sexta-feira, 2 de julho de 2021

Pragmatismo e os pragmáticos nos estudos organizacionais Pragmatism and the pragmatics in organizational studies Francis Kanashiro Meneghetti bbb

 

Pragmatismo e os pragmáticos nos estudos organizacionais

Pragmatism and the pragmatics in organizational studies

Pierce e Dewey e a centralidade da ação e do útil

O pragmatismo é entendido como uma doutrina em que as idéias são instrumentos da ação; isto é, só têm utilidade quando produzem efeitos práticos. Sua força está, particularmente, na aplicação prática; ou seja, na idéia que se consolida em ação. Assim, a verdade para o pragmático é só aquilo que se concretiza como ação. Desse modo, é estabelecida uma oposição ao intelectualismo e, mais do que isso, uma redução do mesmo às instâncias das atitudes utilitárias e de ações concretas.

Essa visão que questiona a importância do intelectualismo vai contra a concepção de Marx ao afirmar que o conhecimento pode ser revolucionário, pois muitas vezes é o momento da aproximação da consciência com o real, mais especificamente com a compreensão sistematizada da realidade. Dessa forma, não é em vão que Marx afirma que a diferença entre o pior dos arquitetos e a mais habilidosa das abelhas é a capacidade deles de imaginar o que irão realizar. Apesar dessa oposição clara de Marx em relação à importância do intelectualismo, o pragmatismo tem importância singular para a compreensão da realidade e de sua transformação.

Assim, vários são os teóricos que contribuíram para sua construção como conhecimento científico. Entre os mais representativos estão os já citados Charles Pierce e John Dewey, além de George Herbert Mead e William James nos EUA, Ferdinand Schiller na Inglaterra, Hans Vaihinger na Alemanha, Miguel de Unamuno na Espanha e Giovanni Papini, Giuseppe Prezzolini, Giovanni Vailati e Mario Calderoni na Itália. Cada um deles presta significativa contribuição na sua construção ou consolidação como conhecimento. Para evitar equívocos conceituais causados pelo descuido no rigor analítico necessário ao entendimento de qualquer conhecimento específico, serão abordadas contribuições de Pierce e Dewey.

A compreensão do senso comum quanto ao pragmatismo revela apenas uma parte do entendimento científico possível e necessário. James atribui a Pierce a origem do pragmatismo, surgido nos EUA em meados do século XIX, com presença explicitamente significativa até a segunda década do século XX. É considerado por muitos, vertente lógica do utilitarismo (a verdade é medida pela sua utilidade) e herdeiro do empirismo inglês. Bacon, Locke, Berkeley e Hume consideravam a experiência acumulação e organização progressiva de sensíveis dados passados e futuros (REALE e ANTISERI, 1991, p.485), fonte do conhecimento. Já o pragmatismo tem na experiência o principal elemento de orientação do futuro e norma da ação. Surge, basicamente, num período de expansão econômica norte-americana e caracteriza-se historicamente pelo descrédito no fatalismo e na certeza de que só a ação, por meio da inteligência e energia, é capaz de alterar os limites da condição humana.

O pragmatismo surge, portanto, em um contexto histórico específico dos EUA e, para justificar a ação como ato de primazia, orienta, filosoficamente (termo aqui utilizado mais no sentido de conjunto de idéias), um arcabouço de natureza ideológica que fundamenta os fatos ocorridos na dimensão econômica, política e cultural. Esse arcabouço desenvolve-se atualmente com intensidade nas decisões e ações dos sujeitos na América do Norte e, também, em grande parte da Europa. Não é exagero afirmar que o crédito depositado no neoliberalismo só se efetiva em razão das condições materiais organizadas na polarização entre capital e trabalho, reforçada por sujeitos que agem pragmaticamente por acreditarem na eqüidade econômica futura, ou, em alguns casos, por indivíduos que já assumiram sua posição de aceitar as diversas formas de banalização decorrentes das diferenças econômicas promovidas por esse sistema econômico e político.

Pierce (1989) foi o construtor do pragmatismo como ciência. Para ele, conhecimento é essencialmente pesquisa e, mais do que isso, pesquisa direcionada para ação. A origem está na dúvida, mais especificamente na "irritação" que o pesquisador sente dessa dúvida. A partir disso, surgem as crenças, hábitos determinantes das nossas ações. Da dúvida à crença (PIERCE, 1877), o autor fundamenta que, para se chegar ao método de fixação da crença, quatro etapas se apresentam:

 método da tenacidade - é o exemplo do avestruz que se esconde da realidade. É a postura de quem está diante da realidade. A insegurança ocorre, quando o pesquisador se defronta com outras crenças tidas como igualmente "boas" por outros;

 método da autoridade - é o método das crenças organizadas. A partir da ignorância, procura-se conseguir aconcordância daqueles que não aderem às suas explicações. É a busca pela harmonia. Pierce afirma que nenhuma crença é eterna, pois a história redimensiona sua posição e a particulariza em determinado momento.

 método do a priori - é a posição atribuída às próprias proposições elementares, conforme uma razão. Tal método leva ao fracasso, pois a razão de um não é, necessariamente, a razão dos outros;

 método científico - ao contrário dos outros três métodos, este é o correto. Na ciência, há três formas diferenciadas de raciocínio: a dedução, a indução e a abdução. A dedução parte do específico para o geral. A indução, do particular para o específico (classifica, mas não explica) (PIERCE, 1878). A abdução (e aqui repousa a contribuição de Pierce) fornece um tipo de raciocínio que, para chegar à explicação de um fato problemático, necessita inventar uma hipótese (conjectura) da qual sejam deduzidas conseqüências que, obviamente, possam ser verificadas indutivamente (experimentalmente).

A abdução proposta por Pierce demonstra que as crenças científicas são sempre falíveis, porque as provas obtidas por meio dos experimentos sempre desmentem as conseqüências das hipóteses (conjecturas).

Assim, o método científico, cujo princípio consiste em formular hipóteses e submetê-las à verificação, analisando suas conseqüências, é o método válido. A partir dessas considerações, Pierce (1879) elabora a teoria do significado que, posteriormente, fundamentará a construção de uma teoria dos sinais - a semiótica. O conceito, como

[...] significado racional de uma palavra ou de outra expressão, consiste exclusivamente em seus concebíveis reflexos no transcorrer da vida, de modo que, obviamente, nada daquilo que não possa resultar do experimento pode ter qualquer reflexo direto sobre esta. Desse modo, se alguém pode definir acuradamente todos os fenômenos experimentais concebíveis que a afirmação ou negação de um conceito pode implicar, terá conseqüentemente, uma definição completa do conceito - e nele não há absolutamente mais nada. (PIERCE, 1879, p.42)

Dessa forma, todo conceito se reduz aos efeitos experimentais concebíveis do objeto, que como tal é constantemente submetido às provas experimentais. Por isso, sempre possibilita múltiplas concepções, pela variedade de suas ações sobre os sentidos dos sujeitos. Portanto, um conceito se reduz aos seus efeitos experimentais concebíveis, os quais reduzem as ações possíveis; ações efetuáveis no momento. Um exemplo disso é o conceito de água, o qual se reduz aos efeitos controláveis, que, por sua vez, nas oportunidades de identificação desse objeto (água), levam a certos tipo de comportamento adequados às qualidades que acredita-se que a água tenha. Assim, as crenças são normas de ações possíveis.

Para Pierce o conhecimento sobre algo não é intuição (PIERCE, 1877), síntese a priori (clara referência de oposição à concepção kantiana) ou percepção do senso comum. É pesquisa com origem no estado de dúvida até chegar ao estado de crença.

O pragmatismo de Pierce não adere meramente a verdade à utilidade, mas estrutura-se na lógica da pesquisa ou na norma metodológica que vê a verdade como entendimento por se fazer. Dessa forma, a verdade jaz no futuro e nunca é definitiva. O pragmatismo de Pierce é empirismo, mas diferente do empirismo clássico inglês, volta-se para o futuro na construção do conhecimento. Não poderia ser diferente, pois toda ação é partir de algo para realizar algo, ir de um ponto de partida até um ponto de chegada. A lógica do conhecimento repousa, por conseguinte, no movimento. Observa-se que crença é algo que se conhece por um conjunto de percepções a respeito de algo em determinado tempo. Crença essa que não é o objeto, mas representação dele no contexto da ação.

