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sábado, 8 de outubro de 2022
Proudhon centralidade do trabalho bbb
Proudhon centralidade do trabalho
https://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/RBEPT/article/view/11235
file:///C:/Users/HOME/Desktop/ana_henrique2,+11235-28602-1-CE.pdf
1 INTRODUÇÃO
O artigo em tela apresenta-se como uma possibilidade de diálogo e
reflexão teórica acerca da questão da politecnia da aprendizagem e da
centralidade do trabalho a partir da tradição inaugurada pelos socialistas
libertários em meados do século XIX. Especificamente, tomando como
referência os escritos do filósofo social francês Pierre Joseph Proudhon, que
inaugurou, a partir de 1840, o que se convencionou chamar de anarquismo.
Corrente do movimento socialista dos trabalhadores europeus no século XIX
marcada por original, radical e consistente crítica às formas de dominação
erigidas pelo modelo capitalista industrial advindo das transformações
disruptivas históricas ocorridas no século XVIII.
O texto parte de uma premissa fundamental: ambas as questões
colocadas aqui – a politecnia da aprendizagem e a centralidade do trabalho-,
estruturantes teóricas da Educação Profissional e Tecnológica, em geral, e
para o Mestrado Profissional em Educação Profissional e Tecnológica
(ProfEPT), em particular, são, no campo das ideias socialistas, originalmente
colocadas por Proudhon e não por Karl Marx como aponta, em grande medida
os principais intelectuais formuladores deste campo no Brasil (Frigotto,
Ciavatta e Ramos). È interessante notar que no verbete “Educação Politécnica”
produzido pela Escola de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, o Rodrigues é
peremptório ao afirmar que “é consenso, entre os pesquisadores da área
de trabalho e educação, que o conceito de ‘educação politécnica’ foi esboçado
inicialmente por Karl Marx, em meados do século XIX.”
1 Em que pese a imensa
contribuição do filósofo alemão para a crítica à Economia Política liberal,
smithiana e fundadora da “quintessência” do capitalismo em suas múltiplas
dimensões materiais, é Proudhon que apresenta as críticas pioneiras, e que
posteriormente, pavimentariam o caminho para o soerguimento de todo o rico
e consistente debate no campo socialista (no decorrer do desenvolvimento do
movimento operário), sistematizado na segunda metade do século XIX,
principalmente a partir do surgimento da Associação Internacional dos
Trabalhadores (AIT), em 1864, na cidade de Londres.
Como método para exposição das ideias do filósofo ácrata francês,
lançaremos mão, além dos próprios escritos do autor, a interlocução com
alguns comentaristas da vasta obra de P. J. Proudhon. Dos textos já traduzidos
para o português agradecemos especialmente ao editor brasileiro Plínio
Augusto Coelho que, há mais de três décadas se dedica à tradução e
organização de variados escritos do socialista francês. Vale destacar também
1 RODRIGUES, José. Verbete “Educação Politécnica”. In Dicionário da Educação Profissional
em Saúde. FIOCRUZ.
Disponível em http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/edupol.html. Acesso
27/09/2020. São afirmações categóricas como essa e que obliteram a primazia da das
formulações de Pierre Joseph Proudhon sobre o tema, desde 1840, que nos conduzem a
elaboração do presente artigo.
Vol. 2 (2020) 3
que não temos a pretensão de esgotar o debate, tendo em vista a
complexidade do tema e o espaço naturalmente restrito para a publicação de
um artigo acadêmico.
2 PROUDHON: MUTUALISMO E ANTINOMIAS SOCIAIS
Antes de abordarmos especificamente a questão da instrução
politécnica para o anarquista francês, faz-se mister apontamentos acerca
destas que são características fundamentais da teoria social proudhoniana.
Dentro das influências teóricas estruturantes, no advento da AIT, Proudhon se
situou como o expoente máximo daquilo que se convencionou chamar de
socialismo libertário – em oposição ao socialismo autoritário encampado por
Marx, em função da defesa deste último de um modelo de organização dos
trabalhadores através da concepção clássica de partido revolucionário, em vias
de construir o que se consagrou nas fileiras do marxismo de Ditadura do
Proletariado. Por outro lado, para Proudhon, qualquer ideia de ditadura ou
centralização de poder por parte de um grupo, ainda que em nome dos
trabalhadores, seria algo absolutamente condenável, tendo em vista que a
liberdade para o pensador francês é a condição última, plena e fundamental
para o desenvolvimento humano. Não a liberdade tal qual proposta por
pensadores como Jean Jacques Rousseau e consagrada posteriormente pelo
individualismo burguês, mas aquela realizada apenas na construção coletiva.
Desta forma, a anarquia surge como uma forma de construção social humana
necessária a fim de buscar a garantia de todas estas liberdades individuais:
A anarquia, se posso exprimir deste modo, uma forma de governo ou
constituição, na qual a consciência pública ou privada, formada pelo
desenvolvimento da ciência e do direito, é por si só suficiente para a
manutenção da ordem e para a garantia de todas as liberdades.2
Da mesma forma, a construção teórica de Proudhon está assentada na
ideia de que se faz necessário, por todos os meios se evitar, a concentração
de poder e, portanto:
(...)que a sociedade possa encontrar vantagem exclusivamente pela
sua divisão em unidades de dimensões pequenas, autônomas entre
si, e federadas, ligadas pela vontade livre e sustentadas pelas livres
trocas mutualistas. Neste momento a organização da educação
também deveria ter seguido essa imposição, tanto que ele –
2
P. J. Proudhon, “Lettre à l’editeur du Dictionnaire Larousse” (1884) – “Carta ao editor do
dicionário Larrouse” citado por CODELLO, F. A Boa Educação: Experiências libertárias,
teorias anarquistas na Europa, de Goldwin a Neill. Volume 1: A Teoria. São Paulo. Editora
Imaginário/Ícone editora. 2007. P. 93.
Vol. 2 (2020) 4
Proudhon- prefigura um sistema educativo absolutamente
descentrado e que corresponde a uma gestão direta da comunidade
que se arroga completamente esta tarefa.” (CODELLO. 2007:94-
95. Grifos meus).
Quanto ao método filosófico, a diferença fundamental apresentada por
Proudhon em relação a pensadores herdeiros da tradição hegeliana como
Marx, se apresenta na recusa do socialista francês no que diz respeito à noção
de síntese. O pensamento do ácrata francês é atravessado pelo conceito de
antinomia que poderia ser assim descrito: “La antinomia sería entonces la
categoría primaria, bajo la forma de un equilibrio inestable y móvil. En Proudhon
el principio de antinomia reemplaza al principio de superación, de inspiración
hegeliana: superación de las contradicciones en una entidad englobante o
‘síntesis’.”3
(CORCUFF. 2016:7)
Perscrutando os escritos do socialista libertário em tela, apreende-se
literalmente, da obra Da Justiça na Revolução e na Igreja: “La fórmula
hegeliana [tesis-antítesis-síntesis] no constituye una tríada más que por
capricho o error del maestro, quien distingue tres términos allí donde sólo
existen dos, y no ha visto que la antinomia no se resuelve, sino indica una
oscilación o antagonismo susceptible sólo de equilibrio.”4 A dialética
proudhoniana, a partir do método de pares antinômicos, buscaria abranger a
pluralidade e diversidade dos fenômenos sociais. Em outras palavras, o mundo
apareceria para o observador como uma “pluralidade de elementos irredutíveis
e, ao mesmo tempo, antagônicos e solidários” (MOREL. 2003:21):
A antinomia é o constituinte típico deste pluralismo, é um par de
forças ao mesmo tempo antagônicas e complementares. A resolução
da antinomia é impossível, porque é da sua existência que resultam
o movimento e a vida. A síntese é artificial ou implica a morte. No
melhor dos casos estas antinomias se contrabalançam e podem
alcançar um equilíbrio, sempre instável porque a perfeição não existe
e somente pode ser admitida, metodologicamente, como ponto de
3 Numa tradução aproximada: “A antinomia seria então a categoria principal, na forma de um
equilíbrio instável e móvel. Em Proudhon, o princípio da antinomia substitui o princípio da
superação, da inspiração hegeliana: superar as contradições em uma entidade abrangente ou
‘síntese’”.
4
“A fórmula hegeliana [tese-antítese-síntese] não constitui uma tríade mais do que por
capricho ou erro do professor, que distingue três termos em que existem apenas dois e você
se viu que a antinomia não foi resolvida, mas indica uma oscilação ou antagonismo suscetível
somente ao equilíbrio.” P. J. Proudhon citado por CORCUFF, Philippe. Antinomias y
analogías como instrumentos transversales en sociología: A partir de Proudhon y de
Passeron. Cultura representaciones soc [online]. 2016, vol.10, n.20, pp.42-58. ISSN 2007-
8110. P. 7. (Ver bibliografia).
Vol. 2 (2020) 5
partida de um raciocínio e jamais como resultado, como possibilidade
real.”5
A educação para Proudhon possui necessariamente uma dimensão
libertadora e de repulsa a toda e qualquer forma de autoridade: “Quanto mais
o Homem é ignorante, maior é a sua obediência, e mais absoluta é a falta em
seu direcionamento”.6 Para tal é necessário libertá-lo de todo condicionamento
que não derive estritamente da necessidade. Igualmente, para o anarquista
francês, o valor ontológico e educativo do trabalho é inerente à realização que
este permite ao indivíduo, quando este mesmo indivíduo dispõe plenamente do
que resulta da sua atividade laboral. O trabalho é inevitavelmente o centro
econômico da vida humana.
Trabalho e divisão (compreendida como especialização do trabalhador,
tal qual defendida pela economia política liberal – Smith, Ricardo e Jean
Baptiste Say) são percebidos por Proudhon como antinomias. O efeito deste
“trabalho parcelar” seria o de subjugar o homem, condenando-o ao
embrutecimento. Neste sentido, “o trabalho que deveria trazer a consciência a
seu clímax e torná-la cada vez mais digna de felicidade, conduzindo pela
divisão parcelar ao desmoronamento do espírito, diminui o homem da parte
mais nobre de si, minorat capitis9
, e o rejeita na animalidade...”10
A indissociabilidade entre “a força que dirige a mão do operário” e o
“cérebro do filósofo” (PROUDHON. 2019:117) é condição basilar para a
proposição do que o anarquista de Besançon chamou de “Enciclopédia ou
politecnia da aprendizagem”. Segundo ele, “a primeira parte da proposição
está, portanto, estabelecida: a ideia, com suas categorias, nasce da ação; em
outros termos, a indústria é mãe da filosofia e das ciências”. (PROUDHON,
2019: 123 - grifo do autor-).
Demonstrada esta relação, há de discorrer sobre a segunda propositura:
a ideia se tornar ação. O que para Proudhon restava dizer que “a filosofia e as
ciências devem ingressar na indústria, sob pena de degradação para a
humanidade...”. (PROUDHON, 2019:123).
Na percepção proudhoniana acerca do trabalho e a indivisibilidade entre
a dimensão manual e intelectual deste, mais uma vez, aparece a dialética serial
característica de sua “filosofia da miséria”. Fica evidente para o anarquista
francês o fato de que:
“O trabalho apresenta dois aspectos contrários, um subjetivo, o outro
objetivo, fatal. Sob o primeiro aspecto, ele é espontâneo e livre em
princípio de felicidade: é a atividade em exercício legítimo,
indispensável à saúde da alma e do corpo. Sob o segundo aspecto,
o trabalho é repugnante e penoso, princípio de servidão e
embrutecimento”.
Esses dois aspectos do trabalho são inerentes um ao outro, como
alma e corpo: daí resulta, a priori, que toda fadiga e repugnância, no
trabalho, não poderia desaparecer completamente.” 11
È notório nos escritos do “pai do anarquismo” o papel deletério da
hiperespecialização do trabalho para o operário. “Quanto mais o trabalho
divide-se e as máquinas aperfeiçoam-se, menos o operário vale;
consequentemente, menos ele é pago; portanto, por um mesmo salário, mais
9
“Cabeça diminuída”.
10 PROUDHON. 2003. P. 183 (Ver bibliografia)
11 PROUDHON. 2019. PP 123-124.
Vol. 2 (2020) 7
sua tarefa aumenta”, reafirmava Proudhon em 1858. Grifa-se a expressão em
itálico, tem em vista que a formulação original do autor acerca dos problemas
relacionados à extrema divisão do trabalho, como já apontamos, remete ao
Sistema de Contradições Econômicas de 1846. Aliás, vale ressaltar que este
debate é retomado por Marx em sua célebre resposta à Filosofia da Miséria do
Sr. Proudhon, publicada no ano subsequente:
A divisão do trabalho reduz o operário a uma função degradante; a
esta função degradante corresponde uma alma depravada; à
depravação da alma convém uma redução sempre crescente do
salário. E para provar que esta redução dos salários convém a uma
alma depravada, o sr. Proudhon diz, por desencargo de consciência,
que é a consciência universal que assim o quer. A alma do
sr. Proudhon estará incluída na consciência universal?
As máquinas são, para o sr. Proudhon, "a antítese lógica da divisão
do trabalho", e, com o apoio da dialética, ele começa por transformar
as máquinas em oficina.
