terça-feira, 28 de março de 2023

Umwelt Significação sem representação: a teoria pragmática da significação de Jakob von Uexküll

Ciênc. cogn. vol.17 no.2 Rio de Janeiro set. 2012 Artigo Científico Significação sem representação: a teoria pragmática da significação de Jakob von Uexküll Meaning without representation: Jakob von Uexküll's pragmatic theory of meaning Arthur Octávio de Melo Araújo Departamento de Filosofia, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, Espírito Santo, Brasil ________________________________________ Resumo Este trabalho procura mostrar que a teoria da significação de Jakob von Uexküll é implicitamente uma teoria pragmática. Como teoria pragmática, ela coincide com alguns aspectos da crítica da filosofia analítica à noção de representação mental ao longo do Século XX, por exemplo, entre autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, desde o pragmatismo de Charles S. Peirce e William James. De modo similar, a teoria de Uexküll coincide com aspectos da crítica de Francisco Varela à noção de representação nas ciências cognitivas e sua ideia de 'trabalhar sem representação'. E, finalmente, procuro indicar uma possível alternativa não-representacionista nas ciências cognitivas, assim como uma alternativa de tratar o problema da 'lacuna explicativa' (explanatory gap). © Cien. Cogn. 2012; Vol. 17 (2): 098-114. Palavras-chave: significação; representação; pragmatismo; ciências cognitivas. ________________________________________ Abstract This work aims to show that Jakob von Uexküll's theory of meaning is implicitly a pragmatic theory. As pragmatic theory of meaning it seems to coincide with some aspects of the critics of the analytical philosophy to notion of mental representation during the 20th century, for example, among authors like Austin, Ryle and Wittgenstein since from the pragmatism of Charles S. Peirce and William James. Similarly, Uexküll's theory of meaning coincides with some aspects of Francisco Varela's critic to the notion of representation in cognitive sciences and his idea of 'working without representation'. And finally I seek to indicate an eventual non-representational alternative to the cognitive sciences, as well as an alternative of dealing with the problem of the explanatory gap. © Cien. Cogn. 2012; Vol. 17 (2): 098-114. Keywords: meaning; representation; pragmatism; cognitive sciences. ________________________________________ Introdução A partir dos chamados anos cibernéticos na década de 40 do Século XX, a noção de 'representação' tornou-se central entre as ciências cognitivas na década de 70. No entanto, como assinala Jean-Pierre Dupuy (1996, p. 138-9), as ciências cognitivas retomaram o espírito cibernético dos anos 40 de 'deconstrução da metafísica do sujeito'. Na tradição de Leibniz, considerado o 'patrono' da cibernética por Norbert Wiener (1948/1985, p. 35), a ideia é que um modelo de cálculo, combinação entre lógica simbólica e matemática, no nível de análise, podia representar os processos de informação em animais (humanos e não-humanos) e máquinas. Assim, a estratégia cibernética procurou unificar o estudo de diferentes tipos de sistemas naturais e artificiais de processamento de informação. A partir do ideal cibernético de mecanização dos processos de informação, entre as ciências cognitivas na sua versão funcionalista, por exemplo, isso significou a crença de que a cognição humana supõe a criação de um nível representações cuja análise é completamente independente dos níveis biológico ou sócio-cultural (Gardner, 1985, p. 20). Em particular, nos anos 70, por sua influência racionalista, supostamente, quando se substituiu a 'alma' cartesiana por um software e a glândula pineal por um hardware, a noção de representação teve um papel importante no estudo funcionalista da mente entre as ciências cognitivas. Muitos cientistas cognitivos acreditavam que a mente é um software do cérebro (Block, 1995). Entretanto, o nível de estudo do software (ou nível de representação informacional) não se reduzia ao nível do hardware. De fato, o interesse nas ciências cognitivas não tinha como objeto o estudo da mente a partir do chamado problema ontológico (ou mente-cérebro). Mas, mente e cérebro estão sujeitos a uma dupla descrição matéria ou física, de um lado, e informacional ou funcional, de outro, entre dois níveis (hardware e software) independentes (Andler, 1992/1998, p. 28). A partir do racionalismo cibernético, entre as ciências cognitivas, tem lugar a noção de 'representação mental' como estados internos e referentes a entidades externas ao sistema cognitivo. Assim, o estudo da mente tornou-se estudo da cognição e cognição significava computação (Fetzer, 2000, p. 9, p. 15) - no quadro abaixo desta Introdução, ao longo do desenvolvimento das ciências cognitivas, o paradigma representacionista está presente entre os itens 1 e 2. Varela (1998) emprega a expressão 'paradigma representacionista'. No sentido de Thomas Kuhn (1962/2007), por exemplo, podemos afirmar uma verdadeira mudança de 'paradigmas' nas ciências cognitivas entre representacionismo e não-representacionismo? Talvez sim, talvez não! Andler (1992/1998, p. 28) não hesita e afirma a existência de 'paradigmas concorrentes' e ao representacionismo de Varela ele identifica o 'cognitivismo'. Nos últimos 20 anos, no entanto, o que parece certo é que a perspectiva mudou entre filósofos e cientista cognitivos. O estudo da cognição já não corresponde somente à representação computacional dos processos referentes às atividades cognitivas (e, em particular, linguagem, memória e percepção). De um lado, consciência fenomenal e 1ª pessoa e, de outro, o que acontece fora de um sistema também estão incluídos entre o estudo dos processos cognitivos. Elaborada por Varela (1988, p. 91), por exemplo, a noção de 'enação' caracteriza a 'emergência' ou o 'emergir' da significação como 'acoplamento estrutural' entre organismo e meio (Varela, 1988, p. 110) e, contrariamente, indica uma alternativa crítica ao 'paradigma representacionista' nas ciências cognitivas (Varela, 1996, p. 89). A partir da crítica filosófica continental à representação entre a dissensão fenomenológica (Heidegger e Merleau-Ponty) e o estruturalismo (Foucault), Varela (1988, p. 92-93) designa 'circularidade' a relação entre ação e interpretação. A ideia é tornar predominante a ação sobre a representação ou 'enação' - sistemas cognitivos são ações e interpretações e não representações do mundo. Um possível traço ancestral da noção de enação teria tido lugar na teoria da significação de Uexküll (1956/1982). Aliás, comparativamente, quanto à cognição como 'cognição distribuída' [e não representação], Andler (1992/1998, p. 20) identifica textualmente o biologista von Uexküll [grifo meu]. É inegável, portanto, o papel deste personagem na recente história das ciências cognitivas. O biólogo estoniano Jakob von Uexküll (1864-1944) teria esboçado um tipo de teoria não-representacionista da significação e, implicitamente, um tipo de teoria pragmática da significação. Constituído por 'mundo de percepção' e 'mundo de ação', o Umwelt ou 'mundo-próprio' de um organismo cria ou interpreta o meio a partir de um modo subjetivo e não diretamente acessível à observação externa1. O que é significativo ou 'objeto significante no mundo-próprio' de um organismo é aquilo que tem influência na sua ação no meio. Assim, a partir de uma perspectiva cognitiva, e de acordo com Uexküll, a significação implica ação no mundo (e não representação), o que me parece caracterizar os traços de uma teoria pragmática da significação. Uma teoria pragmática que se mostraria alternativa a certo tipo de realismo implícito nas ciências cognitivas dos anos 70 quanto a suas concepções de significação e cognição - um sistema cognitivo representa adequadamente aspectos do mundo real pré-definido. Aliás, Varela (1988, p. 100-101) já assinala uma possível alternativa de representação pragmática ao representacionismo nas ciências cognitivas que não tem implicações ontológicas ou epistemológicas. A partir da década de 40 do Século XX, é oportuno assinalar, como parte do desenvolvimento da filosofia analítica entre diferentes autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, a crítica e a separação entre significação e representação mental levou à chamada 'virada lingüística-pragmática': analisar como as palavras são usadas e elucidar seu significado e não sua referência a um possível conteúdo mental interno. Assim, a noção de uso das palavras mostrou ser o ponto de partida de uma concepção de significado como correspondência a sua influência prática na ação ou uma concepção de significação sem representação. A significação de alguma coisa é, portanto, determinada por seu uso ou sua utilidade na ação, o que nos remete aos princípios do pragmatismo de Charles S. Peirce e William James. Assim, comparativamente à teoria da significação de Uexküll, uma concepção pragmática da significação assume igualmente a forma de um 'monismo' como já está presente nas visões de Peirce e James (Sharov, 2001, p. 213): as distinções ou as fronteiras de significação como, por exemplo, entre matéria e mente, são operacionais, instrumentais, convenções no sentido de 3ª pessoa ou subjetivas no sentido de um componente de auto-interesse ou utilidade na 1ª pessoa. Isso implica unicamente que, para um organismo, portanto, o interesse ou a utilidade na ação geram as condições de significação e existência de alguma coisa entre as perspectiva de 1ª e 3ª pessoas. Assim, do ponto de vista de Uexküll, há tantos mundos e significação no mundo quanto há sujeitos. Ou, resumidamente, de um ponto de vista pragmático, o significado de uma alguma coisa corresponde ao seu uso e influência na ação ou o que Uexküll designa 'Umwelt' ou 'mundo-próprio' de um organismo. Quadro histórico das ciências cognitivas (Varela, 1988, p. 24): • Anos cibernéticos. • Símbolos: a hipótese cognitivista. • Emergência: uma alternativa à hipótese cognitivista. • Enação: uma alternativa à representação. Assim, ao contrário do paradigma representacionista nas ciências cognitivas, presentes nos itens 1 e 2 acima, a hipótese que desenvolverei aqui parte da referência aos itens 3 e 4. Esta me parece ser uma possível referência histórica e filosófica da teoria pragmática da significação de Uexküll, que coincide com a ideia de 'trabalhar sem representação' de Varela, e indica uma alternativa não-representacionista para as ciências cognitivas. Experiência e significado A Teoria ou Doutrina dos Significados corresponde à Parte II da Teoria dos Mundos-Próprios e, inicialmente, Uexküll (1934/1956, p. 94; 1982, p. 141) considera a eventual transformação nas propriedades dos objetos quando eles entram no mundo-próprio de um organismo. No exemplo proposto por Uexküll, um objeto 'pedra', cujas propriedades são forma, peso, dureza, formação cristalina, etc., tem um significado primário de 'objeto neutro no caminho' ou simplesmente uma pedra no caminho ! Mas quando a pedra entra na relação com um sujeito, ocorre uma transformação no seu significado primário. Agora, ela tem o 'teor de arremesso', quando, por exemplo, se lhe é atribuído a função de instrumento de defesa na eminência do ataque de um cão. De acordo com Uexküll, a transformação no significado tem uma influência direta nas propriedades do objeto. O significado do objeto, com efeito, corresponde à função atribuída a ele no interior de um mundo-próprio. Se considerarmos o processo de significação na ecologia entre organismo e meio, além das propriedades que são características e particulares aos objetos, a transformação do significado corresponde à emergência de uma nova propriedade e que simplesmente não existia antes como, por exemplo, quando uma pedra assume o teor de arremesso. Uexküll (1934/1982, p. 142) assinala que é na relação com o sujeito, i.e., no interior de um mundo-próprio, que podemos ver nos objetos o que os escolásticos chamavam 'propriedades em essentia e em accidentia' (respectivamente propriedades 'essenciais' e 'acessórias'). Nos respectivos vocabulários de Galileu e Locke, comparativamente, essa distinção corresponde às propriedades 'primárias' e 'secundárias' dos objetos. Cores, sons, sabores, odores, etc., são propriedades acessórias dos objetos que, no entanto, são inseridas no quadro da natureza em função do significado atribuído a elas no mundo-próprio de um organismo. Se considerarmos o mundo-próprio do ser humano, cores, sons, sabores, odores, etc., têm significado nesse contexto particular da relação com os objetos e não têm, por outro lado, significado algum no mundo-próprio de certo tipo de morcego. O que entra no mundo-próprio de um organismo é convertido a 'objeto com significado útil'. A ideia de significado útil parece indicar um critério pragmático de relevância quanto à compreensão do significado dos objetos. No sentido de William James, comparativamente, o pragmatismo é uma teoria do significado ou significação e sua influência na ação. Assim, considerada a teoria da significação de Uexküll, um objeto tem uma função enquanto significa algo útil ou biologicamente relevante no interior de um mundo-próprio (como cores, sons, sabores, odores, etc.). Mas a determinação pragmática do significado dos objetos não implica a negação do realismo quanto à existência e ao significado ontológico das propriedades acessórias - 'ser vermelho', por exemplo, é uma propriedade de estados físicos na superfície de certos objetos. No entanto, 'ser vermelho' corresponde a uma propriedade disposicional no interior de certos mundos-próprios no qual