A experiência não se reduz à consciência, tampouco ao conhecimento. Essa concepção de Dewey sustenta bem os limites da experiência. Considerado um "naturalista", tem na teoria da evolução das espécies de Charles Darwin um dos seus principais pressupostos teóricos. Concebe sua filosofia como instrumentalismo, que, de início, diferencia-se do empirismo clássico em relação ao entendimento do que é experiência. Dewey (1929, p.38) fundamenta que a experiência não é consciência, mas sim história (que tem como fundamento o movimento).

A experiência é algo completamente diverso da "consciência", que é aquilo que aparece qualitativa e focalmente em momento particular. O homem comum não tem necessidade de que lhe recordem que a ignorância é um dos principais aspectos da experiência e que tais são os hábitos que abandonamos sem consciência, tão hábil e seguro é o modo como eles se dão. Entretanto, a ignorância, o hábito e o radicar-se fatal no passado são precisamente as coisas que o chamado empirismo nega à experiência quando a reduz a estados de consciência.

Dessa forma, o problema gnosiológico (também conhecido como teoria do conhecimento) é um conflito entre a experiência e o conhecimento. Esse "é o problema de como encontrar o que é necessário encontrar em torno dessas coisas para garantir, retificar ou evitar o tê-las ou o sê-las." (DEWEY apud REALE e ANTISERI, 1991, p.505). Assim, o conhecimento é processo de investigação (avanço por tentativas de solução), tanto quanto meio de adaptação ao ambiente. Conhecer é fazer. Há continuidade entre conhecimento comum e conhecimento científico.

O instrumentalismo de Dewey tem como premissa um entendimento contrário ao da filosofia tradicional, que atribui à verdade caráter estático, definitivo, absoluto, eterno e imutável. Contrário à filosofia tradicional, compreende que o processo de evolução (na acepção darwinista) é o elemento primordial no processo de investigação. O conhecimento, portanto, é prática que procura resolver e compreender o ambiente.

A investigação é "a transformação controlada ou direta de situações indeterminadas em situação determinada em suas distinções e relações constitutivas, a ponto de converter os elementos da situação originária em totalidade unificada." (DEWEY apud REALE e ANTISERI, 1991, p.508). Assim, o significado de instrumentalismo passa pela compreensão de que a verdade é a adequação do pensamento ao ser - o critério da verdade é o êxito prático, mas identificação (aqui, também me falta uma palavra) com a comprovação de uma idéia, a partir de um corpo sempre crescente das afirmações garantidas. Essas garantias, contudo, não são absolutas e imutáveis, pois a história é a medida da experiência que as constrói. As idéias são apenas planos de operações e intervenções na realidade existente. Não podem ser verdadeiros ou falsos, mas eficazes ou inúteis.

A concepção de Dewey sobre a realidade passa pela idéia de uma totalidade composta de elementos práticos, que por sua vez formam um conjunto de "regras" não-absolutas, mas relativas, pois podem ser modificadas pela ação orientada por "instrumentos".

Das contribuições temáticas mais significativas de Dewey, a educação e a democracia ganharam destaque especial. Com a expectativa de desenvolver uma sociedade melhor por meio de uma educação progressista, as escolas deveriam ser refeitas e tidas como microcosmos da sociedade, orientadas sempre para a ação e a prática. A ciência, no contexto da educação, deve chegar ao aluno pela prática. Em uma sociedade industrial, na sua concepção, a escola precisa ser uma oficina, uma comunidade em miniatura (DEWEY, 1936). Necessita orientar pela tentativa e erro as disciplinas necessárias ao estabelecimento da ordem econômica e social. Destarte, cabe à escola educar instruindo, uma vez que ela é um microcosmo da sociedade.

Essa visão do que seja educação mostra com clareza o entendimento que Dewey tem do ambiente e de como agir para modificá-lo. Para ele, a escola é a representação pormenorizada do que ocorre na sociedade. Essa compreensão funcionalizada é responsável por orientar grande parte da concepção norte-americana de educação. Credita aos sujeitos, ainda, a responsabilidade de agir, de serem os responsáveis por suas próprias escolhas e, conseqüentemente, por seus destinos. Não percebe as contradições, diferenças materiais, culturais, políticas e ideológicas de cada situação. Tal entendimento da realidade não leva em consideração, ainda, as diferenças surgidas das associações entre indivíduos e grupos. Em cada um deles, as histórias são diferentes e a realidade também. Cada grupo é composto por sujeitos com histórias diferentes e não são o somatório das experiências individuais, mas um complexo conjunto de sentimentos que percorrem o grupo de forma a dinamizálo.

Outro elemento importante para reflexão é a relação entre o conhecimento e a prática. A separação entre teoria e prática não se justifica, na medida em que a prática (que, em última instância, tem alguma relação com o concreto) é responsável pela construção da teoria, ao mesmo tempo em que, dialeticamente, a teoria influencia e faz parte da construção da prática como ação orientadora.

Analisando pela ótica da concepção de Dewey, o instrumentalismo não exige, necessariamente, uma versão meramente prática. A teoria, tal como a matemática, a física e as demais ciências da lógica, é exemplo tanto quanto os modelos matemáticos e físicos - orientados em ações específicas para realização de objetivos concretos - são instrumentos de orientação para ações que causam (posteriormente à sua aplicação) resultados concretos.

Não se pretende esgotar as constituições que Pierce e Dewey revelam, mas é importante salientar que ambos são importantes na concepção do pragmatismo Suas observações e apontamentos, assim como suas reflexões, surgiram da sua realidade para se tornarem conhecimento visando esclarecer, sem o propósito de dogmatizar.

Pragmatismo: senso comum? Ciência? Teoria do conhecimento?

O termo senso comum tem conotação pejorativa entre os acadêmicos, seja nas ciências ou na filosofia. De fato, está associado à ignorância, ao entendimento massificado da realidade, àquilo que é tangível por todos; enfim, a uma compreensão da realidade generalizada, quase sempre sem reflexão e preconceituosa. Todavia, o caráter prático do senso comum é o de fornecedor de esquemas de compreensão da realidade, capaz de criar imaginários e "realidades", agregando indivíduos, os quais, portanto, se tornam responsáveis por estabelecer "razões" e vínculos comuns que agregam e mantêm o controle social.

O pragmatismo, como não podia ser diferente, concebe o senso comum como algo útil, desde que associado aocaráter prático e motivador da ação. É dessa forma que se justifica a afirmação de Dewey ressaltando o caráter prático do senso comum:

[...] visto que os problemas e as indagações em torno do senso comum dizem respeito às interações entre os seres vivos e o ambiente, com o fim de realizar objetos de uso e de fruição, os símbolos empregados são determinados pela cultura corrente de um grupo social. Eles formam um sistema, mas trata-se de um sistema de caráter mais prático que intelectual. Esse sistema é constituído por tradições, profissões, técnicas, interesses e instituições que são efeito da linguagem cotidiana comum, com a qual os membros do grupo se intercomunicam. (DEWEY, 1949, p.170)

Para ele, o que importa é sua capacidade prática de integrar indivíduos à ação prática, permitindo fugir do intelectualismo. A suposta renúncia ao intelectualismo deve-se à oposição clara dos filósofos norte-americanos ao velho continente, na sua época, procurando reafirmar a necessidade da prática, por meio da ação dirigida e controlada para um fim, como guia de uma nação. Nesse contexto, o senso comum é a opção clara que norteia as ações da população. O fundamento, que justifica ideologicamente as ações em prol de um objetivo, faz do cálculo da eficiência o medidor almejado pela nova ciência, o pragmatismo.

Contudo, há distinção entre o conceito de senso comum da época e o da atualidade. Enquanto o conceito associado ao pragmatismo se baseia na ignorância por não conhecer, o da atualidade está muito mais ligado à renúncia ao conhecimento, o que os diferencia muito. O senso comum do pragmatismo não nega a procura por algumas formas de compreensão da realidade, apenas a associa à natureza prática da vida. O senso comum de hoje é a ignorância alimentada pela indústria cultural, responsável por massificar o conhecimento e alinhavar opiniões sobre um mesmo tema. É a embriaguez relacionada com o excesso de informação que nada explica, com a uniformização da crítica vendida pelos colunistas de jornais ou comentaristas da economia, da política, da cultura, da moda (afinal, de tudo) como verdade.

A questão central na discussão do senso comum está na relação entre teoria e prática. A relação entre ambas - cuja sentença de separação foi formalizada pelos filósofos modernos com o problema da relação sujeito/objeto - tem singular espaço no "teatro" da suposta pós-modernidade. "Teatro" porque os próprios pós-modernos estabelecem uma separação entre teoria e prática que não existe, e alguns mais extremistas ainda afirmam que a teoria nunca existiu. Dessa forma, transformam todas as discussões em encenações, no palco do relativismo. O que piora o embate é a recusa à leitura de alguns autores - Vázquez (1977) é um deles - pelo simples fato de acreditarem na morte do marxismo e mesmo de outras ciências fundamentadas em epistemologias diferentes.

