quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Kauffman Stuart the origins of order

 Kauffman Stuart the origins of order

and Complexity, de Stuart Kauffman. Oxford University Press: New York, 1995. 321 pp. £20. A NOVA CIÊNCIA DA COMPLEXIDADE por J.Félix Costa Centro de Ciências da Complexidade Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa fgc@di.fc.ul.pt No seu ensaio sobre as Origens intitulado Creation (ulteriormente Creation Revisited), o químico Peter Atkins reune uma colecção de metáforas e orientações relativas à origem do espaço, do tempo e de certas estruturas no Universo. Na primeira página adverte-nos logo que não é preciso contar a história toda..., pois uma grande parte do Universo não requer explicação. "Olhem, por exemplo os elefantes. Basta que as moléculas aprendam a criar outras moléculas à sua imagem, e logo os elefantes e outras coisas parecidas são encontrados a deambular pela paisagem..." Mas Stuart Kauffman, que é cofundador da nova ciência da complexidade, e até publicou em 1993 um livro de referência sobre a emergência de ordem nos sistemas complexos (The Origins of Order, Self-Organization and Selection in Evolution), revela-nos em At Home in the Universe a chave do enigma dos proboscídeos, a saber, por que, afinal, os elefantes percorrem a paisagem. At Home in the Universe conduz-nos, através de uma miríade de experiências computacionais, ao mundo dos sistemas complexos com grande número de componentes acopladas ao acaso, que, sem a intervenção dos mecanismos de selecção do neo-darwinismo (uma doutrina científica que resultou do casamento entre o darwinismo e a genética molecular), podem, espontaneamente, gerar a ordem. A título de exemplo o leitor é convidado a debruçar-se sobre a explosão do Câmbrico, ou... sobre o surgimento das bicicletas: ora com roda grande à frente e roda pequena atrás, ou com roda pequena à frente e roda grande atrás; uma verdadeira explosão de formas. Pouco após uma inovação é sempre fácil ser-se original, mas somente através de contribuições modestas. A selecção natural surge como mecanismo de optimização, não sendo necessária para explicar a emergência das estruturas em geral, nem das bicicletas em particular. Deixem que descreva uma das experiências computacionais que percorrem o livro. Trata-se de uma experiência com grafos aleatórios. Crave um certo número de tachas no soalho. Aleatoriamente escolha duas tachas e ate-as 2 [3] com um fio. Prossiga com esta actividade... À medida que o número de conexões aumenta, aumenta correspondentemente a probabilidade de uma tacha já usada uma vez ser de novo escolhida. Obtêm-se assim caminhos maiores no grafo. Ora bem, o fenómeno importante a respeito dos grafos aleatórios ocorre quando a razão de arestas/nós (fios/tachas) passa pelo valor crítico de 0,5. Neste ponto (de fusão), forma-se subitamente um aglomerado gigante de tachas conectadas. Acima do ponto de fusão, o aglomerado gigante continua a crescer (até ao valor limite de N para um grafo de N nós) mas a razão de crescimento diminui acentuadamente. A este fenómeno dão os físicos o nome de transição de fase: uma mudança súbita no comportamento de um sistema. Que pode levar-nos a jogar um tal jogo? Talvez a descoberta de François Jacob e Jacques Monod (nos anos 50) de como a actividade genética das células é regulada por sinais de outros genes e pelo ambiente. Kauffman brinca com grafos porque os grafos são os esqueletos dos espaços celulares de autómatos que descrevem teias genéticas. As analogias agora decorrem da tipologia das experiências. Buscando então referentes putativos para os símbolos matemáticos, Kauffman introduz as redes de reacções químicas auto-catalíticas, onde a transição de fase é interpretada, primeiro como a formação de moléculas capazes de criar moléculas à sua imagem, depois, como a origem da vida e, mais tarde, como a diferenciação celular durante a epigénese. Mas, facto surpreendente, nem é preciso saber muito de Química ou de Biologia para compreender, pois, afinal, as leis dos sistemas complexos surgem aos nossos olhos como mais fundamentais e imperativas que as da própria Química ou Biologia... Acontece que estas ciências satisfazem os requisitos da especificação daquelas leis. As leis dos sistemas complexos ganham então forma e tornam-se artefactos da natureza. Temos assistido a uma multiplicação de metáforas que ajudam a entender um pouco o Universo em que vivemos, pelo que não é difícil