sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Viagem ao país primitivo que pariu Bolsonaro bbb

 

Viagem ao país primitivo que pariu Bolsonaro

Sob o calor da fornalha, o gozo com a devastação e o apego aos símbolos rudes do “progresso”: assim vive-se em vastas regiões da Amazônia e Cerrado. Neste Brasil pouco conhecido, a reprimarização suscitou o ethos que nos conduz ao século XVI

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Este texto é parte de uma série de reflexões jornalísticas que examinam as consequências do agigantamento da indústria da carne nas Américas. O material é produzido pela rede Bocado, da qual faz parte o site O Joio e o Trigo, parceiro editorial de Outras Palavras.

Na próxima semana, o México e as adulterações do gado e da carne, por meio de hormônios e anabolizantes]


O calor gruda no corpo instantaneamente. Me abraça, me afaga, como um beijo de morte do qual é impossível me livrar. Os poros começam a produzir suor, e é angustiante pensar que não deixarão de funcionar um único segundo durante semanas. Minha sensação ao chegar a Porto Velho era sempre a mesma: cadê a floresta? Do alto do avião até se avistam áreas de mata, mas, ao cruzar a porta, na pista do aeroporto, a única sensação é o bafo sufocante que sobe do asfalto. 

Na capital de Rondônia, um dos estados que formam a Amazônia brasileira, é possível andar quadras e quadras sem conseguir a sombra protetora de uma árvore. Os carros parecem ter saído da fábrica sem o botão de “desliga” do ar-condicionado, uma companhia inseparável graças a uma lógica de ocupação do espaço que tem na floresta uma inimiga a ser suprimida. 

O frigorífico da JBS, uma das maiores produtoras de carne do mundo, estava a poucos metros do aeroporto, mas nunca me atentei a ele. Toda vez que eu cruzava o estado de norte a sul, sentia a desolação de ver soja, soja, soja e boi onde antes, em algum momento do qual não fui testemunha, deveria haver mata, mata e mata. Os povos ribeirinhos, sim, tinham lembrança dos tempos nos quais as terras eram deles, mas também não eram de ninguém: não havia cercas, dinheiro, pressões. 

“Quem estava antes tinha outra visão da terra. Não se preocupava em ter documento da terra. São populações tradicionais que têm a visão de coletar o que a terra tem para oferecer.” Quando conversamos, em 2014, Maria Petronila era coordenadora da Comissão Pastoral da Terra (CPT), uma organização vinculada à Igreja Católica que foi fundamental na articulação de resistências camponesas Brasil afora. 

A ditadura (1964-85) mudou radicalmente a situação. Enormes extensões foram distribuídas a latifundiários, e porções pequenas e médias a camponeses. Em ambos os casos, partindo da ideia de um “vazio demográfico” que só existia se os indígenas e os povos tradicionais fossem considerados um nada. Nesse momento, quem ganhava um lote era obrigado a desmatá-lo em pelo menos 50%. Ou seja, a derrubada da Amazônia foi uma política de Estado. E, então, o caminho ficou aberto – primeiro para o boi, que é uma ótima forma de ocupar uma terra, e depois para os grãos. 

Ex-integrante do Conselho Indigenista Missionário, filha de seringueiros, Petronila testemunhou como a chegada de pessoas interessadas em promover uma agricultura nos moldes tradicionais provocou um rebuliço na população fixada em Rondônia. “Minha mãe dizia: ‘Pra que eu quero terra? Só preciso de sete palmos pra enterrar. Ou pode jogar no rio que está muito bom’. Eu venho de uma cultura que achava muito estranho vender arroz, feijão, uma galinha caipira. Todo mundo criava. Então, passava alguém, a gente dava. Não sabia o que era vender as coisas.”

Quando rodei por Vilhena, no sul de Rondônia, uma região muito fértil, fiquei impressionado com o que vi à beira da rodovia que foi fundamental para conectar o estado ao Brasil. Foi isso que registrei no livro Corumbiara, caso enterrado: 

Enormes folhas de telha metálica se chocam contra as imensas estruturas nas quais deveriam estar presas. Peim, peim, peim. É o som que se escuta o dia todo naqueles imensos galpões, de mais de cem metros de comprimento por uns 30 de largura. É só o que se escuta. As máquinas estão paradas, os fornos foram desligados. Há pouquíssimos operários circulando por ali, na maior parte do tempo falando baixo, cuidadosos de preservar o sono dos cortes de madeira deixados no local. As dezenas de madeireiras abandonadas à margem da BR 364, em Vilhena, são a história de uma cidade: de um estado: de um país. São a história de ontem: os registros de ponto abandonados em um dos galpões datam de 2008 e 2009, as fotos de mulheres peladas coladas nos armários estão vivas. São um retrato da destruição: foram três décadas para acabar com os cortes nobres de todo o Cone Sul, uma vasta região que hoje não consegue produzir mais que madeira de reflorestamento. São a história de hoje: à medida que acabaram as madeiras, as empresas foram embora, deixando maquinário para trás, e rumaram cada vez mais para o norte do estado, em direção a Porto Velho e ao sul do Amazonas, áreas que nos últimos anos viram crescer os índices de derrubada. 