Diferente dos pós-modernos, o pragmatismo faz da prática sua primazia, mas não recusa completamente a teoria, colocando-a, porém, numa posição secundária. Se bem que quase sem expressão ou utilidade, desde que a teoria possa ser a engrenagem do útil e do prático, terá seu valor de ação. Como afirma Vázquez (1977, p. 211),

[...] a história do pensamento filosófico mostra também um modo de conceber as relações entre teoria e prática sob uma forma que não passa do ponto de vista do senso comum, depurado de seu aspecto rudimentar, e alcança o nível de doutrina filosófica: tal é o ponto de vista do pragmatismo. Seu praticismo se põe em evidência, principalmente, em sua concepção da verdade; do fato de nosso conhecimento infere que o verdadeiro se reduz ao útil, com o que solapa a própria essência do conhecimento.

Essa visão de Vázquez leva a outra reflexão, que coloca no centro da discussão duas outras categorias: a verdade e o conhecimento.

Conforme James (2005) questiona, o que é verdade e como se diferencia do erro? Essa pergunta fundamental no pragmatismo é proposta para elaborar atitudes filosóficas que justifiquem as sucessivas descobertas científicas, no final do século XIX. A verdade, relacionada ao que pode ser conhecido, só é efetiva quando útil. Assim, o que é verdadeiro é o que é útil. Não há erro na verdade que parte da utilidade, pois essa é a medida de todas as coisas, é guia da ação.

Contrário a essa concepção, Vázquez (1977, p.213) entende que

O conhecimento é útil na medida em que é verdadeiro, e não, inversamente, verdadeiro porque é útil, como afirma o pragmatismo. Enquanto para o marxismo a utilidade é conseqüência da verdade, e não seu fundamento ou essência, para o pragmatismo a verdade fica subordinada à utilidade, entendida esta como eficácia ou êxito da ação do homem, concebida esta última, por sua vez, como ação subjetiva, individual, e não como atividade material, objetiva, transformadora.

A oposição evidente direciona a reflexão sobre a verdade e o conhecimento para a compreensão da ação humana. Nem toda ação individual, de natureza subjetiva, é verdade, pois os critérios de utilidade da mesma variam conforme o contexto social e sua história. Além disso, é a realidade concreta que define o que é utilidade e não o inverso. Não é possível falar em ação sem os limites da realidade, e esta por sua vez tem correspondência com o mundo material, objetivo e contraditório, ao mesmo tempo.

A discussão sobre a verdade sempre ocorreu no âmbito da ciência. A verdade, portanto, direta ou indiretamente é categoria que fundamenta qualquer concepção de ciência. Construindo entendimentos específicos para cada época, o acesso à verdade, para os racionalistas, está na razão; para os empiristas, na experiência; e, para os pragmáticos, na utilidade. A ciência moderna, formada desde os pensadores racionalistas, passando pelos empiristas e positivistas, é entendida como conhecimento confirmado qualitativa e/ou quantitativamente, com garantias de própria validade. A ciência moderna, hoje, já não tem, única e exclusivamente, a pretensão de determinar a razão como elemento central da certeza, tal como atribuído pelos racionalistas; ou de creditar a experiência à realidade, como faziam os empiristas; ou, ainda, compreender a realidade por meio de operações positivas, como confiavam os positivistas. O conceito de ciência aqui utilizado leva em consideração as garantias na demonstração, na descrição ou corrigibilidade, todas juntas ou isoladas.

O pragmatismo, como conhecimento, tem uma virtude, que ao mesmo tempo se torna um limite: pretende denunciar as falácias filosóficas, sobretudo de natureza consolatória ou ilusória. A efetivação da realidade pela prática exclui qualquer forma de pensamento metafísico que procura, além da realidade concreta, o alojamento da compreensão baseada na idéia ou na adesão ao mítico. Dessa perspectiva é possível afirmar que o pragmatismo tem sua validade, pois se apresenta como o primeiro elemento na constituição da consciência esclarecida.

É fato que há continuidade do conhecimento comum (senso comum) e do conhecimento científico.

A ciência, no sentido especializado, é a elaboração de operações cotidianas, ainda que essa elaboração assuma freqüentemente caráter muito técnico. [...] A ciência tem seu ponto necessário de partida nos objetos qualitativos, nos processos e nos instrumentos do senso comum, que é o mundo do uso, da fruição e dos sofrimentos concretos. (DEWEY apud REALE; ANTISERI, 1991, p.510)

Todavia, não é possível afirmar que senso comum e conhecimento tenham as mesmas propriedades. O "ponto de mutação" está em algumas características que possibilitam afirmar a validade científica do pragmatismo. São elas:

 a adoção de método nas ações de pesquisa;

 a validação de afirmações por comparações quantitativas;

 comparações qualitativas, mesmo subordinadas às regras da utilidade; e

 mudança de estado qualitativo e quantitativo da realidade e possibilidade de generalização de resultados com base em observações da realidade.

Aristóteles (2002) apresenta reflexões iniciais sobre a ciência (é evidente que o livro discute os pressupostos da ciência antiga, a qual, naturalmente, têm relação com a ciência moderna). A metafísica de Aristóteles tem como objetivo identificar, primeiro que tudo, as causas e os princípios; isto é, verificar as causas e os princípios que condicionam qualquer realidade, para identificar causas e princípios que fundamentam os seres em sua totalidade. São apresentadas quatro causas fundamentais para compreensão sistemática da realidade:

 causa formal - a forma ou essência das coisas. São as "relações" para diversas figuras geométricas (para os triângulos seria o fato de todos eles apresentarem três ângulos internos);

 causa material - o constituinte da coisa, ou seja, aquilo do que é feito a coisa (o ouro do anel de ouro, o mármore da estátua de mármore);

 causa eficiente - aquilo de que provém a mudança e o movimento da coisa. A vontade é a causa eficiente da ação humana, como o chute na bola é a causa eficiente do movimento da bola;

 causa final - o propósito da coisa e das ações, relacionado com a função da coisa.

Três das quatro causas são intrínsecas à coisa da qual são causas. Apenas a eficiente é externa; ou, pelo menos, distinta da coisa. Observando os pressupostos do pragmatismo e comparando-os com a teoria aristotélica da compreensão do ser (ou das coisas), é possível verificar que seus pressupostos se baseiam, principalmente, em duas das quatro causas, a eficiente e a final.

A causa final está relacionada aos pressupostos da utilidade, pois é possível identificar sempre um propósito ou um fim para alguma coisa. Para uma máquina, pressupõe-se uma atividade mais rápida ou precisa no processo de transformar alguma coisa. Para um avião, a utilidade de transportar objetos ou pessoas.

A causa eficiente está relacionada com a ação prática, pois toda causa eficiente gera mudança e/ou uma ação. Apesar disso, os pressupostos do pragmatismo não contemplam explicitamente a causa material e a formal, ocorrendo uma subordinação dessas causas à condição de eficiência e finalidade.

Essas características possibilitam classificar o pragmatismo no campo da ciência, sobretudo, porque seguem os pressupostos científicos quase uniformemente aceitos pelas várias correntes epistemológicas. Entretanto, o pragmatismo não constitui teoria do conhecimento. A teoria do conhecimento investiga os problemas decorrentes da relação entre o sujeito e o objeto do conhecimento, bem como as condições primordiais do saber verdadeiro. Os principais problemas enumerados pela teoria do conhecimento se referem à sua veracidade, às formas de apreensão do objeto, à totalidade do conhecimento e suas fontes. A verdade (não a individual, mas a social) depende apenas dos sujeitos individuais e coletivos, ou seja, do juízo do indivíduo relacionado aos "juízos" compartilhados a partir dos fenômenos sociais. O objeto tem primazia na formação da veracidade e não o que está simplesmente no plano das idéias ou na subjetividade do pesquisador.

Pode-se fazer uma divisão didática da teoria do conhecimento, baseada nos principais problemas enfrentados por ela:

 a possibilidade;

 a origem;

 a essência;

 as formas; e

 o valor (o problema da verdade).

Essa divisão didática possibilita pensar o pragmatismo como ciência, mas não como teoria do conhecimento. Baseada nas características da ciência, a aceitação da utilidade não implica renúncia do método, das comparações quantitativas e qualitativas ou mudança de estados. Todas essas características são, não só possíveis, como são a base de sustentação da subordinação da ação a um critério de utilidade. Dessa forma, em nenhum momento a utilidade é questionada ou colocada à prova, pois, para todo objeto há uma ação que corresponda a ele ou a uma utilidade social.