ao leitor, educado na analogia, substituir partículas elementares por patinadores numa pista de gelo, interações por bumerangues, universos por balões. Kauffman enriqueceu ainda mais esta linguagem abrindo o caminho a novas e poderosas intuições acerca da evolução das estruturas do Universo. Em At Home in the Universe, Stuart Kauffman concebeu uma versão simplificada de The Origins of Order, deixando-se seduzir por um novo sentido do sagrado que emana da nova ciência, na contemplação da ordem na complexidade, e da criatividade intrínseca da natureza. A estrutura do livro é a seguinte. Após uma introdução cuidada (At Home in the Universe) às suas ideias e linhas de argumentação, Kauffman dedica o capítulo segundo (The Origins of Life) à questão da origem da vida, seu enunciado e teses principais, dos coacervados de Oparin aos argumentos vanguardistas da panspermia de Hoyle e Wickramasinghe. No capítulo terceiro (We the Expected), Kauffman explora a transição de fase em grafos aleatórios, aplicada a redes de reacções químicas e à inevitabilidade da emergência dos conjuntos autocatalíticos. O capítulo 3 [3] quarto (Order for Free) aprecia os requisitos minimais necessários à emergência da ordem e das estruturas e, consequentemente à morfogénese, no limiar do caos. Os instrumentos de trabalho são espaços celulares com topologias (vizinhanças) variáveis, cuja dinâmica global indicia um conjunto mínimo de regras, com referência aos trabalhos de Bak e Tang sobre os sistemas criticamente organizados. No capítulo quinto (The Mystery of Ontogeny), Kauffman aplica conceitos e técnicas do capítulo precedente para investigar, à luz da organização no limiar do caos, as redes genéticas de Jacob e Monod, explicando em detalhe os referentes putativos, nomeadamente o célebre exemplo da adição de lactose à cultura de Escherichia coli. Os detalhes aproveitam então a uma magnífica exposição do tema da diferenciação celular, bem como aos resultados do próprio autor sobre as leis de organização biológica. Os aspectos críticos dos sistemas complexos são abordados no capítulo sexto (Noah's Vessel), a respeito da explosão de diversidade das espécies químicas em direcção à vida (celular). No capítulo sétimo (The Promised Land), a evolução molecular é aplicada à biotecnologia, nomeadamente no contexto do projecto do genoma humano e da síntese de fármacos de regulação da actividade genética. O capítulo oitavo (High-Country Adventures) é dedicado a mecanismos computacionais da evolução, responsáveis pelos mecanismos de adaptação de espécies, com particular relevo para a mutação e algumas leis da genética de populações, onde a selecção assume papel relevante. No capítulo nono (Organisms and Artifacts), são tratadas, comparativamente, as explosões de diversidade no mundo natural e nas revoluções tecnológicas. No capítulo décimo (An Hour upon the Stage), a teoria dos jogos é aplicada à evolução, ou melhor à evolução da coevolução, em particular para explicar extinção de espécies. No capítulo décimo primeiro (In Search of Excellence), Kauffman abstrai a universalidade e as metáforas para regressar, no último capítulo (An Emerging Global Civilization), aos modelos de sociedades que transpiram, afinal, as leis da complexidade, que agora espreitam na emergência, e conduzem a um novo sentido do sagrado em ciência, advogado por Kauffman. Para rematar, deixem que lhes diga como aprofundar as temáticas evocadas por At Home in the Universe. Muito recentemente, autómatos celulares e maquinismos congéneres foram alvo de muitas investigações experimentais e motivaram já a emergência de sistemas de computação paralela (tais como a connection machine). Em particular abriram portas a novos projectos de investigação, onde são estudados universos físicos e biológicos imaginários, resultando tudo isto numa interacção muito benéfica entre a física e a computação e entre a biologia e a computação. Entre muitos outros periódicos, destaca-se o Journal of Complex Systems, concebido como forum de autómatos celulares. Recentemente surgiu o Complexity International: a Hypermedia Journal of Complex Systems Research, acessível na Internet, que é responsável por uma rápida disseminação de papéis sobre sistemas complexos. Também o projecto Tierra contém um subprojecto CAM-brain cujo objectivo é fazer evoluir um cérebro artificial, que contém milhares de módulos de redes neuronais, num hardware específico designado por Cellular Automata Mac