A grande marcha brasileira para o oeste não foi televisionada. À diferença dos Estados Unidos, nosso cinema e nossa literatura não promovem uma disputa entre a narrativa épica da ocupação do território e a denúncia do genocídio. Muitos massacres não têm qualquer registro visual – em muitos casos, não há registro algum. 

Nos Estados Unidos, a marcha para o oeste massacrou indígenas e búfalos. No Brasil, os primos do búfalo, vacas e bois, são quem domina a terra depois que indígenas e ribeirinhos foram exterminados. Ou antes mesmo que o sejam, como instrumento de pressão sobre as terras que deveriam estar protegidas pelo Estado, livres da ocupação irregular. 

O Brasil criou com 27 anos de atraso a Comissão Nacional da Verdade, que funcionou entre 2012 e 2014. Como de praxe em nossa história, a criação do colegiado passou por um acordo com os militares para que fosse investigada toda repressão estatal entre 1946 e 1988, e não apenas durante a ditadura (1964-85). Com base nisso, concluiu-se que 8.350 indígenas foram mortos pelo Estado. “O número deve ser exponencialmente maior, uma vez que apenas uma parcela muito restrita dos povos indígenas afetados foi analisada e que há casos em que a quantidade de mortos é alta o bastante para desencorajar estimativas”, registra o relatório final.

O Brasil sempre foi um país de caranguejos: o modo de colonização português concentrou nossa população nas costas, como, em parte, é até hoje. Foi só no virada para o século 20 que teve início um processo de avanço para o noroeste. Primeiro, foram as linhas de telégrafo, atravessando terras indígenas e mapeando povos tradicionais, em parte com a crença de que essas populações deveriam ser “integradas” a nossa sociedade. Depois, estradas, como a BR 364, que corta Rondônia. A carne. O milho. A soja. 

O repórter Marcos Hermanson Pomar, de O Joio e O Trigo, organizou os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que nos ajudam a entender a grande marcha do boi. Historicamente, a carne era produzida próxima aos grandes centros de consumo do Sudeste. Mas, a partir dos anos 1960, as vacas viram a bússola ao oeste. Primeiro, é como se tivessem pego a reta em direção à Bolívia. Ao chegar perto da fronteira, dobraram à direita, subindo, subindo, subindo, como se quisessem chegar à Venezuela cruzando a floresta. São terras baratas – ou gratuitas, na maior parte, porque fruto de doação ou de grilagem. No primeiro movimento, começamos a dar adeus ao Cerrado, um bioma fundamental que atravessa boa parte do país.  

Entre os estados da Amazônia Legal, o Pará vai de um milhão de bois em 1970 para 14 milhões em 2017. O Mato Grosso, de nove milhões para 24 milhões. Rondônia, de 23 mil para quase 10 milhões. Hoje, a indústria brasileira abate 3,8 bilhões de frangos ao ano, o que dá espantosas 19 aves por pessoa. E mais 32 milhões de bois e 46 milhões de porcos. 

A região Centro-Oeste dobrou o plantel de bovinos desde 1985, e hoje concentra 34% das nossas 214,7 milhões de cabeças – sim, o Brasil tem um boi por habitante. Já a região Norte, onde está a maior parte da Amazônia, quadruplicou o número de cabeças nesse mesmo período. 

Os bois é que são os donos dos nossos principais biomas. Enquanto as aves e os porcos foram confinados, os bovinos seguem sendo criados de forma extensiva no Brasil. Porque, em parte, eles servem para especular sobre a terra, ocupá-la à espera do próximo perdão governamental à grilagem, que é como chamamos o processo de uso ilegal de uma área.

Em 2005, São Félix do Xingu, no meio da Amazônia, já tinha um dos maiores rebanhos bovinos do Brasil, mas a maior parte dos grandes produtores estava no Centro-Oeste. Hoje, dos cinco maiores municípios, três estão no Norte. Sem exceção, essas maiores zonas de produção são, também, áreas de ecossistemas essenciais e frágeis. 

Onde há bois, há frigoríficos. As unidades de abate também empreenderam a grande marcha ao oeste, arrastando consigo acidentes de trabalho. Nossa investigação mostrou que, nos 206 pequenos municípios que abrigam frigoríficos, o índice de acidentes laborais é 70% maior que a média, e 212% maior que o de cidades de mesmo porte.