Contudo, quando a discussão parte para o plano da teoria do conhecimento, a análise modifica-se, porque:

 nem toda utilidade possibilita um conhecimento;

 nem toda ação gera conhecimento;

 para conhecer a essência dos fenômenos, é necessário mais do que conhecer a utilidade do objeto ou seu efeito prático;

 as formas não são conhecidas só pelo que se pode observar na ação ou na objetividade; e

 o problema da verdade no pragmatismo é dado pela utilidade do objeto ou pela ação orientada pelo útil. Assim, a verdade subordina-se apenas a uma das dimensões possíveis para a compreensão do objeto.

De fato, o pragmatismo cumpre com as características elementares para qualificá-lo como ciência. Destarte, a ação orientada pela utilidade não empreende a construção de abstrações que ajudem a compreender a realidade sem apenas descrevê-la.

[...] não é qualquer conjunto de teses sobre um objeto qualquer que constitui uma teoria. Para se converter em teoria, o conhecimento deve atingir em seu desenvolvimento certo grau de maturidade. Quando o conhecimento compreende apenas a seleção e descrição dos fatos da realidade, relativos a esse ou àquele objeto, ele ainda não assume forma de teoria científica. A seleção e descrição dos fatos é apenas um enfoque da teoria, uma preparação para a sua criação e não a própria teoria. [...] A teoria deve compreender não só a descrição de certo conjunto de fatos, mas também sua explicação, o descobrimento das leis a que eles estão subordinados. (KOPNIN, 1978, p.238)

Como teoria científica, o pragmatismo apresenta-se como elementar para a compreensão da realidade. Suas próprias características o colocam no plano do entendimento dos fenômenos cotidianos, de forma a sustentar-se em uma visão de acordo com os pressupostos das ciências. Salvo isso, não pode ser compreendido como teoria do conhecimento, pois "toda teoria do conhecimento se apóia, implícita ou explicitamente, sobre uma determinada teoria da realidade e pressupõe uma determinada concepção da realidade mesma". (KOSIK, 2002, p.33)

O pragmatismo na atualidade: reflexões críticas

A abordagem de senso comum em relação ao pragmatismo é sedutora, pois requalifica as idéias comuns no plano da sistematização com base na compreensão da utilidade e da ação prática. Em tempos de relativização das certezas científicas, o pragmatismo é um "lugar" seguro para compreensão da realidade, pois seus pressupostos científicos estão atrelados às generalizações, a partir das observações qualitativas e/ou quantitativas. Além disso, é um método que vislumbra a compreensão das diversas dimensões da vida social: a política, a ciência, a moral, a ética, a matemática, a economia, a cultura, o conhecimento; enfim, tudo que pertença ao mundo das relações sociais.

Entre os críticos do pragmatismo, Horkheimer se destaca. No sistema de produção capitalista, a ciência é, freqüentemente, meio de produção. Com finalidade utilitarista, e não com um fim em si mesmo, a ciência pragmática é a face ideológica que, ao mesmo tempo em que nega a teoria, a utiliza para o avanço do sistema que a financia. A negação da teoria é, portanto, a negação de uma reflexão mais radical sobre os "produtos" gerados por essa ciência, ao mesmo tempo em que se prevalece da sua utilização, quando orienta uma ação para fins específicos. Não é por acaso que Horkheimer (1977, p.15) faz considerações pertinentes entre a ciência e a crise, mais pontualmente sobre uma teoria pragmatista do conhecimento como formulação específica da ciência como meio de produção.

Além disso, "o conceito pragmatista de verdade, em sua exclusividade, desde que não seja completado por nenhuma metafísica contrária, corresponde à ilimitada confiança no mundo existente" (HORKHEIMER, 1990, p.156), mundo esse que é concebido pelo conjunto das ações práticas.

Um fator importante é a substituição da compreensão da realidade mediante a lógica por um sistema de elementos formais que justificam entendê-la em um universo probabilístico. "Desde o seu início o pragmatismo justificou implicitamente a atual substituição da lógica da verdade pela lógica da probabilidade, que se tornou amplamente predominante." (HORKHEIMER, 2000, p.50). O cálculo é a estrutura que justifica e ampara a compreensão de algo. A previsão por probabilidade é um dos fatores elementares para o pragmatismo. A quantidade direciona a ação, pois reduz o erro e redimensiona a ação conforme a lógica da utilidade. Nesse sentido, o pragmatismo prega "a previsão como a essência não só do cálculo, mas de todo pensamento como tal." (HORKHEIMER, 2000, p.51)

Assim, o pragmatismo não é só entendido como um método ou uma concepção de ciência, mas como uma filosofia que direciona as ações humanas, sobretudo, relacionada à prática da vida social. Essa suposta filosofia pragmática é tida como verdadeira, pois só ela atinge todas as camadas sociais e é ela que orienta a ação social de forma "correta" e para a satisfação de todos. A redução do erro por cálculo probabilístico torna a filosofia pragmática a incorporação da realidade como vivenciada pelas pessoas "comuns" e das necessidades manifestadas na vida cotidiana.

Os pressupostos da filosofia pragmatista incorporam a lógica de uma realidade que originou sua concepção. Desde as origens da ciência moderna, as formas, os métodos, as metodologias - enfim, tudo que qualifica um conhecimento como científico - são incorporados e agregados como pertencentes à filosofia pragmática, desde que esses elementos estejam ligados diretamente à ação e ao emprego utilitário. Assim,

o pensamento moderno tentou extrair uma filosofia dessa visão das coisas, tal como se apresenta no pragmatismo. O centro dessa filosofia é a opinião de que uma idéia, um conceito ou uma teoria nada mais são do que um esquema ou plano de ação, e, portanto, a verdade nada mais é do que o sucesso da idéia. (HORKHEIMER, 2000, p.49)

Essa subordinação implica perda da autonomia do pragmatismo, pois quando ele perde sua utilidade, já nãopertence a si mesmo. É como se houvesse um dispositivo de destruição que, ao menor sinal de renúncia à prática, não tivesse possibilidade de constituir qualquer forma de conhecimento. Esse fato deve-se a suas origens relacionadas às ciências sociais, para as quais desde as primeiras observações dos naturalistas gregos de que na natureza sempre há uma razão utilitária para que um fenômeno ocorra seus pressupostos são marcadamente ligados à realidade do movimento físico. Por isso,

o que os pragmatistas entendem por reação é de fato transferido do campo das ciências naturais para a filosofia. Seu orgulho é "pensar sobre tudo exatamente como tudo é pensado no laboratório; isto é, como uma questão de experimentação." (HORKHEIMER, 2000, p.54)

Essa concepção orientada pela necessidade e pela ação prática de intervenção da realidade gera conhecimentos em que a ciência se subordina aos fatos reais. Todavia, na história da filosofia, na ciência ou mesmo no senso comum, nem sempre o conhecimento está atrelado única e exclusivamente à ação prática ou à utilidade. Antes de tudo, porque a definição da utilidade passa pelos aspectos subjetivos do pesquisador. Não há como dissociar o que é utilidade social do que é individual, pois os desejos e as necessidades sempre se apresentam nessa definição. Não há como dissociar os aspectos objetivos dos subjetivos do pesquisador, mesmo que sua subjetividade seja em grande parte constituída pelo social.

O conhecimento gerado pela ciência pragmática é limitado à própria construção social dos seus pressupostos ou pelas particularidades de cada cientista que a utiliza. Se, por um lado, há vários elementos comuns que possibilitam falar em um conhecimento científico compartilhado, por outro, não é possível negar a "onipotência racionalizadora da descrição e mudança da realidade baseada no cálculo utilitário de conseqüências".

O conhecimento é revolucionário quando o cientista ou filósofo o aproxima da sociedade. Não são os intelectuais, com suas reflexões elitistas e metafísicas, os responsáveis por levar a transformação social por meio da práxis. Nesse ponto específico, os pragmáticos são mais importantes para a mudança social do que os "revolucionários de gabinete". Conforme Marx afirma, o conhecimento científico é revolucionário, mas desde que seja acessível à sociedade. Evidente que muitas críticas podem ser feitas a Marx, inclusive de ter um conjunto de teoria acessível a poucos, mas não se pode acusá-lo de elaborar um conhecimento para as elites dominantes. Marx aproxima teoria e prática por meio da práxis, o que torna o conhecimento possível de ser compreendido pela experiência. Assim, todo e qualquer indivíduo pode ser o revolucionário do seu próprio conhecimento.

