' ou um 'si mesmo' ontologicamente distinto da 3ª pessoa:

"Uma linguagem na qual 'acredito que p' é expresso apenas através do tom de voz da afirmação 'â"œ p '. Em vez de 'Ele acredita...', diz-se aí 'Ele está inclinado a dizer...' e existe também a hipótese 'Suponhamos que eu estava inclinado a dizer...', mas não uma expressão 'Estou inclinado a dizer...'" (Wittgenstein, 2007,.§83)

O que se nota na citação de Wittgenstein é que, por exemplo, o uso do verbo 'acreditar' entre duas sentenças 'Ele está inclinado a dizer' e 'Estou inclinado a dizer' mostra que os conteúdos expressos são simétricos entre 1ª e 3ª pessoas. Assim, a distinção de significado entre as 1ª e 3ª pessoas mostraria ser conceitual, não ontológica e não implicaria a existência de um 'eu' accessível introspectivamente a si mesmo. De fato, Wittgenstein parece indicar uma possível dissolução ontológica entre 1ª e 3ª pessoas a partir da noção do uso significativo dos verbos referentes a conteúdos psicológicos. É um aspecto importante. Por exemplo, um uso do termo 'dor' significa dizer 'dor' e não o que é o sentido ontológico da experiência de dor entre 1ª e 3ª pessoas.

Não sei se é uma expressão precisa minha aqui, mas, talvez, seja um tipo de 'neutralismo ontológico' o que a filosofia da psicologia de Wittgenstein sugere quanto ao significado dos verbos psicológicos entre 1ª e 3ª pessoas. Aliás, ao empreender uma análise conceitual dos termos mentais, como um bom wittgensteiniano, comparativamente, Ryle (1949/2005) dissolve o uso ontológico dos verbos psicológicos a partir da dissolução do problema mente-corpo. No sentido de Ryle, portanto, o que determina o significado de um verbo psicológico são o uso e a disposição na ação e não uma suposta representação mental introspectiva de uma entidade privada.

Assim, comparativamente à dissolução da assimetria ontológica entre 1ª e 3ª pessoas na filosofia da psicologia de Wittgenstein, ambas constituem partes significativas e complementares de um sistema cognitivo. 'Dor' não significa somente o que o estudo da ativação das fibras-C mostra, mas, igualmente, significa uma experiência de sentir alguma coisa no ponto de vista de um sujeito particular e parte de um meio social e cultural. E considerando-se a aproximação entre ciclo de função (Uexküll) e enação (Varela), portanto, temos uma possível alternativa de abordar o problema da lacuna explicativa a partir da noção de 'circularidade' entre a perspectiva de 1ª pessoa e nossa visão externa à experiência na 3ª pessoa. Por exemplo, a análise dos aspectos cognitivos de 'dor' se constituiria sobre a circulação de significação entre a experiência de sentir alguma coisa na 1ª pessoa e a descrição da ativação das fibras-C na 3ª pessoa. Assim, finalmente, 1ª e 3ª pessoas constituiriam partes significativas e complementares de um mesmo sistema cognitivo. A distinção entre 1ª e 3ª pessoas se constituiria, portanto, entre níveis de significação e não entre níveis ontologicamente distintos. E, comparativamente a um ponto de vista pragmático, as distinções e limites de significação entre domínios de 1ª e 3ª pessoas são, portanto, sempre operacionais, instrumentais ou convencionais como, por exemplo, mostra ser o modelo do ciclo de funções de Uexküll; e ciclo no sentido de circularidade de perspectivas como afirma Varela.

 

Conclusão

O texto procurou identificar os elementos pragmáticos da teoria da significação de Jakob von Uexküll. A partir de uma referência primeira a Peirce e William James, como teoria pragmática, me pareceu fundamental mostrar suas possíveis coincidências com alguns aspectos da crítica da filosofia analítica à noção de representação mental, por exemplo, entre autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, e a ideia de significação sem representação. De modo similar, procurei mostrar que a teoria da significação de Uexküll coincide com aspectos da crítica de Varela à noção de representação nas ciências cognitivas e sua ideia de 'trabalhar sem representação'. Procurei, finalmente, indicar uma possível alternativa não-representacionista nas ciências cognitivas, assim como indicar uma alternativa de tratar o problema da 'lacuna explicativa' a partir da aproximação entre as noções de ciclo de função (Uexküll) e circulação entre 1ª e 3ª pessoas (Varela).