ela mostra ter relevância significativa na ação do organismo e sua relação com o meio. A noção de 'propriedades disposicionais' mostra ter tido interesse entre duas áreas recentes da filosofia: filosofia da ciência e filosofia da mente. No primeiro caso, entre as discussões acerca da distinção precisa entre propriedades primárias e secundárias, e, no segundo caso, quanto à significação dos conteúdos mentais. Assim as propriedades disposicionais como, por exemplo, solubilidade, fragilidade e elasticidade, que só se mostram sob certas circunstâncias particulares, como, por exemplo, imersão em líquido ou pressão, igualmente os verbos psicológicos como crer, desejar, esperar, sentir, etc., significariam uma disposição de ação e não a existência de conteúdos internos dos estados mentais (Ryle, 1949/2005, p. 209). Alguém crê, deseja, espera ou sente alguma coisa sob certas circunstâncias. Assim, de acordo com Ryle, o que determina o significado dos conteúdos mentais são certas disposições de ação e não a existência de conteúdos mentais internos. Nos anos 40, desenvolveu-se uma nova virada lingüística agora intitulada 'virada lingüística-pragmática' na recente tradição analítica da filosofia. Além da crítica e separação entre representação e significação, diferentes autores como Austin, Ryle e Wittgenstein procuravam explorar as propriedades pragmáticas da linguagem cuja característica fundamental se remete à relação entre um termo, seu uso e sua influência na ação. A hipótese linguística-pragmática é que a significação não depende de representação pré-definida e apresenta uma concepção de significação sem representação - significar não corresponde à representação mental de alguma coisa. Assim, por exemplo, Austin (1980, p. 34) introduz a noção de erro gramatical e desloca o problema de caracterização dos conteúdos mentais internos do nível ontológico ao nível linguístico. No sentido de Austin, portanto, o problema não é o que é, mas o que significa os termos mentais visto que o termo 'mente' não corresponde à realidade ontológica de uma coisa mental ou física. Aqui, comparativamente, talvez seja oportuno mencionar a noção de 'erro categorial' de Gilbert Ryle (1949/2005). Do ponto de vista de Ryle, quando se considera a 'mente' uma coisa material ou imaterial, e se lhe aplicam categorias ontológicas fisiológicas ou psicológicas, comente-se um erro categorial. Os termos mentais, e, usualmente, são os verbos da psicologia popular (crença, desejo, intenção, sentimento, etc.), referem-se à disposição de ação e não a supostos estados internos de uma coisa material ou imaterial. Assim, por exemplo, crer ou sentir alguma corresponde à disposição de ação sob certas circunstâncias: 'A crê ou sente X, sob a circunstância C'. De certo modo, a concepção de propriedades disposicionais caracteriza uma dissolução do problema mente-corpo. Na análise conceitual de Ryle, portanto, 'mente' corresponde ao conjunto de termos referentes à descrição da ação e não à existência de alguma coisa material ou imaterial. Austin (1949/1980, p.38), por exemplo, argumenta contra o que ele designa 'falácia descritiva' e defende que os enunciados não têm apenas (ou essencialmente) a propriedade descritiva, mas, eles têm também um caráter performativo - a ideia reflete a máxima da tese de Austin que afirma 'dizer é fazer'. Aliás, entre o início e meados do Século XX, por influência do Círculo de Viena, a análise lingüística dos termos filosóficos se remetia unicamente às proposições descritivas e redutíveis ao cálculo proposicional. Mas, a partir da crítica à falácia descritiva de Austin, em particular, tem início a chamada 'virada linguística-pragmática' na análise da linguagem: analisar como as palavras são usadas e elucidar seu significado. Assim, a análise visa identificar as propriedades pragmáticas da linguagem quando se estabelecem as relações entre as palavras e seu uso. De acordo com Austin, ao nível pragmático ou performativo das propriedades lingüísticas corresponde, portanto, o uso das palavras por sujeitos falantes. Assim, comparativamente, além das características pragmáticas da teoria da significação de Uexküll, ela parece também assimilar a noção de propriedades disposicionais. Uma coisa torna-se 'objeto significante' no interior de um mundo-próprio, se e somente se ela mostra utilidade na ação do organismo e sua relação com o meio. A atividade significante do organismo não implica, no entanto, uma representação interna do objeto. No exemplo da teia de aranha, Uexküll (1934/1982 p. 163) mostra que a teia é um 'protótipo' do objeto. No trabalho de construção da teia, a aranha atribui a ela a função de significar o objeto (ou a mosca). Como 'réplica', a teia significa e não representa a mosca porque, evidentemente, elas não têm entre si a menor semelhança. Protótipo ou réplica é o que se designa no vocabulário da Semiótica de Peirce um 'índice'. Como um tipo de signo, um índice significa um objeto por referência a uma possível relação causal com ele (Araújo, 2010, p. 61-2). Assim, na teoria de Uexküll, a significação não implica representação do objeto. E o que parece determinar a significação de um objeto é a disposição da ação no mundo-próprio do organismo - a teia significa (e não representa) mosca no mundo-próprio da aranha. Sharov (2001, p. 214), por exemplo, assinala a 'virada biológica de Uexküll no pragmatismo'. A partir da referência ao pragmatismo de Charles S. Peirce, William James e John Dewey, 'o que define as distinções e os limites de um sistema é subjetivo no sentido de que eles são operacionais, instrumentais ou convencionais'. Assim, as distinções ou os limites têm um significado subjetivo dado que, a princípio, este caracteriza 'auto-interesse' ou 'utilidade' para um organismo ou um sistema e, portanto, parcialmente predicável. Como se apresenta no exemplo teia e aranha é a utilidade da primeira que implica a atividade de significação do objeto 'mosca' no mundo-próprio da segunda. Uexküll não parecia ter conhecido James ou Peirce, embora pareça claro que sua teoria da significação evoque traços nitidamente pragmáticos e semióticos. O que ele considera essencial na significação é a utilidade do objeto na ação do organismo (Uexküll, 1934/1982, p. 142-143). Assim, como assinala Sharov (2001, p. 215), enquanto a semiótica de Peirce se aplica ao indivíduo capaz de usar signos, Uexküll aplica seu pragmatismo aos diferentes tipos de organismo vivos e inclusive células individuais. Talvez, resumidamente, se possa dizer que a semiótica de Peirce seja um caso particular da pragmática de Uexküll. Significação e ciclo de função Um elemento fundamental da teoria de Uexküll é o que ele designa 'ciclo de função'. Pode-se dizer que o ciclo de função é um 'modelo' ou uma 'estrutura' (Dupuy, 1996, p. 23): um objeto abstrato ou formal que estrutura outros objetos e, com efeito, constitui um sistema de relações funcionais. Figura 1 - 'Ciclo de função' - Funktionskreis ou functional cyrcle nas versões originais em alemão (esquerda) e inglês (direita) (Kull, 2001; Uexküll, 1934/1982, p. 36; Uexküll, 2004, p. 9). Nota-se no esquema do ciclo de função uma clara distinção entre Innerwelt, Internal world ou mundo interno e o Umwelt estruturado entre percepção e ação do organismo em torno do objeto. O ciclo de função desempenha um duplo papel de descrever igualmente as características objetivas e subjetivas da experiência ou comportamento de um organismo. Assim, no célebre exemplo de Uexküll (1934/1982, p. 144-5), um talo do ramo de uma flor tem, respectivamente, quatro possíveis significados dado a relação funcional entre certo organismo e ele: para uma moça, o talo significa 'adereço de cabeça'; para uma formiga, o meio de alcançar o topo; para uma larva, material de construção de seu abrigo; e, finalmente, para uma vaca, fonte de alimentação. Como forma ou estrutura, o ciclo de função descreve diferentes mundos-próprios e sua relação de significação com um objeto. Temos, com efeito, a seguinte equação: Diferentes mundos-próprios, diferentes significados possíveis de um mesmo objeto. Do ponto de vista de Uexküll (1934/1982, p. 154), portanto, 'o ciclo de função como ciclo de significação' descreve, na percepção e ação, a correlação funcional entre o corpo do organismo e o objeto. A ideia principal do ciclo de função talvez seja que os componentes de um mundo-próprio têm um significado funcional referente a certo organismo particular e, portanto, 'o problema primacial é o significado [e não] ... investigar os processos causais, que são sempre extremante limitados' (Uexküll, 1934/1982, p. 155). Uexküll (1934/1982, p. 165; 1956, p. 116), com efeito, era pouco simpático ao tipo de explicação 'mecanicista', designada por ele assim - nos últimos 50 anos, diríamos explicação fisicalista - e talvez tivesse interesse por um tipo de explicação funcionalista da relação entre organismo e meio. O ciclo de função mostra a relação funcional entre organismo (ou receptor) e objeto (ou portador) de significação e, assim, descreve objetivamente o mundo-próprio subjetivo de um organismo. Não interessa tanto à explicação funcionalista de Uexküll a base material ou física de realização das atividades do organismo. Ela é abstraída da explicação. O que interessa é que o ciclo de função determina a estrutura funcional de diferentes organismos e sua relação com os objetos do meio. O ciclo de função descreve o mundo-próprio como um campo de significação: o objeto torna-se significativo ou 'objeto significante' no interior de um mundo-próprio. Assim, o interesse ou a utilidade geram na ação as condições de significação e existência de alguma coisa independentemente de uma representação externa ao organismo porque, de um ponto de vista pragmático, por exemplo, as distinções ou os limites entre organismo e meio são subjetivos (i. é, operacionais, instrumentais ou convencionais). O ponto importante da concepção pragmática de significação de Uexküll me parece ser igualmente que ela coincide com a crítica da filosofia analítica à noção de representação. Um organismo significa e não representa ou cria uma cópia interna do objeto porque, exatamente, a significação corresponde à relação prática entre organismo e objeto no interior de um mundo-próprio. No contexto da crítica analítica à representação, por exemplo, é oportuno assinalar aqui um pequeno ensaio de Ryle (1954/1993, p. 149) dedicado à análise conceitual da 'percepção'. De um ponto de vista tradicional, a percepção corresponde à ocorrência de eventos internos fisiológicos ou psicológicos. Mas, ao contrário, Ryle empreende uma análise conceitual da percepção, exatamente nos termos semelhante a sua 'análise do conceito de mente' (Ryle, 1949/2005), e procura mostrar que perceber corresponde a significar alguma coisa. Assim, por exemplo, verbos como 'ver' e 'ouvir' teriam função semelhante a 'vencer' um jogo. Influenciado por Wittgenstein, de acordo com Ryle, a partir de certas regras, 'ver' e 'ouvir' realizam processos de significação e não representações internas de condições fisiológicos ou psicológicos de percepção. E igualmente aos termos do 'erro categorial', identificado na análise conceitual da mente, a 'fonte do erro' consiste em supor que se possam descobrir processos internos fisiológicos ou psicológicos 'por trás das pálpebras' correspondentes à percepção de alguma coisa (Ryle, 1954/1993, p. 159; 161). "O que espero é mostrar que existe algo que está drasticamente errado em todo programa de tentar catalogar minha visão de uma árvore como o estágio fisiológico ou psicológico final de processos (...) Não é um fenômeno intratável ou oculto, nem mesmo um fenômeno, introspectivo, porque não é fenômeno nenhum." (Ryle, 1954/1993, p. 163) De acordo com Ryle, portanto, o que determina a significação de alguma coisa é certa disposição de ação e não necessariamente a ocorrência de eventos internos no organismo. No exemplo do talo flor de Uexküll, comparativamente, o que determina a significação é a relação prática no interior de um mundo-próprio particular - constituídos entre percepção e ação, mundos-próprios são significações e não representações do mundo. A significação tem, no entanto, também um poder causal na ação do organismo, o que me parece satisfazer o critério funcionalista de eficácia causal das propriedades internas de um sistema (e Fodor diria a eficácia causal das propriedades mentais) - organismos percebem e agem no mundo. De modo semelhante, portanto, a concepção de significação de Uexküll parece coincidir com o princípio geral da 'virada pragmática' na filosofia analítica: a concepção de linguagem como uma forma de ação e não de representação da realidade. Embora pouco simpático a explicações mecanicistas na biologia, como zoologista, evidentemente, Uexküll não ignorava o significado da fisiologia ou os elementos temporais da análise evolucionista no estudo do mundo animal. No entanto, creio, ele parece estar comprometido com um tipo de análise estrutural do organismo por referência à relação fundamental entre mundo-próprio e significação. Assim como me parece, no sentido de Uexküll, a análise da relação mundo-próprio e significação indica a possibilidade de uma alternativa entre os campos funcional e evolutivo da biologia contemporânea. Ao contrário das explicações por causas proximais ou distais, respectivamente, explicações fisiológicas e evolutivas, Uexküll parece estar interessado no tipo de relação funcional entre o mundo-próprio e o meio. Apresentada no esquema do ciclo de função, em particular, a significação consiste na correlação estrutural entre