O pragmatismo ganha forças no contexto atual fazendo com que sua relação com a "indústria cultural", seu casamento com a produção e o consumo em massa e sua associação com as necessidades materiais sejam suficientes para qualificar o pragmatismo como conhecimento sedutor e necessário. Definidas as necessidades, são definidas as utilidades que se deseja consumir. Não há divórcio a curto e médio prazo, pois toda sociedade define suas relações baseadas nessa concepção.

De fato, o pragmatismo pode ser criticado, mas não é justo acusá-lo de não ter um compromisso com as transformações sociais. Sua constituição é, essencialmente, ligada à prática. Sem ela, não há motivo de continuidade como conhecimento específico.

Estudos organizacionais pragmáticos e o pragmático nos estudos organizacionais: por uma conclusão

Quando se aborda essa temática, relacionada aos limites do conhecimento do senso comum e do conhecimento científico, a discussão é intensa. De fato, o pragmatismo contribui significativamente para a instrumentalização da ciência e para a adoção da utilidade como direcionamento. Assim, o principal limite é subordinar o conhecimento abstrato às regras da utilização e da ação prática como única forma possível de intervenção na realidade. Além disso, como possibilidade, o pragmatismo parte para a ação; fato importante, quando em atividades e/ou projetos com demandas imediatas e articulação com a transformação da realidade. Dessa forma, há uma contradição que nega, mas ao mesmo tempo afirma a importância do pragmatismo como conhecimento científico.

O que se pretende fazer nessas linhas não é requalificar sua importância ou sua validade como conhecimento,mas questionar sua adoção em todas as instâncias da vida social sem uma reflexão. É nesse sentido que a compreensão dos percursos do pragmatismo nos estudos organizacionais é necessária, levando em conta os seguintes elementos:

Contexto histórico da produção científica

Os primeiros pressupostos do pragmatismo (como se entende hoje) surgem quase que concomitantemente à revolução. Nos estudos organizacionais, não dá para dissociá-lo da lógica do capital. Sua utilização como instrumento do capital qualifica-o como ciência subordinada às demandas de mercado. Em quase todas as áreas técnicas da administração - levando em consideração a proximidade entre técnica e necessidade de mercado - não é possível declarar a independência do pragmatismo como ciência.

Interesses dominantes da época

Não há uma única ciência ou conhecimento que não tenha vínculo político com algum grupo ou corrente de pensamento. Essa neutralidade científica não é possível, pois, conforme Marx afirma, todo conhecimento é formado pelas idéias dominantes de um determinado grupo. Naturalmente, as idéias dominantes de cada época são as idéias dominantes da elite. Não se trata de qualificar como correto ou não a aceitação ou a vinculação política ou ideológica a esse ou àquele grupo, trata-se de compreender que todos os pressupostos ou fundamentos científicos expressam a manifestação de necessidades, de racionalizações, desejos, constituições materiais ou imaginários decorrentes das relações sociais. Não seria diferente com o pragmatismo.

Práticas comuns na realidade das organizações

As organizações capitalistas - ou aquelas que não o são, mas seguem as regras de mercado - vivenciam experiências comuns, repetidas cotidianamente. Dos problemas ligados à área financeira aos de ordem comportamental dos indivíduos, são práticas subordinadas às regras do mercado, ao lucro. Assim, a importância das organizações capitalistas aparece em células que movimentam e reproduzem as necessidades, as ações e as utilidades tidas como fundamentais para a reprodução do sistema como um todo. Dessa forma, nesse modelo de sistema econômico, a utilidade aparece como um dos importantes mecanismos de orientação e controle na reprodução das práticas organizacionais.

Contradições inerentes às conseqüências das ações práticas no cotidiano dos sujeitos organizacionais

A realidade é contraditória. Por isso, as utilidades também o são, uma vez que nem sempre o útil para alguém o é para outro. Da mesma forma, em relação à ação prática, não há como dissociar o teórico do prático, pois os homens, nas suas relações sociais, definem as necessidades de sua época. Os indivíduos, transformados em sujeitos na sua coletividade, são seres dotados de necessidades diversas e contraditórias. As ações práticas do cotidiano organizacional não podem ser qualificadas, o tempo todo, como alicerces de ações pragmáticas. Os indivíduos nem sempre agem sem que haja um processo de interação da teoria com a prática - aquilo que Vázquez (1977) chama da práxis. Nem toda ação é só prática, assim como nem toda teoria é só abstração.

A avaliação dos percursos do pragmatismo requer, ainda, compreender o desenvolvimento econômico e social no momento em que ele surge como conhecimento científico e no momento em que suas características e conseqüências são analisadas. No "mundo administrado" não há como deixar de analisar a importância dos aspectos econômicos e sociais. Os estudos organizacionais, na sua versão atual, manifestam exatamente o que ocorre no plano social. Muitos estudos visam propor "soluções" para problemas organizacionais (normalmente relacionados com a eficiência e a eficácia do planejamento, do controle, da organização e da direção), sem que sejam esclarecidos os interesses que estão por trás desses estudos. Não há administração moderna sem a incorporação de uma racionalização constitutiva, também em noções de utilidade e de ação social, pois estas fazem parte da própria realidade. O que se pretende é desvencilhá-las da posição de "senhoras" que guiam e orientam toda prática organizacional.

Por fim, releva-se a postura do pesquisador da área organizacional. Ser pragmático é diferente de conceber estudos articulados no campo epistemológico do pragmatismo. O sujeito pragmático vê na sua utilidade e na necessidade de ação, o ponto de tensão que coloca em dúvida a veracidade dos pressupostos do pragmatismo como ciência. O que ocorre nos estudos organizacionais é a conversão do pragmatismo como conhecimento científico em subordinação irracional à utilidade e à ação prática no campo da economia, da política, da ciência, da cultura, da educação, e assim por diante.

A crescente necessidade de produção científica em quantidade ou para obter vantagens diretamente relacionadas a algum tipo de ganho (principalmente material na era do capitalismo) é um dos problemas que precisam ser revistos. A massificação da produção científica e dos seus instrumentos de divulgação são importantes definidores das ações coletivas e individuais. O pragmatismo não pode e nem deve fazer do estudo no seu campo de conhecimento um instrumento utilitário do pragmático dos estudos organizacionais. Por isso, o pragmatismo dever ser preservado antes que um pragmático o destrua.

Artigo recebido em julho de 2006 e aceito para publicação em setembro de 2006

  • ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
  • DEWEY, J. Experience and nature. New York: W. W. Norton & Company, 1929.
  • ______. Democracia e educação: breve tratado de filosofia de educação. São Paulo: Nacional, 1936.
  • ______. Logica: teoria dell'indagine. Torino: Giulio Einaudi, 1949.
  • HORKHEIMER, Max. Teoría Crítica. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1977.
  • ______. Teoría Crítica I - Max Horkheimer. São Paulo: Perspectiva: Editora da USP, 1990.
  • ______. Teoria Tradicional e Teoria Crítica. In: ______; ADORNO, Theodor W. Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
  • ______. Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro Editora, 2000.
  • JAMES, W. Pragmatismo. São Paulo: Martin Claret, 2005.
  • KOPNIN, P. V. A dialética como lógica e teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
  • KOSIK, K. Dialética do concreto. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
  • PIERCE, C. S. The fixation of belief. Popular Science Monthly, n.12, p.1-15, Nov. 1877. Illustrations of the logic of science. Disponível em: <http://www.peirce.org/writings.html>
  • ______. Deduction, induction and hypothesis. Popular Science Monthly, n.13, p. 470-482, Aug. 1878. Illustrations of the logic of science. Disponível em: <http://www.peirce.org/writings.html>
  • ______. Comment rendre nos idées claires. Revue Philosophique de la France et de L'Étranger, n.7, p.39-57, Jan. 1879. Illustrations of the Logic of Science. Disponível em: <http://www.peirce.org/writings.html>
  • ______. Escritos coligidos. Seleção: Armando Mora d'Oliveira. São Paulo: Nova Cultural, 1989. (Coleção Os Pensadores).
  • REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulus, 1991.
  • VÁZQUEZ, A. S. Filosofia da práxis. 2.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

Datas de Publicação

  •  Publicação nesta coleção
    10 Jul 2012
  •  
  •  Data do Fascículo
    Mar 2007

terça-feira, 29 de junho de 2021

Neoliberalism’s Bailout Problem Mainstream economics ignores the massive government interventions that “free market” capitalism requires. ROBERT POLLIN, GERALD EPSTEIN bbb

 

Neoliberalism’s Bailout Problem

Mainstream economics ignores the massive government interventions that “free market” capitalism requires.