 

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Notas

A. Araújo
Endereço para Correspondência: Departamento de Filosofia, CCHN, UFES, Av. Fernando Ferrari, 514, Campus Universitário Goiabeiras, Vitória, ES 29.075-910, Brasil.
Telefone/Fax para contato: +55-27-4009-2513.
E-mail para correspondência: aart037@gmail.com.

 

 

(1) 'O termo Umwelt corresponde em português a ambientemundo ambiente ou, com menos propriedade, meio ambiente. No sentido, porém, em que o autor [von Uexküll] o emprega, ele significa qualquer coisa que depende do ser vivo considerado, e resulta de uma como que selecção por este realizada, dentre todos os elementos do ambiente, em virtude da sua própria estrutura específica - o seu mundo-próprio' (Uexküll, 1982, p. 24 - nota do tradutor). Em um artigo de revisão do trabalho de seu pai, Thure von Uexküll (2004, p. 24 - nota 3) procura evitar ambigüidade no uso do termo Umwelt. Inicialmente, ele usa o termo 'automundo' ('Self-world' no original em inglês), como referência à organização de uma estrutura interna e específica da espécie, por oposição a mundo externo ou ambiente e, em seguida, usa o termo Umwelt. Assim, o filho teria resolvido um problema terminológico na teoria do pai, em termos de um sutil intercâmbio entre 'automundo' e Umwelt, cujo sentido me parece equivalente a 'mundo-próprio' como sugere a tradução portuguesa. Na tradução francesa, no entanto, Umwelt corresponde à expressão 'monde vécu' (Uexküll, 1956, p. 15). Neste sentido particular do termo Umwelt, a ideia talvez seja que Uexküll procura um conceito-operador de caracterização do comportamento animal além da clássica distinção entre 'descrição' e 'existência' (Berthoz & Petit, 2006, p. 45) - 'mundo vivido' (monde vécu) parece sugerir a caracterização fenomenológica dos diferentes tipos de experiência. Comparativamente, e quanto a uma recente concepção fenomenológica nas ciências cognitivas, assinala Varela (1988, p. X), o que se procura é 'uma circulação entre uma primeira pessoa e um discurso externo da experiência humana' e que, no entanto, não significa uma distinção entre os dois campos (descrição e experiência). Assim, no sentido de 'experiência vivida', a noção de 'mundo-próprio' descreve objetivamente no comportamento a característica subjetiva da experiência de um organismo (Araújo, 2010, p. 55).

(2) É oportuno igualmente assinalar aqui que a significação de um objeto (a parede lisa) corresponde a sua utilidade e, portanto, é determinada pragmaticamente em função da ação do organismo.

Tarde Gabriel sobre Bruno Latour

 http://www.bruno-latour.fr/sites/default/files/82-TARDE-JOYCE-SOCIAL-GB.pdf 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Sobre o normal e o patológico

 

O sucesso da física de Galileu e Newton trouxe, para as demais ciências, um apelo para que se adequassem a seu modelo explicativo (HULL, 1971). Esse modelo era constituído pelo método hipotético–dedutivo, guiando o planejamento e execução de observações e experimentos de comprovação. As hipóteses formuladas eram sempre do tipo causal, em que determinado fator – por exemplo, uma força atuando sobre um corpo – gera determinado efeito – por exemplo, a alteração da velocidade desse corpo. Com esse tipo de modelo Newton conseguiu, utilizando apenas três esquemas causais (as famosas três leis de Newton), explicar o movimento dos corpos.

Tal concepção de causalidade reduzia a três as possibilidades explicativas levantadas por Aristóteles:

a) causas materiais, como a massa do corpo em movimento;

b) causas formais, como a forma retilínea ou circular do movimento; e

c) causas eficientes, como a força gravitacional atuando sobre o estado de movimento do corpo.

Desse modelo explicativo foram excluídas as causas finais propostas por Aristóteles, que eram freqüentemente evocadas para explicar os fenômenos da vida e da saúde. Mesmo no plano do conhecimento comum, costumamos fazer raciocínios finalistas ou teleológicos para explicar os fenômenos da vida, especialmente aqueles relacionados ao comportamento animal. Entendemos que animais realizam diversas ações objetivando – de modo intencional ou não – atingir certas metas, como a sobrevivência individual e a reprodução da espécie.