12
Por outro lado, de acordo com a perspectiva proudhoniana, seria esta
ultra especialização e “a monotonia do labor” as responsáveis pela aquisição
da consciência pelo próprio trabalhador de sua degradação. Ser reduzido à
condição de mera engrenagem da produção em geral, o levaria ao desespero:
“(...) por falta de uma ciência positiva, perde o equilíbrio; o coração depravase, e o homem acaba nos sonhos da utopia, nas loucuras do iluminismo e nas
raivas da impotência”. (PROUDHON. 2019: 128). A lógica do capital, ao querer
“mecanizar o operário”, teria, ao fim e ao cabo, feito pior: “tornaram-no inábil e
mau” (PROUDHON. 2019: 128). Nota-se mais uma vez a dialética serial
atravessando a análise do socialista libertário. É tácito concluir o paradoxo –
se considerarmos a realidade da lógica do capital- observado por Proudhon
que aponta que o desenvolvimento pleno da indústria, e por sua vez da própria
ciência, só poderá ocorrer se o ensino a ser dado àquele que detém o controle
sobre o trabalho “abranja todo o seu círculo” (PROUDHON. 2019:128); a
possibilidade de escolha do método e da especialidade “chegue ao operário,
bem como ao politécnico, após a conclusão do curso completo de estudos?”
Mas está claro que a indústria, não mais do que as ciências, não
pode ser parcelada sem parecer: o homem cujo gênio circunscrito
em uma profissão nada sabe das outras é como aquele, tendo
aprendido a assinar seu nome pelas iniciais, nada sabe do resto do
alfabeto.
12 MARX, K. Miséria da Filosofia: resposta à filosofia da miséria do Sr. Proudhon. Cap. II
“A metafísica da Economia Política”, parágrafo II – A divisão do trabalho e as máquinas.
Disponível em https://www.marxists.org/portugues/marx/1847/miseria/cap05.htm. Acesso dia
23/09/20.
Vol. 2 (2020) 8
Todo conjunto ou nada: é a lei do trabalho bem como do saber. A
indústria é a forma concreta dessa filosofia positiva que se trata hoje
de verter nas almas no lugar das crenças extintas, filosofia que
profetizou e invocou, há um século, o mais vasto gênio dos tempos
modernos, o pai e o hierofante da Enciclopédia, DIDEROT.13
Infere-se também da teorização proudhoniana a conclusão acerca da
impossibilidade da realização plena da educação politécnica na sociedade
capitalista. A relação entre revolução e educação é indissociável, tendo em
vista que para a superação da “educação servil” (DOMMANGET. 1974: 278)
seria necessária a ruptura radical, uma vez que:
No estado atual de nossa sociedade, a instrução da juventude, com
exceção de uma elite de privilegiados, é um sonho de filantropia; que,
do mesmo modo que o pauperismo, a ignorância é inerente à
condição do trabalhador; que esta inferioridade intelectual das
classes laboriosas é invencível, ainda mais num regime político
hierarquizado, com um feudalismo capitalista e industrial, um
mercantilismo anárquico, esta instrução, desejável em si, seria
desperdiçada, mesmo perigosa; e que não é sem razão que os
homens de Estado, ao mesmo tempo que se ocupam da instrução
do povo, a reduzem sempre aos simples elementos. 14
O princípio fundante da pedagogia socialista, para o “filósofo do
trabalho” é “a igualdade de cultura pelo ensino profissional, coisa que se
exprime pela expressão ‘politecnia da aprendizagem’, sistema que se traduz
hoje pela ‘escola oficina’ (DOMMANGET. 1974 :280).15
Das consequências da aprendizagem politécnica é possível perceber
“que a condição do trabalhador muda completamente; que o tormento e a
repugnância inerentes ao labor no estado atual apagam-se gradualmente ante
a deleitação que resulta para o espírito e o coração do próprio trabalho”
(PROUDHON. 2019:132). Trabalho e liberdade serão categorias que
convergirão, apenas, nesta nova realidade marcada pelo controle por parte
daquele que realiza o labor. E o que Proudhon classificaria como o “homem
que passa a existir por si mesmo” (PROUDHON. 2019:136), porque:
A ideia de fazer o trabalhador gozar, em plena civilização, da
independência edênica e dos benefícios do trabalho, por uma
educação simultânea da inteligência e dos órgãos, que, dotando-o
da totalidade da indústria adquirida, assegurar-lhe-ia por isso mesmo
13 PROUDHON. 219. P. 129.
14 PRODHON apud DOMMANGET. Maurice. 1974. P. 278.
15 A expressão ‘escola oficina’ aparece nas traduções portuguesas e brasileiras das obras de
Proudhon. A exata expressão em francês é “école-atelier”.
Vol. 2 (2020) 9
a plenitude de sua liberdade, essa ideia é seguramente irrepreensível
como concepção, e de imenso alcance.16
Os resultados desta pedagogia politécnica apagariam todos os vestígios
do que o pensador anarquista chamaria de “vampirismo transcendental”.
Noutras palavras, a exploração pelo homem. Responsável pela animalização
daqueles subordinados ao “trabalho parcelar”. De fato, para a percepção
libertária de socialismo de Pierre Joseph Proudhon, a politecnia da
aprendizagem é o exato oposto do trabalho parcelar:
(...) Dotar os operários de uma capacidade profissional completa é,
com efeito, libertá-lo da tutela dos agentes de domínio, é sapar a
aristocracia do talento, que se origina, segundo Proudhon, ‘não numa
superioridade real, mas na mutilação de pessoas’. Porque sem negar
que a ‘inteligência difere e há de diferir sempre de um indivíduo para
o outro’, Proudhon pensa igualmente que ela representa ‘na origem,
uma força igual em todos’, que, pelo seu desenvolvimento, garante o
progresso social e a igualdade (...)17
Se para a filosofia do trabalho proudhoniana a organização do ensino é,
ao mesmo tempo, a “condição da igualdade e a confirmação do Progresso”
(DOMMANGET. 1974: 279), a transformação social era, da mesma forma um
imperativo. Não apenas – e condizente à análise social da filosofia do trabalho
do anarquismo de Proudhon que prima pelo aspecto material/econômico - a
dimensão estritamente política da ação da classe trabalhadora (a revolução)
seria suficiente para a transformação disruptiva almejada pelo socialismo
libertário. Uma educação plena, politécnica e emancipadora do Homem está
necessariamente circunscrita num outro modelo de organização social:
(...)Proudhon pensa que a instrução popular [é de uma absoluta e
radical impossibilidade na ordem capitalista]. Principalmente, ele não
vê remédio fora de uma ‘sociedade justiceira, mutualista e livre’, o
que ele chama algures ‘a federação universal’, e que correspondia,
como sabemos, ao seu ideal socialista (...). É preciso dispensar uma
educação ‘seriamente liberal, à altura do sufrágio universal, e que
concorra , com as instituições de mutualidade e de segurança, com
a associação operária e a federação das comunas e das províncias,
para estabelecer um certo nível entre as corporações, os recursos e
os meios de fortuna.
18
16 DOMMANGET. 1974. P 278.
17 DOMMANGET. 1974. P. 283
18 DOMMANGET. 1974.PP. 279-280
Vol. 2 (2020) 10
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo se circunscreve como uma tentativa inicial de diálogo, no
âmbito de estudos da Educação Profissional e Tecnológica em geral, e no
mestrado profissional em EPT (ProfEPT) em particular, com a perspectiva
pedagógica crítica que aponta o marxismo como o ponto de partida das
reflexões acerca da educação politécnica e da centralidade do trabalho como
categoria ontológica da condição do Homem. Nossa premissa é clara: a
originalidade destas formulações está, no tocante à tradição socialista do
século XIX, nas contribuições do pensador anarquista Pierre Joseph Proudhon.
Desta forma, procuramos trazer para o debate, aspectos primaciais das
teorizações proudhonianas e que podem contribuir para elucidar omissões
(deliberadas ou não) acerca das categorias de análise apontadas acima por
nós. Tem-se o fito também de agregar ao debate acerca das bases conceituais
em EPT, o pensamento proudhoniano, já exposto com rigor em estudos sobre
a História da educação das classes trabalhadoras, no Brasil e na França19, e
de forma igualmente inovadora no campo da História20
.
Acreditamos que inserir ao debate na EPT categorias de análise
proudhonianas, como a dialética serial, e apontar a primazia dos escritos do
ácrata francês acerca da politecnia da aprendizagem pode contribuir
sobremaneira para ampliar as bases teóricas das pesquisas em nosso campo
de estudo. Desconstruir equívocos que – quando ocorrem por
desconhecimento ou inapetência- cabe ao educador libertário o zelo para
tornar didática a “novidade”. No entanto, quando nos deparamos com a
falsificação histórica”, o “bom combate” faz-se necessário. Ademais, justo.
Tendo em vista que cabe ao estudioso do passado a devida objetivação daquilo
que cabe ao seu recorte histórico. Como certa vez afirmou o literato e
historiador Prosper-Olivier Lissagaray, à propósito da Comuna de Paris de
1871 (experiência a qual fora testemunha ocular), “aquele que conta ao povo
lendas revolucionárias, aquele que diverte-se com contos sensacionalistas, é
tão criminoso quanto o geógrafo que desenha cartas falsas para os
navegadores”.21
19 Destaco a relevância de pesquisas, no campo da Educação lato sensu, de filósofo e
pedagogo Silvio Gallo, autor de Pedagogia Libertária - Anarquistas, Anarquismos e
Educação. São Paulo: Editora Imaginário/ Editora da Universidade Federal do Amazonas,
2007 e do pioneiro Pedagogia do Risco Experiências Anarquistas em Educação, 1995. Do
historiador Rogério de Castro, autor da original tese de doutorado Nem Prêmio, nem castigo!
A escola Moderna como ação revolucionária dos sindicatos operários durante a Primeira
República (São Paulo, 1909-1919), também já publicada. E das reflexões do professor e
pesquisador emérito em Ciências da Educação da Universidade de Paris-Nanterre, Hugues
Lenoir, “A Comuna de Paris e a Educação” e “Educação libertária, Educação crítica?”,
dispostas para o português pelo Instituto de Estudos Libertários (IEL) em 2018 -ver bibliografia-
.
20 Grifo em especial a publicação Negras Tormentas: o federalismo e o internacionalismo
na comuna de Paris do historiador Alexandre Samis. Este título, inclusive, já pé considerado
em círculos anarquistas europeus como a mais completa publicação não europeia acerca do
federalismo proudhoniano e da comuna de Paris.
21 Prosper-Olivier Lissagaray. História da Comuna de Paris de 1871.
Vol. 2 (2020) 11
Com o mesmo ânimo narrativo e analítico de Lissagaray pretendemos
trazer para as bases conceituais e teóricas da Educação Profissional e
Tecnológica a perspectiva proudhoniana e sua contribuição para uma
pedagogia crítica e emancipatória das classes subalternizadas.
REFERÊNCIAS
CASTRO, Rogério. Nem Prêmio, nem castigo! A escola Moderna como
ação revolucionária dos sindicatos operários durante a Primeira
República (São Paulo, 1909-1919). Uerj. Faculdade de Educação. Tese de
doutorado. 2014.
CODELLO, Francesco. A Boa Educação: Experiências libertárias, teorias
anarquistas na Europa, de Goldwin a Neill. Volume 1: A Teoria. São Paulo.
Editora Imaginário/Ícone editora. 2007.
CORCUFF, Philippe. Antinomias y analogías como instrumentos
transversales en sociología: A partir de Proudhon y de Passeron. Cultura
representaciones soc [online]. 2016, vol.10, n.20, pp.42-58. ISSN 2007-8110.
P. 7. Acessado em 01/08/20.
DOMMANGET, Maurice. Os Grandes Socialistas e a Educação. Braga.
Biblioteca Universitária. 1974.
FRIGOTTO, Gaudêncio; CIAVATTA, Maria; RAMOS, Marise (orgs.). Ensino
médio integrado: concepção e contradições. São Paulo: Cortez, 2005.
GALLO, Silvio. Pedagogia Libertária - Anarquistas, Anarquismos e
Educação. São Paulo: Editora Imaginário/ Editora da Universidade Federal
do Amazonas, 2007.
GALLO, Silvio. Pedagogia do Risco Experiências Anarquistas em
Educação.São Paulo. Papirus. 1995.
MARX, Karl. Miséria da Filosofia: resposta à filosofia da miséria do Sr.
Proudhon. Cap. II “A metafísica da Economia Política”, parágrafo II – A
divisão do trabalho e as máquinas. S.d.
LENOIR, Hugues. A comuna de Paris e a Educação; James Guillaume,
pioneiro de uma pedagogia emancipadora; Educação libertária,
Educação crítica? São Paulo. Intermezzo Editorial. 2018.
LISSAGARAY, Prosper-Olivier. História da Comuna de Paris de 1871(Versão
portuguesa A Comuna de Paris). Pdf. Disponível em
https://teoriadoespacourbano.files.wordpress.com/2013/04/lissagaray-acomuna-de-pais-1877.pdf.
Disponível em https://teoriadoespacourbano.files.wordpress.com/2013/04/lissagaray-acomuna-de-pais-1877.pdf. Acesso em 27/09/2020.
Vol. 2 (2020) 12
PROUDHON, P. J . O que é Propriedade? Lisboa. Editorial Estampa. 1975.
_______.Sistema das Contradições Econômicas ou Filosofia da Miséria.
São Paulo. Ícone. 2003.
_______. Da Justiça na Revolução e na Igreja: Filosofia, Justiça e
‘Politecnia da Aprendizagem’. São Paulo, Intermezzo Editorial. 2019.
_______. Da Capacidade Política da Classe Operária. São Paulo.
Intermezzo Editorial. 2019.