ROBERT POLLINGERALD EPSTEIN

The most basic tenet undergirding neoliberal economics is that free market capitalism—or at least some close approximation to it—is the only effective framework for delivering widely shared economic well-being. On this view, only free markets can increase productivity and average living standards while delivering high levels of individual freedom and fair social outcomes: big government spending and heavy regulations are simply less effective.

The CARES and COVID Relief Acts amounted to about 14 percent of U.S. GDP in 2020. But the government spent more—nearly 20 percent of U.S. GDP—to keep Wall Street afloat.

These neoliberal premises have dominated economic policymaking both in the United States and around the world for the past forty years, beginning with the elections of Margaret Thatcher in the United Kingdom and Ronald Reagan in the States. Thatcher’s dictum that “there is no alternative” to neoliberalism became a rallying cry, supplanting what had been, since the end of World War II, the dominance of Keynesianism in global economic policymaking, which instead viewed large-scale government interventions as necessary for stability and a reasonable degree of fairness under capitalism. This neoliberal ascendency has been undergirded by the full-throated support of the overwhelming majority of professional economists, including such luminaries as Nobel Laureates Milton Friedman and Robert Lucas.

In reality neoliberalism has depended on huge levels of government support for its entire existence. The global neoliberal economic order could easily have collapsed into a 1930s-level Great Depression multiple times over in the absence of massive government interventions. Especially central to its survival have been government bailouts, including emergency government spending injections financed by borrowing—that is, deficit spending—as well as central bank actions to prop up financial institutions and markets teetering on the verge of ruin.

Bailouts have therefore not only repeatedly rescued neoliberal capitalism during periods of crisis, but they have also, as a result, reinforced neoliberalism’s most malignant tendencies. In 1978, just prior to neoliberalism’s rise, the CEOs of the largest 350 U.S. corporations earned $1.7 million, 33 times the $51,200 earned by the average private-sector non-supervisory worker. As of 2019 the CEOs were earning 366 times more than the average worker, $21.3 million versus $58,200. Under neoliberalism, in other words, the pay for big corporate U.S. CEOs increased more than ten-fold relative to the average U.S. worker. This curious conjunction—theoretical disdain for government alongside practical reliance on it—has amounted to champagne socialism for big corporations, Wall Street, and the rich and “let-them-eat-cake” capitalism for most everyone else.

This represents a curious conjunction: theoretical disdain for government alongside practical reliance on it.

The COVID-19 pandemic and recession powerfully illustrated how neoliberalism works in practice. During the pandemic, employment and overall economic activity throughout the world fell precipitously, as major sections of the global economy were forced into lockdown mode. According to the International Monetary Fund, overall economic activity (GDP) contracted by 3.5 percent in 2020 in a “severe collapse . . . that has had acute adverse impacts on women, youth, the poor, the informally employed and those who work in contact-intensive sectors.” But during the same period, global markets soared. In the United States, nearly 50 percent of the entire labor force filed for unemployment benefits between March 2020 and February 2021. However, over this same period, the prices of Wall Street stocks—as measured, for example, by the Standard and Poor’s 500 index, a broad market indicator—rose by 46 percent, one of the sharpest one-year increases on record. Moreover, this increase did not simply reflect the U.S. stock market recovering from the pandemic and lockdown. As of February 2021, the Standard and Poor’s 500 index was also 38 percent higher than two years prior, in March 2019, nine months before COVID-19 had been recognized as a human pathogen. And the 2020 stock market ascent began months before there was any clear evidence that the economy was recovering from the lockdown. All these gains are the result of large-scale government interventions: bailouts were given, first and foremost, to boost financial markets and to help the rich.

section separator

Textbook Neoliberalism vs. Bailouts 101

In textbook economics the movements of financial markets are supposed to reflect underlying conditions in the real economy where goods and services are produced, workers are hired and paid, and companies profit or don’t in attempting to sell their products. In this scenario, when companies lay off workers, workers lose income and cut back on spending, which means companies are likely to face difficulties selling their products. Their profits should fall as a result. As unemployment rises and profits fall, the value of these companies, as expressed in their stock market prices, should decrease. This has not been the case over the past year—as disparities grew between conditions in the real economy and financial markets—because governments undertook massive bailout operations in the face of the COVID-19 pandemic.

The same bailout operations deployed during COVID-19 have been mobilized regularly and with increasing force since the beginning of the neoliberal era in the early 1980s.

In March 2020, with Donald Trump in office and Republicans controlling the U.S. Senate, the federal government enacted the CARES Act, a $2 trillion stimulus program equal to about 10 percent of U.S. GDP. More than 40 percent of the total funding—about $850 billion—went to loans and grants for businesses, with only weak stipulations as to how these funds would be used. For example, large businesses could receive a loan and still lay off up to 10 percent of their employees, while smaller businesses could receive loans or grants without committing to retaining any employees. At the discretion of the Treasury Secretary, corporations could even engage in stock buybacks to boost their share prices with the funds. The CARES Act provided one-time cash support for people earning $75,000 or less and significant, though temporary, unemployment insurance support for laid-off workers. In December the CARES Act was followed by the 2020 COVID Relief Act, budgeted at $900 billion, another 4 percent injection of GDP. About 33 percent of the Act’s funding went to an additional round of credit and grants to businesses.

Together the CARES and COVID Relief Acts amounted to about 14 percent of U.S. GDP in 2020, an unprecedented expansion of federal government deficit spending in peacetime. Yet these massive stimulus measures were exceeded by nearly $4 trillion spent on Federal Reserve interventions—nearly 20 percent of U.S. GDP—to ensure Wall Street stayed afloat. Most significantly, the Federal Reserve bought financial assets—including U.S. Treasury bonds, mortgage-backed securities, and even corporate junk bonds held by money market funds, private equity dealers, and banks—to ensure that these firms were well-stocked to survive the crisis. This gargantuan cash injection propped up the stock market and other U.S. financial markets, which in turn suppressed incipient panic and launched a spike in stock prices. The stock market rise was further fueled by the Federal Reserve pushing the short-term interest rate it controls to near-zero. Thus, Wall Street players could borrow cheap money to purchase stocks.

The policy interventions in other high-income countries followed broadly similar trajectories during the pandemic. The Bank of International Settlements (BIS) described these measures as “unprecedented’ in “size and scope.” As in the United States, the largest proportionate interventions involved directly bolstering financial markets through measures such as purchasing assets and guaranteeing fragile loans. The BIS estimated that these interventions exceeded 30 percent of GDP in Germany and Italy, over 20 percent in Japan, and around 15 percent in the UK and France.

It is true that these 2020 global bailout operations were triggered by the COVID pandemic, not by the breakdown of neoliberal economic policies. But the same bailout operations deployed to counteract the COVID lockdowns have also been mobilized regularly and with increasing force since the beginning of the neoliberal era in the early 1980s.

The stock market rise was further fueled by the Federal Reserve pushing the short-term interest rate to near-zero so Wall Street players could borrow cheap money to purchase stocks.

Indeed, it was only thirteen years ago, in 2008, that Wall Street hyper-speculation brought the global economy to its knees during the Great Recession. To prevent a 1930s-level depression at that time, economic policymakers throughout the world—including in the United States, the European Union, Japan, South Korea, China, India, and Brazil—enacted extraordinary measures to counteract the crisis Wall Street created. As in 2020, these measures included financial bailouts, monetary policies that pushed central bank-controlled interest rates close to zero, and large-scale fiscal stimulus programs financed by major expansions in central government deficits.

In the United States, the fiscal deficit reached $1.4 trillion in 2009, equal to 9.8 percent of GDP. The deficits were around $1.3 trillion in 2010 and 2011 as well, amounting to close to 9 percent of GDP in both years. These were the largest peacetime deficits prior to the 2020 COVID recession. The federal government’s fiscal deficit had averaged 1.7 percent GDP in the fifty-eight years prior, between 1950 and 2008. As a share of GDP, the deficit from 2009 to 2011 spiked more than five-fold relative to the post World War II average.