Como se poderia conciliar essa concepção teleológica com o modelo da física newtoniana? Os chamados vitalistas, proponentes da existência de uma força vital adicional às forças físicas conhecidas, insatisfeitos com aquele modelo mecanicista do universo, não poderiam simplesmente contrapor, à monumental física de Galileu e Newton, os princípios metafísicos de Aristóteles e filósofos medievais. Para comprovar a existência da teleologia, tiveram que se engajar em experimentos científicos do mesmo estilo daqueles empregados por Galileu para demonstrar que a Terra se move.

Na última década do século XIX, Hans Driesch tentou comprovar a existência de um princípio vital teleológico (intitulado entelechia), por meio de um experimento no qual dividiu ao meio um embrião de ouriço–do–mar que se encontrava numa fase de desenvolvimento composta de duas células (blastômeros). Observou–se que um blastômero veio a se desenvolver por inteiro, regenerando a parte perdida. Este resultado foi interpretado por Driesch como indicador da ação da entelechia sobre o blastômero, conduzindo–o para uma meta (telos), que seria a forma do ouriço em sua completude (vide discussão em Weydert, 2004).

A medicina homeopática já se encontrava desenvolvida nessa época, em particular no trabalho de Samuel Hahnemann. A homeopatia se afirmou como prática clínica de promoção da saúde, através do princípio da "cura pelo semelhante", isto é, promovendo a cura de uma doença através da utilização de um princípio ativo semelhante aos fatores causadores da doença. Assumindo um dinamismo vital que opera num domínio não abarcado pelas categorias explicativas do mecanicismo, o movimento homeopático adotou uma estratégia pragmática, procurando comprovar a veracidade de seus princípios através dos efeitos benéficos oriundos de sua aplicação.

No século XIX também encontramos a grande síntese realizada por Bernard (1865), adequando o modelo mecanicista aos avanços do conhecimento e da prática médicas. Nesse momento, a própria física expandia seus horizontes, com o eletromagnetismo de Maxwell, a termodinâmica de Clausius e a teoria cinética dos gases de Boltzmann, introduzindo novos conceitos que vieram a ter importante influência nas ciências da vida e da saúde: os conceitos de campo magnético e de equilíbrio termodinâmico.

Os estudos de Claude Bernard sobre os mecanismos de regulação orgânica possibilitaram, em conjunção com os avanços da física, a formulação do conceito de homeostase por Walter Cannon em 1928 (vide BAYLISS, 1966). Segundo Bernard, a vida depende da "constância do ambiente interno", ou seja, de um equilíbrio que resulta de "uma compensação contínua e delicada, estabelecida pelo mais sensível balanceamento" (BERNARD, 1865). Tal concepção de equilíbrio dinâmico amplia o modelo mecanicista em direção ao organicismo, sem, contudo, entrar em contradição com as premissas básicas do primeiro.

O movimento positivista francês, que possivelmente teve em Augusto Comte seu maior expoente, pode ser entendido como uma iniciativa fundamentalista de preservação dos princípios da ciência moderna, e de sua aplicação para o aperfeiçoamento da sociedade humana. Nesse contexto se forjaram os conceitos de normalidade e patologia posteriormente discutidos por George Canguilhem.

Neste ensaio,1 discutimos em que medida Canguilhem é bem–sucedido em sua crítica a uma visão mecanicista do normal e do patológico, e em que medida ele recai numa posição vitalista. Sugerimos a possibilidade de que ele tenha superado a oposição entre mecanicismo e vitalismo, antecipando os atuais modelos de sistemas dinâmicos não–lineares. Para tal, fazemos uma breve comparação com o conceito de auto–organização proposto por Michel Debrun (1996).

A discussão da normalidade e da patologia

O conceito de normatividade da vida faz parte do núcleo epistemológico central do pensamento de Canguilhem. Inicialmente ele foi apresentado numa discussão crítica do conceito de normalidade, amplamente utilizado na clínica médica.