O boi nunca estaria completo sem os grãos. Nos anos 1970, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) consegue uma façanha tecnológica: criar uma variedade de soja que prospera no Cerrado. Uma área marcada por grandes períodos de seca e por uma vegetação plenamente adaptada a essas condições hostis. 

A soja foi de praticamente nada nos anos 1970 para a terceira produção brasileira em valor em meados da década de 1990. Mas o que aconteceu depois… entre 1995 e 2019, o valor cresceu em 3.449%. A área colhida triplicou, de 11 milhões para 35 milhões de hectares. Ancorada no grão, Mato Grosso ultrapassou São Paulo no PIB do agronegócio. O município de Sorriso transformou-se no mais lucrativo do país em termos agrícolas, tendo produzido, sozinho, 2,1 milhões de toneladas de soja.

Raissa Azeredo/Mídia Ninja

Mas existe uma clara migração rumo ao Norte, rumo à ex-Amazônia. A região Norte já responde por metade do volume de soja do país, tendo ultrapassado o Centro-oeste (onde fica o Mato Grosso). Pará e Rondônia lideram esse movimento. Claramente, estamos caminhando das bordas da floresta para o centro. 

Em Porto Velho, eu via os efeitos da construção das usinas hidrelétricas irmãs, Jirau e Santo Antônio. Um projeto da ditadura que os governos Lula-Dilma se encarregaram de tirar do papel na década passada. A energia não serve de nada aos povos do Norte, e é transferida ao Sudeste por enormes torres que cortam Rondônia de ponta a ponta. Naquela época, os pescadores já não podiam subir alguns trechos do rio Madeira, e se queixavam do desaparecimento de muitas espécies de peixes.

No pacote de obras, especulava-se sobre a pavimentação da BR-319, uma rodovia que liga a capital de Rondônia a Manaus, cortando um dos trechos melhor conservados da floresta – especulação, no vocabulário amazônico, é sinônimo de desmatamento. De novo, um projeto da ditadura. Mas faltou a Dilma o ímpeto autoritário necessário para levar adiante a iniciativa, algo que Jair Bolsonaro não teve dúvidas em resolver. 

Na outra ponta da frente de expansão da agropecuária, perdi as contas de quantas vezes ouvimos falar em “Matopiba”, expressão que designa o cinturão da soja formado entre os estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, uma imensa área de Cerrado por onde avança o agronegócio – os 73 milhões de hectares equivalem à soma de Bélgica e Holanda. 

É o Século da Soja. Na avenida principal de Vilhena, um comércio de luxo que contrasta com todo o entorno. Joalherias, revendedoras de carros, restaurantes e bares bem instalados. Vejo que agora, cinco anos mais tarde, há também um shopping: as famílias dos latifundiários, mesmo que só de passagem, precisam das distrações da cidade grande, acostumadas que estão a ignorar os passeios oferecidos pela natureza – sinônimos do atraso. 

O século 21 marca o momento de consolidação do conceito do agronegócio e das forças políticas que o representam. O país nasceu e foi criado para os ruralistas, mas não havia uma articulação entre as várias cadeias para serem uma coisa só. Para serem o “agro”, como querem ser chamados. O antropólogo Caio Pompeia, autor de A formação política do agronegócio (Editora Elefante, lançamento em 2021), recorda que, antes, cafeicultores, pecuaristas, sojicultores, fabricantes de fertilizantes, a indústria de comida-porcaria, cada um estava em seu canto. Mas, nos anos 1980 e 1990, a expressão “agronegócio” é importada em definitivo dos Estados Unidos, e tem início uma articulação que no começo do século 21 ficaria mais, mais, mais clara. 

O setor nomeia o ministro da Agricultura de Lula. E cria o que hoje conhecemos como “bancada ruralista”, uma força política com controle sobre um terço ou mais dos assentos do Legislativo, com capacidade para derrubar Dilma e ser fiadora do governo ilegítimo de Michel Temer.

Mas, então, vem Jair Bolsonaro. E, também pela primeira vez, o agronegócio fica à esquerda do governo. Pompeia conta algo que muita gente não viu: enquanto os líderes dos setores tradicionais do agronegócio apostavam em eleger um presidente de direita, no interior profundo do Brasil se articulava uma campanha para eleger um sujeito de extrema direita. Depois de muito tempo, voltamos a ouvir falar da União Democrática Ruralista, uma entidade que agrupa o que de mais retrógrado pode haver num setor da sociedade “naturalmente” retrógrado. 