SAMIS, Alexandre. Negras Tormentas: o Federalismo e o
Internacionalismo na Comuna de Paris. São Paulo. Hedra. 201
sexta-feira, 7 de outubro de 2022
Dewey On democracy
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=JCoIQAuXQ3sC&oi=fnd&pg=PP15&dq=Dewey+democracy&ots=fNXuUc_0_L&sig=Nz4r9_5VmlwrhAVzbb9lgXRcdE0&redir_esc=y#v=onepage&q=Dewey%20democracy&f=false
segunda-feira, 3 de outubro de 2022
TEoria crítica companion bbb
https://www.academia.edu/37280373/Szeman_Companion_Critical_Theory_pdf
DESCRIPTION
This Companion addresses the contemporary transformation of critical and cultural theory, with special emphasis on the way debates in the field have changed in recent decades.
Features original essays from an international team of cultural theorists which offer fresh and compelling perspectives and sketch out exciting new areas of theoretical inquiry Thoughtfully organized into two sections – lineages and problematics – that facilitate its use both by students new to the field and
advanced scholars and researchers
Explains key schools and movements clearly and succinctly, situating them in relation to broader developments in culture, society, and politics
Tackles issues that have shaped and energized the field since the Second World War, with discussion of familiar and under-theorized topics related to living and laboring, being and knowing, and agency and belonging
ABOUT THE AUTHOR
Imre Szeman is a Canada Research Chair of Cultural Studies and Professor of English and Film Studies at the University of Alberta, and adjunct professor of Visual and Critical Studies at the Ontario College of Art and Design University. He is the founder of the Canadian Association of Cultural Studies and a founding member of the US Cultural Studies Association. He is the author or editor of many books, including most recently, Contemporary Marxist Theory: An Anthology (2014), Popular Culture: A User's Guide (3rd revised edition, 2013), After Globalization (Wiley Blackwell, 2011), and Cultural Theory: An Anthology (Wiley Blackwell, 2010).
Sarah Blacker is a Postdoctoral Research Fellow at the Max Planck Institute for the History of Science, Berlin, Germany. Located at the intersection of science and technology studies, critical theory, and cultural studies, her research explores the politics of genomic medicine and health disparities' relation to racial inequalities in North America. She is co-editor of the journal Reviews in Cultural Theory.
Justin Sully teaches literary and cultural studies at Queen's University, Kingston, Ontario, Canada. His research tracks the cultural history of statistics and the political aesthetics of enumeration in film, television, and digital media. He is co-editor of the journal Reviews in Cultural Theory.
TABLE OF CONTENTS
Contributors ix
Acknowledgments xv
Introduction xvii
Imre Szeman, Sarah Blacker, and Justin Sully
Part I Lineages 1
1 Frankfurt – New York – San Diego 1924–1968; or, Critical Theory 3
Andrew Pendakis
2 Vienna 1899 – Paris 1981; or, Psychoanalysis 25
James Penney
3 Paris 1955–1968; or, Structuralism 41
Sean Homer
4 Birmingham – Urbana‐Champaign 1964–1990; or, Cultural Studies 59
Paul Smith
5 Baltimore – New Haven 1966–1983; or, Deconstruction 73
Michael O’Driscoll
6 Paris – Boston – Berkeley – the Mexico/Texas Borderlands 1949–1990; or, Gender and Sexuality 91
Sarah Brophy
7 Delhi/Ahmednagar Fort – Washington, DC/Birmingham Jail – Pretoria/Robben Island 1947–1994; or, Race, Colonialism, Postcolonialism 115
Neil ten Kortenaar
8 Petrograd/Leningrad – Havana – Beijing 1917–1991; or, Marxist Theory and Socialist Practice 129
Peter Hitchcock
9 Chile – Seattle – Cairo 1973–2017?; or, Globalization and Neoliberalism 147
Myka Tucker‐Abramson
Part II Problematics 167
Section A: Living and Laboring 167
10 Subjectivity 173
William Callison
11 Diaspora and Migration 191
Ghassan Hage
12 Community, Collectivity, Affinities 205
Miranda Joseph
13 Feminism 223
Rosemary Hennessy
14 Gender and Queer Theory 243
Amber Jamilla Musser
15 Social Divisions and Hierarchies 255
Randy Martin
16 Work and Precarity 269
Jason Read
Section B: Being and Knowing 283
17 Religion and Secularism 287
Jerilyn Sambrooke
18 Affect 301
Marija Cetinić and Jeff Diamanti
19 Indigenous Epistemes 313
Rauna Kuokkanen
20 The Everyday, Taste, Class 327
Ben Highmore
21 Disability Studies 339
Anna Mollow
22 Unsound 357
Veit Erlmann
23 Screen Life 371
Toby Miller
24 Digital and New Media 387
Wendy Hui Kyong Chun
25 Science and Technology 403
Priscilla Wald
Section C: Structures of Agency and Belonging 419
26 Circulation 423
Will Straw
27 Cultural Production 435
Sarah Brouillette
28 Decolonization 449
Jennifer Wenzel
29 Race and Ethnicity 465
Min Hyoung Song
30 Humanism 477
Nina Power
31 Nature 489
Stephanie LeMenager
32 Scale 503
Justin Sully
33 Narrative 517
Marie‐Laure Ryan
Index 531
domingo, 2 de outubro de 2022
cidadania resignificação Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais
Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais
Maria da Glória GohnSOBRE O AUTOR
Resumos
Text
Datas de Publicação
Histórico
Resumos
A partir da apresentação de alguns conceitos que tem sido utilizados no debate contemporâneo sobre a participação da sociedade civil em esferas públicas, este texto objetiva analisar as formas organizacionais, as possibilidades e as tendências dessa participação, na relação sociedade/estado, destacando o espaço dos conselhos. Como não é possível entender o papel dos diferentes tipos de conselhos que existem no Brasil na atualidade, se não entendermos a reforma do Estado, o texto aborda também as Organizações Sociais (OSs) e as - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). Uma das principais conclusões apresentadas na análise do protagonismo civil nas políticas sociais é: a participação da sociedade civil na esfera pública - via conselhos e outras formas institucionalizadas - não é para substituir o Estado, mas para lutar para que este cumpra seu dever: propiciar educação, saúde e demais serviços sociais com qualidade, e para todos.
Protagonismo civil; Participação da sociedade civil; Políticas públicas sociais; Movimentos sociais; Conselhos de Gestão; Participação na esfera pública
This article aims to analyze organizational forms, possibilities and tendencies of community participation, in the relation society/government, emphasizing the role of Councils. Since it is impossible to understand the different types of Councils that exist nowadays in Brazil, the text discusses the Social Organizations (OSs) and the Civil Society´s Organizations of Public Interest (OSCIPs). One of the main conclusions presented is that the councils and other forms of community participations do not exist to substitute government, but to fight for community´s rights: education, health and services of good quality.
Community participation; public social policies; social movements; councils
Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais
Empowerment and community participation in social policies
Maria da Glória Gohn
Profa Dra UNINOVE,Profa Titular UNICAMP e Pesquisadora CNPq E-mail: mgohn@uol.com.br
RESUMO
A partir da apresentação de alguns conceitos que tem sido utilizados no debate contemporâneo sobre a participação da sociedade civil em esferas públicas, este texto objetiva analisar as formas organizacionais, as possibilidades e as tendências dessa participação, na relação sociedade/estado, destacando o espaço dos conselhos. Como não é possível entender o papel dos diferentes tipos de conselhos que existem no Brasil na atualidade, se não entendermos a reforma do Estado, o texto aborda também as Organizações Sociais (OSs) e as - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). Uma das principais conclusões apresentadas na análise do protagonismo civil nas políticas sociais é: a participação da sociedade civil na esfera pública - via conselhos e outras formas institucionalizadas - não é para substituir o Estado, mas para lutar para que este cumpra seu dever: propiciar educação, saúde e demais serviços sociais com qualidade, e para todos.
Palavras-chave: Protagonismo civil; Participação da sociedade civil; Políticas públicas sociais; Movimentos sociais; Conselhos de Gestão; Participação na esfera pública.
ABSTRACT
This article aims to analyze organizational forms, possibilities and tendencies of community participation, in the relation society/government, emphasizing the role of Councils. Since it is impossible to understand the different types of Councils that exist nowadays in Brazil, the text discusses the Social Organizations (OSs) and the Civil Society´s Organizations of Public Interest (OSCIPs). One of the main conclusions presented is that the councils and other forms of community participations do not exist to substitute government, but to fight for community´s rights: education, health and services of good quality.
Key Words: Community participation; public social policies; social movements; councils.
Localizando os Conceitos
Objetivando fundamentar o universo referencial teórico da problemática em tela - a participação da sociedade civil em esferas públicas -, pontuaremos algumas considerações sobre alguns conceitos (ou categorias, já que alguns deles ainda não adquiriram o status teórico de um conceito). Eles são: sociedade civil e esfera pública, empoderamento, capital social e participação.
O conceito de sociedade civil já passou por várias concepções e significados, no Brasil e na América Latina. Ele vem sofrendo reformulações que seguem, em linhas gerais, momentos da conjuntura política nacional e a trajetória das lutas políticas e sociais do país. De uma forma geral, ele surge no período denominado trajetória das transições democráticas. O final dos anos 1970 destaca-se nesta trajetória porque foi quando o termo foi definitivamente introduzido no vocabulário político corrente e passou a ser objeto de elaboração teórica. Na linguagem política corrente, ele se tornou sinônimo de participação e organização da população civil do país na luta contra o regime militar. Este fato significou a construção de um outro referencial para o imaginário político nacional, fundado na crença de que a sociedade civil deveria se mobilizar e se organizar para alterar o status quo no plano estatal, dominado pelos militares e por um regime não democrático com políticas públicas que privilegiavam o grande capital, considerando apenas as demandas de parcelas das camadas médias e altas da população que alavancavam o processo de acumulação das emergentes indústrias filiais das empresas multinacionais. Este cenário estimulou o surgimento de inúmeras práticas coletivas no interior da sociedade civil, voltadas para a reivindicação de bens, serviços e direitos sociopolíticos, negados pelo regime político vigente.
Um dos principais eixos articuladores da sociedade civil, naquele período, foi dado pela noção de autonomia: tratava-se de organizar-se independentemente do estado (na maioria das vezes de costas para o mesmo). Na realidade, a autonomia também era um discurso estratégico para evitar alianças consideradas espúrias, para que o perfil de certos grupos da sociedade civil fosse configurado segundo alguns princípios, para que não houvesse reprodução de práticas autoritárias estatais e nem práticas consideradas como superadas, como as baseadas no centralismo democrático das correntes de esquerda mais radicais ou mais tradicionais.O princípio da auto-determinação, componente fundamental num processo de autonomia, era exercitado de forma contraditória: frente à sociedade mais geral e ao estado, os movimentos, especialmente os populares, apresentavam-se como entes autônomos, com auto-determinação. Mas, internamente, havia diferenças entre as lideranças, suas bases e as assessorias externas que os apoiavam, de forma que a autonomia era relativa e dependente das assessorias (embora as assembléias fossem um elemento importante para construir ou referendar as agendas e pautas de luta).
A democracia direta e participativa, exercitada de forma autônoma, nos locais de moradia, trabalho, estudo etc. era tida como o modelo ideal para a construção de uma contra hegemonia ao poder dominante. Participar das práticas de organização da sociedade civil significava um ato de desobediência civil e de resistência ao regime político predominante.
Neste período, como bem analisou Sader (1988), novos atores entraram em cena, destacando-se os movimentos sociais populares urbanos reivindicatórios de bens e serviços públicos e por terra e moradia, assim como parcelas dos então chamados novos movimentos sociais, em luta pelo reconhecimento de direitos sociais e culturais modernos: raça, gênero, sexo, qualidade de vida, meio ambiente, segurança, direitos humanos etc. O pólo de identificação destes diferentes atores sociais era a reivindicação de mais liberdade e justiça social. O campo dos novos atores ampliou o leque dos sujeitos históricos em luta pois não se tratava mais de lutas concentradas nos sindicatos ou nos partidos políticos. Houve, portanto, uma ampliação e uma pluralização dos grupos organizados que redundaram na criação de movimentos, associações, instituições e Organizações não governamentais (ONGs).
Com a saída dos militares do poder, a partir de 1985, começa a se alterar o significado atribuído à sociedade civil. Com a progressiva abertura de canais de participação e de representação política, a partir das pressões populares, promovida pelos novos governantes, os movimentos sociais (especialmente os populares) perderam paulatinamente a centralidade que tinham nos discursos sobre a participação da sociedade civil. Passa a haver uma fragmentação do que denominou-se como "sujeito social histórico", centrado nos setores populares, fruto de uma aliança movimento sindical + movimento popular de bairro (trabalhadores e moradores), até então tidos como relevantes para o processo de mudança e transformação social. Surge uma pluralidade de novos atores, decorrentes de novas formas de associativismos que emergem na cena política. A autonomia dos membros da sociedade civil deixa de ser um eixo estruturante fundamental para a construção de uma sociedade democrática porque, com a saída dos militares e o retorno dos processos eleitorais democráticos, a sociedade política, traduzida por parcelas do poder institucionalizado no Estado e seus aparelhos, passa a ser objeto de desejo das forças políticas organizadas. Novos e antigos atores sociais fixarão suas metas de lutas e conquistas na sociedade política, especialmente nas políticas públicas.