Em sua tese de doutorado (Ensaio sobre alguns problemas relativos ao normal e ao patológico, 1943), o entendimento de Canguilhem sobre a racionalidade médica era marcado por sua definição de medicina como sendo uma atividade clínica e terapêutica, uma atividade técnica e/ou "uma arte situada na confluência de várias ciências, mais do que uma ciência propriamente dita [...] de instauração e restauração do normal, que não pode ser inteiramente reduzida ao simples conhecimento" (CANGUILHEM, 1995, p. 16, Introdução). Nesse sentido, deixou claro que seu trabalho seria "um esforço para integrar, à especulação filosófica, alguns dos métodos e das conquistas da medicina", ressaltando que "tivemos a ambição de contribuir para a renovação de certos conceitos metodológicos, retificando sua compreensão pela influência de uma informação médica" (CANGUILHEM, 1995, p. 16).

Canguilhem tinha como objetivo final desenvolver uma metodologia apropriada às ciências da vida, relacionando–as à atividade terapêutica na medicina. Tal objetivo contrastava com o panorama epistemológico da época:

a identidade real dos fenômenos vitais normais e patológicos, aparentemente tão diferentes, aos quais a experiência humana atribuiu valores opostos, tornou–se durante o século XIX uma espécie de dogma cientificamente garantido, cuja extensão no campo da filosofia e da psicologia parecia determinada pela autoridade que os biólogos e os médicos lhe reconheciam (CANGUILHEM, 1995, p. 23).

Ele considerou problemático o uso então realizado dos conceitos de normalidade e patologia na prática médica. Notou a dimensão do problema através da classificação de nosologia somática ou de fisiologia patológica, na época: "o problema do normal e do patológico pode, do ponto de vista médico, dividir–se em problema teratológico e em problema nosológico, e este último, por sua vez, em problema de nosologia somática ou de fisiopatologia, e em problema de nosologia psíquica ou de psicopatologia" (CANGUILHEM, 1995, p.16). Tal classificação expressaria concepções ambíguas e equívocas sobre o uso do conceito de normalidade.

Duas partes da tese de doutorado foram construídas para destrinchar este problema epistemológico: uma parte revelando erros de concepção das relações entre ciência e técnica, e outra mostrando interpretações ambíguas na relação entre a norma e o normal.

A primeira parte da tese se guia pela pergunta "Seria o estado patológico apenas uma modificação quantitativa do estado normal?" (CANGUILHEM, 1995, p. 19). A partir dessa pergunta, ele aborda criticamente as reflexões propostas sobre as relações entre os conceitos de normal e patológico, os quais, desde o século XIX, eram usados para designar uma variação quantitativa de um padrão considerado como sendo referência. É justamente essa dimensão quantitativa que, na atividade terapêutica, autorizava a intervenção médica.

Para realizar essa análise crítica, Canguilhem realizou estudos sobre a obra de dois autores do século XIX que influenciaram profundamente as ciências médicas: Augusto Comte e Claude Bernard. Para ele, "esses autores desempenharam o papel de porta–bandeira" (CANGUILHEM, 1995, p. 26). Enquanto na doutrina de Comte o interesse se dirige "do patológico para o normal com a finalidade de determinar especulativamente as leis do normal", no pensamento de Bernard o interesse dirige–se "do normal para o patológico [...] como fundamento de uma terapêutica" (CANGUILHEM, 1995, p. 23). Nessa análise, Canguilhem distingue as dimensões valorativas e fenomenológicas da doença, e, conseqüentemente, coloca em questão a fundamentação quantitativista da normalidade (SERPA JUNIOR, 2006, p. 4–5):

Na discussão desses dois sentidos (do termo normal) fizemos ver o quanto esse termo é equívoco, designando ao mesmo tempo um fato e um valor atribuído a esse fato por aquele que fala, em virtude de um julgamento de apreciação que ele adota. Fizemos ver, também, o quanto esse equívoco foi facilitado pela tradição filosófica realista, segundo a qual toda generalidade é indício de uma essência; toda perfeição, a realização de uma essência e, portanto, uma generalidade observável de fato adquire o valor de perfeição realizada, e um caráter comum adquire um valor de tipo ideal. Assinalamos uma confusão análoga em medicina, em que o estado normal designa ao mesmo tempo o estado habitual dos órgãos e seu estado ideal, já que o restabelecimento desse estado habitual é o objeto usual da terapêutica (CANGUILHEM, 1995, p. 95–96).