Em Rondônia, eu notava que havia algo diferente acontecendo do ponto de vista do pensamento político. Havia uma agenda política que não dialogava com a sensatez, que se produzia na base do achismo, com uma forte influência religiosa. Eram pensamentos por vezes desconexos, delirantes, mágicos. Em pequenas comunidades, de duas ou três mil pessoas, havia 10, 15, 20 igrejas evangélicas. Justamente num estado no qual a igreja católica havia sido fundamental para articular os camponeses em busca de reforma agrária e de contestações ao latifúndio. Pessoas que haviam conquistado um pedaço de chão com base em mobilização agora aderiam a uma lógica de que nada havia a fazer: de que tudo depende do desígnio de Deus. 

Esse encontro entre religião e política formou um projeto de poder: o avanço da soja e da pecuária forja um matrimônio de interesses com Deus – ou em nome dele. Dessa vez, invertendo a mão dos fluxos históricos: é do interior que surge um projeto político que avança em direção à costa. Dois anos mais tarde, caminhei alguns metros desde a minha casa, no centro de São Paulo, para admirar, espantado, uma marcha gigantesca de pessoas vestidas de verde e amarelo que juravam que o Brasil estava sob uma ditadura comunista. Aconteceu o que eu (muita gente) jamais poderia esperar: aquele pensamento delirante, que até então eu atribuía a pequenos grupos, havia crescido debaixo do nosso nariz. 

O bolsonarismo floresceu entre os homens brancos, de classe média, de cidades médias, de formação escolar média. É dialogando com esse eleitor, que sempre se sentiu esquecido, que se cria a base de um pensamento que leva o Brasil a uma agenda do século 16. À diferença dos antecessores, Bolsonaro se faz na base do ressentimento, do ódio, do outro como ameaça, e não na base da promessa do futuro. Não é coincidência que a eleição dele se produza no momento em que a soja toma o topo da balança comercial brasileira, aparentemente para não sair de lá tão cedo. Já não se trata de um país agroindustrial: é algo ainda mais primitivo que a exportação de carnes que, bem ou mal, passaram por algum processamento: é a ração de animais que serão transformados em carne.

A desindustrialização do Brasil já andava a galope. Mas é sobre o cavalo de Bolsonaro que empreendemos uma viagem para os pensamentos mais crus e primitivos que a lógica colonial nos presenteou. Como em tudo, na economia Bolsonaro só sabe usar a arquitetura da destruição: é na mineração, no uso predatório da natureza que ele encontra a resposta para tudo – inclusive para o prazer. 

Os brasileiros consomem, em média, 20,7 quilos de carne ao ano, ou quatro bilhões de quilos. Mas existe uma diferença clara, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares: quem recebe menos de dois salários mínimos come quase a metade do que a porção mais rica da população. Ao longo do século, o consumo se reduziu em praticamente todo o país, mas há uma exceção: o Centro-Oeste, a região por onde a soja e o boi avançaram para chegar à Amazônia. Olhando para o mapa de votação por municípios, e olhando para as cidades por onde avança o agronegócio, encontra-se uma clara intersecção. A grande marcha brasileira para o oeste foi uma marcha conservadora, que espalhou um idioma específico, retrógrado, raivoso.

Como diz o pensador argentino Horacio Machado Araoz, no livro Genealogia da mineração contemporânea,

Retrospectivamente, o extermínio originário das populações nativas de Nossa América e o recurso antieconômico e abusivo à violência funcionaram como verdadeiros atos de fundação, acontecimentos pedagógico-políticos nos quais essa aventura da matéria vivente cientificamente nomeada como “homo sapiens” começa a adentrar-se numa aprendizagem cada vez mais sistemática de um saber perverso: a arte da crueldade e da cobiça como práticas aparentemente infinitas e como sentido da existência. 

A vantagem de viver nos tempos de Bolsonaro é que a arte da crueldade e da cobiça fica nua. Não há intenção alguma de fantasiá-la, de ocultá-la, de apresentá-la sob uma roupagem moderna. O Brasil arde em chamas há dois anos seguidos, sabemos que os incêndios são criminosos, e não há nada que se possa fazer para deter a marcha da insanidade. 

É difícil escolher qual a fala mais grotesca do presidente a respeito dos povos indígenas. Pinço uma, entre tantas possíveis: “O índio mudou, tá evol… Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós. Então, vamos fazer com que o índio se integre à sociedade e seja realmente dono da sua terra indígena, isso é o que a gente quer aqui.” As terras indígenas são um dos principais espaços de preservação das matas. É sobre elas que Bolsonaro sonha em promover garimpos, em criar animais, em plantar soja.

Nos primeiros meses da pandemia, a divulgação de um vídeo completo de uma reunião ministerial, determinada pela Justiça, não deixou qualquer margem a dúvidas: estamos nas mãos de um governo de paranóicos e delirantes. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou que era hora de aproveitar a “distração” criada pela Covid-19 para “passar a boiada”. A arte da crueldade e da cobiça: nua. 