domingo, 14 de agosto de 2022

Cidadania subcidadania no brasil bbb

https://revistas.uepg.br/index.php/emancipacao/article/view/10407 >Resumo: Trata-se de uma análise sobre a trajetória histórica da construção da subcidadania no Brasil, possuindo como aporte teórico três autores que abordam a questão da cidadania inconclusa. A análise será realizada por meio de revisão literária, baseada em Carvalho (2004), Santos (1994) e Souza (2006), tratando dos conceitos da cidadania em negativo, cidadania regulada e a formação da raléestrutural e periférica, respectivamente. Ademais, se analisam reflexos do Welfare State, no caso brasileiro, para a construção da subcidadania. Diante desse contexto, compreende-se que a cidadania no Brasil é marcada por processos de fissuras e incompletude, como também refletiu e reflete ainda hoje no processo de exclusão e estratificação social, gerado pelo desenho de implementação das políticas públicas. Palavras

domingo, 7 de agosto de 2022

sábado, 6 de agosto de 2022

Democracia Representativa e a Democracia Participativa bbb

 

A Democracia Representativa e a Democracia Participativa

Autores

·         Paulo Márcio Cruz

DOI: 

https://doi.org/10.30899/dfj.v4i13.408

Palavras-chave: 

Democracia Representativa, Democracia Participativa, Estado Constitucional Moderno, Globalização

Resumo

O presente artigo aborda a Democracia Representativa e sua insuficiência para enfrentar sociedades muito complexas, considerando o caráter limitado de sua
representatividade e como é urgente uma reavaliação dos atuais modelos de Democracia, para que atendam de maneira adequada a atuais demandas por participação. A globalização obriga a reflexão sobre a Democracia dos modernos e a se perguntar pelas questões de seus fundamentos, as instituições que garantem seu exercício e seus limites. As hipóteses deste artigo se estribam na premissa de que a autêntica participação na Nação só pode ser alcançada quando todos se sentem espiritualmente participantes. A renovação da teoria democrática assenta, antes de tudo, na formulação de critérios democráticos de participação que não confinem esta ao ato de votar. A Democracia Participativa pode representar um estágio mais avançado do conceito de Democracia, é a Democracia como valor social e não apenas como procedimento. O objetivo geral é demonstrar que a Democracia Representativa Moderna não conseguiu alcançar outras formas de vida fora da política e nem outras ordens políticas que não aquelas restritas ao Estado Constitucional Moderno. Por detrás das teorias que procuram orientar a adoção de “democracias” capazes de co-existir com a diversidade e com a complexidade, com a solidariedade e a participação, existe embutido um otimismo irrefutável quanto à possibilidade da elaboração do que pode ser chamado de uma teoria democrática pós-moderna.

Biografia do Autor

Paulo Márcio Cruz

Pós-Doutor em Direito do Estado pela Universidade de Alicante, na Espanha. Doutor em Direito do Estado pela Universidade Federal de Santa Catarina e Mestre em Instituições Jurídico-Políticas também pela Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC. Coordenador e Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica da Universidade do Vale do Itajaí-UNIVALI em seus Cursos de Doutorado e Mestrado em Ciência Jurídica. Foi Secretário de Estado em Santa Catarina e Vice-reitor da UNIVALI. É Professor visitante nas Universidades de Alicante, na Espanha, e de Perugia, na Itália.

Referências

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sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Antropologia historia bbb

 Antropologia historia 

https://dspace.ups.edu.ec/bitstream/123456789/21039/1/Historia%20de%20la%20antropologi%CC%81a%20T2.pdf 

Contenido

Presentación ............................................................................................. 13

Capítulo I

Introducción general............................................................................... 17

1. Objeto de la antropología.................................................................. 18

1.1. El problema del nombre............................................................... 18

1.2. La fecha de nacimiento................................................................. 19

1.3. Las etapas de desarrollo de la antropología.................................. 21

2. Características de esta historia .......................................................... 22

3. Panorama de la antropología social inglesa...................................... 24

3.1. Función y necesidad ..................................................................... 25

3.2. Estructura e historia..................................................................... 27

3.3. Mito y rito .................................................................................... 31

3.4. Parentesco y política ..................................................................... 34

4. Panorama de la etnología francesa.................................................... 36

4.1. De la filosofía social a la etnología ............................................... 38

4.2. El Estructuralismo de Lévi-Strauss .............................................. 41

4.3. Funcionalismo dinámico y etnología marxista ............................ 43

Primera parte

EVOLUCIONISMO CULTURAL

Capítulo II

Causas y precursores del evolucionismo............................................... 49