organismo, objeto e meio (ver ilustração 1). Assim, do ponto de vista de Uexküll, o ciclo de função se mostra além do reducionismo das causas proximais da biologia fisiologista ou a determinação temporal das causas distais na biologia evolutiva no estudo dos organismos vivos. Homologia tem sido uma noção central na biologia evolutiva e significa a semelhança entre estruturas de diferentes organismos em relação unicamente a uma mesma origem embriológica. As estruturas homológicas podem ter ou não a mesma função. O braço do homem, a pata do cavalo, a asa do morcego e a nadadeira da baleia são estruturas homológicas entre si em função da mesma origem embriológica. Mas, não há similaridade funcional entre elas. A homologia entre estruturas de dois organismos diferentes sugere que eles se originaram de um grupo ancestral comum, embora ela não indique um grau de proximidade comum: exemplos de estruturas homólogas são o braço do homem, a pata dianteira do cavalo, a asa do morcego e nadadeira da baleia. Entre diferentes organismos, ao contrário de estruturas homólogas e independente de origem embriológica, por exemplo, a noção de estruturas análogas refere-se à semelhança entre estruturas adaptadas à execução de uma mesma função - exemplos de estruturas análogas são asas nos insetos e aves ou tubos respiratórios e pulmões que, embora tenham diferentes origens embriológicas, têm a mesma função biológica: exemplos de estruturas análogas são a asa do inseto e a asa da ave. A analogia caracteriza a semelhança entre diferentes organismos unicamente como adaptação a uma mesma função. Assim, e independente da origem embriológica e determinação genética dos organismos, comparativamente, o que me parece ser crucial assinalar aqui é que mundos-próprios podem ser considerados a expressão de estruturas análogas - e, comparativamente a uma visão funcionalista, entre diferentes organismos, os respectivos mundos-próprios têm a mesma função biológica fundamental como campos de significação. Assim como os funcionalistas não são partidários de explicações por padrões de homologia, do ponto de vista de Uexküll, igualmente, algo só significa alguma coisa no interior de um mundo-próprio e, portanto, a significação não pode ser determinada fora de um campo funcional de significação. E ainda, comparativamente à noção de estruturas análogas, pode-se afirmar que a implementação funcional de diferentes mundos-próprios satisfaz ao chamado princípio da 'múltipla realização'. De fato, pode-se ver o ciclo de função, por exemplo, como uma forma ou uma estrutura comum aos diferentes tipos de organismos. Independentemente do tipo de base física ou material, portanto, mundos-próprios têm a mesma função como campo de significação entre diferentes organismos. O que determina um ciclo de função são disposições funcionais e, conseqüentemente, a constituição material ou física do organismo tem um papel secundário. Princípio da Múltipla Realização: MP = R1 v R2 v R3 ... v Rn MP: mundo-próprio. R1, R2, R3, ... Rn: múltipla realização. O princípio da múltipla realização tem sido um argumento influente contra as teorias da identidade na filosofia da mente e um forte argumento a favor do funcionalismo. Muitos filósofos (Putnam, 1967/1980) têm adotado a múltipla realização como uma alternativa não-reducionista ao reducionismo psicofísico. Em particular, é importante destacar o caráter disjuntivo do princípio da múltipla realização ao contrário da identidade reducionista psicofísica (por exemplo, 'certo tipo de dor' = 'ativação das fibras-C'). Parece plausível afirmar que, comparativamente, mundos-próprios (acima indicado MP) podem ser realizados por diferentes organismos (acima indicado R1 v R2 v R3 ... v Rn) ou eles são multiplamente realizáveis. Um traço do funcionalismo do ciclo de função de Uexküll pode ser notado na seguinte passagem: "O fim é igual, mas, o meio é diferente ... Os meios morfogenéticos usados para permitir que os diferentes animais possam subir por uma parede lisa são variados, embora conduzam todos ao mesmo fim: ultizar como caminho o objeto significante - a parede lisa (Uexküll, 1934/1982, p. 160)... A determinação de significado é sempre a mesma, só muda radicalmente a determinação morfogenética." (ibidem, p. 161)2 Assim, comparativamente ao mundo-próprio como um tipo de estrutura analógica e funcional, parece oportuno assinalar a noção de 'acoplamento estrutural' de Varela e que, curiosamente, mostra a comparação entre dois mundos-próprios e seus respectivos campos de significação e realização múltipla: "Formulé autrement: l'historique bien différent du couplage structurel des oiseaux et des primates a fait-émerger un monde de pertinence pour chacun d'eux qui est inseparable de leur vécu" (Varela, 1988, p. 110). Assim, do ponto de vista de Varela, a noção de 'enação' caracteriza a 'emergência' ou o 'emergir' da significação como 'mundo de pertinência' a partir do acoplamento estrutural entre organismo e meio e, comparativamente, no sentido de Uexküll, embora distintos entre si, por exemplo, entre pássaros e primatas, os mundos-próprios têm igual função biológica de determinar distintos campos de significação ou eles são multiplamente realizáveis. A noção de 'vivido' na citação de Varela acima ('vécu'), igualmente, parece indicar a possível caracterização fenomenológica de diferentes experiências de mundo ou aquilo que caracterizaria uma interpretação particular do mundo. Da noção de 'enação' ou 'emergir', portanto, e ao contrário da 'cognição como representação adequada de um mundo exterior pré-determinado', Varela (1988, p. 90-1, 98) retoma o sentido de 'senso comum' e assinala que os critérios de pertinência cognitiva são contextuais e criativos - a cognição é atividade criativa, sensível ao contexto e incorporada. A partir da crítica filosófica à representação e da noção de corporeidade de Merleau-Ponty, Varela (1993, p. 18) estabelece os princípios da 'cognição incorporada': 'Pour Merleau-Ponty, dès lors, comme pour nous, la corporéité possède un double sens: elle designe le corps à la fois comme strucuture vécue et comme contexte ou lieu des mécanismes cognitifs'. De um lado, entende-se a corporeidade como experiência vivida no sentido fenomenológico e, de outro, como estrutura cognitiva. Aliás, é interessante destacar aqui que Merleau-Ponty (1957-8/2000, p. 271) já assinalava o significado filosófico que a noção de mundo-próprio de Uexküll poderia ter além da clássica distinção cartesiana entre alma e corpo. Lacuna explicativa e ciclo de função Talvez aqui pudéssemos ter uma possível alternativa de revisão do problema 'explanatory gap' ou 'lacuna explicativa' na filosofia da mente. De um ponto de vista tradicional, o problema tem origem a partir da disjunção e distinção ontológica entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas e sua conseqüente assimetria epistemológica: embora o traço distintivo de uma experiência mental (ver, perceber, sentir, etc.) seja uma característica de 1ª pessoa, o acesso a ela está limitado a uma descrição de 3ª pessoa. No contexto da filosofia da mente, a expressão 'experiência mental' é eventualmente designada 'consciência fenomenal'. De fato, a lacuna explicativa é um problema epistemológico. Se, por exemplo, considerado o problema mente-corpo, estados mentais são realmente estados físicos, ainda assim não se sabe como isso possa explicar o traço distintivo de uma experiência mental (ver, perceber, sentir, etc.) por meio da descrição das propriedades físicas do cérebro. Dado que, por exemplo, 'ter certa dor' é ou é idêntico à 'ativação das fibras-C' ou ela corresponde a certo estado funcional, de fato, isso não nos mostra nada quanto ao significado de ter uma experiência de sentir dor ou a consciência fenomenal de dor. Do ponto de vista fisicalista, por exemplo, se consideramos o termo 'dor' (e), ele significa 'experiência de sentir' (q) ou 'ativação das fibras-C' (p). Mas, como a experiência de sentir dor não é senão ativação das fibras-C, então, 'dor' significa ativação das fibras-C: e â†' (p v q) e p = q; logo, s â†' p. Assim, temos uma 'lacuna explicativa' entre o físico e o mental. A explicação fisicalista de 'dor' elimina o sentido fenomenológico de sentir dor da descrição da experiência de dor e 1ª e 3ª pessoas são, portanto, realidades ontologicamente distintas e disjuntivas. Aliás, como assinala Gardner (1995, p. 20), e dado o problema da lacuna explicativa, entre as ciências cognitivas, por exemplo, uma estratégia tem sido excluir metodologicamente aspectos subjetivos, afetivos, emocionais ou fenomenais do estudo da cognição - 'qualia' ou 'o que é ser como' têm sido eventualmente alguns termos dados ao traço distintivo de uma experiência mental ou consciência fenomenal e excluídos do estudo da cognição. O modo como certas coisas parecem ser na experiência significa o que é ter uma experiência mental dessas coisas (aparência, sonoridade, cheiro, gosto, etc.) e que não parecem física ou funcionalmente relevantes no estudo da cognição. Muitos filósofos, comparativamente, consideram existir uma lacuna explicativa entre a característica mental ou fenomenal de uma experiência e a descrição dos mecanismos físicos e biológicos geradores dessa característica no cérebro (Chalmers, 1996). O problema está, portanto, no fato de que enquanto a característica mental ou fenomenal de uma experiência tem ontologia na 1ª Pessoa, nosso acesso a ela está limitado a uma descrição física ou funcional da atividade cognitiva do cérebro na 3ª Pessoa. De fato, desde a navalha de Okcham aplicada por diferentes estratégias fisicalistas, e inclusive estratégias funcionalistas, o problema da lacuna explicativa parece resultado de uma decisão metodológica de excluir da descrição da atividade cognitiva o que caracteriza os aspectos subjetivos, afetivos, emocionais ou fenomenais porque exatamente eles não teriam acomodação entre as descrições físicas ou funcionais das propriedades do cérebro - a descrição da experiência elimina a própria experiência! Não apenas agora, mas, a princípio, nunca a descrição de uma experiência na 3ª Pessoa vai reproduzir as características de 1ª pessoa da atividade cognitiva ou o que é ter uma experiência. E, de fato, não parece ser o caso. Mas a impossibilidade de reprodução das características de 1ª pessoa não implica sua eliminação do estudo da atividade cognitiva. Um tipo de esquizofrenia filosófica parece motivar o problema da lacuna explicativa quando ele é tido como o abismo a uma realidade inacessível ou como algo misterioso na própria experiência (Chalmers, 1996). Aliás, Chalmers é um exemplo claro da esquizofrenia filosófica (Searle, 1997, p. 145). Entre filósofos da mente que são simpáticos às estratégias cognitivistas, Chalmers é um exemplo claro. De acordo com ele, enquanto 'a cognição parece funcionalmente explicável, a consciência [fenomenal] resiste a uma explicação funcionalista' (Chalmers, 1996, p. 172). De um lado, ele advoga a impossibilidade de acomodação e acesso na 3ª pessoa às condições da experiência na 1ª pessoa; de outro, e ao mesmo tempo, afirma as condições funcionais de caracterização da atividade cognitiva. De uma perspectiva fisicalista, comparativamente, o problema da lacuna explicativa se mostra como parte de uma estratégia de explicação que exatamente exclui da explicação o que torna cognitiva uma atividade do cérebro. Que alternativa teríamos de lidar com a lacuna explicativa diante desse quadro de esquizofrenia filosófica? Eu diria que uma estratégia de explicação da atividade cognitiva que não inclua a perspectiva de 1ª pessoa não é completa. O ciclo de função de Uexküll caracteriza um modelo pragmático de significação de uma experiência e significação sem representação a partir da descrição de 3ª pessoa. O cérebro é, por exemplo, um sistema dinâmico e interativo com o mundo. Um mundo de significação emerge e se abre aos diferentes mundos-próprios - o estudo da atividade cognitiva do cérebro não está separado de um mundo-próprio que concede a ela significação. Assim, a enação (Varela, 1988, p. 112) corresponderia à emergência de um mundo de distintas significações comparativamente aos distintos modos de experiência ou, no sentido de Uexküll, aos distintos mundos-próprios. Igualmente, assim como me parece, o ciclo de função mostra características semelhantes à noção de enação, como acoplamento estrutural entre organismo e meio avançada por Varela, e que, portanto, incluiria a perspectiva de 1ª pessoa. Mas, é importante assinalar aqui a distinção entre dois sentidos de 'representação' indicados por Varela (1988, p. 99-0): (1) 'representação do estado do mundo'; e (2) 'noção pragmática de representação'. De acordo com Varela, no primeiro sentido, temos um tipo de concepção realista de representação cuja significação corresponde a uma assimilação interna de um mundo pré-determinado - 'um sistema opera a partir de representações internas' (Varela, 1988, p. 99). A chamada 'metáfora do computador' talvez seja o que ilustra melhor o imperativo de determinação entre representação e significação nas ciências cognitivas. Assim como o próprio sistema, a significação depende de representações internas já pré-definidas. Aliás, ao contrário de Ryle e Wittgenstein, Jerry Fodor (1978) parece sustentar, ao modo de um internalismo cartesiano, que as explicações do significado dos conteúdos mentais dependem do reconhecimento de representações internas, privadas e pré-definidas de um sistema. "L'hypothèse cognitiviste prétend que la seule façon de rendre compte de l'intellegence et de l'intentionnalité est de postuler que la cognition