As with the 2020 crisis, the Federal Reserve’s interventions to prop up Wall Street and corporate America were even more extensive than the federal government’s deficit spending policies. A careful 2017 study by Better Markets estimated the overall level of financial market support between 2009 and 2012 at $12.2 trillion, about 20 percent of GDP per year. Moreover, this total figure does not include the full funding mobilized in 2009 to bail out General Motors, Chrysler, Goldman Sachs, and the insurance giant AIG—all of which were facing death spirals at that time. It is hard to envision the form in which U.S. capitalism might have survived at that time if, following true free market precepts as opposed to the actual practice of neoliberal champagne socialism, these and other iconic U.S. firms would have been permitted to collapse.

The Federal Reserve’s interventions to prop up Wall Street and corporate America were even more extensive than the federal government’s deficit spending policies.

Similar patterns prevailed in Europe during the Great Recession. Among the then twenty-seven countries of the EU, fiscal deficits for 2009 averaged 6.8 percent of GDP, compared with a 1.8 percent average between 2001 and 2007. According to the EU’s Stability and Growth Pact, established in 1997 as a means of enshrining a neoliberal project throughout the continent, annual fiscal deficits were not permitted to exceed 3 percent of GDP other than in severe recessions. Such recessions were expected to be few and far between, with the added expectation that adhering to neoliberal policy precepts was the best way to ensure this.

The European Central Bank also pursued a massive bailout program to buttress the European financial markets. The then-President of the ECB Jean-Claude Trichet described these measures as “an exceptional set of non-standard policy tools” that had to be deployed because “speculation and financial gambling had run rife.” The measures included driving down the Central Bank’s policy interest rate to almost zero and providing what Trichet described as “unlimited” amounts of cash to distressed European banks at the near-zero interest rate.

Bailout operations of this sort have occurred with clockwork regularity throughout the neoliberal era, beginning with Reagan. In 1983, under Reagan, the U.S. government reached a then-peacetime high for federal deficit spending, 5.7 percent of GDP. At the time, the U.S. and global economy were still mired in the second phase of the double-dip recession that lasted from 1980 to 1982, while Reagan faced a re-election campaign for 1984. Of course, both as a political candidate and throughout his presidency, Reagan preached that big government was the problem, not the solution. Yet Reagan did not hesitate to flout his own rhetoric in overseeing a massive fiscal bailout when he needed it.

After the 1983 bailout, we then saw global stock market prices fall even more sharply than in 1929, on Black Monday in October 1987; the savings-and-loan crisis in 1989 and 90; the “emerging markets” collapse of 1997–1998; and the bursting of the dot-com Wall Street bubble in 2001. Each of these would have easily produced a 1930s-style meltdown without full-scale government bailout operations.

Indeed, in February 1999, Time magazine ran an effusive cover story in the immediate aftermath of the emerging markets collapse that brought down, among others, Long-Term Capital Management, the super-hedge fund led by two Nobel laureates specializing in finance. The story called the then-Federal Reserve Chair Alan Greenspan, Treasury Secretary Robert Rubin, and Deputy Secretary of the Treasury Lawrence Summers “the Committee to Save the World,” due to their ability to execute global bailout operations. It described how “a hedge fund blessed with two Nobel prizewinners blew up in an afternoon, nearly taking Wall Street with it,” and “Brazil is just hanging on, which means so is the rest of Latin America,” and yet, “these guys” kept “a near thing from becoming a disaster.”

Greenspan, Rubin, and Summers succeeded in propping up global neoliberalism for a mere two years more before the dot-com bubble required yet another bailout. But the 2001 intervention ended up being just a warmup to the 2008–09 rescue operation. Still, Greenspan, Rubin, and Summers remained ardent defenders of the global neoliberal order, apparently seeing no contradiction between the persistent requirement to bail out neoliberalism from impending disasters and their bedrock belief that “trying to defy global market forces is in the end futile.”

Many economists continue to defend the global neoliberal order. They see no trouble in the persistent requirement to bail out neoliberalism from impending disasters.

Their perspective was shared then and continues to be shared today by the overwhelming majority of practicing economists—inside academia and out. For example, in his highly influential studies of the causes of the 1930s Great Depression, the late Nobel-prize winning economist and ardent free-market proponent Milton Friedman argued that the U.S. Federal Reserve should have intervened after the 1929 Wall Street crash to stabilize the banking system. The Federal Reserve, he contended, could operate as a “lender of last resort”—that is, it could provide bailout funds to the failing banks when no private lender was willing to extend them credit. Yet Friedman never questioned how this observation might conflict with his overall position that capitalist economies operate most effectively with minimal levels of government intervention, including a minimal role for the Federal Reserve.

Similarly, Robert Lucas—another highly influential Nobel Prize-winning economist and free market proponent—commented during the 2008 global financial meltdown that he supported lender of last resort bailouts at that time, since “everyone is a Keynesian in a foxhole.” But, like Friedman, Lucas never integrated this position into his analytic models that purport to demonstrate that capitalist economies work best in the absence of government intervention. Following the example of such major contemporary figures as Friedman and Lucas, there is not, to our knowledge, a single mainstream economics textbook that recognizes bailouts as an indispensable policy tool for enabling capitalism to continue functioning.

section separator

The Minsky “Wall Street Paradigm”

There have been economists outside of the mainstream who clearly argue the fundamental importance of bailout policies. The most important figure in this camp is Hyman Minsky. Minsky spent most of his academic career at Washington University in St. Louis and remained professionally active until his death in 1996—he was his generation’s most insightful analyst of financial markets and financial crises.

Hyman Minsky contended that financial instability and crises emerge out of the logic of capitalist market activity itself.

Minsky contended that bailouts are fundamental to capitalism within the context of his overall approach to macroeconomics, which he termed the “Wall Street Paradigm.” Within his Wall Street Paradigm, Minsky formulated a “financial instability hypothesis” through which he explained how allowing financial markets to operate freely inevitably produces severe downturns and crashes. These occur not as a result of miscalculations and policy errors, though such miscalculations and errors are certainly prevalent. For Minsky, financial instability and crises emerge out of the logic of capitalist market activity itself.

Minsky’s key to understanding financial instability was to trace the shifts in investors’ psychology as the economy moves out of a period of crisis and recession (or depression) and into a phase of rising profits and growth. Coming out of crises, investors tend to be cautious, as the just-ended recession will have left many of them clobbered. For example, they will hold large cash reserves as a cushion to protect against future crises.

But as the economy emerges from its slump and profits rise, investors’ expectations become increasingly positive. They grow eager to pursue highly speculative ventures because of the promise of bountiful returns, while also becoming more willing to let their cash reserves dwindle, as idle cash earns no profits whatsoever. But these moves also weaken investors’ defenses against the next downturn. This is why, in Minsky’s view, economic upswings without regulations inevitably encourage speculative excesses, which cause financial bubbles. In an unregulated environment, Minsky explained, the only way to eliminate bubbles is to let them burst. Financial markets then fall into a crisis, resulting in a recession or depression.

Financial crises and recessions serve a purpose in the operations of a free-market economy, even while they wreak havoc on the lives of hundreds of millions of innocent people.

Here we reach one of Minsky’s crucial insights: financial crises and recessions serve a purpose in the operations of a free-market economy, even while they wreak havoc on the lives of hundreds of millions of innocents who never invest a dime on Wall Street. His point is that without crises, a free-market economy has no way of discouraging investors’ natural proclivities toward greater risks in pursuit of higher profits.

In the wake of the Great Depression, the British economist John Maynard Keynes led the intellectual revolution that aimed to design a policy framework within capitalism that could supplant financial crises as the system’s built-in regulator. This was the context in which the post-World War II system of big-government capitalism was created. The package included two basic elements: regulations designed to limit speculation and channel financial resources into socially useful investments, such as affordable housing; and government bailout operations to prevent 1930s-style depressions when crises did break out.

Minsky saw this system of regulations and bailout operations as largely successful. From the end of World War II to the mid-1970s, markets in the United States and abroad were much more stable than in any previous historical period. But even during the New Deal years and the initial post-World War II period, financial market titans around the world fought vehemently to eliminate, or at least defang, the regulations. By the 1970s almost all politicians—Democrats and Republicans alike—had become compliant. The regulations were initially weakened, then abolished altogether in 1999 under President Bill Clinton and the guidance of his top economic advisors—Alan Greenspan, Robert Rubin, and Lawrence Summers.

section separator

Shadow Banking and Financialization

For Minsky, the consequences were predictable. But here we come to another of his major insights: in the absence of a complementary financial regulatory system, bailouts’ effectiveness will diminish over time. This is because bailouts, just like financial crises, are double-edged. Though they prevent depressions, they also limit the costs of financial excesses to speculators. As soon as the next economic expansion begins to gather strength, financial market players will pursue profit opportunities as they had during the previous cycle.