1. Cuatro causas del Evolucionismo ..................................................... 49

1.1. El clima intelectual evolucionista................................................. 49

1.2. Segunda revolución geográfica y colonial..................................... 53

1.3. El nacimiento de la prehistoria .................................................... 54

1.4. El renacimiento etnológico ........................................................... 55

2. Las dos primeras propuestas teóricas ............................................... 56

2.1. Teoría de la inferioridad racial de Gobineau ............................... 56

2.2. Teoría de la degeneración............................................................. 61

3. La tercera propuesta y sus precursores ............................................. 62

etc

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Zizek O desejo comunista bbb

por SLAVOJ ŽIŽEK*

A ideia de uma sociedade que superou completamente a dominação

 29/07/2022

Em seu estupendo Yesterday’s Tomorrow,[i] Bini Adamcza oferece nada menos do que uma descrição definitiva daquilo que somos levados a chamar de um indelével e absolutamente autêntico “desejo comunista”, a ideia de uma sociedade que superou completamente a dominação: “Diferentemente dos escravos, que apenas desejavam ser tão livres quanto seus mestres, diferentemente dos camponeses, que queriam pagar a seus senhores um décimo de sua colheita, em vez de um quinto; diferentemente da burguesia, que apenas almejava a liberdade política, não a econômica, o que os trabalhadores demandavam era uma sociedade sem classes. Os comunistas prometiam a abolição de toda dominação. E, desde que sejam lembrados, sua promessa persistirá”.

Este desejo é “eterno” no simples sentido de que se trata de uma sombra que acompanha toda a história – que é, como escreveram Marx e Engels, a história da luta de classes. O livro de Bini Adamczak é especial pois ela detecta este desejo através de uma análise muito cuidadosa dos fracassos do movimento comunista (europeu) do século XX, desde o pacto Hitler-Stalin até a brutal repressão da rebelião de Kronstadt. Os detalhes que descreve deixam claro que, digamos, não podemos compreender o pacto Hitler-Stalin apenas nos termos de uma brutal realpolitik (Stalin precisaria de tempo de preparo para a guerra que espreitava no horizonte).

Excessos bizarros distorcem esta imagem, como o fato de que, em 1940, os guardas dos gulags eram proibidos de chamar os prisioneiros de “fascistas!” para não insultar os nazistas: “O que continua incompreensível, porque é irredutível a qualquer cálculo político de poder, é a ordem de Beria proibindo os guardas nos gulags de achincalharem os presos políticos – majoritariamente antifascistas acusados de “desvios trotskistas-fascistas” – com o epíteto de fascista”.

O foco de Bini Adamczak é duplo, como deixa claro o subtítulo do livro: “Sobre a solidão dos espectros comunistas e a reconstrução do futuro”. A solidão absoluta é aquela dos comunistas que foram expulsos, mas continuaram acreditando na Ideia comunista que se encarnava no Partido que os liquidara – isto é, em temos lacanianos, o Partido continuava, para eles, como o único grande Outro. Seu impasse era que insistir na pureza do sonho comunista contra a sua traição pelo Partido não era uma saída: precisava-se “reconstruir” este sonho de um futuro.

A maioria deles (basta lembrar de Arthur Koestler e Ignazio Silone) fracassou nesta tarefa, contribuiu para a crítica liberal (ou até mesmo conservadora) do comunismo e produziu escritos ao estilo “Deus que fracassou”, somando-se ao exército anticomunista da Guerra Fria. Conforme nota Bini Adamczak, a ausência do desejo comunista explica por que, mesmo quando o comunismo europeu se desintegrou em 1990, “os gritos jubilosos dos vencedores da Guerra Fria eram tão pouco convincentes: eles não demonstravam nenhuma alegria. Em vez de um alívio diante de um perigo ameaçador evitado, ou de uma alegria compartilhada diante da nova sorte daqueles não mais oprimidos, eles expressavam algo que se assemelhava a uma malevolência amargurada: a schadenfreude dos que ficaram em casa porque seus irmãos se afogaram no mar”.