É inviável sistematizar tudo o que foi feito nos últimos dois anos. O resumo é a retirada total do Estado do papel de regulação de corporações, o sinal verde para a destruição dos nossos ecossistemas e o aprofundamento ultraveloz de uma matriz econômica que no século 19 já seria ultrapassada. Tudo isso sob o aplauso de uma parcela gigantesca da população que realmente acredita que estamos caminhando em direção ao futuro. 

E quando a floresta acabar, o que será de nós? Um estudo de 2014 calcula que, de pé, a Amazônia vale, por ano, o equivalente ao nosso PIB. Deitada, ela vale o mesmo que qualquer outra região do país: o quanto conseguirmos arrancar de grãos ou de carne. 

Mas esse não é um problema para as pessoas que estão aproveitando o momento para desmatar e atear fogo a tudo. Só importa o hoje. Só importa o eu. Só importa o boi. Só importa a soja. Como disse Jair Bolsonaro quando tentou colocar o filho como embaixador do Brasil nos Estados Unidos: “Se puder dar um filé mignon para o meu filho, eu dou.” A arte da crueldade e da cobiça: nua. 

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Um cheiro de moralismo verde oliva na pauta de costumes de Damares

 Um cheiro de moralismo verde oliva na pauta de costumes de Damares

Não se faça injustiça a Damares como porta-bandeira da pauta de costumes. Há pegadas de coturnos de milicos nisso também, que lhe disputam a primazia como irmãos siameses nas afinidades afetivas e como integrantes da democradura. É o que se depreende na evocação da história de Cassandra Rios. Autora de literatura erótica - a mais punida, dentre todos os escritores, pelo AI-5 -, Cassandra Rios somente deixou de ser perseguida pela ditadura militar de 1964 ao adotar pseudônimo MASCULINO, com o qual conseguiu ludibriar os seus algozes e prosseguir na carreira, utilizando a MESMA paleta de artista com que pintava as MESMAS paixões tórridas entre lésbicas e demais variações de seu repertório. Graças à adoção do novo pseudônimo de Oliver Rivers, Cassandra Rios (1932-2002), pseudônimo de Odete Perez Rios, paulista da Capital, deixou de ser "cliente" contumaz do DOPS, como era conhecida a sede da polícia política no Estado de São Paulo. (Não se pretende insinuar, com isso, que se manifeste algum pendor homoafetivo na corporação de machos fardados).
Cassandra Rios foi a primeira autora brasileira a vender um milhão de exemplares, superando os escritores de maior sucesso editorial na época, como Jorge Amado e Érico Veríssimo. Ao cair em desgraça vítima do AI-5, teve a sua vida pessoal e autoral convertidas num inferno persecutório. CURIOSAMENTE (ou estranhamente, ao seu gosto, leitor), a caçada inquisitorial somente não a levou à falência, porque, em busca de sobrevivência na atividade, ocorreu-lhe a óbvia ideia de explorar a seu favor o machismo militar, ao mudar de feminino para masculino o sexo de seu pseudônimo. Bingo!
Enquanto os livros de Cassandra Rios, como autora FEMININA, eram recolhidos das estantes das livrarias de todo o País e queimados e a sua livraria fechada, mediante a mesma truculência com que os esbirros arrancavam de dentro de suas casas os opositores da ditadura, o pseudônimo MASCULINO pode prosseguir tranquilamente na sua carreira, livrando-a da miséria e da fome.
No mundo das letras brasileiras, foi talvez a autora mais visada pela sanha moralista verde-oliva. Essa mesma sanha que ameaça retornar agora com o governo Mijair, como atesta a militância dos ministros igrejeiros e adjacentes no atual Ministério. Da mensagem enviada ao Congresso pelo presidente da República, por ocasião do início do ano legislativo 2021, dos 33 temas apresentados como PRIORTÁRIOS, constam nove da pauta de costumes.
Entenda-se: Cassandra Rios nunca foi militante de esquerda e jamais se propusera a fazer oposição à ditadura. Não fosse a perseguição obsessiva que marcou os dias atribulados de sua atividade profissional, o nome e a obra de Cassandra Rios teriam passado incólumes ao preconceito e à intolerância suspeita da agremiação machista. Longe da política, ou de alguma especial aversão à hipocrisia, ao cinismo, à ignorância e à obtusidade dos militares, ela se dedicava tão somente à exploração bem sucedida de seu filão de autora comercial.
O crime? A liberdade sexual.
Nivaldo Manzano, jornalista.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O LONGO CONFLITO DO OCIDENTE COM O IRÃ: QUAL O INTERESSE DOS EUA HOJE?