Portanto, ao longo dos anos 1990 o campo da sociedade civil ampliou-se, na prática e nos discursos a seu respeito. O descentramento do sujeito e a emergência de uma pluralidade de atores conferiram a um outro conceito o de cidadania, a mesma relevância que tinha o conceito de autonomia nos anos 1980. A questão da cidadania - já estava posta nos anos 1980, tanto nas lutas pela redemocratização que levaram ao movimento Diretas Já, à Constituinte e à nova Carta Constitucional de 1988, destacando a questão dos direitos civis e políticos; como nas lutas populares por melhorias na qualidade de vida urbana.Nela a cidadania ganha novo contorno - como cidadania coletiva - e extrapola a demanda pelos direitos civis para incluir outros direitos, como os direitos sociais básicos, elementares, de primeira geração, já equacionados desde a Revolução Francesa, contidos nas demandas por casa, abrigo e comida; como direitos sociais modernos, relativos a condições de trabalho, educação, saúde etc. A cidadania nos anos 1990 foi incorporada nos discursos oficiais e ressignificada na direção próxima à idéia de participação civil, de exercício da civilidade, de responsabilidade social dos cidadãos como um todo, porque ela trata não apenas dos direitos, mas também de deveres, ela homogeneiza os atores. Estes deveres envolvem a tentativa de responsabilização dos cidadãos em arenas públicas, via parcerias nas políticas sociais governamentais. De um lado, isso é um ganho: significa o reconhecimento de novos atores em cena. De outro, é um risco, com o qual as lideranças progressistas da sociedade civil devem estar alerta: o de assumirem o papel que deve ser exercido pelo poder público estatal pois para tal ele é eleito, ou indicado, e os cidadãos pagam impostos.
No novo cenário, a sociedade civil se amplia para entrelaçar-se com a sociedade política, colaborando para o novo caráter contraditório e fragmentado que o Estado passa a ter nos anos 1990. Desenvolve-se o novo espaço público, denominado público não estatal, onde irão situar-se conselhos, fóruns, redes e articulações entre a sociedade civil e representantes do poder público para a gestão de parcelas da coisa pública que dizem respeito ao atendimento das demandas sociais. Essas demandas passam a ser tratadas como parte da "Questão Social" do país.
O "empoderamento" da comunidade, para que ela seja protagonista de sua própria história tem sido um termo que entrou para o jargão das políticas públicas e dos analistas, neste novo milênio. Trata-se de processos que tenham a capacidade de gerar processos de desenvolvimento auto-sustentável, com a mediação de agentes externos - os novos educadores sociais atores fundamentais na organização e o desenvolvimento dos projetos. O novo processo tem ocorrido, predominantemente, sem articulações políticas mais amplas, principalmente com partidos políticos ou sindicatos.
Cumpre destacar que o significado da categoria "empowerment" ou empoderamento como tem sido traduzida no Brasil, não tem um caráter universal. Tanto poderá estar referindo-se ao processo de mobilizações e práticas destinadas a promover e impulsionar grupos e comunidades - no sentido de seu crescimento, autonomia, melhora gradual e progressiva de suas vidas (material e como seres humanos dotados de uma visão crítica da realidade social); como poderá referir-se a ações destinadas a promover simplesmente a pura integração dos excluídos, carentes e demandatários de bens elementares à sobrevivência, serviços públicos, atenção pessoal etc., em sistemas precários, que não contribuem para organizá-los porque os atendem individualmente, numa ciranda interminável de projetos de ações sociais assistenciais. Vários fatores determinam a diferenciação dos dois tipos de processos e seus resultados, mas o principal deles é a natureza, o caráter e o sentido do projeto social da (s) instituição (s) que promove (m) o processo de intervenção social. Estamos falando dos mediadores, das ONGse do terceiro setor de uma forma geral, das entidades que organizam os projetos, buscam os financiamentos, fazem as parcerias - com o governos, com outras entidades e organizações do terceiro setor da sociedade civil, com os organismos da cooperação internacional, e com os movimentos sociais. Esse último item é fundamental porque, dado os rumos que os movimentos tiveram nos anos 1980, principalmente os de caráter popular, e seus desdobramentos nos anos 1990 (alguns entrando em crise e desmobilizando-se, outros crescendo no rastro da crise por saber aproveitar as oportunidades políticas do momento), aliar-se ou fazer parceria com um movimento social, popular ou não, já é um indicador da natureza do projeto da entidade. Um outro indicador é o tipo de movimento (ou mais precisamente, qual movimento). Esse indicador pode ser captado segundo a trajetória histórica do movimento: origem, composição social, entidades articuladoras, redes sociais a que pertence, lutas que desenvolveu, projetos que elaborou, sucessos, perdas etc.
Robert Putnam tornou-se autor referencial nos estudos sobre a sociedade civil, ao final do século XX e início deste. Ele desenvolveu vários conceitos que são básicos para entender a questão do empoderamento, tais como comunidades cívicas e capital social. O conceito de comunidades cívicas foi caracterizado como "cidadãos atuantes e imbuídos de espírito público, por relações políticas igualitárias, por uma estrutura social firmada na confiança e na colaboração" (Putnam, 1993, p. 31). Putnam diz que os hábitos democráticos derivam de relações horizontais, espírito de reciprocidade e cooperação. Entretanto, a sua grande contribuição foi articular estas formulações com um outro conceito, que ganhou nova significação nos anos 1990: o de "capital social". Para ele, o conceito de comunidade é impregnado de individualismo e o de capital social firmou-se nos círculos intelectuais americanos para substituí-lo. Para Putman, capital social deve ser analisado por analogia com as noções de capital físico e capital humano, ferramentas e treinamento para intensificar a produtividade individual o cerne da idéia da teoria do capital social é que as redes têm valor...[..] Enquanto capital físico refere-se a objetos físicos e capital humano refere-se a propriedades dos indivíduos, capital social refere-se à conexão entre indivíduos, redes sociais e às normas de reciprocidade e lealdade que nascem deles. Neste sentido, capital social é claramente relatado como algo chamado "virtude cívica". A diferença é que "capital social" chama atenção para o fato de que a virtude cívica é mais poderosa quando imersa numa densa rede de relações sociais recíprocas. Uma sociedade de muitos indivíduos virtuosos, mas isolados, não é necessariamente rica em capital social " (Putnam, 2000, p. 18-19).
Neste cenário, de novos temas, problemas e conceitos (ou de ressignificações disso tudo), resulta que, com as mudanças da conjuntura política na economia globalizada, o perfil e caráter da formação dos agentes mediadores ou educadores (as) sociais se alterou. Ser apenas "ativista", ter um largo currículo de militância ou de compromisso com certas lutas sociais, não é mais suficiente para qualificá-lo para o desempenho de suas tarefas. O novo educador deve ter outras qualificações além da militância. Para poder conhecer seus educandos, suas culturas, linguagens, valores e expectativas na vida, ele deve conhecer também a comunidade onde atua, ser sensível aos seus problemas. Para isso ele tem que dominar alguns conhecimentos. O educador tem que se formar e ser informado, não apenas na relação dialógica, mas em cursos de formação específica, combinados com cursos de formação geral (por isto os programas de pós-graduação estão repletos de educadores advindos das ONGs.
Para concluirmos nosso primeiro tópico, sobre os conceitos, seguem algumas considerações sobre a participação propriamente dita, a categoria mais abrangente. Os pressupostos gerais que sustentam nossas afirmações sobre a participação são:
a. Uma sociedade democrática só é possível via o caminho da participação dos indivíduos e grupos sociais organizados.
b. Não se muda a sociedade apenas com a participação no plano local, micro, mas é a partir do plano micro que se dá o processo de mudança e transformação na sociedade.
c. É no plano local, especialmente num dado território, que se concentram as energias e forças sociais da comunidade, constituindo o poder local daquela região; no local onde ocorrem as experiências, ele é a fonte do verdadeiro capital social, aquele que nasce e se alimenta da solidariedade como valor humano. O local gera capital social quando gera autoconfiança nos indivíduos de uma localidade, para que superem suas dificuldades. Gera, junto com a solidariedade, coesão social, forças emancipatórias, fontes para mudanças e transformação social.
d. É no território local que se localizam instituições importantes no cotidiano de vida da população, como as escolas, os postos de saúde etc. Mas o poder local de uma comunidade não existe a priori, tem que ser organizado, adensado em função de objetivos que respeitem as culturas e diversidades locais, que criem laços de pertencimento e identidade socio-cultural e política.
Existem, também algumas premissas básicas relativas à participação da sociedade civil das quais se destaca a participação da sociedade civil na esfera pública - via conselhos e outras formas institucionalizadas - não é para substituir o Estado, mas para lutar para que este cumpra seu dever: propiciar educação, saúde e demais serviços sociais com QUALIDADE, e para todos. Essa participação deve ser ativa e considerar a experiência de cada cidadão que nela se insere e não tratá-los como corpos amorfos a serem enquadrados em estruturas prévias, num modelo pragmatista.
Dewey já dizia: Só é experiência o que refletimos, o que aprendemos. O que se sedimenta na memória. É aquilo que vem alimentar o sonho, a utopia, a esperança, a ilusão. Rudá Ricci, em exposição em Belo Horizonte (2003) afirmou: " o mundo da experiência é o da memória coletiva, da solidariedade, aquela solidariedade que gera identidade". Neste mundo há ética, moral, valores. O pragmatismo não gera experiência porque refere-se a ações tópicas, imediatistas, sem profundidade, sem reflexão. O pragmatismo se alimenta de índices estatísticos e não da experiência, alimenta-se de táticas imediatistas e busca do lucro e não da experiência acumulada via processos participativos. O pragmatismo não leva à construção de alternativas porque ele é imobilizador, não apresenta saídas. A única saída é a espera: que façam por nós. Ele não preconiza a participação, congela- a.
Em síntese, estamos vivendo um novo momento na trajetória do associativismo brasileiro. Não podemos perder de vista que essas novas redes associativistas também estão contribuindo para o empowerment (empoderamento) dos setores populares em nossa sociedade, ainda que de forma muito pontual por trabalharem com projetos focalizados e tratarem os demandatários excluídos como clientes de serviços sociais. Mas os problemas sociais são graves e necessitam respostas urgentes. Por isso o terceiro setor de perfil mais corporativo, estruturado com o apoio de grandes grupos ou companhias empresariais, atuando nas franjas da nova economia social, segundo as regras da economia de mercado, tende a predominar sobre os movimentos e as ONGsque trabalham de forma processual, com ênfase na capacidade da sociedade se organizar e defender seus interesses, na construção de novos atores sociais que representam distintos interesses e que atuam em defesa da cidadania. Um dos problemas dessas instituições com perfil democrático e participativo é que seu impacto na realidade é lento. É preciso dinamizá-las.
Disso tudo resulta um cenário contraditório, no qual convivem entidades que buscam a mera integração dos excluídos por meio da participação comunitária em políticas sociais exclusivamente compensatórias; com entidades, redes e fóruns sociais que buscam a transformação social por meio da mudança do modelo de desenvolvimento que impera no País, inspirados num novo modelo civilizatório no qual a cidadania, a ética, a justiça e a igualdade social sejam imperativos, prioritários e inegociáveis.
A importância da participação da sociedade civil se faz neste contexto não apenas para ocupar espaços antes dominados por representantes de interesses econômicos, encravados no Estado e seus aparelhos. A importância se faz para democratizar a gestão da coisa pública, para inverter as prioridades das administrações no sentido de políticas que atendam não apenas as questões emergências, a partir do espólio de recursos miseráveis destinados às áreas sociais.
O protagonismo de alguns atores da sociedade civil no que se refere às políticas públicas: Os Movimentos Sociais e as Organizações não governamentais a partir dos anos 1990
Creio que é interessante voltarmos um pouco na História e dividirmos a questão do protagonismo dos movimentos sociais no Brasil, a partir dos anos 1990, quando houve uma perda de sua visibilidade política no urbano, em três momentos: de 1990 a 1995; de 1995 a 2000; e do início deste novo século até os dias atuais. Vários analistas diagnosticaram que houve crise nos movimentos sociais populares urbanos, nos primeiros cinco anos dos anos 1990, no sentido que eles tiveram reduzida, naqueles anos, parte do poder de pressão direta que haviam conquistado nos anos 1980. Isso se deu em função de vários fatos novos, que explicam as alterações que ocorreram em suas dinâmicas cotidianas. É bom lembrar que o país saía de uma etapa de conquista de novos direitos constitucionais, a maioria dos quais precisava ser regulamentada. A volta das eleições diretas em todos os níveis governamentais também alterou a dinâmica das lutas sociais porque tratava-se agora de democratizar os espaços públicos estatais. A necessidade de atuação no plano institucional e governamental, aumentou, não apenas nos locais que passaram a ser administrados por governos populares, fundamentalmente, no plano federal, locus de debate e encaminhamento das conquistas obtidas na Carta de 88, para que viessem a ser implantadas. E todos nós sabemos que o governo federal, naquele mesmo período, passou a implementar ou a aprofundar, em todos os níveis, as políticas neoliberais. Para complicar mais ainda o cenário, essas políticas geraram desemprego, aumento da pobreza e da violência, urbana e rural.