Aqui, Bini Adamczak inverte o conhecido lema anticomunista que diz que quem não quiser falar sobre o stalinismo deverá calar-se sobre o comunismo: “mas o que pode ser dito sobre o stalinismo por aqueles que se recusam a escutar sobre o comunismo? Aqueles que querem escrever a história deste passado sem escrever a história daquele futuro que foi enterrado com ele?” Só o comunismo estabelece os padrões mais altos, pelos quais deve ser julgado e rejeitado criticamente. É por isso que “a primeira acusação contra o anticomunismo deve ser aquela sobre a minimização dos crimes do stalinismo. Não porque uma ideia foi morta junto às pessoas nos gulags – quão cínico – mas porque apenas o comunismo trouxe à tona a demanda historicamente realizável de recusar qualquer privação, de não tolerar mais nenhuma degradação”.

É por isso que a pior coisa que um comunista pode fazer é defender irresolutamente e de uma maneira comparativa e modesta os Estados comunistas: “Os comunistas reagem defensivamente à crítica (anticomunista) do comunismo – ‘nem tudo no comunismo era ruim’ – defendendo-se – ‘aquilo nem sequer era comunismo’ – ou atacando – ‘a crítica dos crimes realizados pelo comunismo apenas serve para legitimar os crimes dos inimigos’. Eles têm razão em todos os aspectos. Mas o que afirmar que o nazismo era pior, que o capitalismo tem sido igualmente ruim, significa para o comunismo? Que espécie de veredito está implícito em dizer, não que tudo, mas quase tudo era ruim?”

Lembremos de uma maneira semelhante de defender Cuba: sim, a revolução foi um fracasso, mas eles têm um bom sistema de saúde e de educação… Não ouvimos um argumento semelhante vindo daqueles que “demonstram compreensão” pela Rússia, embora condenem a invasão da Ucrânia: “a crítica dos crimes russos na Ucrânia apenas serve para legitimar os crimes do Ocidente liberal…”?

Bini Adamczak também dispensa a esquerda “pós-moderna” que critica o comunismo por focar na economia enquanto considera secundários o feminismo, a luta contra a opressão sexual e todos os outros domínios do “marxismo cultural”. Uma tal crítica se aproxima demais de um historicismo confortável, que ignora a “eternidade” da ideia comunista. Quando uma injustiça acontece, a relativização historicista que se opera ao se evocar circunstâncias específicas (“ele vivia em um tempo diferente em que era normal ser racista ou antifeminista, então não devemos julgá-lo através dos valores atuais”) está errada: devemos fazer exatamente isso, medir os erros do passado pelos padrões atuais. Devemos ficar chocados com como as mulheres eram tratadas nos séculos passados, com o fato de que pessoas benevolentes e “civilizadas” possuíam escravos etc.

O atual poder comunista não está apenas lutando contra seus oponentes capitalistas; ele está traindo o sonho emancipatório que o trouxe ao mundo. É por isso que uma verdadeira crítica do socialismo realmente existente não deve apenas apontar para o fato de que a vida em um Estado comunista era, em geral, pior do que aquela em muitos Estados capitalistas. Sua maior “contradição” é a antinomia que carrega em seu núcleo, não apenas o duro contraste entre a ideia e a realidade, mas a mudança menos perceptível na própria ideia. A imagem idealizada do futuro prometido pelo poder comunista é incompatível com a ideia comunista.

No último ato de A Tempestade, Próspero diz a Caliban: “esta coisa escura eu reconheço ser minha”. Todo comunista deve dizer algo semelhante sobre o stalinismo, a maior “coisa escura” da história do comunismo: para realmente compreendê-lo, o primeiro gesto é “reconhecê-lo como meu”, aceitar plenamente que o stalinismo não foi um desvio contingente ou uma má aplicação do marxismo, mas estava nele implicado enquanto uma possibilidade… E Hegel não diz algo semelhante em suas famosas frases acerca da Revolução Francesa?