 

Por Gabriel Dantas Romano /Le Monde Diplomatique

O fato de os Estados Unidos serem atualmente um dos maiores produtores de petróleo do mundo levou algumas pessoas a acreditar que o investimento contra o Irã não está mais relacionado com o petróleo

Depois da Primeira Guerra Mundial, a dissolução do Império Turco-Otomano criou um imenso vácuo de poder no Oriente Médio que logo foi ocupado pelo domínio da França e Inglaterra, as nações vencedoras da guerra. Durante o conflito envolvendo a Tríplice Entente e a Tríplice Aliança, a Inglaterra contou com a ajuda das Revoltas Árabes para desestabilizar o poder turco-otomano no Oriente Médio. Porém, depois da vitória, o nacionalismo árabe (que pressupõe que a região deveria ser governada pelos próprios árabes e não por europeus) sofreu um imenso golpe. Reino Unido e França assinaram secretamente um acordo (conhecido como Acordo Sykes-Picot) que dividia a Península Arábica em esferas de influência entre as duas nações. Países como Síria e Líbano ficaram sobre mandato francês; Palestina, Iraque e Transjordânia se tornaram mandatos britânicos.1
As potências ocidentais asseguram seu domínio econômico e político na região. Esse poder beneficiou o capitalismo das nações europeias numa época de forte expansão do setor automobilístico. Os franceses e britânicos tinham controle da maior reserva de petróleo de fácil extração do mundo, podendo abastecer a necessidade de combustível da indústria.

A história do conflito contra o Irã: a disputa pelo controle do petróleo

No caso do Irã, a exploração do petróleo também foi o componente principal das relações desse país com o mundo ocidental. Já em 1908, seis anos antes da Primeira Guerra Mundial, a descoberta de campos em Masjed Soleiman atraiu o interesse de empresários britânicos que fundaram uma petrolífera, a Anglo-Persian Oil Company, no Irã.

Essa fundação afirmou uma relação de enorme desvantagem para o Irã: os britânicos exploravam os poços de petróleo do país, ficavam com a maior parte do lucro, exploravam a mão de obra iraniana e nada era revertido para a população.2

No livro All the Shas’s Men, Stephen Kinzer explica que o Irã recebia apenas 16% dos lucros líquidos da extração de petróleo. Durante anos, o governo iraniano tentou renegociar os termos do acordo com o Reino Unido. Em 1933 um novo acordo foi firmado, mas ainda assim com desvantagem para o Irã. A petrolífera britânica prometeu fornecer melhores salários e investimentos em infraestrutura, hospitais e escolas, porém nenhuma dessas promessas foi cumprida. O sentimento nacionalista começou a crescer entre os iranianos sob o preceito de que a população deveria se beneficiar da exploração dos próprios recursos naturais. O governo pró-ocidente e secular da dinastia Pahlavi sofria cada vez mais pressão para revisar a favor dos iranianos os termos da concessão dada aos britânicos.

Em 1951, o nacionalista iraniano Mohammed Mossadegh foi eleito democraticamente como primeiro-ministro. Segundo Stephen Kinzer, “o primeiro-ministro despertou a ira da Grã-Bretanha quando nacionalizou a indústria do petróleo. Mossadegh argumentou que o Irã deveria começar a lucrar com suas vastas reservas de petróleo controladas exclusivamente pela Companhia de Petróleo Anglo-Iraniana. Em 1953, a CIA e a inteligência britânica organizaram um golpe de Estado que derrubou o governo democraticamente eleito. O esmagamento do primeiro governo democrático iraniano deu início a mais de duas décadas de ditadura sob o xá, que dependia fortemente da ajuda e armas dos Estados Unidos. A reação antiamericana que derrubou o xá em 1979 abalou toda a região e ajudou a espalhar a militância islâmica”.

A deposição de Mossadegh e a instauração da ditadura do xá Reza Pahlavi com ajuda da CIA atenuou o descontentamento do clero islâmico com a nobreza iraniana. Mohammad Reza Pahlavi assumia um compromisso ainda mais forte com os britânicos. O xá não só garantia os interesses econômicos do Reino Unido e dos Estados Unidos, como também tinha um compromisso com a mentalidade secular ocidental. A proximidade de Pahlavi com valores ocidentais foi o maior ponto de tensão entre o governo e os religiosos islâmicos. Junto com o descontentamento popular, essa situação estimulou o nacionalismo islâmico e trouxe a Revolução de 1979.

Cansados do autoritarismo do governo Pahlavi, das baixas condições de vida e da exploração estrangeira, os estudantes tomaram as ruas e deram início a uma série de revoltas populares. A retomada do radicalismo religioso foi a forma que muitos camponeses e pessoas empobrecidas encontraram de sobreviver ao governo autoritário e agressivo de Pahlavi. Dessa forma, o clero islâmico xiita ganhou força e conseguiu monopolizar a liderança da Revolução, assumindo o poder. Essa reviravolta no final dos anos 70 fez o Ocidente perder sua influência no Irã.3

Depois da Revolução, para compensar a perda de influência, os Estados apoiaram o Iraque de Saddam Hussein contra o Irã, numa guerra ineficaz que durou quase uma década. Anos depois, o governo Bush invadiu o Iraque, Afeganistão e Paquistão, países que fazem fronteira com o Irã, e instalou bases militares no entorno do país.