Houve até quem preconizasse, naqueles anos, que a fase das mobilizações nas ruas estava ultrapassada. Correspondia a uma etapa já superada, pois o regime militar havia caído e se tratava agora de atuar apenas no plano institucional. A educação popular e o trabalho de base junto a grupos populares também passou a receber críticas, seria algo também já superado, justificável apenas na década anterior, naquele momento a página teria que ser virada. Conseqüentemente, a visibilidade externa dos movimentos populares urbanos, na mídia e na sociedade como um todo, refluiu naquele período. Ao mesmo tempo, um outro sujeito sociopolítico, advindo dos movimentos sociais populares do campo, ganhava força: os sem-terra, especialmente o MST. Portanto, quando se falava de "crise dos movimentos sociais urbanos", nos primeiros anos da década de 1990, não significava o desaparecimento deles, e nem o seu enfraquecimento enquanto atores sociopolíticos relevantes, mas sim uma rearticulação, interna e externa, de seu papel na sociedade. As mudanças na conjuntura política levaram também à emergência, ou ao fortalecimento, de outros atores sociais relevantes na sociedade civil, tais como as ONGs e outras entidades do Terceiro Setor. Os movimentos populares passaram a ter outros aliados, e/ou competidores, na disputa entre os grupos organizados para demandar as necessidades sociais ao poder público, ou organizar trabalhos coletivos para resolver estas demandas entre os próprios necessitados. Para finalizar as observações sobre o cenário dos movimentos populares, nos primeiros anos da década de 1990, não podemos deixar de registrar que houve tensões entre as lideranças na condução dos movimentos urbanos, principalmente em relação a questões como: institucionalização, participação ou não em conselhos propostos ou criados pelo poder público, participação em programas governamentais, etc. O fato de várias lideranças ascenderem a cargos no poder público, ou ao parlamento, também teve alguma influência na nova dinâmica dos movimentos. Este novo cenário gerou a necessidade de articulações e a maioria dos movimentos, rurais ou urbanos, passaram a atuar em redes e a construir agendas anuais de congressos e manifestações públicas, como o Grito dos Excluídos, por exemplo.
Em suma, no interior dos movimentos expressava-se uma crise maior, que não era deles mas refletia-se no seu cotidiano, que o país atravessava: o desmonte de políticas sociais pelas políticas neoliberais e sua substituição por outras políticas, em parceria com ONGse outras entidades do Terceiro Setor; a fragmentação da sociedade pela desorganização ou flexibilização do mercado de trabalho levando ao crescimento do setor informal; a defasagem na qualificação do mercado de trabalho face a era da tecnologia, comunicações e informação, levando a novas exigências no campo da educação, formal e não formal, face ao mundo globalizado etc. Portanto, a crise expressava os novos arranjos na busca de renovação, de adaptação à nova conjuntura e às mudanças no mundo do trabalho, de reposicionamento frente às novas políticas públicas.
Na segunda metade dos anos 1990, novos ingredientes foram acrescentados, alterando ainda mais a dinâmica dos movimentos sociais em geral, e dos populares em particular. Começo citando as crises econômicas internas, em movimentos populares e ONGscidadãs, que os levaram a repensar seu planos, planejamentos de ação, estratégias e forma de atuar, elaboração de planejamentos estratégicos etc. Algumas entidades de apoio aos movimentos até fecharam suas portas, outras fizeram enxugamentos em termos de regiões de atuação, se fundiram com outras, ou ainda deslocaram suas áreas de atuação para setores específicos, dentro do leque dos programas sociais institucionalizados, governamentais ou de apoio advindo da cooperação internacional. Novas pautas foram introduzidas, tais como a de se trabalhar com os excluídos sobre questões de gênero, etnia, idades etc. As dificuldades de apoios para manter estruturas mínimas, ou a necessidade de re-orientar suas ações, em função de novas diretrizes e regras da cooperação internacional, não deixavam sobra de tempo para as lideranças se articularem com a população. Os novos tempos, de desemprego e aumento da violência urbana, assim como o crescimento de redes de poder paralelo nas regiões pobres, ligados ao narcotráfico de drogas e outros, também colaboraram, e muito, para desmotivar a população necessitada para participar de reuniões ou outras atividades dos movimentos.
Registre-se ainda que a nova política de distribuição e gestão dos fundos públicos, em parceria com a sociedade organizada, focalizados não em áreas sociais (como moradia, saúde, educação etc.), mas em projetos pontualizados, como crianças, jovens, mulheres etc., contribuiu para desorganizar as antigas formas dos movimentos fazerem suas demandas e reivindicações. A palavra de ordem destes projetos e programas passaram a ser: ser propositivo e não apenas reivindicativo, ser ativo e não apenas um passivo reivindicante. Muitos movimentos se transformaram em ONGsou se incorporaram às ONGsque já os apoiavam. A atuação por projetos exige resultados e tem prazos. Criou-se uma nova gramática na qual mobilizar deixou de ser para o desenvolvimento de uma consciência crítica ou para protestar nas ruas. Mobilizar passou a ser sinônimo de arregimentar e organizar a população para participar de programas e projetos sociais, a maioria dos quais já vinha totalmente pronta e atendia a pequenas parcelas da população. O militante foi se transformando no ativista organizador das clientelas usuárias dos serviços sociais.
De uma certa forma, programas como o Saúde da Família (PSF) podem ser utilizados como exemplos deste novo perfil de atuação da sociedade civil organizada via a mediação das ONGse outras instituições. Em 2003, o PSF mantinha 15 mil equipes em todo o Brasil sendo 690 só na cidade de São Paulo, onde havia 3 544 agentes comunitários. Exige-se deste novo ativista uma atuação integrada a uma equipe médica e, ao mesmo tempo, um trabalho prévio de cadastramento da população e suas necessidades locais. Para o agente, trata-se de um espaço de trabalho e renda, ainda que por certo período, dependendo de seu contrato com uma ONGsque o selecionou. A maioria destes agentes não tem experiência associativa anterior e nem cursos de formação ou de capacitação sobre como poderá ser uma participação cidadã. Quanto ao serviço público prestado à população, via essa nova modalidade de prestação de serviços a população, observa-se um movimento contraditório: de um lado, um avanço pelo fato de se ter contatos diretos com agentes comunitários que conhecem a realidade dos problemas locais, de se ter a possibilidade de um "atendimento personalizado" De outro lado, esse atendimento se inscreve num cenário de escassez de recursos humanos e material, e o que deveria ser um acréscimo, de fato, é uma subtração porque estes agentes têm que realizar outras tarefas nos postos de atendimento - para suprir pessoal que deveria estar trabalhando como funcionários regulares. Faltam aos agentes comunitários formação e informação e a socialização das informações,em geral, é muito difícil. Na formação não bastam aspectos biológicos, relativos às doenças, deve-se ter uma prática que os capacite a fazer uma leitura mínima do mundo, da vida e seus problemas, do entendimento de seu papel no processo. Para agir segundo um pretenso modelo que criou os agentes comunitários, eles deveriam entender certos códigos de conduta e de linguagem, estar articulados em redes de formação. Eles não podem ser um agente comunitário "institucionalizado", que perdeu a identidade com seu território de origem, que não tem laços de pertencimento locais, que só se preocupa com a rotina do trabalho segundo seu vínculo empregatício. Crevelim (2004) faz um trabalho minucioso a este respeito; ela concluiu que há limites no processo de participação dado não apenas pela falta de infra-estrutura, mas falta também uma cultura de participação, assim como falta vontade política para que a cidadania de fato seja exercida. A questão dos Conselhos
Não é possível entender o papel dos diferentes tipos de conselhos que existem no Brasil, na atualidade, se não entendermos a reforma do Estado e, para isso, é preciso entender o que são as Organizações Sociais (OSs) e as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs). As Organizações Sociais foram criadas por lei em maio de 1998 para reestruturarem o aparelho do Estado em todos os níveis. No nível Federal, parcelas do próprio Estado poderão deixar de fazer parte do aparelho estatal e se tornar prestadoras de serviços públicos, ou parte das atividades do Estado passarão a fazer parcerias com entidades do chamado Terceiro Setor (leia-se: ONGs organizações e associações comunitárias ou filantrópicas, e outras entidades sem fins lucrativos). Não é toda e qualquer ONGs que pode ser considerada como parte do Terceiro Setor, mas sim aquelas com o perfil do novo associativismo civil dos anos 1990. Um perfil diferente das antigas ONGs dos anos 1980, que tinham fortes características reivindicativas, participativas e militantes. O novo perfil desenha um tipo de entidade mais voltada para a prestação de serviços, atuando segundo projetos, dentro de planejamentos estratégicos, buscando parcerias com o Estado e empresas da sociedade civil.
A forma de realização das parcerias são via as OSs - Organizações Sociais e as OSCIPs- Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. A Reforma do Estado elaborada pelo ex-Ministro Bresser Pereira, no MARE, durante a gestão do Presidente Fernando Henrique Cardoso, previa que as políticas públicas para as áreas de Cultura, Educação, Lazer, Esporte, Ciência e Tecnologia viessem a ser apenas gerenciadas e não mais executadas pelo Estado. As OSs e as OSCIPs são parte de um modelo político e de uma orientação filosófica nos quais o Estado é responsável apenas pelo gerenciamento e controle das políticas públicas e não pela execução das mesmas. O Estado deixa de lado o papel de executor, ou prestador direto de serviços, e passa a ter função de promotor e regulador. Quem vai executar estas políticas serão justamente as OSs e as OSCIPs, que se constituem e se qualificam como tal - através de um contrato de gestão, no caso das OSs, firmado entre o Terceiro Setor e o poder público; ou através de um desmembramento de parte do próprio poder público, via parcerias com as OSCIPs .
As OSs e as OSCIPs fazem parte de um novo modelo de gestão pública e, a longo prazo, a reforma do estado prevê que toda a área social deve adotar essas nova lógica e forma de operar na administração pública propriamente dita. As OSs, por exemplo, se inserem no marco legal das associações sem fins lucrativos, cuja lei foi regulamentada e promulgada em 1999. Elas são pessoas jurídicas de direito privado, estando portanto fora do âmbito dos órgãos públicos. Seus funcionários poderão vir de estatais, mas na OS eles não estarão mais sob o Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos, não serão mais, portanto, funcionários públicos no sentido lato do termo. Mas as OSs recebem recursos públicos consignados no Orçamento da União ou do respectivo estado, constituindo receita própria. A alocação destes recursos e a execução orçamentária das OSs não estão submetidas aos ditames da execução orçamentária, financeira e contábil, como os demais órgãos públicos, que têm de submeter-se a um controle processualístico. Seu controle se dá pelos seus resultados, por meio da avaliação das metas que elas estabeleceram. Além disso, as OSs recebem toda a infra-estrutura montada, que antes servia de base a um órgão estatal na prestação do serviço. Registre-se ainda que as OSs ou OSCIPs têm que se qualificar para se constituírem como operantes das novas orientações políticas. Na prática, são ONGs e organizações do Terceiro Setor que estão se qualificando. Segundo Traldi (2003), até Julho de 2002, 1068 entidades não-governamentais entraram com o processo de qualificação como OSCIP; destas, apenas 563 foram deferidas, e 505 (quase a metade), foram indeferidas. Se analisarmos a área de atuação das 563 entidades deferidas observa-se que o maior número atua na área assistencial (187), seguida pela ambiental (107). Em terceiro lugar tem-se as creditícias (82) e em quarto as educacionais (66, correspondendo a 13% do universo total). As outras áreas são: cultura (43), pesquisa (36),saúde (32) e jurídica (10).
Um dado que causa espanto é o fato das OSs se qualificarem a partir de um simples pedido ao Ministério do Planejamento que, uma vez aprovado, remete ao Ministério da Justiça. O contrato de gestão não passa pelo Legislativo, fica no âmbito do Executivo.
Houve um grande debate que identificou este processo como uma privatização, ou terceirização do Estado, e parte fundamental das reformas neoliberais, com seus defensores e críticos. Dentro dos objetivos deste artigo, não entraremos neste debate, mas resta assinalar que, a Reforma do Estado, ao final dos anos 1990, não incluiu os Conselhos Gestores no processo de contratação das OSs constituídas para gerirem os serviços públicos e as atividades publicizadas; ou da qualificação de uma OS. Os Conselhos gestores, mesmo os que têm poder deliberativo, irão analisar o resultado de um processo - quando forem avaliar uma OS, por exemplo, do qual eles não participaram no início, na própria constituição da OS.
Mas, por que isto é importante? Por que deixamos a discussão dos conselhos de lado e enveredamos pelo tema das Organizações Sociais? Porque, a médio prazo, os serviços na área social que saírem da órbita de execução direta pelo Estado deverão ser de responsabilidade das OSs e dos Conselhos de Gestão que estas precisam instalar. Os contratos de gestão firmados por um determinado período também teriam um Conselho relacionado com o Conselho do Município, na área social correspondente. Uma nova modalidade de gestão do que é público surge desta articulação e desta rede de formas de representação e participação, que são muito mais complexas do que outras formas implantadas no passado, na relação povo-governo, na administração pública. Conceitos novos estão sendo criados para expressarem as novas formas, tais como o de governança (local, regional, nacional, global).
Apesar de todos os obstáculos, acreditamos firmemente que a interlocução e o exercício da vida política/cultural, na esfera pública, contribui para o desenvolvimento de uma nova CULTURA POLÍTICA PÚBLICA no país, construída a partir de critérios do campo dos direitos (sociais, econômicos, políticos e culturais), uma nova cultura ética com civilidade e respeito ao outro. Essa nova cultura política se contrapõe à tradição autoritária que desconhece a existência de esferas públicas, assim como se contrapõe, também, às práticas clientelistas ou corporativas de grupos patrimonialistas, oligárquicos, ou modernos/privatistas. Trata-se de uma cultura política gerada por processos nos quais os diferentes interesses são reconhecidos, representados e negociados, via mediações sociopolíticas e culturais.
Os conselheiros devem ter formação e consciência crítica, para terem como meta o entendimento do processo onde se inserem; entenderem, por exemplo, a questão dos fundos financeiros públicos e os critérios que deveriam pautar seu uso para a eliminação da pobreza e das desigualdades sociais, para o atendimento das necessidades da população, segundo escalas de urgências e emergências. Os mecanismos de competição do mercado não irão resolver as desigualdades sociais, serão políticas públicas democráticas, não excludentes, formuladas a partir de modelos que não se alicercem no lucro, que poderão minorar os problemas sociais.