“Nunca, desde que o Sol começou a brilhar no firmamento e os planetas começaram a girar ao seu redor, se havia percebido que a existência do homem está centrada em sua cabeça, isto é, no pensamento (…). Anaxágoras foi o primeiro a dizer que o nous rege o mundo; mas só agora o homem percebeu que o pensamento deve governar a realidade espiritual. Assim se deu um glorioso amanhecer. Todos os seres vivos pensantes comemoraram essa época. Naquele período, reinou um sublime entusiasmo, um entusiasmo do espírito, que estremeceu o mundo como se só agora tivesse acontecido a verdadeira reconciliação do divino com o mundo”.[ii]

Note que Hegel diz isso um quarto de século depois da Revolução Francesa, e décadas depois de ter mostrado como a liberdade que ela queria atualizar tornou-se, necessariamente, terror. Devemos dizer o mesmo sobre a Revolução de Outubro depois da experiência do stalinismo como sua consequência: também aconteceu “um glorioso amanhecer. Todos os seres vivos pensantes comemoraram essa época. Naquele período, reinou um sublime entusiasmo, um entusiasmo do espírito, que estremeceu o mundo”. Temos que enfrentar esta antinomia plenamente, evitando ambas as armadilhas: reduzir o stalinismo a um erro devido a circunstâncias contingentes, assim como a conclusão rápida de que o stalinismo é a “verdade” acerca do desejo comunista.

Esta antinomia é levada ao extremo em O Estado e a revolução, de Lênin, um livro cuja visão acerca da revolução está definitivamente fundada no autêntico desejo comunista: conforme Lênin escreve, com a revolução, “pela primeira vez na história das sociedades civilizadas, a massa da sociedade se elevará até a participação autônoma não só nas votações e nas eleições, mas também na administração cotidiana. No socialismo, todos administrarão por turno e se habituarão depressa a que ninguém administre”.[iii]

Esta dimensão propriamente comunista está condensada na famosa fórmula leninista que diz que “toda cozinheira deve aprender a governar o Estado”, repetida incessantemente durante os anos 1920 como slogan pela emancipação das mulheres. No entanto, é importante observar com mais cuidado o contexto preciso em que Lênin justificou este slogan que, em um primeiro momento, pode parecer extremamente utópico, especialmente porque ele enfatiza que o slogan designa algo que “pode e deve ser feito de uma vez, da noite para o dia”, não em um futuro comunista distante.

Lênin começa seu argumento recusando ser utópico: contra os anarquistas, afirma seu completo realismo. Ele não está contando com “novos homens”, mas com as “pessoas como elas são agora, com pessoas que não podem prescindir da subordinação, do controle e de “chefes e contadores”: “Não somos utopistas. Não ‘sonhamos’ com dispensar de uma só vez toda administração, toda subordinação; esses sonhos anarquistas, baseados na incompreensão das tarefas da ditadura do proletariado, são fundamentalmente estranhos ao marxismo e só servem na realidade para protelar a revolução socialista até o momento em que as pessoas forem diferentes. Não, nós queremos a revolução socialista, com pessoas como as de agora, que não poderão passar sem subordinação, sem controle, sem ‘administradores’”.

“Mas é preciso subordinar-se à vanguarda armada de todos os explorados e os trabalhadores – o proletariado. Podemos e devemos, desde já, de hoje para amanhã, começar a substituir a ‘hierarquização’ específica dos funcionários do Estado pelas simples funções dos ‘administradores’, funções que, já hoje, estão completamente ao alcance do nível de desenvolvimento dos citadinos em geral e que podem ser perfeitamente executadas mediante o ‘salário de operário’.”

Mas, como fazer isso? Aqui está o momento principal do argumento de Lênin: “o mecanismo de gestão social já está ao alcance das mãos” no capitalismo moderno – o mecanismo do funcionamento automático de um amplo processo de produção onde os chefes (representando os proprietários) apenas dão ordens formais. Este mecanismo funciona de forma tão estável que, sem perturbá-lo, o papel do chefe se reduz a simples decisões e pode ser ocupado por qualquer pessoa comum. Então, tudo que a revolução socialista precisa fazer é substituir o capitalista ou o chefe designado pelo Estado por uma pessoa comum (aleatoriamente escolhida).