Na segunda parte de sua tese, Canguilhem apresenta sua própria abordagem do problema, fazendo a seguinte pergunta: "Existem ciências do normal e do patológico?" (CANGUILHEM, 1995, p. 87). A discussão só será resolvida com a introdução do conceito de normatividade da vida – que irá tomar o lugar da noção de normalidade como foco central de suas preocupações. A normatividade indica que a vida estabelece normas para si mesma, ou seja, se autodetermina. Ao introduzir esse conceito, Canguilhem resgatava a idéia de autodeterminação, que era cara ao vitalismo, porém num contexto diferenciado, o da discussão do modelo organicista de Bernard e das diretrizes científicas de Comte. Sua argumentação se baseou numa crítica de determinadas categorias referenciadas no conceito de normalidadeanormal, anomalia, norma, média e patologia são termos enfocados em sua análise de dogmas subjacentes à atividade médica terapêutica (CANGUILHEM, 1995, p. 95–97).

Inicialmente, constata–se que a ambigüidade do termo normal não deve ser eliminada, mas problematizada. Em medicina, costuma–se identificar o estado normal do corpo humano com o estado que se deseja restabelecer, no caso de acometimento de doenças. Um primeiro problema se apresenta: "mas será que se deve considerá–lo normal porque é visado como fim a ser atingido pela terapêutica, ou pelo contrário, será que a terapêutica o visa justamente porque ele é considerado como normal pelo interessado, isto é, pelo doente?" (CANGUILHEM, 1995, p. 95–97).

Canguilhem assume que "a atividade valorativa atribuída a um fato biológico só poder ser feita por `aquele que fala', evidentemente um homem". Ora, continua ele, "a medicina existe como arte da vida porque o ser vivo considera, ele próprio, como patológicos certos estados ou comportamentos que, em relação à polaridade dinâmica da vida, são apreendidos sob a forma de valores negativos".

Essa proposição conduz ao segundo problema: "será que há um efeito espontâneo que prolonga a vida, próprio da vida, que é mais ou menos lúcido para o ser humano na luta contra os obstáculos à sua manutenção e desenvolvimento, e que é tomado como norma?" Uma resposta se apresenta: "o restabelecimento de um ser vivo traduz um fato fundamental da vida, que a vida não é indiferente às condições nas quais ela não é possível, dado que a vida é polaridade, isto é, que a vida é de fato uma atividade normativa".

A discussão sobre o normal e o patológico conduz Canguilhem ao conceito de normatividade da vida, que se apresenta como sendo também bivalente: seria um princípio ontológico, intrínseco à própria vida, e também um princípio epistemológico, atribuído à vida pelo ser humano (o médico, e/ou seu paciente, e/ou qualquer outro observador da vida). Ele apresenta ambas as possibilidades numa pergunta retórica: "Propomos falar sobre uma normatividade biológica [...] emprestamos assim às normas vitais um conceito humano, ou queremos saber como é que a normatividade essencial se explica à consciência humana, que de certo modo está em germe na vida?" (CANGUILHEM, 1995, p. 95–97). A resposta a esta pergunta só poderia ser: ambas as alternativas são verdadeiras! Contudo, devemos ressaltar a originalidade da segunda alternativa, que constituiria o núcleo central da epistemologia de Canguilhem: a consciência humana como expressão do processo de auto–organização da vida.

Normatividade e polaridade da vida

Ao inferir, em sua análise crítica da normatividade médica, a existência de uma normatividade da vida, teria Canguilhem tendido ao vitalismo? Sua concepção de vida já havia sido anunciada em 1943, na idéia mais geral de polaridade da vida, significando que a vida ora participa da Natureza, ora segue suas próprias normas:

A polaridade dinâmica da vida e a normatividade que a traduz explicam um fato epistemológico cuja importância Bichat havia sentido plenamente. Existe patologia biológica, mas não existe patologia física, nem química, nem mecânica [...]. Pode–se dizer que Aristóteles acreditara outrora numa mecânica patológica, já que admitia dois tipos de movimentos: os movimentos naturais, pelos quais um corpo retoma seu lugar próprio e onde fica em repouso, como a pedra se dirige para "o baixo terrestre" e o fogo para "o alto celeste"; e os movimentos violentos pelos quais um corpo é afastado de seu próprio lugar, como quando se joga uma pedra para o ar. Pode–se dizer que o progresso do conhecimento físico consistiu em considerar todos movimentos como naturais, isto é, conforme as leis da natureza e que, da mesma forma, o progresso do conhecimento biológico consiste em unificar as leis da vida natural e da vida patológica. É justamente com essa unificação que Comte sonhava e que Claude Bernard vangloriou–se de ter realizado (como vimos). Às reservas que, então, julgamos necessárias expor, acrescentamos ainda o seguinte: a mecânica moderna, baseando a ciência do movimento no princípio da inércia, tornava absurda, com efeito, a distinção entre os movimentos naturais e os movimentos violentos, já que a inércia é precisamente a indiferença em relação às direções e às variações do movimento. Ora, a vida está bem longe de uma tal indiferença em relação as condições que lhe são impostas; a vida é polaridade. O mais simples dos aparelhos biológicos de nutrição, de assimilação e de excreção traduz uma polaridade. Quando os dejetos da assimilação deixam de ser excretados por um organismo e obstruem ou envenenam o meio interno, tudo isso, com efeito, está de acordo com a lei (física, química etc.), mas nada disso está de acordo com a norma, que é a atividade do próprio organismo. Este é o fato simples que queremos designar quando falamos em normatividade biológica (CANGUILHEM, 1995, p. 97–98).

Nessa longa citação estão sintetizados alguns dos principais dilemas teóricos da biologia moderna, principalmente a tensão entre a visão finalista de Aristóteles e o mecanicismo de física newtoniana. Ao invés de simplesmente se engajar como mais um defensor da teleologia, e de seu respectivo fundamento – o princípio vital –, Canguilhem procura não só reconhecer a tensão conceitual existente, como também reelaborá–la em termos de uma concepção de polaridade da própria vida. Deste modo, o problema epistemológico que era objeto de sua análise crítica é entendido como decorrente de um estado de coisas intrínseco à própria vida.

Canguilhem reconhece esta situação nos escritos de 1955 (A formação do conceito de reflexo nos séculos XVI e XVII), procurando recusar a pecha de vitalista:

Pouco importa ser ou não tido como vitalista ou pecha semelhante que se queira atribuir com esse adjetivo. A rigor, o termo vitalista só deveria servir para designar uma teoria biológica, ou uma filosofia do biólogo, se tal empreendimento tem um sentido para ele, e não uma filosofia da biologia, único empreendimento possível para um filósofo, porém não confundido com uma biologia de filósofo, que seria um projeto monstruoso. O fato de se interessar por uma família de espíritos e de fazê–la parecer viva quando muitos a crêem morta não conduz obrigatoriamente a uma identificação mágica com ela. Se então nos esforçamos, tanto nesse presente estudo como em outros, a defender a biologia dos vitalistas contra a acusação de aberração ou de esterilidade, não é absolutamente porque pensemos estar na posse de uma chave vitalista dos problemas colocados para a inteligência pela vida. Nós não pensamos ter a chave, pela boa razão que nós não acreditamos nas portas misteriosas da vida. Pode–se admitir que a vida desconcerte a lógica, sem que por isso acreditemos ser preferível renunciar à formação de conceitos para procurar alguma chave perdida. Pensamos também que uma convicção vitalista não tem a prerrogativa de gerar no biólogo, diante os problemas que a vida lhe coloca, a preguiça e a idiotice. Existem alguns exemplos que mostram o contrário (CANGUILHEM, 1955, p. 1).

Portanto, Canguilhem não seria o advogado de uma medicina vitalista – vide discussão em Serpa Junior (2006, p. 8), Ferraz (1994, p. 6 e seguintes), mas sim de uma reflexão epistemológica sobre a vida que não se prendesse às categorias mecanicistas. Para ele, enfim, o vitalismo seria apenas "a expressão da confiança do ser vivente na vida, da identidade da vida consigo mesma no vivente humano, consciente de viver" (CANGUILHEM, 1952, p. 101).

Quando Canguilhem assume a direção do Institut d'Histoire des Sciences et des Techniques, da Universidade de Paris, passa a entender como sendo primordial, na construção de seu pensamento, distinguir o progresso efetivado pelas ciências biológicas daquele realizado pelas ciências médicas. Na coletânea publicada em 1977 (CANGUILHEM, 1977), o filósofo enfatiza a instância epistemológica no trabalho historiográfico voltado às ciências da vida. Entre 1969 e 1976, ele explorara uma gama de exemplos historiográficos sobre a ideologia no campo da ciência, especificamente na Medicina e Biologia. No entanto, o princípio ontológico de normalidade da vida ainda desempenhava papel central em sua argumentação.