A esfera pública deve ser, também, um espaço para os cidadãos organizados exercerem fiscalização e vigilância sobre os poderes públicos constituídos via eleições, concursos ou critérios consuetudinários. Por isso, as Promotorias Públicas e o Ministério Público ganharam força para se expressarem, nos últimos anos. Eles são a instância para que se recorra no caso de não observância das ações públicas. A ampliação da esfera pública contribui para a formação de consensos alcançados argumentativamente, numa gestão social compartilhada, gestada a partir de exercícios públicos deliberativos.
A temática da esfera pública auxilia-nos a entender a importância da sociedade civil organizada, pois ela é um dos atores fundamentais do Poder Local. A esfera pública adentra nos espaços públicos, dialogando com os seus grupos organizados e realizando parcerias em ações conjuntas com os mesmos. Certamente que, se os atores participantes dos pactos e parcerias na esfera pública advirem de sujeitos políticos organizados nos espaços públicos da sociedade civil, com pouca representatividade, fracos laços de pertencimento social, projetos, valores e visões de mundo não cidadãos, voltados para coletivos organizados apenas como grupos de interesses, grupos de pressão, ou grupos focais que atuam segundo regras exclusivas do mercado, seus resultados e impactos, não pode-se esperar avanços na democratização das relações povo-governo e nem mudanças sociais significativas em direção a projetos emancipatórios, que contemplem a justiça, a igualdade etc. Esta forma de atuação tem como objetivo alterar, progressivamente, a subordinação (ou apatia) da sociedade civil frente ao Estado. Altera, também, a cultura de participação da sociedade civil, no sentido dos grupos progressistas priorizarem pautas coletivas, deixando de lado "picuinhas" e divergências em torno de interesses particulares e corporativistas. Ser representante das demandas e interesses da sociedade implica em realizar mediações e intermediações. Decisões políticas democráticas envolvem mudanças no campo estatal como da própria sociedade civil, desde que certos princípios democráticos não sejam abandonados, mas sejam marcos referenciais, quais sejam: justiça, liberdade, solidariedade e igualdade com respeito às diferenças.
Tudo isso pode ser resumido na expressão: PARTICIPAÇÃO CIDADÃ, aquela que redefine laços entre o espaço institucional e as práticas da sociedade civil organizada, de forma que não haja nem a recusa à participação da sociedade civil organizada, nem a participação movida pela polaridade do antagonismo a priori, e nem sua absorção pela máquina estatal, porque o Estado reconhece a existência dos conflitos na sociedade e as divergências nas formas de equacionamento e resolução das questões sociais, entre os diferentes grupos, e participa da arena de negociação entre eles. Os Conselhos são uma das modalidades para o exercício da cidadania.
Cumpre destacar, entretanto, que a participação da sociedade civil não pode, nunca, se resumir à participação nos espaços dos conselhos ou outros criados na esfera pública. Até para que essa participação seja qualificada - no sentido exposto acima - ela deverá advir de estruturas participativas organizadas autonomamente na sociedade civil. O chamado trabalho de base é fundamental para alimentar e fortalecer a representação coletiva nos colegiados da esfera pública. Essa esfera pública não pode ser vista como um degrau superior, que surgiu para eliminar ou superar formas e níveis de mobilização e organização que existiram na sociedade brasileira nos anos 1970/80, pois esta é uma visão etapista, linear e evolutiva.
Recebido em: 03/05/2004
Aprovado em: 08/06/2004
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Datas de Publicação
Publicação nesta coleção
03 Abr 2008 Data do Fascículo
Ago 2004
Histórico
Aceito
08 Jun 2004 Recebido
03 Maio 2004
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william James sobre Bases do Pensamento Fenomenológico e Existencial em William James
https://www.scielo.br/j/pcp/a/HqhKSMHmFwpH48rXwRCrP8t/?lang=pt&format=pdf Bases do
Pensamento
Fenomenológico
e Existencial em
William James
Resumo: Neste artigo, temos por objetivo investigar os fundamentos e as bases do pensamento
fenomenológico e existencial advindos da Psicologia de William James no que diz respeito à noção de
consciência, método e prática clínica. Para tanto, analisamos algumas obras de James e dividimos as suas
propostas em três momentos distintos: pragmatismo, funcionalismo e empirismo. Por meio das elaborações
em cada um desses momentos, tentamos esclarecer os pontos de encontro e os pontos de desencontro
com os pensamentos fenomenológico e existencial. Concluímos que o ponto de encontro diz respeito à
tentativa de não objetivação da consciência. Quanto ao desencontro, consideramos que James ainda toma
a consciência como objeto da Psicologia e que a fenomenologia e as perspectivas existenciais se afastam
da ideia de objeto, uma vez que não consideram a consciência contraposta ao mundo. Outro desencontro
apresenta-se na acentuada divergência entre James e o pensamento fenomenológico e existencial no que
se refere ao método e à prática bem como aos objetivos da clínica.
Palavras-chave: James (William). Fenomenologia existencial. Psicologia e Filosofia. Consciência.
O título Psicologia: Fundamentos e Bases do
Pensamento Fenomenológico e Existencial
diz respeito a uma disciplina do curso
de graduação de Psicologia Clínica da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de
cuja ementa constam conteúdos referentes
ao pensamento de William James, Henry
Bergson, Wilhem Dilthey, Franz Brentano,
Sören Kierkegaard, Edmund Husserl, Martin
Heidegger e Jean-Paul Sartre. Acreditamos que,
ao compor esse ementário, o corpo docente
original desse curso via nesses estudiosos
a espinha dorsal que sustenta a temática
principal da perspectiva fenomenológicoexistencial em Psicologia. Isso conduz hoje
à seguinte questão: por que buscar em
James, Bergson e Dilthey fundamentos da
perspectiva fenomenológica e existencial? Por
que não retroceder, iniciando por Brentano,
já que – como nos lembra Boris (2011) – é
esse pensador o precursor inquestionável das
perspectivas fenomenológicas, existenciais e
humanistas em Psicologia? Para responder a
essas questões, primeiramente, precisamos
esclarecer algo mais fundamental: o que há
em comum em todos esses estudiosos que é
de especial interesse para a Psicologia com
bases fenomenológicas e existenciais?
De forma resumida, pode-se dizer que todos
esses estudiosos, a sua maneira, estudaram
a consciência, mesmo que com diferentes
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James, e mais especificamente no seu
pragmatismo, que a orientação funcionalista
ganha força” (2010, p.77). Já Tourinho (2009),
ao abordar os fundamentos epistemológicos
da Psicologia, confirma a importância de
James, referindo-se a ele como brilhante
psicólogo da corrente da consciência e
finaliza chamando a atenção para a polêmica
provocada pelo autor, com as suas dúvidas
acerca da existência da consciência. Parece,
então, que Tourinho também identifica pelo
menos outro momento em que o psicólogo
funcionalista não mais reconhece a entidade
consciência.
Como vimos James, em seus escritos, abre
um espaço rico, intenso e disperso repertório
de discussões. E, embora não tenha sido o
precursor de nenhuma escola em Psicologia,
tais como foram Rogers e Freud, entre
outros, ainda podemos constatar um ou
outro estudioso dessa área de estudo situar
alguns fundamentos de sua perspectiva
em James (Maslow, 1968; Frankl, 1978;
Rogers, 1974). Parece que tais vinculações se
tornam facilmente reconhecidas quando nos
referimos às funções adaptativas da emoção,
da percepção, enfim, da consciência. No
entanto, como relacionar os elementos
presentes nas obras jamesianas com as
filosofias fenomenológicas e existenciais, que
tentam afastar-se do aspecto psicológico da
consciência ou que até mesmo criticam a
Psicologia em sua positividade ou negam o
psiquismo com veemência? É justamente na
busca desses elementos em comum entre o
pensamento de James e o fenomenológico
e existencial que nos deteremos a seguir.
Iniciaremos, entretanto, apresentando as
diferentes perspectivas do pensamento de
James.
As diferentes fases do
pensamento de William James
Como já dissemos, Tripicchio refere-se
a dois momentos distintos nas obras de
James: o dos escritos psicológicos e o dos
posicionamentos e denominações e até
mesmo defendendo a sua negatividade,
colocando-se a favor ou contra ao modo
como a consciência vinha até então sendo
estudada e considerada. E alguns poucos,
também, apostavam em outros métodos para
conduzir seus estudos sobre o fenômeno
da consciência. Todos, de um modo ou
de outro, mais cedo ou mais tarde, tentam
deslocar-se dos estudos epistemológicos
sobre a consciência, que pressupõem a
consciência (sujeito) apartada do mundo
(objeto), e assim tentam resolver o problema
do conhecimento, da verdade e de seu
acesso. E é contra essa tese que todos esses
autores se posicionaram.
A consciência, com as suas diferentes
denominações (eu, sujeito e subjetividade,
dentre outras), passa, graças a esses
pensadores, por sérias revisões e formulações.
Sem dúvida, na medida em que a concepção
de eu sofre modificações, toda a Psicologia,
tanto em suas teses como em suas práticas,
inclusive a clínica, também se reformula.
Para esclarecer as questões aqui anunciadas,
deter-nos-emos apenas nos possíveis legados
de William James à Psicologia com bases
fenomenológicas e existenciais. Essa tarefa,
nada fácil, exige que nos debrucemos sobre
algumas de suas obras para procurar seus
fundamentos e desdobramentos afins com
a fenomenologia e a filosofia da existência.
Alguns estudiosos desse tema posicionamse de formas totalmente divergentes ao
tentarem organizar as temáticas jamesianas.
Tripicchio (2007) identifica dois momentos
distintos e até mesmo contraditórios em
James: o filosófico e o psicológico. Já
Gutman (2008) considera que a filosofia
e a psicologia de James formam uma
unidade. Ferreira e Arruda compartilham
desse posicionamento ao afirmarem que o
pragmatismo jamesiano está intimamente
vinculado à Psicologia funcionalista. Os
autores ressaltam que “é na filosofia de
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filosóficos. Tripicchio (2007) identifica as
obras psicológicas nos temas acerca das
dicotomias: interno e externo, pensamento
e afeto, conhecimento e emoção, ideias
e sentimentos. A teoria das emoções
jamesianas, com base nas teses darwinistas,
revela a tentativa de James de transformar
a Psicologia em uma ciência natural. James
filósofo é aquele que sofre uma influência
direta do pragmatismo de Peirce. James,
pragmatista, em suas concepções sobre a
verdade, nega a verdade representacional e
defende a ideia de que a verdade se encontra
intimamente relacionada às ações humanas.
Para esse estudioso, o verdadeiro é o útil, que
facilita a vida em seu cotidiano.
Na mesma linha de Tripicchio, sustentamos
que a amplitude atingida pelos escritos
de James nos permite identificar três
vertentes presentes nas suas obras. Aliás,
assim precisamos caminhar para poder,
então, estabelecer os encontros e os
desencontros entre os estudos de James e os
da fenomenologia e da filosofia da existência.
Ao estudar as obras de William James,
identificamos três grandes ramificações do
pensamento desse estudioso. Em um desses
momentos, suas discussões em muito se
aproximam de uma postura epistemológica,
em que ele tenta encontrar uma posição
solucionadora do interminável debate entre
os racionalistas e os empiristas, com relação
ao espaço onde podemos encontrar a
verdade. Em outra ramificação, identificamos
que sua preocupação se dirige à Psicologia de
modo a estabelecer o seu status de ciência
natural e totalmente autônoma. Por fim,
James, em um texto de 1904, em que trata
do empirismo em sua máxima radicalização,
reaproxima-se da Filosofia, não mais com
preocupações acerca do espaço onde se
encontra a verdade, mas compartilhando das
discussões, muito presentes em sua época,
que questionam a existência da consciência.
O pragmatismo de James
Ao posicionarmos o pragmatismo como uma
das modalidades do pensamento de James,
utilizamo-nos das referências encontradas
em Hessen (1926/1987). Esse estudioso
denomina teoria do conhecimento ou
epistemologia aquela área de estudo que
trata do comportamento teórico, seja a
teoria do conhecimento científico, seja a
da ciência. A epistemologia interessa-se
pelo questionamento acerca da verdade do
conhecimento, expressa na concordância
entre o pensamento e o objeto bem como
na sua origem.
Hessen, em seus estudos sobre a teoria do
conhecimento, mostra, de forma sintética,
como a epistemologia aparece no cenário
da Filosofia na Idade Moderna. Segundo
ele, a discussão acerca do conhecimento
surge com John Locke, que, em Ensaio sobre
o Entendimento Humano, em 1690, trata
das questões sobre a origem, a essência e a
certeza do conhecimento humano. Leibnitz,
em Novos Ensaios sobre o Entendimento
Humano, em 1765, refuta as ideias de Locke.
Outros filósofos da teoria do conhecimento
foram George Berkeley, que publicou,
em 1710, o Tratado dos Princípios do
Conhecimento Humano, e David Hume,
que, em 1748, publicou Investigação sobre o
Entendimento Humano. Emmanuel Kant, em
1781, demarca seu lugar na epistemologia
com A Crítica da Razão Pura, no qual
tenta dar uma fundamentação crítica do
conhecimento científico da natureza.
Kant pretende buscar a validade lógica do
conhecimento, questionando se é possível
conhecer, sobre que bases se conhece e em
que pressupostos se assenta o conhecimento
(Hessen, 1926/1987).