Para ilustrar este ponto, Lênin usa o exemplo do serviço postal: “Um espirituoso social-democrata alemão dos anos 70 do século XIX chamou o correio de modelo de empresa socialista. Muito justo. O correio é hoje uma economia organizada segundo o tipo do monopólio capitalista de Estado. O imperialismo transforma progressivamente todos os trustes em organizações de tipo semelhante. Acima dos ‘simples’ trabalhadores, que estão sobrecarregados de trabalho e que passam fome, encontra-se aqui exatamente a mesma burocracia burguesa. Mas o mecanismo de gestão social, no caso, já está pronto. Derrubar os capitalistas, destruir a resistência desses exploradores com a mão de ferro dos trabalhadores armados e demolir a máquina burocrática do Estado contemporâneo – com isso, temos diante de nós um mecanismo de elevado equipamento técnico livre do ‘parasita’, que os próprios trabalhadores unidos podem perfeitamente colocar em funcionamento contratando técnicos, administradores, pagando o trabalho de todos eles, assim como o de todos os funcionários do ‘Estado’ em geral com um salário de operário.”

Lênin está defendendo, aqui, que “as funções públicas perderão o seu caráter político e se transformarão em simples funções administrativas”. Qual é, então, o lugar das opiniões daqueles que deveriam obedecer à “disciplina de ferro” nesta máquina administrativa despolitizada? A solução de Lênin era praticamente uma solução kantiana: o livre debate em reuniões públicas durante os finais de semana, mas a obediência e o esforço durante o trabalho!

Os bolcheviques devem “pôr-se à cabeça das massas esgotadas e cansadas que procuram uma saída, conduzi-las pelo caminho certo, pelo caminho da disciplina do trabalho, pelo caminho da conciliação das tarefas de fazer comícios acerca das condições de trabalho com as tarefas da subordinação sem reservas à vontade do dirigente soviético, do ditador, durante o trabalho. (…) É preciso aprender a conjugar o democratismo dos comícios das massas trabalhadoras, tempestuoso, que corre como a cheia primaveril, que transpõe todas as margens, com a disciplina férrea durante o trabalho, com a obediência sem reservas à vontade de uma só pessoa, do dirigente soviético, durante o trabalho”.[iv]

Já foi diversas vezes notado como Lênin vai, aos poucos, limitando o campo: no começo, é a maioria, a massa de pessoas exploradas; depois, o proletariado, que não é mais a maioria (lembre-se de que na Rússia daquela época mais de 80% da população era composta por camponeses), mas uma minoria privilegiada; depois, até mesmo essa minoria se torna uma massa de “pessoas exaustas” e confusas que precisam ser lideradas pela “vanguarda armada de todos os trabalhadores explorados”; e , como era de se esperar, terminamos com a obediência incondicional às vontades de uma única pessoa, o ditador soviético.

Um hegeliano prontamente levantaria a questão acerca da mediação: temos três níveis, o Universal (a maioria trabalhadora, “todos”), o Particular (o partido, a “vanguarda armada” que controla o poder estatal), e o Singular (o líder). Lênin os identifica automaticamente, ignorando os modos de mediação nos quais a luta política propriamente dita acontece. É por isso que, como notou Ralf Millband, não existe um debate acerca do papel do partido quando Lênin descreveu o funcionamento do edifício econômico socialista. Esta falta torna-se ainda mais estranha se levarmos em consideração o fato de que o foco do trabalho político de Lênin é a luta, no interior do partido, entre uma linha verdadeira e diferentes revisionistas.

Isso nos leva a mais uma das antinomias de Lênin: a despeito de sua total politização da vida social (para ele, por exemplo, não existe uma “justiça” neutra nos tribunais: se os juízes não estão do seu lado, eles estão ao lado do inimigo), sua perspectiva acerca da economia socialista é profundamente tecnocrática. A economia é uma máquina neutra, que pode funcionar de maneira estável independentemente de quem a controla. O fato de uma cozinheira poder ser chefe de Estado significa justamente que não importa quem está no controle. A cozinheira pode, estranhamente, assemelhar-se ao papel atribuído por Hegel ao monarca: ela apenas dá um “sim” formal às propostas preparadas por gestores e especialistas…

Mas, por que insistir neste velho assunto, que hoje está claramente datado? Porque ele não está nem um pouco datado: as últimas tendências do capitalismo corporativo oferecem uma visão pervertida do sonho de Lênin. Tomemos empresas como a Amazon, a Facebook ou a Uber. A Amazon e a Facebook apresentam-se como meras mediadoras: elas são algoritmos funcionais, regulando os bens comuns de nossas interações. Então, por que não as nacionalizar, cortar suas cabeças (que são seus proprietários ou chefes) e substituí-las por pessoas comuns que cuidarão para que a empresa sirva os interesses da companhia, isto é, que a máquina não será deturpada para servir aos interesses comerciais particulares, que fizeram dos donos anteriores multibilionários?