consiste à agir sur la base de représentations qui ont une réalité physique sous la forme de code symbolique dans le cerveau ou une machine ... L'hipothèse est donc que les ordinateurs offrent um modèle mécanique de la pensée, ou, en d'autres mots, que la pensée s'effectue par une computation physique de symboles." (Varela, 1988, p. 38-9) No segundo sentido, ao contrário, uma noção pragmática de representação destitui a assimilação interna de um mundo pré-determinado e a significação se constitui como circularidade entre ação e interpretação - 'a representação pragmática não veicula implicação epistemológica ou ontológica' (Varela, 1988, p. 100). Aliás, uma circularidade ação e interpretação que, de modo semelhante, o ciclo de função descreve como o mundo-próprio de um organismo entre seus campos de percepção e significação - ver exemplo do talo da flor: é a ação e a interpretação do organismo que determina a significação do talo. Assim, comparativamente, do ponto de vista de Varela, a partir da noção pragmática de representação, a ideia é tornar predominante a ação sobre a representação ou 'enação' - sistemas cognitivos constituem ações e interpretações e não representações de um mundo pré-determinado. E de acordo com o modelo do ciclo de função de Uexküll, a noção de circularidade entre ação e interpretação avançada por Varela se mostra como uma possível alternativa de lidar com o problema da lacuna explicativa. O que parece ser crucial na teoria da significação de Uexküll, portanto, é que a noção de 'mundo-próprio' caracteriza objetivamente no comportamento a característica subjetiva da experiência de mundo de um organismo. Assim, as distinções ou os limites de um organismo ou sistema têm um significado subjetivo no sentido de que são operacionais, instrumentais ou convencionais entre dois domínios distintos de significação. Como descrição de diferentes mundos-próprios, o ciclo de função tem uma dupla função ou circularidade entre o que se designam os pontos de vista de 1ª e 3ª pessoas - ver Ilustração 1. Do ponto de vista de 1ª pessoa, por exemplo, as distinções e os limites são, de fato, subjetivas e parcialmente predicáveis no sentido de que são determinadas a partir do ponto de vista de um organismo - de novo, ver exemplo do talo de flor. Quanto ao ciclo de função, no sentido do ponto de vista de 1ª pessoa, portanto, temos as seguintes alternativas: • Alternativa que não aceita modelos determinísticos ou probabilísticos, i.e., é um modelo 'observador-independente'; • Concepção de determinismo subjetivo (como expectativa ou meta de um sujeito) - organismos e sistemas cognitivos são intérpretes de 1ª ordem. Do ponto de vista de 3ª pessoa, no entanto, o ciclo de função caracteriza os limites e as distinções a partir de observadores externos e, comparativamente ao ponto de vista de 1ª pessoa, são também operacionais, instrumentais ou convencionais. Mas, no sentido da 3ª pessoa, a diferença é que os limites ou as distinções são interpretações de interpretações de 1ª ordem. Para Uexküll, comparativamente, o problema primordial consiste em saber como um observador pode reconhecer, decodificar ou representar sem distorcer os processos de significação característicos dos diferentes mundos-próprios. Segunda Cibernética e lacuna explicativa Aqui, me parece oportuno citar uma referência de Varela na Introdução ao trabalho do biofísico austríaco Heinz von Foerster (1984, p. xiii) sobre 'sistemas auto-observantes' cuja característica fundamental mostra uma 'coerência interna' ou 'eigenbehaviour' (ou 'comportamento próprio' - um neologismo entre 'eigen' do alemão e 'behaviour' do inglês). Como nome expressivo da história recente da cibernética no Século XX, a partir da década de 60, Foerster é considerado o inventor da 'cibernética de segunda ordem', ou 'cibernética da cibernética'. No sentido da cibernética de segunda ordem, portanto, o investigador é parte do sistema investigado. O investigador precisa estar ciente de que nunca pode ver como um sistema funciona a partir de uma visão exterior a ele porque está associado ciberneticamente ao sistema observado: quando um investigador observa um sistema, ele afeta e é afetado por ele. As ciências cognitivas entre 1ª e 2ª Cibernéticas: Entre 1ª e 2ª Cibernéticas, as ciências cognitivas se desenvolvem entre paradigmas representacionalista e não-representacionalista. No primeiro paradigma, Varela (1988, p. 14-15) considera ser o domínio ortodoxo das ciências cognitivas. Grande parte das ideias de Varela teve a influência decisiva de Foerster e ele mesmo reconhece sua dívida. Se, como assinala Varela (1984, p. xviii), a 'primeira cibernética' corresponde ao estudo de 'sistema observados' e supostamente, associados à noção de representação, ao contrário, na 'segunda cibernética', o estudo tem como objeto 'sistema observantes'. E 'objeto' significa 'sinais de eigenbehaviour' e não uma realidade dada à representação objetiva de um observador exterior. No sentido de Foerster (1984, p. 2; 5-7), por exemplo, embora não seja representacional, a relação entre sistemas observantes e meio é estrutural, o que nos remete, novamente, ao ciclo de função de Uexküll, i.e., a significação é resultado de uma relação funcional entre organismo e meio. Assim, na teoria pragmática da significação de Uexküll, comparativamente à cibernética de segunda ordem, o ciclo de função tem o duplo papel de caracterizar as distinções e os limites ente os pontos de vista de 1ª e 3ª pessoas: de um lado, é a caracterização de uma experiência vivida no sentido fenomenológico (e sinal de eigenbehaviour); e, de outro, é a caracterização dos mecanismos cognitivos de um organismo ou um sistema (e o observador como parte do objeto observado). O ciclo de função, portanto, toma a forma de um conceito-operador de caracterização operacional, instrumental ou convencional entre dois domínios de distintas significações. Assim, comparativamente ao desenvolvimento da cibernética como parte do desenvolvimento da teoria dos sistemas, me parece razoável afirmar que mundos-próprios constituem sistemas observantes e sinais de eigenbehaviour. E considerando o desenvolvimento da cibernética de segunda ordem, é exatamente o duplo papel do ciclo de função que indica e se aproxima de uma possível 'alternativa à representação' e a estratégia de 'trabalhar sem representação' nas ciências cognitivas (Varela, 1988, p. 113). A partir do duplo papel do ciclo de função, portanto, Uexküll procura estabelecer conceito-operador de caracterização do comportamento animal além da clássica distinção cognitivista entre 'descrição' e 'existência' (Berthoz & Petit, 2006, p. 45). De um lado, a caracterização na 3ª pessoa como descrição do comportamento e, de outro, no sentido da 1ª pessoa, a caracterização da existência como experiência. Como vimos acima, o problema da lacuna explicativa é a oposição entre 1ª e 3ª pessoas no estudo da atividade cognitiva. Mas, ao contrário, o duplo papel do ciclo de função entre descrição e existência parece sugerir o que Varela (1988, p. x) designa 'uma circulação entre uma primeira pessoa e um discurso externo à experiência humana'. Existência teria o sentido de experiência na 1ª pessoa enquanto descrição significaria o discurso na 3ª pessoa. Como assinalado anteriormente, de acordo com uma visão pragmática, para um organismo ou um sistema, as fronteiras ou os limites de significação são sempre instrumentais, operacionais ou convencionais entre 1ª ou 3ª pessoas. Talvez tivéssemos aqui uma possível alternativa de lidar com esquizofrenia filosófica da lacuna explicativa. Para as ciências cognitivas, de acordo com Varela, portanto, o que significaria a circulação entre 1ª e 3ª pessoas? A princípio, ela significaria uma estratégia não-representacionista. Ao invés de representação, a ação cognitiva é sempre interpretação pragmática ou significação entre as distinções ou os limites de dois domínios. Por exemplo, Uexküll afirma que o trabalho do biólogo consiste em investigar o 'sujeito' dos diferentes mundos-próprios. Assim, considerando as distinções e os limites no esquema do ciclo de função, o que significa o sujeito senão um domínio de 1ª pessoa ou característica de uma experiência de mundo? E quanto ao trabalho do biólogo? Dado a perspectiva de 3ª pessoa, ele significa o domínio de descrição objetiva do comportamento. A partir da noção de duplo sentido da corporeidade tirada de Merleau-Ponty, comparativamente, o duplo papel do esquema do ciclo de função entre 1ª e 3ª pessoas parece indicar o que Varela (1993, p. 18-19), respectivamente, assinala ser a 'circulação entre ciências cognitivas e experiência humana'. De acordo com Varela (1993, p. 36), portanto, do ponto de vista da enação, a circulação entre experiência e ciências cognitivas torna-se central. Ao contrário das estratégias representacionalistas, como, por exemplo, entre neurocientistas cognitivos, cognição e experiência são realidades separadas - estuda-se a cognição a partir da análise das propriedades neurofuncionais do cérebro independentemente de nossa interação com ele. E o cérebro é um sistema dinâmico e constantemente interativo com o mundo. Ainda de acordo com Varela (1993, p. 36-37 - Figure 1.4), portanto, 'uma descrição científica, que seja biológica ou mental, é ela mesma um produto da estrutura de nosso próprio sistema cognitivo'. O que a descrição científica mostra é nossa atividade reflexiva a partir de um 'plano de fundo' de nossas experiências e práticas biológicas ou culturais. E, comparativamente, na 'cibernética de segunda ordem' ou 'cibernética da cibernética' de Foesrter, o investigador é parte do sistema investigado e constituem ambos partes de um sistema cognitivo entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas. Significação e circulação entre 1ª e 3ª pessoas Assim, creio, é possível uma alternativa ao problema da lacuna explicativa e a significação de uma experiência entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas. Ao invés de determinar as condições de possibilidade de significação de uma experiência a partir de critérios externos a ela, de fato, a distinção de significado entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas mostraria ser conceitual e não ontológica: o conceito de uma coisa (por exemplo, 'dor') teria dois modos de significação ou referência: E = 'dor'; p = significado fenomenológico de dor na 1ª pessoa (ou experiência de sentir certo tipo de dor); ou q = significado epistemológico de dor na 3ª pessoa (ou descrição da ativação das fibras-C). Logo, 'dor' significa uma experiência de sentir alguma coisa ou ativação das fibras-C: [e -> (p v q)]. A significação de 'dor' se mostra entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas e, no entanto, não implica uma distinção ontológica entre ambas - 'p' e 'q' são modos complementares de significação de uma única realidade 'E'. A noção de modos complementares de significação mostraria uma alternativa à concepção tradicional da lacuna explicativa como resultado da distinção ontológica entre as perspectivas de 1ª e 3ª pessoas. Ao invés da distinção ontológica, 1ª e 3ª pessoas correspondem a distintos níveis de significação. No período entre o 'Tractatus Lógico-Philosophicus' (1922) e as 'Investigações Filosóficas' (1952), aqui, comparativamente, talvez seja oportuno assinalar uma parte da 'filosofia da psicologia' de Wittgenstein referente à assimetria de uso dos verbos psicológicos entre 1ª e 3ª pessoas. Além do tema da assimetria, a filosofia da psicologia de Wittgenstein corresponde ao estudo do comportamento dos verbos psicológicos e sua referência ao conteúdo interno de uma experiência entre 1ª e 3ª pessoas. Assim, por exemplo, seria o caso de um uso dos verbos psicológicos em que não haveria uma 1ª pessoa, um 'eu' ou um 'si mesmo' ontologicamente distinto da 3ª pessoa: "Uma linguagem na qual 'acredito que p' é expresso apenas através do tom de voz da afirmação 'â"œ p '. Em vez de 'Ele acredita...', diz-se aí 'Ele está inclinado a dizer...' e existe também a hipótese 'Suponhamos que eu estava inclinado a dizer...', mas não uma expressão 'Estou inclinado a dizer...'" (Wittgenstein, 2007,.§83) O que se nota na citação de Wittgenstein é que, por exemplo, o uso do verbo 'acreditar' entre duas sentenças 'Ele está inclinado a dizer' e 'Estou inclinado a dizer' mostra que os conteúdos expressos são simétricos entre 1ª e 3ª pessoas. Assim, a distinção de significado entre as 1ª e 3ª pessoas mostraria ser conceitual, não ontológica e não implicaria a existência de um 'eu' accessível introspectivamente a si mesmo. De fato, Wittgenstein parece indicar uma possível dissolução ontológica entre 1ª e 3ª pessoas a partir da noção do uso significativo dos verbos referentes a conteúdos psicológicos. É um aspecto importante. Por exemplo, um uso do termo 'dor' significa dizer 'dor' e não o que é o sentido ontológico da experiência de dor entre 1ª e 3ª pessoas. Não sei se é uma expressão precisa minha aqui, mas, talvez, seja um tipo de 'neutralismo ontológico' o que a filosofia da psicologia de Wittgenstein sugere quanto ao significado dos verbos psicológicos entre 1ª e 3ª pessoas. Aliás, ao empreender uma análise conceitual dos termos mentais, como um bom wittgensteiniano, comparativamente, Ryle (1949/2005) dissolve o uso ontológico dos verbos psicológicos a partir da dissolução do problema mente-corpo. No sentido de Ryle, portanto, o que determina o significado de um verbo psicológico são o uso e a disposição na ação e não uma suposta representação mental introspectiva de uma entidade privada. Assim, comparativamente à dissolução da assimetria ontológica entre 1ª e 3ª pessoas na filosofia da psicologia de Wittgenstein, ambas constituem partes significativas e complementares de um sistema cognitivo. 