Hessen dá prosseguimento a sua investigação
acerca das diferentes posições das teorias
do conhecimento, utilizando-se do método
fenomenológico. Esse autor destaca que
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fenomenologia é método, e não teoria, e
que a teoria do conhecimento tem como
objetivo explicar e interpretar filosoficamente
o problema do conhecimento; já a
fenomenologia descreve o fenômeno
do conhecimento. Com relação ao
conhecimento, Hessen afirma que cabe
à fenomenologia esclarecer a concepção
natural do ato de conhecer, sem jamais
decidir sobre a sua veracidade: “A descrição
fenomenológica pode e deve descobrir os
problemas que se apresentam no fenômeno
do conhecimento e fazer com que tomemos
consciência deles” (Hessen, 1926/1987, p.
34). Trata-se apenas de uma preparação que
nos conduz ao problema.
Assim, Hessen nos diz que são cinco
os problemas apontados pela descrição
fenomenológica: o primeiro refere-se à
possibilidade do conhecimento que implica
sempre uma relação sujeito e objeto, em
contato mútuo em que o sujeito apreende
o objeto. Está em jogo aí a concepção de
consciência natural, cabendo perguntar
acerca da possibilidade do conhecimento:
“Pode o sujeito apreender realmente o
objeto?” (Hessen, 1926/1987, p. 35). Hessen
coloca nesses posicionamentos as seguintes
perspectivas: dogmatismo, cepticismo,
subjetivismo e relativismo, pragmatismo e
criticismo.
O segundo problema refere-se à origem do
conhecimento. Está em jogo nessa modalidade
a posição dualista, que, considerando
a estrutura do sujeito cognoscente e o
fato de o homem ser espiritual (razão)
e sensível (experiência), pergunta pela
origem do conhecimento humano. E as
respostas aparecem nos seguintes segmentos:
racionalismo, empirismo, intelectualismo e
apriorismo.
O terceiro elemento encontrado fenomenologicamente diz respeito à essência e à
determinação do conhecimento humano
na relação sujeito e objeto, para o qual o
problema central da teoria do conhecimento
se encontra na relação sujeito e objeto, logo,
é o sujeito que determina o objeto ou é o
objeto que determina o sujeito? A quarta
perspectiva encontrada refere-se às formas do
conhecimento humano: racional e intuitiva.
Por fim, a quinta modalidade epistemológica
diz respeito ao critério da verdade, em que se
pergunta qual é o critério que estabelece se o
conhecimento é ou não verdadeiro.
Com base nessas considerações de Hessen
é que consideramos James um teórico do
conhecimento ao assumir um posicionamento
denominado pragmatismo, que diz respeito
à possibilidade de conhecer e ao critério
de verdade. Em sua segunda conferência,
intitulada O que Significa o Pragmatismo,
James (1912/1976) sugere que o método
pragmático seria aquele que põe fim à disputa
interminável entre os diferentes epistemólogos,
e assim define o método pragmático como
aquele que visa às consequências práticas.
Kinouchi (2007) refere-se a três modulações
do pragmatismo. A primeira é a de Charles
Sandero Peirce, o primeiro a utilizar-se dessa
denominação. Ele considera o pragmático
em seu caráter normativo, como um modelo
intelectualista, que conduz à prática racional.
Para William James, o pragmático é tomado em
seu sentido utilitarista, totalmente associado
ao praticalismo. John Dewey, principal figura
do pragmatismo do século XX, entrelaça as
duas modalidades de pragmatismo em uma
perspectiva antropológica. Kinouchi conclui
que nos três há uma tentativa de lidar com o
problema da verdade, tal como o faz Hessen.
Este afirma que o pragmatismo constitui
uma teoria do conhecimento que se opõe
ao ceticismo. Embora em ambas ocorra um
afastamento da concepção de verdade como
representação ou correspondência entre a
realidade e o ser, o ceticismo nega toda e
qualquer possibilidade do conhecimento e
verdade, enquanto o pragmatismo argumenta
“A descrição
fenomenológica
pode e deve
descobrir os
problemas que
se apresentam
no fenômeno do
conhecimento
e fazer com
que tomemos
consciência
deles” (Hessen,
1926/1987, p.
34).
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PSICOLOGIA:
CIÊNCIA E PROFISSÃO,
2013, 33 (4), 840-851 Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
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que verdadeiro é aquilo que tem uma
utilidade, e que o homem é eminentemente
prático. Logo, no pragmatismo, a vontade, a
ação e os motivos humanos são soberanos.
A razão e o pensamento, como um valor
derivado, são apenas elementos de orientação
do homem frente à realidade. Hessen
reconhece William James como o fundador
do pragmatismo moderno, e aponta Schiller
como seguidor dessa corrente epistemológica.
James esclarece que a palavra pragmatismo
foi encontrada por ele, pela primeira vez, em
um artigo de Charles Peirce, de 1878, no qual
este sustentava que as crenças são regras da
ação. James, por sua vez, não se preocupa
com as regras, e sim, com o caráter utilitarista
a que se destinam as ações humanas.
Kinouchi salienta que “o pragmatismo de
James às vezes parece soar como uma espécie
de existencialismo utilitarista” (2007, p. 220).
Rossi afirma que James foi o protagonista da
união do pragmatismo com o humanismo:
James fue, ante todo, un humanista que
encontró en el movimiento pragmatista
un espacio propicio para exponer sus
concepciones generales respecto de las
múltiples relaciones entre el hombre y
su entorno. Y si como pragmatista se
reconoce que James supo vislumbrar y
enfatizar la importancia de los conceptos
de acción, creencia y voluntad; como
humanista, es claro que supo cómo
privilegiar las nociones de sentimiento,
cambio e energía, entre otras (Rossi,
2008, p. 77)
Conclui Rossi que o pragmatismo de James
se destaca por criticar a dicotomia cartesiana
com ênfase no sujeito cognoscente,
passando a valorizar a dimensão prática do
conhecimento. James critica a Filosofia em
seu caráter de contemplação, e adota uma
posição que se aproxima de um empirismo,
que coloca a Filosofia como uma atividade
utilitária a serviço do homem.
A Psicologia como ciência natural
No final do século XIX, Wundt (1832-1920)
e William James (1842-1910) inauguram a
Psicologia em um viés de projeto científico,
que receberá a denominação de Psicologia
moderna, distinguindo-a de um projeto
metafísico, em que a Psicologia consistia
no estudo da alma. Para Abib (2009), a
Psicologia moderna, como projeto de
Psicologia científica, nasce de uma reflexão
epistemológica com fins a uma epistemologia
unitária. No entanto, ocorre com Wundt e
James o mesmo que acontece em toda a
história da Psicologia: seus iniciadores partem
de concepções diferentes, decorrendo daí
variadas e multifacetadas psicologias. Abib
chama a atenção para a elaboração da
ciência psicológica como conhecimento
plural; resulta daí que a Psicologia acaba por
constituir-se em meio a uma epistemologia
pluralizada.
O movimento pragmatista de James
vai receber, na Psicologia moderna, a
denominação de funcionalismo, em oposição
ao estruturalismo de Wundt. Tilquin marca
bem essa distinção ao afirmar que “...
o estruturalismo é como a anatomia do
espírito, enquanto o funcionalismo é como
a fisiologia” (1950 como citado em Tourinho,
2009, p. 31). Abib (2009) ressalta que a
psicologia de Wundt se constitui como uma
ciência empírica, e que a psicologia de James
se aproxima de uma ciência natural. Wundt
pretende fazer uma ciência psicológica,
buscando as leis da causalidade presentes
no psiquismo. O esforço de James, na
tentativa de tornar a Psicologia uma ciência
natural, consiste em estudar os fatos mentais
em relação com o ambiente físico. Nas
definições dos conceitos de pensamento,
hábito, atenção, emoção e consciência com
os quais James vai trabalhar, a preocupação
incidia sobre as funções do organismo, e não
sobre as suas propriedades. É na perspectiva
de função é que ele trata dos diferentes temas da Psicologia. Com relação ao pensamento,
James afirmava que esse era fluxo contínuo,
e as referências de tempo e espaço eram
constituídas em função das ações para as
quais o pensamento se destinava. Sobre os
hábitos, ele dizia que eram aprendidos pela
força adaptativa do organismo. Ao estudar as
emoções, inverte a tese que sustentava que um
estímulo emotivo suscitava toda uma reação
orgânica. Esse psicólogo funcionalista explica
que ocorre o contrário: primeiro há a reação
do organismo, e é esta que desencadeia a
emoção (Ferreira & Gutman, 2008).
Em 1890, James escreve seu livro clássico
acerca da Psicologia, intitulado Principles
of Psychology, adotando uma perspectiva
totalmente funcionalista com a seguinte
tese: “os mecanismos psicológicos existem
porque são úteis e auxiliam os indivíduos a
sobreviver e a realizar atividades importantes
para a adaptação às exigências do meio”
(James, 1890 como citado em Tourinho,
2009, p. 30). Nesse sentido, o funcionalismo
encontra-se presente, uma vez que o
psiquismo humano se constitui por um
mecanismo que visa sempre a consequências
práticas; logo, a determinação psíquica
se dá teleologicamente. Importa, então,
ao investigador do fenômeno psíquico,
as operações das atividades mentais ao
buscar as metas futuras e a escolha dos
meios para alcançá-las em circunstâncias
reais. O pensar, o sentir e os motivos vão
paulatinamente modelando-se para atender
às exigências utilitárias advindas do mundo,
até se adaptarem ao meio e se tornarem
autônomos. Com o conhecimento, por parte
dos psicólogos modernos, dessas funções do
psiquismo, poderiam eles prever e controlar as
ações humanas e, assim, ensinar aos homens
como deveriam agir de modo a resolver
seus problemas. Esse caráter naturalista do
funcionalismo parece aproximar-se em muito
da perspectiva empírica, que, na Psicologia,
é radicalmente assumida pelo behaviorismo.
Mas o que diz James acerca disso?
James (1912/1976) afirma que, embora
o pragmatismo se aproxime da proposta
empirista, ambas apresentam uma acentuada
diferença. O pragmatismo encontra-se
totalmente apartado da preocupação
empirista de estabelecer abstrações e
princípios, alcançando, assim, o elemento
mais original e a verdade absoluta. A
perspectiva pragmática é apenas um método,
uma orientação que pretende alcançar o
valor do prático na experiência com a qual
se encontram os caminhos passíveis para
modificação das realidades. Trata-se muito
mais de instrumentos do que de teorias. Os
instrumentos são ferramentas, meios para
atingir fins determinados.
O pragmatismo consiste, em um sentido
amplo, em uma teoria da verdade na medida
em que desenvolve procedimentos que
visam a conduzir as experiências de modo
satisfatório, simplificando e economizando
trabalho. Trata-se da verdade como
instrumental, e não como teoria. É nesse
aspecto que, no pragmatismo jamesiano,
encontramos as bases para o que, em
Psicologia, se denominou funcionalismo.
Nessa ênfase, destacam-se alguns escritos
de James, como Principles of Psychology
(1890/1952), um verdadeiro tratado de
Psicologia com cerca de 800 páginas.
Com o funcionalismo dos Principles of
Psychology, temos o que consideramos o
segundo momento do pensamento jamesiano,
em que James pretende que a Psicologia se
torne uma ciência natural, conquistando total
independência da metafísica. A Psicologia,
como ciência da natureza, aproximar-seia muito mais da Biologia. Assim, ele tece
consideráveis críticas à concepção de eu
com sentidos e determinações dados em
si mesmo e, portanto, substancializado, tal
como foram tomados pelas filosofias da
subjetividade, desde Descartes, passando
por Kant até Hegel. Por outro lado, também
rejeita a ideia que defende a inexistência do
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eu, ficando esse, então, reduzido a um feixe
de sensações. Segundo Abib: “Tem-se então
que Wundt e James lançam os fundamentos
da Psicologia moderna com base em uma
teoria do sujeito concebido como devir, e
não como ser” (2009, p. 203). James (1890
como citado em Abib, 2009, p. 203) diz
ainda que “a consciência é um órgão, uma
perfeição superadicionada pela evolução,
com a função de adaptar as pessoas aos
ambientes, com a função, portanto, de ajudálas a sobreviver”. Logo, nessa perspectiva,
à Psicologia funcionalista, caberia o estudo
das funções cerebrais e dos fenômenos
cognitivos, volitivos e perceptivos, para
oferecer resultados práticos por meio de suas
ações terapêuticas.
Ainda em Principles of Psychology, James
propõe-se a estudar a mente a partir dela
mesma, e não como vinha acontecendo
na Psicologia, que a estudava a partir das
sensações. Para James, o pensamento
significa toda a forma de consciência, e o
autor lista cinco características que apontam
o modo como o pensamento acontece
em uma consciência pessoal: é sempre
parte da consciência, está em constante
mudança, é sensivelmente contínua, lida
sempre com objetos independentes, focase em partes dos objetos e exclui outras
partes. No entanto, a ideia de consciência
como algo que se encontra em um dos
polos vai paulatinamente desaparecendo no
funcionalismo de James. Segundo Heidbreder
(1933/1981), James, após a publicação dos
princípios em Psicologia, foi desinteressandose pela Psicologia e acreditando que as
respostas para as suas indagações só pudessem
ser encontradas na Filosofia, até que, em
1904, ele escreve o primeiro capítulo em seu
livro Essays in Radical Empiricism, que tem
o seguinte título: Does Consciousness Exist?