Em outras palavras, chefes como Bezos e Zuckerberg não poderiam ser substituídos pelos “ditadores” populares imaginados por Lênin? Mais ainda, considere a Uber: ela também se apresenta como um puro mediador, unindo motoristas (que são os proprietários de seus carros, seus “meios de produção”) e aqueles que precisam de uma carona. Todos elas permitem sustentar a (aparência de) nossa liberdade; apenas controlam o espaço desta liberdade. Fenômenos como esses não justificariam Karl-Heinz Dellwo, que invoca uma “dominação sem sujeito”? [v] Hoje não seria “razoável deixar de falar de mestres e servos, para falar de servos que comandam servos”? Servos que comandam servos: não é isso que Lênin visava em seu slogan “toda cozinheira deve aprender a comandar o Estado”?

Já não seria possível observar, em certos momentos, os elementos de uma política pós-partidária no capitalismo desenvolvido de hoje? Tome o caso da Suíça. Quem sabe os nomes dos ministros em seu governo? Quem sabe qual partido está no poder por lá? Décadas atrás, um comunista foi eleito repetidas vezes para prefeito de Genebra, uma cidade que representa o grande capital, e nada mudou… (Mas também se deve mencionar que a Suíça é, na verdade, dirigida por um conselho de elite semi-secreto de vinte homens que decidem tudo).

Então, sim, temos que aceitar o fato de que é impossível que o comunismo vença (no mesmo sentido de que a Ucrânia não pode vencer a Rússia), isto é, que, neste sentido, o comunismo é uma causa perdida. Mas, como disse G. K. Chesterton em seu What’s wrong with the world? [O que há de errado com o mundo?]: “as causas perdidas são exatamente aquelas que poderiam ter salvado o mundo”. O que podemos fazer uma vez que reconhecemos plenamente esta antinomia?

Nas últimas páginas do livro, Beni Adamczak experimenta duas soluções extremas. E se os revolucionários comunistas, sabendo que trarão um novo terror, capitularem antecipadamente à contrarrevolução para salvar sua moral e evitar sua própria contrarrevolução? Seu exemplo é o de Salvador Allende, que renunciou à luta armada contra o putsch militar. Devemos, porém, no mínimo complementar este exemplo com aquele do debate na União Soviética dos anos 1920 quando, depois de ficar claro que não haveria uma revolução europeia e de os bolcheviques perceberem que não tinham nenhuma chance de começar a construir o socialismo, alguns dentre eles propuseram simplesmente render-se e entregar o poder…

A outra solução extrema de Beni Adamczak é, depois de conquistar o poder estatal, os comunistas lutarem contra a tentação terrorista usando o terror contra si mesmos e aceitando conscientemente a necessidade de sua própria eliminação, da liquidação dos revolucionários da primeira geração. (Mas, em certa medida, não foi exatamente isso que Stalin fez – liquidar a primeira geração de revolucionários que conquistaram o poder?)

E se a única solução imaginável para esta antinomia for um curto-circuito bizarro: assumindo o poder, os próprios comunistas organizam uma “contrarrevolução” contrária a seu governo, moldando um aparelho estatal que limita seu próprio poder?

*Slavoj Žižek, professor de filosofia na European Graduate School, é diretor internacional do Birkbeck Institute for the Humanities da Universidade de Londres. Autor, entre outros livros, de Em defesa das causas perdidas (Boitempo).

Tradução: Daniel Pavan.

Publicado originalmente no site The Philosophical Salon

 

Notas


[i] Ver Bini Adamczak, Yesterday’s Tomorrow, Cambridge: MIT Press 2021. Depois de ler este livro e tentar escolher alguns de seus trechos, fui tomado por um sentimento bizarro de que o livro inteiro precisava ser citado.

[ii] HEGEL, G. W. F. Filosofia da história. Brasília: Editora UNB, 2008. P. 366

[iii] LÊNIN, V. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.

[iv] LÊNIN, V. “As tarefas imediatas do poder soviético”. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1918/04/26.htm>

[v] DELLWO, Karl-Heinz, “Subjektlose Herrschaft und revolutionaeres Subjekt. Friady for Future?”. Um discurso proferido em Leipzig no dia 12 de janeiro de 2021. (Citações do manuscrito).

  

sábado, 30 de julho de 2022