'Dor' não significa somente o que o estudo da ativação das fibras-C mostra, mas, igualmente, significa uma experiência de sentir alguma coisa no ponto de vista de um sujeito particular e parte de um meio social e cultural. E considerando-se a aproximação entre ciclo de função (Uexküll) e enação (Varela), portanto, temos uma possível alternativa de abordar o problema da lacuna explicativa a partir da noção de 'circularidade' entre a perspectiva de 1ª pessoa e nossa visão externa à experiência na 3ª pessoa. Por exemplo, a análise dos aspectos cognitivos de 'dor' se constituiria sobre a circulação de significação entre a experiência de sentir alguma coisa na 1ª pessoa e a descrição da ativação das fibras-C na 3ª pessoa. Assim, finalmente, 1ª e 3ª pessoas constituiriam partes significativas e complementares de um mesmo sistema cognitivo. A distinção entre 1ª e 3ª pessoas se constituiria, portanto, entre níveis de significação e não entre níveis ontologicamente distintos. E, comparativamente a um ponto de vista pragmático, as distinções e limites de significação entre domínios de 1ª e 3ª pessoas são, portanto, sempre operacionais, instrumentais ou convencionais como, por exemplo, mostra ser o modelo do ciclo de funções de Uexküll; e ciclo no sentido de circularidade de perspectivas como afirma Varela. Conclusão O texto procurou identificar os elementos pragmáticos da teoria da significação de Jakob von Uexküll. A partir de uma referência primeira a Peirce e William James, como teoria pragmática, me pareceu fundamental mostrar suas possíveis coincidências com alguns aspectos da crítica da filosofia analítica à noção de representação mental, por exemplo, entre autores como Austin, Ryle e Wittgenstein, e a ideia de significação sem representação. De modo similar, procurei mostrar que a teoria da significação de Uexküll coincide com aspectos da crítica de Varela à noção de representação nas ciências cognitivas e sua ideia de 'trabalhar sem representação'. Procurei, finalmente, indicar uma possível alternativa não-representacionista nas ciências cognitivas, assim como indicar uma alternativa de tratar o problema da 'lacuna explicativa' a partir da aproximação entre as noções de ciclo de função (Uexküll) e circulação entre 1ª e 3ª pessoas (Varela). Referências Bibliográficas Andler, D. (1998). Introdução às Ciências Cognitivas. (Amoretti, M. S. M. , Trad.). São Leopoldo (RS): Editora UNISINOS. 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Inicialmente, ele usa o termo 'automundo' ('Self-world' no original em inglês), como referência à organização de uma estrutura interna e específica da espécie, por oposição a mundo externo ou ambiente e, em seguida, usa o termo Umwelt. Assim, o filho teria resolvido um problema terminológico na teoria do pai, em termos de um sutil intercâmbio entre 'automundo' e Umwelt, cujo sentido me parece equivalente a 'mundo-próprio' como sugere a tradução portuguesa. Na tradução francesa, no entanto, Umwelt corresponde à expressão 'monde vécu' (Uexküll, 1956, p. 15). Neste sentido particular do termo Umwelt, a ideia talvez seja que Uexküll procura um conceito-operador de caracterização do comportamento animal além da clássica distinção entre 'descrição' e 'existência' (Berthoz & Petit, 2006, p. 45) - 'mundo vivido' (monde vécu) parece sugerir a caracterização fenomenológica dos diferentes tipos de experiência. Comparativamente, e quanto a uma recente concepção fenomenológica nas ciências cognitivas, assinala Varela (1988, p. X), o que se procura é 'uma circulação entre uma primeira pessoa e um discurso externo da experiência humana' e que, no entanto, não significa uma distinção entre os dois campos (descrição e experiência). Assim, no sentido de 'experiência vivida', a noção de 'mundo-próprio' descreve objetivamente no comportamento a característica subjetiva da experiência de um organismo (Araújo, 2010, p. 55). (2) É oportuno igualmente assinalar aqui que a significação de um objeto (a parede lisa) corresponde a sua utilidade e, portanto, é determinada pragmaticamente em função da ação do organismo. Revista Ciências & Cognição A/C Prof. Dr. Alfred Sholl Franco Universidade Federal do Rio de Janeiro Centro de Ciências da Saúde Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho Sala G2-032, Bloco G, Av. Carlos Chagas Filho S/N - Cidade Universitária - Ilha do Fundão 21941-902 Rio de Janeiro - RJ - Brasil Tel.: +55 21 2562-6562 revista@cienciasecognicao.org

sexta-feira, 24 de março de 2023

Jose Luís Fiori EUA dobram sua aposta, mas Rússia já ganhou o que queria

Um ano depois: EUA dobram sua aposta, mas Rússia já ganhou o que queria Um ano depois do início da invasão russa, a guerra hoje já é direta e explicitamente entre a Rússia e os Estados Unidos e seus aliados europeus, e tudo indica que os Estados Unidos decidiram aumentar ainda mais seu envolvimento no conflito. Publicado em 24/02/2023 // 1 comentário FOTO: METIN AKTAS/ANADOLU AGENCY/ GETTY IMAGES Por José Luís Fiori “Quando os EUA conduziram cinco ondas de expansão da Otan para o leste até a porta da Rússia… eles já pensaram nas consequências de empurrar um grande país contra a parede? Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, fevereiro de 2022. No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia invadiu o território da Ucrânia e infringiu uma norma básica do Direito Internacional consagrado pelos Acordos de Paz do Pós-Segunda Guerra Mundial, que condena toda e qualquer violação da soberania nacional feita sem a aprovação ou consentimento do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Exatamente da mesma forma como a Inglaterra e a França violaram esse direito, quando invadiram o território do Egito e ocuparam o Canal de Suez, em 1956, sem o consentimento do Conselho de Segurança, violação que ocorreu também quando a União Soviética invadiu a Hungria, em 1956, e a Tchecoslováquia, em 1968. Da mesma forma, os Estados Unidos invadiram Santo Domingo, em 1965, e de novo, invadiram e bombardearam os territórios do Vietnã e do Camboja durante toda a década de 1960; o mesmo voltou a ocorrer quando a China invadiu uma vez mais o território do Vietnã, em 1979, apenas para relembrar alguns casos mais conhecidos de invasões ocorridas sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU. Em todos esses casos, as potências invasoras alegaram “justa causa”, ou seja, a existência de ameaças à sua “segurança nacional” que justificavam seus “ataques preventivos”. E em todos esses casos, os países invadidos contestaram a existência dessas ameaças, sem que sua posição jamais tenha sido tomada em conta. Ou seja, na prática, sempre existiu uma espécie de “direito internacional paralelo”, depois da Segunda Guerra – e poderia se dizer mais – durante toda história do sistema internacional consagrado pela assinatura da Paz de Westfália, em 1648: as “grandes potências” desse sistema sempre tiveram o “direito exclusivo” de invadir o território de outros países soberanos, tomando em conta apenas seu próprio juízo e arbítrio, e sua capacidade militar de impor sua opinião e vontade aos países mais fracos do sistema internacional. O que passou, entretanto, é que depois do fim da Guerra Fria, esse “direito à invasão” transformou-se num monopólio quase exclusivo dos Estados Unidos e da Inglaterra. Basta dizer que, nos últimos 30 anos, os Estados Unidos (quase sempre com o apoio da Inglaterra) invadiram sucessivamente, e sem o consentimento do Conselho de Segurança da ONU: o território da Somália, em 1993 (300 mil mortos); do Afeganistão, em 2001 (180 mil mortos); do Iraque, em 2003 (300 mil mortos), da Líbia, em 2011 (40 mil mortos); da Síria, em 2015 (600 mil mortos); e finalmente, do Iêmen, onde já morreram aproximadamente 240 mil pessoas. O que surpreende em todos estes casos é que, com exceção da invasão anglo-americana do Iraque, em 2003, que provocou uma reação mundial e teve a oposição da Alemanha, as demais invasões iniciadas pelos Estados Unidos nunca provocaram uma reação tão violenta e coesa das elites euro-americanas, como a recente invasão russa do território da Ucrânia. E tudo indica que é exatamente porque nesta nova guerra, a Rússia está reivindicando o seu próprio “direito de invadir” outros territórios, sempre e quando considere existir uma ameaça à sua soberania nacional. É óbvio que as coisas não são feitas de forma nua e crua, e é neste ponto que adquire grande importância a chamada “batalha das narrativas”, segundo a qual se tenta convencer a opinião pública mundial de que seus argumentos são mais válidos do que os de seus adversários. E neste campo a Rússia vem obtendo uma vitória lenta mas progressiva, na medida em que vão sendo divulgadas informações fornecidas por seus próprios adversários, que caracterizam a existência de um comportamento de cerco e assédio militar e econômico à Rússia, que começou muito antes do dia 24 de fevereiro de 2022, com o objetivo de ameaçar e enfraquecer sua posição geopolítica e, no limite, fragmentar o próprio território russo. No dia 8 de fevereiro de 2023, o famoso jornalista norte-americano Seymour Hersh, ganhador do prêmio Pulitzer de Reportagem Internacional de 1970, trouxe a público, através de um artigo publicado no Substack, (“How America Took Out The Nord Stream Pipeline”), a informação de que foram mergulhadores da Marinha norte-americana que instalaram os explosivos que destruíram os gasodutos Nord Stream 1 e 2, no Mar Báltico, no dia 26 de setembro de 2022, com autorização direta do presidente Joe Biden. Uma operação feita sob a cobertura dos exercícios BOLTOPS 22 da OTAN, realizados três meses antes, no Báltico, quando se instalaram os dispositivos que foram ativados remotamente por operadores noruegueses. E depois desta revelação inicial do Sr. Hersh, novas informações vêm sendo agregadas a cada dia, reforçando a tese de que o atentado foi planejado e executado pela Marinha Americana, e que a destruição dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 do Báltico foi de fato, uma das causas “ocultas” dá própria ofensiva americana na Ucrânia. Na mesma direção, algumas semanas antes dessas revelações do jornalista americano, a ex-primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, declarou numa entrevista concedida ao jornal alemão Die Zeit, no início do mês de dezembro, que os Acordos de Minsk estabelecidos entre Alemanha, França, Rússia e Ucrânia, em 13 de fevereiro de 2015, não eram para valer, e que só foram assinados pelos alemães para dar tempo à Ucrânia de se preparar para um enfrentamento militar com a Rússia. O mesmo declarou o ex-presidente da França, François Hollande, ao admitir numa entrevista para um meio de comunicação ucraniano, duas semanas depois, que os Acordos de Minsk tinham como objetivo apenas ganhar tempo enquanto as potências ocidentais reforçassem Kiev militarmente para fazer frente à Rússia. Ou seja, os dois governantes mais importantes da União Europeia reconheceram abertamente que assinaram um tratado internacional sem intenção de cumpri-lo; e que além disso, a estratégia dos dois (junto com EUA e Inglaterra) era preparar a Ucrânia para um enfrentamento militar direto com a Rússia. Declarações inteiramente coerentes com o comportamento dos Estados Unidos, que boicotaram as negociações de paz entre russos e ucranianos, realizadas na fronteira da Bielorrússia, em 28 de fevereiro de 2022, cinco dias depois de iniciada a operação militar russa no território ucraniano. E da Inglaterra que boicotou diretamente a negociação de paz iniciada em Istambul, no dia 29 de março de 2022, e que foi interrompida pela intervenção pessoal do primeiro-ministro inglês, realizada numa visita-surpresa de Boris Johnson a Kiev feita no dia 9 de abril de 2022. São declarações e comportamentos que só reforçam a “narrativa” dos russos de que o conflito da Ucrânia começou muito antes da “invasão russa” do território ucraniano. Mais precisamente, quando o governo americano do democrata Bill Clinton se desfez da promessa feita por James Baker, secretário de Estado do governo George Bush, ao presidente russo Mikhail Gorbatchov, de que as forças da Otan não avançariam na direção da Europa do Leste depois de desfeito o Pacto de Varsóvia. Porque foi exatamente a partir daquele momento que se sucederam as cinco ondas expansivas da Otan de que fala Hua Chunying (diplomata chinesa citada na epígrafe deste artigo), e que chegaram até as fronteiras russas da Geórgia e da Ucrânia. Em 2006, o presidente George W. Bush avançou ainda mais e propôs diretamente a inclusão da Georgia e da Ucrânia na Otan, provocando a resposta do presidente Vladimir Putin na reunião anual da Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2007, quando Putin advertiu explicitamente que era inaceitável para os russos o avanço da Otan até suas fronteiras, em particular na região da Ucrânia e do Cáucaso. E de fato, no ano seguinte, em agosto de 2008, pela primeira vez depois do fim da URSS, a Rússia mobilizou suas tropas para derrotar as forças georgianas comandadas por Mikheil Saakashvilli e ocupar em seguida e de forma permanente os territórios da Ossétia do Sul e da Abecásia, no norte do Cáucaso. Depois disto, começou o conflito na Ucrânia, com a derrubada de seu presidente eleito, Viktor Yanukovych, pelo chamado Movimento EuroMaidan, que contou com o apoio direto dos Estados Unidos e de vários governos europeus. O restante da história é bem conhecido, desde a