A filosofia empírica em James
Temos, então, o que denominamos de
terceiro momento jamesiano, em que ele se
reaproxima da Filosofia; agora encontrandose em uma posição que ele mesmo considera
empírica, chega a afirmar que concebe a
consciência como função de conhecer da
própria experiência, e nada mais. Heidbreder
(1933/1981, p. 139) observa que “a psicologia
de James é a transição: mostra os sinais da
metafísica, porém é um movimento orientado
para a ciência”. Apostaríamos então dizer
que, em James, encontramos outra radical
e imprescindível transição, que é de uma
Psicologia como ciência natural, que se
dedica ao estudo do estado da consciência,
de seus fenômenos e seus fundamentos
biológicos (condições) a uma Psicologia
que prescinde de um psiquismo. Assim, ao
questionar a existência da consciência, ele
refere-se, em seu texto A Consciência Existe?
(James, 1904), a diferentes estudiosos que já
tinham abandonado tal noção, e apresenta
os argumentos a favor de sua inexistência.
Em 1904, James decide, então, defender
publicamente a ideia de que a consciência
deveria ser descartada, restando apenas a sua
função, que é a de conhecer. Ele substitui a
noção de consciência pelo seu equivalente
pragmático: realidades da experiência,
que sempre se dão em uma exterioridade,
e, com isso, tenta romper a dicotomia
consciência e mundo, afirmando que, ao
considerar a experiência absoluta, acaba por
prescindir totalmente de dita polaridade.
James acrescenta que a relação desses dois
termos é a própria experiência, e que um dos
seus termos é o “sujeito que conhece”, e que
o outro é o “objeto conhecido”; “Ela tem dois
papéis diferentes, sendo gedanke e gedachtes,
o pensamento-de-um-objeto e o objetopensado, ambos em um” (James, 1904, p.108).
Os legados de James à
fenomenologia e à filosofia da
existência
Ao retomarmos as três modalidades presentes
nos estudos de James (a epistemológica, a
James (1890 como
citado em Abib, 2009,
p. 203) diz ainda que
“a consciência é um
órgão, uma perfeição
superadicionada
pela evolução,
com a função de
adaptar as pessoas
aos ambientes, com
a função, portanto,
de ajudá-las a
sobreviver”. Logo,
nessa perspectiva, à
Psicologia funcionalista,
caberia o estudo das
funções cerebrais
e dos fenômenos
cognitivos, volitivos
e perceptivos, para
oferecer resultados
práticos por meio
de suas ações
terapêuticas.
Bases do Pensamento Fenomenológico e Existencial em William James
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psicológica e a filosófica), poderemos então
estabelecer os encontros e os desencontros
no que diz respeito à posição epistemológica,
à elaboração acerca da consciência e à
valorização da experiência em detrimento
do aspecto lógico do pensamento.
Iniciaremos por buscar as aproximações
entre James e Husserl por dois motivos. Sendo
ambos contemporâneos, provavelmente
encontravam-se imersos no mesmo âmbito
de discussão das problemáticas acerca do
conhecimento; em segundo lugar, em ambos
existe uma preocupação em demarcar o
espaço onde a consciência aparece.
Epistemologia refere-se a um segmento da
Filosofia moderna que mantém um diálogo
afinado com o projeto científico. Como
Filosofia do conhecimento, pretende discutir
a origem do conhecimento, o lugar da
verdade e o seu acesso (método). Para tanto,
a epistemologia precisa manter a dicotomia
sujeito e objeto e assim estabelecer em qual
deles se encontra a verdade, essência de tudo
que há. Para alcançar a verdade, é preciso
saber como acessá-la. Essa questão gerou
intermináveis discussões entre os empiristas
e os idealistas. Os primeiros diziam que a
verdade se encontrava no real, empírico, e
que daí nós poderíamos estabelecer todas as
leis de tudo o que há. O acesso a essa verdade
e às suas leis dar-se-ia pela experimentação,
comprovação e corroboração das hipóteses.
Já os segundos afirmavam que a verdade
se encontrava na razão, no pensamento, e
que, pelas leis do pensar e suas faculdades,
poderíamos acessar toda a verdade sobre
as coisas. Acessá-la seria um exercício do
pensamento.
Tanto James quanto a fenomenologia
husserliana e a filosofia da existência de
Kierkegaard, Heidegger e Sartre opõemse às teorias do conhecimento, embora
por caminhos diferentes. James propõe
que abandonemos essas discussões de
ordem teórica e busquemos a verdade
na vida prática, na ação. Nisso consiste
sua perspectiva pragmática. Para Hessen
(1926/1987), essa tese jamesiana ainda é
epistemológica, pois guarda na sua essência
uma dicotomia com relação ao fato de que a
ação ainda deriva da vontade do homem. A
vontade ainda é uma faculdade, e, como tal,
encontra-se no polo da subjetividade. Husserl
(1901/2007a), com sua fenomenologia,
também pretende deslocar-se das discussões
epistemológicas, que precisam partir da
dicotomia homem e mundo, para então
posicionar a verdade. Husserl propõe a ideia
de que o acesso à verdade não é alcançado
desprezando ou minimizando a importância
de um dos polos, pois a verdade encontrase no espaço cooriginário ao sujeito e ao
objeto: a intencionalidade. Por isso, afirma
que todo o objeto é para a consciência como
a consciência é para o objeto. Sem dúvida,
Husserl mantém-se em uma filosofia que
pressupõe a subjetividade, mesmo que não
lhe confira o lugar de posicionadora. Vemos,
assim, que a discussão acerca da verdade,
tanto com relação à tentativa de afastar-se
das vertentes epistemológicas como no que
diz respeito à relação que ainda mantém com
essa vertente filosófica, parece ser um ponto
de encontro entre esses dois pensadores.
Holanda defende a aproximação da noção
de consciência entre James e Husserl da
seguinte forma: “mesmo negando o caráter
substancial da consciência, James – ao afirmála como função – finda por posicioná-la como
um ente, como uma realidade, na acepção
fenomenológica, sendo, portanto, um objeto
suscetível de investigação” (2012). Campos
(1945 como citado em Holanda, 2012)
também argumenta a favor dessa proximidade,
ao dizer que James, ao opor-se ao atomismo,
adota uma “atitude fenomenológica, o que
o torna precursor das ideias de Husserl”
(Campos, 1945, p. 37, como citado em
Holanda, 2012). Concluindo, atentemos ao
que nos lembra Holanda: “Ademais, o próprio
Husserl afirmara a importância do valor do Principles of Psychology para o campo da
Psicologia descritiva”(2012). Mas, e o ponto
de discórdia, qual seria?
Husserl (1910/2007b) é um crítico fervoroso
das psicologias que se estabeleceram até
o início do século XX, e ponderava, em
A Filosofia como Ciência Rigorosa, que a
Psicologia clássica se preocupava com os
estudos sobre a alma, suas disposições
e seus afetos. Partindo desse a priori,
postulava que a Psicologia havia acabado
por desconsiderar totalmente a natureza
intencional dos fenômenos psíquicos.
Já a Psicologia moderna, mesmo que
com um projeto de ciência natural,
havia desconsiderado completamente a
natureza dos fenômenos psíquicos em
suas investigações e formulações, apenas
substituindo a denominação alma por
conceitos tais como subjetividade, atividade
subjetiva, eu, self e personalidade, dentre
outros. Mantendo-se no naturalismo, ela
toma o psiquismo como fenômeno natural,
e, como tal, busca encontrar sempre um
por que de seu acontecer (Feijoo, 2011).
Essa consideração de Husserl revela uma
crítica ao projeto de Psicologia presente em
James. Vamos agora buscar o que compõe
a noção de consciência em James e assim
tentar apontar os elementos de consciência
comuns nesses dois pensadores.
Para James, a consciência é ação, fluxo e
pensamento. Para Husserl, a consciência
é intencionalidade; logo, também é fluxo
temporal, sínteses de vivências intencionais.
Husserl afirma veementemente que a
intencionalidade deveria ser considerada
o fenômeno psíquico por excelência.
Por intencionalidade, Husserl entende o
fato de toda consciência já ser sempre
consciência de..., assim, os fenômenos
psíquicos são estruturados de modo não
posicionadores. Nossa consciência já está
sempre aberta, e é esse caráter de abertura
que a marca. Em consequência, uma
psicologia que se pretenda fenomenológica
deve considerar a intencionalidade um
fenômeno psíquico, e, como tal, afastar-se
de qualquer perspectiva causal, mesmo que
teleológica. Assim, Husserl não compartilha
os pressupostos funcionalistas, cuja ação
sempre está destinada a um fim posicionado
pela consciência.
Em uma Psicologia clínica com bases
funcionalistas, o que está em questão é
de que modo podemos alcançar a ação
correta para atingir os fins que conduzam ao
bem viver. Nas clínicas fenomenológicas, a
pretensão é desfazer as aglomerações, que
estão presentes na síntese do fluxo incessante
que constitui a consciência, para que, dessa
forma, as recordações, as expectativas e
as percepções não formem um bloco de
aglomerados, de modo que aquilo que é
questão acabe por desaparecer.
A disciplina Psicologia: Fundamentos e Bases
do Pensamento Fenomenológico e Existencial
em sua denominação e em sua ementa aponta
ainda, em James, a base das psicologias da
existência. Para pensarmos acerca dessas
psicologias, primeiramente, cabe trazer à
discussão as filosofias que as fundamentam.
As filosofias da existência caracterizam-se
por resgatar aquilo que nas filosofias da
subjetividade havia sido abandonado, ou seja,
o caráter sensível da existência, sem recair na
empiria, que posiciona o sensível como mera
experiência. Assim, também essas filosofias
pretendem ser críticas tanto com relação ao
empirismo quanto ao idealismo; assumem
a posição da existência como espaço do
acontecimento, saindo assim da ideia de
subjetividade tal como foi incorporado pelas
psicologias do eu. Como se sabe, o conceito
heideggeriano de existência, ao contrário
do que pode parecer, nada tem a ver com
o ato de ser, de estar fativelmente presente.
A existência, como existir, significa ek-sistir,
ser-arremessado-para-fora-de-si, jogado em
direção ao horizonte histórico-mundano de
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realização de si. A clínica existencial consiste
em um espaço compartilhado no qual se
pretende proporcionar possivelmente, e não
necessariamente, transformações existenciais.
O clínico não intervém; acompanha. Ele
não provoca; participa; enfim, compartilha
do espaço que se abre para uma possível
transformação.
Ao buscar as aproximações de James com
a perspectiva existencial em Psicologia,
deparamo-nos com o texto de James (1904)
que questiona se realmente a consciência
existe. Nesses questionamentos, embora
James assuma uma posição empírica,
encontramos uma aproximação com a
máxima das filosofias existenciais que
defendem a indeterminação e o caráter
de negatividade da existência. Ambos, ao
extinguir a consciência, pretendem eliminar
definitivamente todas as formas de dualismo.
Considerações finais
Podemos pensar, em um primeiro momento,
que, com as considerações de James
acerca da consciência, do método e de
prática psicológica em seus diferentes
posicionamentos, encontraríamos a gênese
das fundamentações da fenomenologia e
das filosofias da existência; porém, em uma
análise mais detalhada, concluímos que há
muito mais aspectos divergentes do que
convergências entre James, em seus três
momentos aqui postulados, a fenomenologia
de Husserl e a filosofia existencial.
James, em seu posicionamento acerca da
consciência, apresenta um deslocamento
tanto do idealismo quanto do empirismo,
do mesmo modo que Husserl, pela
fenomenologia, pretende suspender as
hipostasias idealistas e realistas. Mesmo a
consciência em James sendo fluida, ele ainda
mantém a ideia de que é a ação do homem
que posiciona o mundo. Em Husserl, a
consciência é uma síntese incessante também
em fluxo vivencial; no entanto, mundo e
homem são cooriginários.
Com relação ao método empregado em suas
análises, afirmam Bertoni e Pinto (2007) que
James pretende imprimir à sua investigação
um tratamento empírico com ênfase na
experiência concreta, por entender como
fenômeno psicológico aquilo que pode ser
descrito sem nenhuma especulação metafísica.
No projeto fenomenológico de Husserl, a
atitude fenomenológica frente ao fenômeno
consiste em uma atitude antinatural com a qual
Husserl nos convida a irmos ao fenômeno tal
como ele se mostra à consciência, portanto,
não empiricamente. E ainda ressaltamos a
questão da intencionalidade como espaço
de realização das vivências, que a noção
de experiência em James não contempla.
Em James, o funcionalismo diz respeito ao
pressuposto de que a experiência serve a
uma função que é adaptativa, logo, tem bases
em uma causalidade teleológica. Husserl, ao
considerar a cooriginalidade consciência e
objeto, suprime qualquer intervalo espaçotemporal e, em consequência, a relação de
causalidade.
Mesmo a conclusão de James acerca da
inexistência da consciência é insuficiente para
abarcar o caráter de negatividade do existir
demarcado pelas filosofias da existência e do
qual emergem a angústia, o desespero e o
tédio como marcas dessa própria negatividade
e anúncio da abertura às possibilidades.
Ainda com relação à clínica psicológica –
que em James conduziria ao bem-estar, à
adaptação e à superação –, na perspectiva
existencial, a clínica não levaria a nenhuma
positividade, ao contrário, abre espaço, ou,
pelo menos, não impede tal abertura, para
que o negativo se anuncie como tal para
que transformações possíveis se apresentem
como tais.
Bases do Pensamento Fenomenológico e Existencial em William James
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CIÊNCIA E PROFISSÃO,
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Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo
Doutora em Psicoterapias Atuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e docente da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro – RJ – Brasil.
E-mail: ana.maria.feijoo@gmail.com
Endereço para envio de correspondência:
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia. Rua São
Francisco Xavier, 524, Maracanã. CEP: 20550-013. Rio de Janeiro, RJ.
Recebido 30/08/2012, Aprovado 11/04/2013.
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