Em todo momento dessa história, vemos um país tentando se valer do direito de usufruir dos próprios recursos naturais e uma potência imperialista o atacando por isso.

O entorno do Irã se tornou hostil e todas medidas classificadas como terroristas hoje não são nada mais do que uma tentativa de defesa de seu território e de aumentar sua região de influência do Oriente Médio. O Irã apoia o Hezbollah na Síria e no Líbano, o Hamas na Palestina, e outras milícias xiitas no Iraque, Afeganistão e Iêmen. Em todos os casos, combatem o Estado Islâmico e os terroristas sunitas.

(Waldemar Brandt/Unsplash)

 

Qual o interesse dos Estados Unidos hoje?

Quando o general iraniano Qasem Soleimani foi morto pelos Estados Unidos em janeiro de 2020, muito se discutiu sobre as intenções dos norte-americanos. O fato de os Estados Unidos serem atualmente um dos maiores produtores de petróleo do mundo levou algumas pessoas a acreditar que o investimento contra o Irã não está mais relacionado com o petróleo.

Porém essa visão é errada, pois a política externa americana busca hoje controlar os vastos recursos energéticos do Irã e não necessariamente usá-los. A forma característica de poder norte-americano fora do seu próprio território corresponde a um sistema de Estados satélites e solícitos.4 Claro que os Estados Unidos não dependem do petróleo iraniano para sobreviver, mas desejam dominá-lo do mesmo jeito.

Outra questão a ser considerada é que os norte-americanos extraem petróleo do xisto por meio do fraturamento hidráulico, processo muito caro que acaba elevando o preço final do produto.5 No Oriente Médio o petróleo é extraído mais facilmente, ou seja, custa menos dinheiro. As empresas estadunidenses não conseguem competir com esses preços baixos. A disputa pelo domínio do mercado faz Washington abusar de seu poder para beneficiar as empresas nacionais. Hoje o Irã e a Venezuela precisam lidar com uma série de obstáculos ilegais impostos pela Casa Branca, como sanções e embargos econômicos, os impedindo de obterem lucros com a venda de petróleo.

Também é claro que não é uma simples questão de “busca por petróleo”. Vai além disso: é uma iniciativa de controle político, dominação territorial e a necessidade de impedir o desenvolvimento de países não alinhados. A divisão internacional do trabalho é uma disputa violenta e feroz. O Brasil de Bolsonaro aceita sua inserção subalterna na cadeia de produção global, mas o Irã e a Venezuela não. O controle de recursos energéticos inclui tanto o petróleo, como armamento e energia nuclear. Em todos os estágios desse conflito do Ocidente contra o Irã, o petróleo foi a motivação principal e inicial. O país foi fundamental para a Grã-Bretanha durante o período pós-Segunda Guerra Mundial, e sua saída da órbita dos Estados Unidos em 1979 foi intolerável.

Hoje, indiretamente, o petróleo cumpre seu papel de influência no conflito. O Irã disputa com a Arábia Saudita, através de uma guerra por procuração, maior influência no Oriente Médio. O resultado influencia diretamente no poder dos Estados Unidos sobre a região. Ou seja, não é apenas um conflito meramente por recursos energéticos, mas também pelo o poder e controle da região.

Segundo Noam Chomsky, Washington teme que exemplos de “desobediência” global como Cuba e Irã acabem inspirando outros movimentos que podem debilitar sua zona de influência. Por isso a necessidade constante de retaliação. Assim como Saddam Hussein, sunita, temeu a popularidade de movimentos xiitas e decidiu atacar o Irã.

“O controle do estrategicamente significativo Oriente Médio, com suas enormes e facilmente acessíveis reservas de petróleo, tem sido uma peça central da política desde que os Estados Unidos conquistaram a posição de hegemonia global após a Segunda Guerra Mundial. As razões não são obscuras. O Departamento de Estado reconheceu que a Arábia Saudita é ‘uma fonte estupenda de poder estratégico’ e ‘um dos maiores prêmios materiais da história do mundo’. Eisenhower a descreveu como a ‘parte estrategicamente mais importante do mundo’. Esse controle do petróleo do Oriente Médio que rende um ‘controle substancial do mundo’ e ‘influência crítica’ sobre os rivais industriais tem sido compreendido por estadistas influentes desde o conselheiro de Roosevelt, A. A. Berle, até Zbigniew Brzezinski. Os princípios permanecem os mesmos e são reforçados por outros fatores, entre eles a demanda insaciável das ditaduras de petróleo por equipamento militar e o acordo saudita de apoiar o dólar como moeda global, proporcionando grandes vantagens aos Estados Unidos.”6