incorporação da Crimeia ao território russo, até o reconhecimento russo da independência das repúblicas de Donestsk e Luganskios, passando pelos fracassados Acordos de Minsk e pela proposta apresentada pelo governo russo às autoridades da Otan e do governo americano, em 15 de dezembro de 2021, solicitando uma rediscussão aberta e diplomática da questão de Dornbass e de todo o equilíbrio estratégico e militar da Europa Central. Proposta que foi rejeitada ou desconhecida pelos norte-americanos, e pelos principais governos da União Europeia, dando início ao conflito militar propriamente dito, já no território da Ucrânia. Um ano depois do início da invasão russa, a guerra hoje já é direta e explicitamente entre a Rússia e os Estados Unidos e seus aliados europeus, e tudo indica que os Estados Unidos decidiram aumentar ainda mais seu envolvimento no conflito. Mas neste momento, do ponto de vista estritamente militar: I) Os russos já consolidaram uma linha de frente consistente e cada vez mais intransponível para as tropas ucranianas, e com isto conquistaram o território e a independência definitiva de Dornbass e Crimeia, zonas ucranianas de população majoritariamente russa. II) Desde essa conquista consolidada, os russos passaram a ocupar uma posição privilegiada de onde atacar ou responder aos ataques das forças ucranianas com suas novas armas americanas e europeias, podendo atingir as regiões mais ocidentais da Ucrânia, incluindo Odessa e Kiev. III) Além disso, as forças ucranianas não têm mais a menor possibilidade de manterem-se em pé sem a ajuda permanente e massiva dos EUA e da Otan. E as forças americanas e da Otan se encontram cada vez mais frente à disjuntiva de um enfrentamento direto com os russos, que poderia ser catastrófica para toda a Europa. IV) Por último, mesmo que a guerra não escale até uma dimensão europeia ou global, as Forças Armadas russas sairão desse confronto mais poderosas do que entraram, com o desenvolvimento e aprimoramento de armamentos que lhe entregam de forma definitiva a supremacia militar dentro da Europa, na ausência dos Estados Unidos. Assim mesmo, do ponto de vista estratégico e de longo prazo, a vitória mais importante da Rússia, até agora, foi colocar os Estados Unidos e a Inglaterra numa verdadeira “sinuca de bico”. Se as duas potências anglo-saxônicas prolongam a guerra, como querem fazer, cada dia que passa a Rússia estará dando mais um passo na conquista do seu próprio “direito à invasão”. Mas ao mesmo tempo, se os Estados Unidos e a Inglaterra aceitarem negociar a paz, estarão reconhecendo implicitamente que já perderam um “monopólio” que foi fundamental para a conquista e manutenção do seu poder global, nos últimos 200 anos: o seu direito – como grandes potências – de invadir o território dos países que considerem seus adversários. Direito este que já foi reconquistado pela Rússia, depois de um ano de guerra na Ucrânia, pela força de suas armas. E esta é a verdadeira disputa que está sendo travada entre as grandes potências, na sua competição pelo “poder global”, como sempre, de costas para todo e qualquer juízo ético e crítica da própria guerra, e do seu imenso desastre humano, social, econômico e ecológico.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Richard Wolf Capitalism vs. Socialism: A Soho Forum Debate

Debate de Richard Wolf com libertário Richard Wolf Capitalism vs. Socialism: A Soho Forum Debate https://www.youtube.com/watch?v=YJQSuUZdcV4

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Lara Resende Moeda e macroeconomia: história, teoria e política - Com André Lara Resende

https://www.youtube.com/watch?v=k9xhV6kCnVw Lara Resende Moeda e macroeconomia: história, teoria e política - Com André Lara Resende

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Costanzo Preve UNA_STORIA_ALTERNATIVA_DELLA_FILOSOFIA_DI_COSTANZO_PREVE

https://www.academia.edu/29021424/_UNA_STORIA_ALTERNATIVA_DELLA_FILOSOFIA_DI_COSTANZO_PREVE https://www.youtube.com/watch?v=U5Xuk7iy1Bg https://www.academia.edu/29021424/_UNA_STORIA_ALTERNATIVA_DELLA_FILOSOFIA_DI_COSTANZO_PREVE

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Comum Mazzucato: contra a policrise, o Comum

Mazzucato: contra a policrise, o Comum Fórum de Davos já reconhece o dilema civilizatório, e até cria neologismo para descrevê-lo. Mas não busca as saídas. Elas estão no investimento público e em processos criativos para gerir a riqueza e tirá-la do controle de poucos “proprietários” OUTRASMÍDIAS MERCADO X DEMOCRACIA Por IHU Publicado 09/02/2023 às 19:03 Atualizado 09/02/2023 às 19:04 Por Mariana Mazzucato, no Clarín-Revista Ñ, com tradução no IHU Online Após a reunião de líderes governamentais, empresariais e da sociedade civil, no Fórum Econômico Mundial deste ano, em Davos, divulgou-se a observação de que vivemos em uma era de “policrise”. O surgimento simultâneo de vários eventos catastróficos define o atual clima socioeconômico e geopolítico. Frente a desafios tão imensos como o aquecimento global, a crise dos sistemas de saúde, uma crescente exclusão digital e modelos de negócios financeirizados que aumentam a desigualdade de renda e riqueza, não surpreende que esteja aumentando a desilusão com a política, gerando, assim, condições ideais para os populistas que prometem soluções fáceis. Contudo, as soluções reais são complexas e exigirão investimentos, regulamentação e inovações sociais, organizacionais e tecnológicas, não só de governos e empresas, mas também de pessoas e organizações de toda a esfera da sociedade civil. Os governos, convencidos de que as políticas só podem almejar corrigir as falhas do mercado, costumam dar respostas insuficientes e tardias. Mesmo bens públicos como o financiamento de atividades de pesquisa e desenvolvimento, no nível básico, são vistos como formas de corrigir um problema de externalidades positivas, assim como os impostos sobre o carbono corrigem um problema de externalidades negativas. Contudo, alcançar uma mudança transformadora que produza um crescimento inclusivo e sustentável não depende tanto de corrigir os mercados quanto de configurá-los e criá-los. Isto exige complementar a ideia de bens públicos com a de “bem comum”, que não é apenas uma questão de “o quê”, mas também de “como”. O bem comum é um objetivo a ser alcançado conjuntamente por meio da inteligência coletiva e da coparticipação nos benefícios. Transcende a ideia (na qual se baseia) de recursos de propriedade comunal, ao enfatizar o como projetar investimentos, inovações e mecanismos de colaboração em prol de um objetivo compartilhado. Os bens comuns são o produto de interações e investimentos coletivos que exigem modelos compartilhados de propriedade e governança. Por isso, os benefícios advindos dessas atividades devem ser compartilhados coletivamente. A ideia de bem comum também atende à necessidade de uma governança internacional eficaz, destacada na noção de bens públicos globais elaborada por minha brilhante colega, a falecida Inge Kaul, que ajudou a inspirar o trabalho da Comissão Mundial sobre a Economia da Água. Em sua encíclica de maio de 2015, Laudato si’: sobre o cuidando da Casa Comum, o Papa Francisco defende categoricamente um modo de pensar baseado no bem comum para um mundo em constante mudança. Não é idealismo abstrato. A ideia de bem comum oferece um marco útil para estabelecer objetivos compartilhados e determinar como alcançá-los. Francisco fala da necessidade da subsidiariedade (o princípio de resolver os assuntos particulares no nível mais local possível) e de ver o mundo com os olhos das pessoas mais vulneráveis. Segundo Francisco, a prioridade em toda mudança social, econômica e política deve ser proteger as condições essenciais das quais depende a vida humana. A tomada de decisões em favor do bem comum implica defender a dignidade daqueles que estão marginalizados em termos sociais, políticos e econômicos, não apenas com palavras, mas com políticas e novas formas de colaboração. Implica criar uma rede de solidariedade por meio da qual vozes não escutadas possam participar nos processos cruciais de decisão. Para alcançar estes objetivos, é necessário um novo modelo de crescimento de cuja busca devem participar os que hoje estão excluídos. Não um modelo que simplesmente seja implementado em seu nome. Servem como exemplo as organizações cooperativas, que se mostraram eficazes em reunir pessoas com recursos limitados e oferecê-las oportunidades de ação autônoma que de outra forma não teriam. Francisco também compreende que em tempos em que alguns setores econômicos têm mais poder do que governos em determinadas áreas, é obrigação do Estado defender o bem comum em nome de todos. Para se opor à tendência e enfrentar os grandes desafios que temos pela frente, é necessária uma mudança fundamental na política econômica. Hoje, o princípio do bem comum é visto como um corretivo para os excessos do sistema atual, mas, em vez disso, deve constituir o objetivo central do sistema. O dinheiro não é tudo. Também é importante fomentar certas formas de colaboração. No caso da covid, o mundo fez um investimento coletivo de muito sucesso na pesquisa de vacinas. Contudo, omitiu-se em garantir que o resultado fosse transferido para um “bem comum”. Concretamente, fazer com que toda a população mundial esteja imunizada. Muitas vezes, temos uma ideia preguiçosa das “alianças” entre várias partes. A mera associação entre as partes não quer dizer que estejam colaborando corretamente para o bem comum. Para isso, é necessário também que estabeleçam objetivos em conjunto e que harmonizem riscos e benefícios. Todos os participantes devem concordar em “o quê”, além do “como”. Por exemplo, não se trata apenas de desenvolver vacinas, mas também de disponibilizá-las para todos. Com um foco no bem comum, cada etapa do processo é quase tão importante quanto o resultado. Nos Estados Unidos, o governo investe publicamente milhares de milhões de dólares por ano em pesquisa e desenvolvimento na área de saúde (em 2022, só os Institutos Nacionais de Saúde forneceram 45 bilhões de dólares), mas depois deixa todos os lucros em mãos privadas. Quando a “recompensa” de um esforço coletivo se materializa (muitas vezes na forma de lucros empresariais, ou como conhecimento valioso), deve ser compartilhada, assim como os riscos foram compartilhados. Como mostro em meu livro Missão Economia, há muitas formas de fazer isso. Uma delas é condicionar o apoio público a certas exigências de propriedade intelectual e preços, ou exigir coparticipação nos lucros, por exemplo, por meio de um modelo de participação acionária. Outra forma de promover uma distribuição mais equitativa do valor entre todos os membros da sociedade é por meio de estruturas de propriedade coletiva. Todos esses mecanismos permitem limitar a concentração indevida de poder nas mãos de poucas pessoas e empresas privilegiadas. E esses problemas não são exclusivos da área da saúde. Há anos, a economia digital vem crescendo com base em investimentos públicos em grande escala. Como algumas empresas poderosas controlam a maior parte dos dados, tecnologias-chave como a inteligência artificial hoje reproduzem preconceitos e injustiças preexistentes. Para resistir a isto, precisamos criar um marco mais inclusivo e transparente que, por exemplo, imponha certos critérios éticos aos termos e condições dos serviços digitais. Finalmente, é preciso estimular uma maior valorização do poder da inteligência coletiva. Assim como os indicadores ambientais, sociais e de governança corporativa (ASG/ESG) ajudam as empresas a fornecer informações sobre seu comportamento e cultura organizacional, um enfoque no bem comum requer um melhor fornecimento de informações sobre a dinâmica interorganizacional e público-privada, que expresse a totalidade do ecossistema de colaboração (ou de parasitismo, como também pode acontecer). A ideia de bem comum é uma ideia de colaboração intensa, de inteligência coletiva, de criação conjunta de fins e meios e de uma correta distribuição de riscos e benefícios. Políticas industriais e de inovação com orientação de missão mostram como é possível colocar em prática esses princípios. Governos e organizações internacionais podem estabelecer uma meta clara (muitas vezes, por meio de um processo de consulta com outras partes interessadas) e, depois, criar condições para uma intensa colaboração público-privada que permita alcançar tal meta. E nesse processo, a modalidade de teste e erro é um elemento crucial. O rumo deve estar claro, mas também tem que haver ampla margem para a experimentação descentralizada. O bem comum é um objetivo compartilhado. Ao acentuar tanto o como quanto o quê, permite promover a solidariedade humana, o uso compartilhado do conhecimento e a distribuição coletiva dos benefícios. É a melhor (e de fato a única) maneira de garantir uma qualidade de vida digna para todas as pessoas em um planeta interconectado.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Comum - geopolítica bbb