Nesses trabalhos, Canguilhem reitera que "normal" é um termo ambíguo, que pode ser usado tanto para a descrição de um fato, como para a atribuição de um valor (i.e., para uma avaliação do fato). Normal é aquilo que deve ser (valor), mas também é entendido como aquilo que se encontra na média (fato). O uso avaliativo é distinto do uso quantitativo de normalidade. A concepção quantitativa de normal é descritiva, na medida em que informa o quanto se afasta da posição normal, mas somente o recurso a um valor pode servir de referência para se avaliar em que medida de afastamento do normal ingressamos no domínio do patológico.

Por outro lado, com base no conceito de normatividade se poderia compreender o fenômeno da vida em sua racionalidade intrínseca. A normatividade está presente fenomenologicamente no próprio ser vivente e na vida: "a vida não é indiferente às condições nas quais ela é possível...é polaridade [...] em resumo, a vida é, de fato, uma atividade normativa" (CANGUILHEM, 1995, p. 96); e é extensível a todos seres vivos: "Viver é, mesmo para uma ameba, preferir e excluir" (CANGUILHEM, 1995, p. 105).

Tal distinção conceitual entre "normalidade" e "normatividade" teria importância para a racionalidade médica, à medida que se procure compreender a atividade terapêutica dentro do campo maior das ciências da vida (LACEY, 1998). Dessa distinção decorre uma outra distinção feita por Canguilhem entre patologia e anomalia. A anomalia designaria uma variação, diferença, descontinuidade espacial e/ou morfológica da espécie, que é valorizada negativamente pela própria vida – ou seja, a anomalia é um fenômeno intrínseco ao processo vital. Já no termo patológico, considera–se o organismo em relação ao meio, podendo–se ou não ser patológico, dependendo as variações do meio ambiente. Ou seja, a patologia é um termo empregado num julgamento extrínseco ao organismo, quando tomado em referência ao meio em que se situa.

Desse raciocínio surgem modificações da proposta apresentada na tese de 1943, buscando um acordo com o progresso das ciências médicas em 1977. No contexto da descoberta científica na medicina, o conceito de normal passa a ser entendido como referente ao contexto da interação entre o organismo e o meio, e não do organismo isoladamente. O meio é normal quando o organismo desenvolve sua vida em acordo com sua norma. A anomalia exprime uma outra norma de vida que se impõe; ela poderá ser inferior, igual ou superior à norma anterior, correspondendo respectivamente aos modos patológico, normal e favorável à fecundidade e variabilidade da vida. Neste caso, o patológico não é ausência de uma norma biológica, mas a ocorrência de uma norma recusada pela vida. Assim, o anormal não é a ausência, mas a restrição da normatividade vital:

Nem toda anomalia é patológica, mas só a existência de anomalias é que propiciou uma ciência especial das anomalias, que tende usualmente – pelo fato de ser ciência – a banir, da definição da anomalia, qualquer implicação normativa [...] a anomalia é a conseqüência de variação individual que impede dois seres de poderem se substituir um ao outro de modo completo [...]. No entanto, diversidade não é doença. O anormal não é patológico. Patológico implica pathos, sentimento direto e concreto de sofrimento e de impotência, sentimento de vida contrariada [...]. Sem dúvida, há uma maneira de considerar o patológico como normal, definindo o normal e o anormal pela freqüência estatística relativa [...] em certo sentido pode–se dizer que a saúde perfeita contínua é um fato anormal (CANGUILHEM, 1995, p. 106).

Considerações finais: sobre a normatividade da vida e a auto–organização

O conceito de causa final, de Aristóteles, assim como os postulados de um princípio vital, pelos adversários do modelo mecanicista da ciência moderna, tinham em comum o caráter fundamentalista atribuído à teleologia. Ou seja, a existência de uma meta ou telos para a atividade dos seres vivos era entendida como preexistente e condicionante desta atividade.

No conceito de normatividade da vida de Canguilhem podemos notar uma inversão dos fatores, em que o processo vital antecede e determina a emergência de normas, as quais podem ser alteradas conforme os caminhos percorridos.