Weak financial regulations have made speculative bubbles a regular feature of neoliberal capitalism. Bailout operations prevent these bubbles from collapsing into economic disasters.

As bailouts have prevented full-scale market crashes—and thereby allowed market speculators to escape the full consequences of their excesses—financial institutions and market trading have, accordingly, grown exponentially under neoliberalism. For example, as of 1980, stock market trading in U.S. markets was double what corporations spent on productive investments, such as machines, buildings, land, and R&D. As of 2019 U.S. stock market trading had ballooned to 30 times the amount spent on productive investments. In other words, the ratio of stock market trading to productive investments has increased fifteen-fold in the neoliberal era.

A similarly explosive expansion has occurred in what is termed the “shadow banking” system in the United States under neoliberalism. The shadow banks include a range of institutions—including mutual funds, holding companies, money market funds, and brokerage houses—that lend money, provide readily accessible funds for account holders, and engage in activities that closely parallel those of traditional banks. Shadow banks, however, are allowed to operate under much weaker regulations than traditional banks. In 1980 the shadow banking system barely existed. Mutual funds, the largest category of such institutions, owned less than 0.3 percent of assets held by all U.S. financial institutions, including traditional banks. As of 2019 mutual funds alone held more than 16 percent of all U.S. financial institutions’ assets. In total the shadow banking sector accounted for 36 percent of all U.S. financial institutions’ assets.

Indeed, a new term has entered the economics lexicon—financialization—that is meant to evoke these patterns of explosive growth in shadow banking and financial market trading over the neoliberal era. Financialization has occurred precisely because weak financial regulations allow speculative bubbles to emerge as a regular feature of neoliberal capitalism, while bailout operations prevent these bubbles from collapsing into full-scale 1930s-level economic disasters.

section separator

Three Scenarios

Minsky’s Wall Street paradigm certainly does not address all the afflictions of neoliberal capitalism. In particular his model neglects the vast disparities in income, wealth, and power that are just as endemic to neoliberalism as are its tendencies toward financial instability. He was also working before ecological issues, climate change in particular, were widely understood as matters that macroeconomics must address. Nevertheless, his framework remains a highly valuable tool for clarifying the big-picture economic policy alternatives before us today, forty years into the neoliberal era.

On our present course, the scale of future bailouts will likely continue expanding, as the system’s vulnerabilities will continue deepening through financialization.

In fact, contrary to Margaret Thatcher, three scenarios are possible. First, we can allow the reign of neoliberalism to continue. This is the path of least resistance, as it would proceed to shower rewards on financial titans and the wealthy. Of course, as we have seen, staying the course with neoliberalism will require regular bailout interventions. The scale of any such future bailouts will likely continue expanding, as the system’s vulnerabilities will continue deepening through financialization. But we can be certain that there will never be a shortage of economists prepared to defend neoliberalism under these circumstances and even nominate themselves to join a present-day Committee to Save the World.

The two alternatives would entail abandoning the core premise of neoliberalism: champagne socialism for big corporations, Wall Street, and the rich; and “let-them-eat-cake” capitalism for most everyone else. We can call the first of these two alternatives practice-what-you-preach capitalism. Under this alternative, the government must embrace the precepts of free market economics not only when things are going well for big capital and Wall Street, but also when they are going miserably. When big corporations and Wall Street firms face collapse due to their speculative excesses or bad decisions—including failing to maintain sufficient cash reserves to carry them through economic downswings—then these firms will be allowed to fail. Through allowing firms, even big firms, to fail, we would return to a self-regulating variant of capitalism. The guiding principle here is that when capitalists realize that they too must bear the full consequences of bad decisions, they will make fewer of them.

The problem with practice what you preach capitalism is that it has been tried, and the results are well-documented. It was under this approach that financial markets collapsed regularly throughout most of the history of capitalism. Charles Kindleberger described this pattern in his classic 1978 work Manias, Panics, and Crashes, in which he framed his historical analysis within Minsky’s Wall Street Paradigm. Kindleberger’s discussion begins with the notorious South Sea Bubble in 1720, during which the South Sea Company, a failing British slave-trading firm, managed to massively, if briefly, profit from obtaining inside information on how the British government was managing its debt. Kindleberger reveals that between this 1720 South Sea bubble fiasco and the 1929 Wall Street crash, financial crises occurred in the United States and Europe an average of approximately every 7.5 years (a pattern recognized 100 years earlier by Karl Marx). The press reports of the crises that spanned the roughly 200 years include: “One of the fiercest financial storms of the century,” in Britain in 1772; in Germany in 1857, “So complete and classic a panic has never been seen before”; and in 1929 in the United States, “The greatest cycle of speculative boom and collapse in modern times—since, in fact, the South Sea Bubble.”

Through allowing firms to fail, we would return to a self-regulating variant of capitalism. The problem is we have tried this, and financial markets collapsed regularly. 

At our present historical juncture, it would require a huge leap of faith to assume that the self-regulating properties of free markets could deliver a stable version of capitalism on their own. They have never succeeded in doing so in the past. Moreover, the extent to which contemporary capitalism has become financialized would make any such experiment in market self-regulation far riskier than it ever was in the 200 years that Kindleberger describes.

Thus, the only remaining alternative is to create an updated, reimagined version of the big government model of capitalism that prevailed in the immediate post-World War II era, before the rise of neoliberalism. Indeed, it was to avoid a repetition of the 1930s disaster that John Maynard Keynes, other economists, and Franklin D. Roosevelt led the movement to build alternative, big-government versions of capitalism. This idea became the New Deal in the United States and social democracy in Western Europe, with different specific configurations emerging in the various post-World War II advanced economies.

Extensive regulations of financial markets, public ownership of significant financial institutions, and high levels of public investment were integral features of New Deal and social democratic capitalism. Bailout policies were available as needed, but financial markets were more stable, and recessions shallower, during this period than throughout the preceding 200 years of capitalism. Average economic growth was also higher, with the gains from growth more broadly shared.

Of course, this was still capitalism. Disparities of income, wealth, and opportunity remained intolerably high, along with the social malignancies of racism, sexism, and imperialism. Ecological destruction, and global warming more specifically, was also beginning to gather force over this period, even though few people took notice at the time. Nevertheless, the New Deal and social democracy produced dramatically more egalitarian versions of capitalism than the neoliberal regime that supplanted these models.

The only remaining alternative is to create an updated, reimagined version of the big government model of capitalism that prevailed before the rise of neoliberalism.

A reimaged version of New Deal and social democratic capitalism will have to aggressively address the problems that continued to fester under the original models. However, a critical lesson we can learn from the massive bailout operations of the neoliberal era is that governments in the United States and other advanced economies can mobilize formidable resources to confront crises.

Focusing on the United States, one can readily envision how a reimaged New Deal—indeed, what has come to be called the Green New Deal—can work. The centerpiece must be a massive government-led investment program focused on supplanting our existing fossil fuel-dominant energy system that is destroying the planet with a clean-energy system that can put us on a viable climate stabilization path. This economy-wide investment project will generate millions of jobs engaged both directly and indirectly in creating a new energy infrastructure. This, in turn, will open opportunities to revive union organizing that can deliver higher quality jobs and better living standards. These jobs will need to be open to women and people of color, the population cohorts that have experienced systematic exclusion in U.S. labor markets for generations.

As we write, the Biden administration has taken major positive steps to advance such a program. The American Jobs Plan that Biden introduced in March is a serious, if still inadequate, proposal. It is designed precisely to build a clean energy economy while expanding good job opportunities. Of course, the question arises as to how we can pay for this highly ambitious public sector-led project. There are many ways to credibly answer this question, but we can start most easily by referencing the experience under neoliberalism. As we have seen, there has never been a shortage of financial wherewithal available to bailout a system that is demonstrably unjust and unstable, as well as ecologically calamitous. It should not be difficult to find the financial resources to mount a successful U.S. and global Green New Deal over the coming generation.

Help fund the next generation of Black journalists, editors, and publishers.

Boston Review’s Black Voices in the Public Sphere Fellowship is designed to address the profound lack of diversity in the media by providing aspiring Black media professionals with training, mentorship, networking opportunities, and career development workshops. The program is being funded with the generous support of Derek Schrier, chair of Boston Review’s board of advisors, the Ford Foundation, and the Carnegie Corporation of New York, but we still have $50,000 left to raise to fully fund the fellowship for the next two years. To help reach that goal, if you make a tax-deductible donation to our fellowship fund through August 31 it will be matched 1:1, up to $25,000—so please act now to double your impact. To learn more about the program and our 2021-2022 fellows, click here.