https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-inusitada-mas-possivel-geopolitica-do-comum/ Por Jeffrey D. Sachs no Other News | Tradução: Maurício Ayer Há um consenso universal de que estamos em um período geopolítico de tensão e escalada. Em uma cronologia grosseira, 1815-1914 foi a era da hegemonia britânica, a não tão pacífica Pax Britannica. O que se seguiu entre 1914 e 1945 foi um período desastroso de duas guerras mundiais e da Grande Depressão. O fim da Segunda Guerra Mundial marcou a ascensão dos Estados Unidos como o novo país hegemônico, bem como o início da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Este período durou de 1947 a 1989. O período de 1989 até cerca de 2008 tem sido descrito (com ou sem razão) como o mundo unipolar, sendo os Estados Unidos amplamente considerados como superpotência única. Na última década, entramos em uma nova era geopolítica, mas de que tipo? Existem pelo menos cinco grandes teorias sobre a geopolítica atual. As três primeiras são variantes da Teoria da Estabilidade Hegemônica; a quarta é a importante escola do realismo internacional. A quinta é minha teoria preferida, a do multilateralismo, baseada na importância preeminente da cooperação global para resolver problemas globais urgentes. A Teoria da Estabilidade Hegemônica, defendida pelas elites americanas na política, no governo e na academia, sustenta que os Estados Unidos continuam sendo o líder hegemônico mundial, a única superpotência, embora desafiado por um concorrente em ascensão, a China, e por um competidor menor, mas dotado de armas nucleares, a Rússia. A Teoria da Competição Hegemônica, às vezes apelidada de teoria da Armadilha de Tucídides, sustenta que a ascensão da China deu início a um período de confronto entre os Estados Unidos e a China, juntamente com o confronto contínuo dos Estados Unidos e da Rússia. A competição EUA-China é comparada à de Esparta e Atenas nas Guerras do Peloponeso, com a China desempenhando o papel de Atenas, a potência em ascensão no mundo helênico do século IV a.C., desafiando Esparta, a potência vigente. A teoria do Declínio Hegemônico se concentra no fato de que os Estados Unidos não estão mais dispostos ou aptos a desempenhar o papel de estabilizador global (se é que alguma vez estiveram). De acordo com essa teoria, nosso período atual será semelhante ao período de declínio britânico após a Primeira Guerra Mundial e antes da ascensão da hegemonia estadunidense. A teoria do Declínio Hegemônico sustenta que o declínio de um país hegemônico leva à instabilidade global. A teoria realista sustenta que a geopolítica é definida pela política das grandes potências, com a China, os Estados Unidos, a UE, a Rússia e, cada vez mais, a Índia, desempenhando o papel das grandes potências e compartilhando o cenário mundial com potências regionais (como Brasil, Indonésia, Irã, Paquistão e Arábia Saudita, entre outros). A teoria multilateralista, a qual subscrevo, sustenta que somente a cooperação global e o multilateralismo, organizados em torno das instituições da ONU, podem nos salvar de nós mesmos, seja da guerra, de tecnologias perigosas ou das mudanças climáticas induzidas pelo homem. O multilateralismo é frequentemente descartado como excessivamente idealista porque exige cooperação entre as nações, mas argumentarei que é de fato mais realista do que a teoria realista. Claro, existem várias outras abordagens importantes para a geopolítica, incluindo as teorias marxistas focadas nos interesses e no poder do capital financeiro globalmente móvel, a teoria do centro-periferia de Immanuel Wallerstein e a teoria do choque de civilizações de Samuel Huntington. São todas bem conhecidas e têm sido amplamente debatidas. Por uma questão de brevidade, vou me concentrar nas três teorias hegemônicas, no realismo e no multilateralismo. Impulsionadores econômicos da mudança geopolítica de longo prazo Os Estados Unidos eram de longe a principal potência mundial no final da Segunda Guerra Mundial. Segundo estimativas do historiador Angus Maddison (2010), os Estados Unidos produziam 27,3% da produção global (medida a preços internacionais) em 1950, embora constituíssem apenas 6% da população mundial (e hoje apenas 4,1%). A União Soviética era a segunda maior economia, com aproximadamente um terço do tamanho dos Estados Unidos, enquanto a China era a terceira, com aproximadamente um sexto. A vantagem americana não estava apenas no PIB total, mas também em ciência, tecnologia, ensino superior, profundidade dos mercados de capitais, sofisticação da organização empresarial e qualidade e quantidade da infraestrutura física. As empresas multinacionais americanas deram a volta ao mundo para criar cadeias produtivas globais. A predominância dos EUA diminuiu gradualmente desde 1950, principalmente porque outras partes do mundo foram alcançando os Estados Unidos em avanço tecnológico, capacidades e infraestrutura física. Como prevê a teoria, a globalização promoveu a disseminação do conhecimento científico e tecnológico, do ensino superior e da infraestrutura moderna. O Leste Asiático foi o maior beneficiário da globalização. A decolagem do Leste Asiático começou com a rápida reconstrução pós-guerra do Japão durante o período de 1945-1960, seguido da década em que sua renda dobrou, os anos 1960. O Japão, por sua vez, forneceu um roteiro para os quatro Tigres Asiáticos (Coreia, Taiwan, Hong Kong e Cingapura), que iniciaram seu rápido crescimento na década de 1960, e depois para a China, a partir do final da década de 1970, com as reformas de Deng Xiaoping e a abertura do país para o mundo. De acordo com as estimativas de Maddison, as 16 principais economias do Leste Asiático produziram 15,9% da produção mundial em 1950, 21,7% em 1980 e 27,8% em 1990. Na década de 1990, a Índia também iniciou uma era de abertura econômica e rápido crescimento. Com a dissolução da União Soviética em 1991, os Estados Unidos não enfrentaram nenhum grande concorrente pela liderança global. Embora a economia da Europa Ocidental fosse amplamente comparável em tamanho à economia americana, o continente europeu permaneceu dependente dos Estados Unidos para segurança militar e, de qualquer forma, era um grupo disjunto de nações com políticas externas geralmente subordinadas aos EUA. O Leste Asiático havia crescido rapidamente, mas era uma força geopolítica ainda menor do que a Europa. De acordo com as medições do FMI, o PIB da China medido em dólares internacionais constantes correspondia a 17,5% do PIB americano, apesar de uma população que era 4,6 vezes maior. Sua renda per capita era, portanto, apenas 3,8% da americana, de acordo com as estimativas do FMI. As tecnologias e a capacidade militar da China tinham décadas de atraso em relação aos Estados Unidos, e seu arsenal nuclear era pequeno. Talvez seja compreensível que os formuladores de políticas em Washington presumissem que os Estados Unidos seriam a única superpotência mundial por décadas a fio. O que eles não previram, é claro, foi a capacidade da China de crescer rapidamente nas décadas seguintes. Entre 1991 e 2021, o PIB da China (medido em dólares internacionais constantes) cresceu 14,1 vezes, enquanto o PIB americano cresceu 2,1 vezes. Em 2021, de acordo com estimativas do FMI, o PIB da China em preços internacionais constantes de 2017 era 18% maior que o PIB dos EUA. O PIB per capita da China aumentou de 3,8% do dos EUA em 1991 para 27,8% em 2021 (estimativas do FMI). Os rápidos ganhos da China em produção e produção por pessoa foram sustentados por rápidos avanços chineses em conhecimento tecnológico, capacidade de inovar, educação de qualidade em todos os níveis e atualização e modernização da infraestrutura. Os ingênuos e às vezes racistas analistas estadunidenses desprezaram o sucesso da China como sendo tão somente decorrência de roubo do know-how americano, como se os Estados Unidos fossem a única sociedade que pudesse aproveitar a ciência e a engenharia modernas e também como se não dependessem de conhecimentos científicos e avanços tecnológicos produzidos em outros lugares. Na verdade, a China está se recuperando ao dominar o conhecimento tecnológico avançado e tomar medidas para se tornar uma grande inovadora autônoma. Também não devemos negligenciar o crescente poder econômico tanto da Índia quanto da África, esta última incluindo os 54 países da União Africana. O PIB da Índia cresceu 6,3 vezes entre 1991 e 2021, passando de 14,6% do PIB dos Estados Unidos para 44,3% (todos medidos em dólares internacionais). O PIB da África cresceu significativamente durante o mesmo período, atingindo 13,5% do PIB dos EUA em 2022. O mais importante neste contexto é que a África também está se integrando política e economicamente, com avanços importantes em políticas e na infraestrutura física para criar um mercado único interconectado no continente. Nos últimos 30 anos, três mudanças econômicas básicas transformaram a geopolítica. A primeira é que a participação dos EUA na produção global caiu de 21,0% em 1991 para 15,7% em 2021, enquanto a da China aumentou de 4,3% em 1991 para 18,6% em 2021. A segunda é que a China ultrapassou os Estados Unidos no PIB total e tornou-se o principal parceiro comercial para grande parte do mundo. A terceira é que os BRICS, formados por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, também ultrapassaram os países do G7 em produção total. Em 2021, os BRICS tiveram um PIB combinado de US$ 42,1 trilhões (medido em preços internacionais constantes de 2017), em comparação com US$ 41,0 trilhões no G7. Em termos de população combinada, os BRICS, com uma população de 3,2 bilhões em 2021, é 4,2 vezes a população combinada dos países do G7, em 770 milhões. Em suma, a economia mundial não é mais dominada pelos americanos ou liderada pelo Ocidente. A China tem tamanho econômico geral comparável ao dos Estados Unidos, e os grandes países de renda média são um contrapeso para as nações do G7. É notável que quatro presidências consecutivas do G20 serão realizadas por países em desenvolvimento de renda média: Indonésia (2022), Índia (2023), Brasil (2024) e África do Sul (2025). Visões contrastantes da geopolítica Como a China igualou ou ultrapassou os Estados Unidos em tamanho econômico e se tornou o principal parceiro comercial de muitos países ao redor do mundo, e como os BRICS se igualaram ao G7 em tamanho econômico geral, um debate se espalha tanto nos Estados Unidos como globalmente sobre as mudanças quanto ao papel e o poder dos EUA e as implicações para o futuro da governança global e dos assuntos internacionais. Conforme mencionado acima, existem cinco escolas de pensamento, que agora analiso com mais detalhes. A teoria da Estabilidade Hegemônica continua sendo a escola de pensamento dominante nos Estados Unidos, pelo menos nos círculos de liderança e nos think tanks e centros acadêmicos da Costa Leste. De acordo com essa visão, os EUA e somente os EUA podem manter a hegemonia geopolítica e, assim, proporcionar estabilidade ao mundo. Quando os Estados Unidos falam de “ordem baseada em regras” não estão falando do sistema da ONU ou do direito internacional. Estão falando de uma ordem liderada pelos estadunidenses, na qual Washington, em consulta com seus aliados, escreve as regras globais. De acordo com essa visão, a China permanece muito atrás dos Estados Unidos em todas as principais categorias de poder: econômico, militar, tecnológico e de soft power. A Rússia é vista como uma potência regional em declínio, quase extinta, embora com um grande arsenal nuclear. Nesta escola de pensamento, a ameaça nuclear pode ser contida por meio de contra-ameaças e dissuasão. A hegemonia americana garantirá que a Rússia não desempenhará nenhum papel geopolítico importante no futuro. Essa visão hegemônica, conhecida como neoconservadorismo nos Estados Unidos, encontra sua expressão em uma ampla gama de políticas. A guerra na Ucrânia constitui uma parte central da estratégia de Washington para a continuação da hegemonia dos EUA. Enquanto os formuladores de políticas americanos presumivelmente lamentam a destruição e as mortes na Ucrânia, eles também dão as boas-vindas à oportunidade de empurrar a ampliação da OTAN para o leste e sangrar a Rússia por meio de uma guerra de desgaste. A elite política de Washington não tem pressa em acabar com a guerra. Também não há qualquer ansiedade em examinar mais profundamente as raízes da guerra, que certamente foi provocada em parte pelos Estados Unidos em sua batalha com a Rússia pela influência política e militar na Ucrânia. Essa competição ficou acirrada depois que George W. Bush pressionou a OTAN em 2008 a se comprometer com sua ampliação para a Ucrânia e a Geórgia. Isso fazia parte de um plano de jogo de longo prazo, delineado por Zbigniew Brzezinski em seu livro de 1997, The Grand Chessboard [O grande tabuleiro de xadrez], para acabar com a capacidade da Rússia de projetar seu poder na Europa Ocidental, no Mediterrâneo Oriental ou no Oriente Médio. A Rússia presumivelmente lutará a todo custo para impedir a expansão da OTAN para a Ucrânia. Quando o presidente pró-Rússia da Ucrânia, Viktor Yanukovych – que era favorável à neutralidade da Ucrânia em vez da ampliação da OTAN – foi derrubado com apoio financeiro e logístico americano no início de 2014, a guerra russo-ucraniana estourou. A Rússia retomou a Crimeia e os separatistas pró-Rússia reivindicaram parte do Donbas. A guerra aumentou desde 2014, de forma mais dramática com a invasão da Rússia em 24 de fevereiro de 2022. Por sua vez, o G7 e a OTAN se comprometeram a apoiar a Ucrânia pelo tempo que for necessário, com o objetivo de enfraquecer a Rússia a longo prazo. Além de financiar e armar a Ucrânia, os Estados Unidos adotaram agora a estratégia de conter a China, ou seja, impedir o contínuo progresso econômico e tecnológico da China. A política de contenção em relação à China imita a estratégia americana em relação à União Soviética entre 1947 e 1991. As políticas de contenção anti-China incluem aumentos de tarifas sobre produtos chineses; ações para paralisar empresas chinesas de telecomunicações de alta tecnologia, como Huawei e ZTE; proibições de exportação de semicondutores de ponta e equipamentos de fabricação