A distinção entre uma teleologia fundamental e uma teleologia derivada de um processo encontra um paralelo em estudos contemporâneos de fenômenos de auto–organização (AO), em particular na teoria proposta por Michel Debrun (1996). Debrun distingue entre dois tipos de AO. Na AO primária, um sistema – i.e., uma rede de relações – se forma a partir das interações que se estabelecem entre diversos elementos anteriormente independentes entre si. Já na AO secundária, um sistema já constituído, que seja aberto a interações com seu meio (o que é uma condição necessária, tendo em vista a Segunda Lei da Termodinâmica), passa por transformações organizacionais que decorrem primordialmente de relações intrínsecas (aquelas que são estabelecidas ao longo do tempo, entre os componentes do sistema), e não de uma ação extrínseca (i.e., de fatores externos ao sistema, o que – se fosse o caso – caracterizaria uma hetero–organização).

A partir da teorização sobre a AO realizada por Debrun, podemos fazer uma distinção mais clara entre a concepção de teleologia defendida pelos vitalistas e o conceito de normatividade da vida de Canguilhem. O princípio vital, que fundamenta as ações teleológicas, é concebido como um princípio metafísico (ou, em determinadas versões, como uma força da natureza ainda não tematizada pela Física) que se situa extrinsecamente ao ser vivo, e conduz a atividade deste ser em direção a uma meta ou conjunto de metas. Já a normatividade da vida, ao contrário, emerge da própria atividade do ser vivo, se manifestando como escolha ou mesmo como intenção consciente.

Desta forma, podemos conjeturar que a normatividade da vida se situaria no plano da AO secundária, na qual um sistema já formado – um organismo vivo – estabelece, a partir de sua própria atividade ao longo do tempo (ou seja, a partir das interações entre seus componentes e do sistema com o ambiente), as metas que estabelece para si. Nesta concepção, tais metas são reais, mas não se situam num plano superior ao do processo da vida. Por outro lado, nas concepções vitalistas o princípio vital atuaria já no plano da AO primária, dirigindo o desenvolvimento do organismo e/ou a evolução das espécies. Neste sentido, tais processos de desenvolvimento e evolução não seriam verdadeiramente auto–organizados, uma vez que seriam dirigidos por um princípio externo ao sistema que se constitui e se transforma ao longo do tempo.

Recebido em: 04/09/2006.

Aprovado em: 17/04/2007.

·         BAYLISS, L. E. Living control systems London: English University Press, 1966.

·         BERNARD, Claude. Introduction à l'étude de la médecine expérimentale, 1865. Disponível em: <http://classiques.uqac.ca/classiques/bernard_claude/intro_etude_medecine_exp/intro_etude.html>. Acesso em: 18 ago. 2006.

·         CANGUILHEM, Georges. Aspects du vitalisme. In: ______. La connaissance de la vie Paris: J. Vrin, 1992. p. 105128.

·         ______. Ideologia e racionalidade nas ciências da vida Lisboa: Edições 70, 1977.

·         ______. La formation du concept de réflexe aux XVII et XVIII siècles Paris: Presses universitaries de France, 1955.

·         ______. O normal e o patológico Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

·         DEBRUN, M. O conceito de autoorganização. In: DEBRUN, M; GONZÁLES, M. E. Q.; PESSOA JUNIOR, O. (Org.). Autoorganização: estudos interdisciplinares. Campinas: Centro de Lógica e Epistemologia, 1996.

·         FERRAZ, C. H. O valor da vida como fato: uma crítica neopragmática à epistemologia da vida de Georges Canguilhem. Rio de Janeiro: UERJ, IMS, 1994. (Série Estudos em saúde coletiva, n. 105).

·         HULL, David L. Philosophy of biological science New York: PrenticeHall, 1974.

·         LACEY, Hugh. Valores e atividades científica São Paulo, Discurso, 1998.

·         SERPA JUNIOR, O. D. Indivíduo, organismo e doença: a atualidade de "O Normal e o Patológico" de Georges Canguilhem. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, 2006. Disponível em: <http://www.pucrio.br/sobrepuc/depto/psicologia/Octavio.html>. Acesso em: 20 ago. 2006.

·         WEYDERT, A. How can we understand the construction of our organism? Comptes Rendus Biologies, Paris, France, n. 327, p. 421429, 2004.

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Agradecemos o apoio do CNPq, que concedeu Bolsa de Produtividade em Pesquisa ao pesquisador Alfredo Pereira Junior, co–autor deste artigo.