Durante o final do governo Obama, a tendência era o apaziguamento das relações entre Washington e Teerã. Ambos haviam estreitados as relações via acordos contra armas nucleares em troca do fim dos embargos. Porém, com a subida de Donald Trump ao poder, essa aproximação foi desfeita. Os embargos econômicos foram retomados e a Casa Branca adotou um discurso mais feroz e violento contra o Irã. A razão é clara: o governo norte-americano busca poder influenciar as decisões políticas dos países do “terceiro mundo” e os países que não se alinham aos seus interesses e fogem da posição de satélites pagam um preço enorme por isso.

[Observação: esse artigo não busca defender o governo iraniano ou tomá-lo como exemplo a ser seguido, apenas trata da relação do Irã com o Ocidente.]

 

Gabriel Dantas Romano é estudante de ciência política da USP.

[1] Lawrence, TE. (2008) — Seven Pillars of Wisdom. Random House

[2] KINZER, Stephen. (2008) — All the Shas’s Men. Wiley

[3] HOBSBAWM, Eric. (1995) — Era dos Extremos. Companhia das Letras.

[4] CHOMSKY, Noam. (1992) — Deterring Democracy. Hill and Wang

[5] TABUCHI, Hiroko.Fracking. (2020) Firms Fail, Rewarding Executives and Raising Climate Fears. New York Times, 12 de julho de 2020. Disponível em https://nyti.ms/3kbLML6.

[6]CHOMSKY, Noam. (2019) — We Must Stop War with Iran before It’s Too Late. In These Times, 21 de maio de 2019. Disponível em: https://inthesetimes.com/article/iran-war-trump-bolton-neoliberalism-venezuela-cuba-world-order

Forças Armadas e Poder Judiciário no Baile da Ilha Fiscal

 Forças Armadas e Poder Judiciário no Baile da Ilha Fiscal

Nivaldo T. Manzano

Quando penso no peso acabrunhante do papel político e ideológico das FFAA e da alta burocracia do Estado, verbi gratia o Poder Judiciário, sobre a nação, me ocorre a metáfora da poita, a pedra utilizada por barqueiros para fundear a embarcação no lugar da âncora. São duas instituições, que embora nascidas do Império, ainda exalam o cheiro de cueiro para aquém de imperial - neocolonial. Duas instituições, poderosas no arcabouço geral do Estado, que servem precipuamente à Casa Grande, dissociadas de todo sentimento nacional, republicano e democrático. Vejo-as na minha imaginação, como convivas ainda HOJE na festança do Baile da Ilha Fiscal, que reuniu a nata oligárquica do Império sob o pretexto de brindar a filha do imperador -, fantasiado ad hoc de ALMIRANTE -,numa libação para a qual se dispuseram 10 mil litros de cerveja; 304 caixas de vinhos, champagne e bebidas diversas. Como comes, o cardápio do jantar para os 500 convivas presentes (dos 4.500 convidados) contemplava 800 kg de camarão; 300 frangos; 500 perus; 64 faisões; 1 200 latas de aspargos; 20 000 sanduíches; e 14 000 sorvetes, segundo consta de documento conservado no Arquivo Nacional. (É por isso que, volta e meia, intenta-se tocar fogo nele)
Em séculos de história, não foi possível detectar nessas instituições, como tais, uma única ocasião, um único momento, o mais leve indício de identificação com a nação, com o interesse nacional, no auto reconhecimento de que somos o povo brasileiro. instituições que, por função estão investidas do dever constitucional de zelar pelo Direito (Justiça) e pela Defesa.
Vejo-as como a poita, que retém fundeada a nossa catraia nacional no atraso recorrente, que prenuncia o pior para o dia seguinte, sempre, sempre. Não há o menor exagero nisso. Consulte nos livros de história o cardápio servido aos escravos à venda no Cais do Valongo-RJ ( farinha de mandioca, feijão e carne seca; e como observou o viajante Rugendas “não lhes faltam frutas", como cajus e jacas) e concluo que ainda hoje a 150 milhões de brasileiros não foi possível o acesso a uma dieta de tal modo equilibrada.
Poder Judiciário e Forças Armadas riem-se de nós aqui na planície, distantes no Olimpo de seus privilégios, superlativos e a absurdos, qualquer que seja métrica moral que os meça.
"Quem prenderá o Alto Comando?" - indaga o cientista político e ex-ministro Roberto Amaral, em artigo publicado na revista Carta Capital. Imperdível.
Marcello Antunes, Rogério Fernando Furtado e 1 outra pessoa
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