de semicondutores para a China; dissociar as cadeias de suprimentos americanas da China; a criação de novos blocos comerciais, como o Indo-Pacific Economic Framework, que exclui a China; e uma “lista de entidades” de empresas chinesas que são, de uma forma ou de outra, barradas nas finanças, comércio e tecnologia dos EUA. Na frente militar, os Estados Unidos estão formando novas alianças anti-China, como AUKUS, com o Reino Unido e a Austrália, neste caso para criar uma nova frota de submarinos nucleares e uma base no norte da Austrália para policiar o Mar do Sul da China. Os Estados Unidos também pretendem intensificar seu apoio militar a Taiwan, ou segundo a metáfora neoconservadora: transformar Taiwan em um “porco-espinho”. A principal visão concorrente da geopolítica hoje é a teoria da Competição Hegemônica, com foco no embate iminente entre os Estados Unidos e a China. Esta teoria é realmente uma variante da teoria da Estabilidade Hegemônica. Argumenta que os Estados Unidos podem perder seu status hegemônico para a China e que, de qualquer forma, uma competição acirrada entre os dois países é virtualmente inevitável. A principal falha da visão da Competição Hegemônica é sua crença de que a China quer se tornar a próxima hegemonia global. É verdade que os líderes chineses não confiam nos Estados Unidos nem na Europa, especialmente em vista do sofrimento da China nas mãos de potências imperiais externas durante os séculos XIX e XX. A China almeja um mundo em que os Estados Unidos não sejam hegemônicos. No entanto, há pouca evidência persuasiva de que a China queira substituir os Estados Unidos como país hegemônico ou que possa fazê-lo, mesmo que assim o desejasse. Considere-se que a China ainda é um país de renda média, com décadas pela frente necessárias para se tornar um país de alta renda. Considere-se também que a população da China provavelmente diminuirá acentuadamente nas próximas décadas. Nesse contexto, a China também envelhecerá acentuadamente, com a idade média subindo de 47 anos hoje para 57 anos em 2100, segundo projeções da ONU. Finalmente, considere-se que a política da China ao longo dos séculos nunca buscou um império global. O Reino do Meio sempre foi suficiente. A China não lutou em uma guerra estrangeira em 40 anos e tem apenas algumas pequenas bases militares no exterior, em comparação com as centenas operadas pelos militares dos EUA. Mais do que aspirações hegemônicas da China, que acredito não existirem de fato, o verdadeiro problema é o chamado “Dilema de Segurança”, segundo o qual tanto a China quanto os Estados Unidos interpretam erroneamente as ações defensivas do outro lado como sendo ofensivas, caindo assim em um modo que só pode produzir uma escalada. Por exemplo, enquanto a China constrói suas forças armadas no Mar da China Meridional, com o objetivo de proteger suas rotas marítimas vitais, Washington interpreta isso como uma ação agressiva da China voltada para os aliados americanos na região. À medida que os Estados Unidos formam novas alianças, como a AUKUS, e fortalecem as alianças existentes, a China as considera tentativas hegemônicas flagrantes de conter a China. Mesmo quando determinadas ações são verdadeiramente defensivas por natureza – e nem todas são – elas são prontamente mal interpretadas pelo outro lado. Esta é de fato uma das principais razões pelas quais a Armadilha de Tucídides facilmente dá origem à guerra: não porque os dois países queiram a guerra, mas porque tropeçam nela ao interpretar mal as ações do outro lado. A teoria do Declínio Hegemônico é um pouco diferente. Em vez de enfatizar a batalha entre a China e os Estados Unidos, essa terceira teoria enfatiza as implicações do declínio da hegemonia estadunidense, que ela dá como certo. A teoria do Declínio Hegemônico começa com a ideia de que o mundo precisa de bens públicos globais, como políticas de estabilização macroeconômica, controle de armas e esforços comuns contra as mudanças climáticas induzidas pelo homem. Para garantir esses bens públicos, de acordo com essa teoria, um país hegemônico deve arcar com o ônus de fornecer os bens públicos globais. No século XIX, a Grã-Bretanha subscreveu a Pax Britannica. Desde 1950, os Estados Unidos fornecem os bens públicos globais. No entanto, com o declínio gradual dos Estados Unidos, não há mais um país hegemônico para garantir a estabilidade global. Assim, enfrentamos um mundo de caos, não por causa da competição EUA-China, mas porque nenhum país ou região pode coordenar esforços globais para fornecer bens públicos globais. Charles Kindleberger, o historiador econômico do MIT, foi o criador e proponente mais persuasivo da teoria do Declínio Hegemônico, aplicando-a à Grande Depressão em seu perspicaz livro The World in Depression: 1929-1939 [A depressão global: 1929-1939] (1973). Ele argumentava que, quando a Grande Depressão chegou, a cooperação global foi necessária para lidar com dívidas internacionais, bancos falidos, déficits orçamentários e o padrão-ouro. No entanto, o Reino Unido estava gravemente enfraquecido pela Primeira Guerra Mundial e pela prolongada crise econômica do final da década de 1920 e, portanto, foi incapaz de agir como país hegemônico. Os Estados Unidos, infelizmente, ainda não estavam prontos para assumir esse papel, e o fariam apenas após a Segunda Guerra Mundial. Todas as três teorias hegemônicas presumem que a existência de um país hegemônico é central para a geopolítica e assim permanecerá. A primeira assume que os Estados Unidos continuam a ser hegemônicos; a segunda assume que os Estados Unidos e a China estão competindo pela hegemonia; e o terceiro lamenta a ausência de um país hegemônico justamente quando precisamos de um. Essa terceira teoria, embora declare que os EUA já eram, de alguma forma ainda os lisonjeia: après l’Etats Unis, le deluge [após os EUA, o dilúvio] A teoria realista nega o papel central da hegemonia e talvez questione se os EUA em algum momento tenham verdadeiramente exercido uma hegemonia global. Segundo os realistas, a paz requer equilíbrio hábil entre as grandes potências. A essência da teoria realista é que nenhum poder único pode ou deve presumir ditar as regras para o resto; todos precisam administrar suas políticas com prudência para evitar provocar um conflito com os outros poderes. Líderes realistas como Henry Kissinger e John Mearsheimer, por exemplo, pedem um fim negociado para a Guerra da Ucrânia, argumentando sabiamente que a Rússia não vai desaparecer do mapa, nem perder sua importância geopolítica, e enfatizando que a guerra foi parcialmente provocada pelo passo em falso estadunidense que ultrapassou os limites da Rússia, notadamente em relação à expansão da OTAN para a Ucrânia e a Geórgia. Os realistas defendem a paz por meio da força, armando os aliados conforme necessário e ficando em guarda contra ações agressivas de adversários em potencial que cruzem os limites dos EUA. A paz, na visão realista, é alcançada por meio do equilíbrio de poder e do potencial desdobramento da força, não por meio de boa vontade ou de ideais elevados. A dissuasão importa. A China é um concorrente que deve ser igualado economicamente, tecnologicamente e militarmente, mas não é necessariamente um inimigo militar. A guerra pode ser evitada. O modelo histórico mais famoso para os realistas é a descrição de Kissinger do Concerto da Europa no século XIX, que manteve a paz durante a maior parte do século. O maior desafio enfrentado pelos realistas é que manter um equilíbrio de poder é muito difícil quando as capacidades relativas das grandes potências estão em grande escalada. O Concerto da Europa fracassou principalmente porque duas grandes potências estavam em ascensão econômica. A Alemanha ultrapassou a Grã-Bretanha em PIB (nas estimativas de Maddison) em 1908. O império russo também estava crescendo economicamente, com um PIB do tamanho da Alemanha de 1870 em diante. A Grã-Bretanha temia a ascensão da Alemanha, e a Alemanha temia uma guerra em duas frentes contra a Grã-Bretanha e a Rússia, que é exatamente o que aconteceu em 1914. De acordo com muitos historiadores, a Alemanha pressionou pela guerra em 1914 com a convicção de que atrasá-la significaria enfrentar uma Rússia mais poderosa no futuro. Geopolítica como solucionadora de problemas? O problema essencial dessas quatro teorias geopolíticas predominantes é que elas veem a geopolítica quase inteiramente como um jogo de ganhar e perder entre as grandes potências, e não como uma oportunidade de reunir recursos para enfrentar crises em escala global. A teoria do Declínio Hegemônico reconhece a necessidade de bens públicos globais, mas sustenta que apenas um país hegemônico pode fornecê-los. A teoria multilateralista parte da premissa de que o mundo precisa urgentemente de cooperação geopolítica para resolver desafios de escala global, como mudanças climáticas induzidas pelo homem e instabilidade financeira, e para evitar a guerra entre as grandes potências. O cerne da visão multilateralista é a crença de que os bens públicos globais podem ser fornecidos cooperativamente pelos estados membros da ONU, e não por um único país hegemônico. O foco está no papel construtivo do direito internacional, das instituições financeiras internacionais e dos tratados internacionais, tudo sob a estrutura da Carta das Nações Unidas e da Declaração Universal dos Direitos Humanos e apoiado por instituições da ONU. Essa visão é frequentemente considerada irrealista e descartada como muito idealista. Existem muitas razões plausíveis para dúvidas: a ONU é muito fraca; os tratados são inexequíveis; países pegam carona em acordos globais; e o poder de veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos) paralisa a ONU. Esses pontos são verdadeiros, mas não decisivos, na minha opinião. A cooperação pode ser fortalecida nesse caso se for mais bem compreendida. Mais importante ainda, nem as três teorias hegemônicas nem o realismo oferecem soluções para nossas crises globais. A teoria da Estabilidade Hegemônica falha porque os Estados Unidos não são mais fortes o suficiente e interessados em arcar com o ônus de fornecer estabilidade hegemônica. No final da década de 1940, os Estados Unidos estavam prontos para financiar e apoiar bens públicos globais, incluindo o estabelecimento da ONU, da Instituição de Bretton-Woods, do GATT [Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio], do Plano Marshall e outros. Hoje, os EUA sequer ratificam a grande maioria dos tratados da ONU. Os EUA quebram as regras do GATT, evita a descarbonização, subfinancia as instituições da ONU e de Bretton Woods e dá uma ninharia de sua renda nacional bruta (0,16%) como ajuda externa. A teoria da Competição Hegemônica falha porque pressagia conflito em vez de soluções para problemas. É a melhor explicação para a turbulência global, mas não uma estratégia para a paz, a segurança ou a solução para os problemas globais. É uma predicação de crise. É crucial lembrar que tanto Esparta quanto Atenas sofreram com as Guerras do Peloponeso. A abordagem realista é muito mais precisa, praticável e útil do que as teorias hegemônicas. No entanto, a abordagem realista também sofre de três grandes fraquezas. Primeiro, embora exija um equilíbrio de poder para manter a paz, não há equilíbrio de poder permanente. Equilíbrios passados ​​rapidamente se tornam desequilíbrios atuais. Em segundo lugar, como acontece com a teoria dos jogos que sustenta o realismo, tanto a teoria dos jogos quanto o realismo subestimam o potencial de cooperação na prática. Na abordagem realista, a não cooperação entre as nações é considerada o único resultado viável da geopolítica porque não há poder superior para impor a cooperação. No entanto, na teoria experimental dos jogos e na geopolítica prática, há muito mais espaço para uma cooperação bem-sucedida (por exemplo, no jogo experimental Dilema do Prisioneiro) do que a teoria prevê. Este ponto foi enfatizado por décadas por Robert Keohane e também foi enfatizado pelo falecido John Ruggie. Em terceiro lugar, e mais importante, o realismo falha porque fracassa em resolver o problema dos bens públicos globais, necessários para lidar com crises ambientais, crises financeiras, crises de saúde e outras. Nenhuma hegemonia isolada fornecerá os investimentos globais necessários. É necessária uma abordagem cooperativa global para compartilhar os custos e distribuir amplamente os benefícios. O roteiro para alcançar o multilateralismo do século XXI requer um ensaio separado. Em suma, o multilateralismo do século XXI deve se basear em dois documentos fundamentais, a Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e na família de instituições da ONU. Os bens públicos globais devem ser financiados por uma grande expansão dos bancos multilaterais de desenvolvimento (incluindo o Banco Mundial e os bancos regionais de desenvolvimento) e do FMI. O novo multilateralismo deve ser baseado em metas globalmente acordadas, notadamente o Acordo do Clima de Paris, o Acordo de Biodiversidade e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Deve colocar as novas tecnologias de ponta, incluindo a conectividade digital e a inteligência artificial, no âmbito do direito internacional e da governança global. Deve reforçar, implementar e desenvolver os acordos vitais sobre controle de armas e desnuclearização. Por fim, deve buscar força na antiga sabedoria das grandes tradições religiosas e filosóficas. Há muito trabalho pela frente para construir o novo multilateralismo, mas é o próprio futuro que está em jogo. Gostou do texto? 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