segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O enigma do capital e as crises do capitalismo

19/12/2011 11:13,  Por Vermelho
No preâmbulo do livro O enigma do capital e as crises do capitalismo, lançado recentemente pela Boitempo, o geógrafo marxista inglês David Harvey observa que o fluxo de capitais, tema central da obra, é tão vital para o sistema capitalista quanto a circulação do sangue para o corpo humano.
Por Umberto Martins

Este fluxo corresponde ao que Marx identificava como circulação do capital. Compreende o processo de valorização e reprodução do capital em escala ampliada (ou a uma “taxa composta”, como prefere o autor) e não pode sofrer solução de continuidade, sob pena de crise. “A continuidade do fluxo deve ser mantida em todos os tempos”, sublinha Harvey. “Se interrompemos, retardamos ou, pior, suspendemos o fluxo, deparamo-nos com uma crise do capitalismo em que o cotidiano não pode mais continuar no estilo a que estamos acostumados”.
A abundância que gera escassez
Desta forma, uma característica central das crises do sistema, incluindo a atual, é a interrupção do processo de valorização do capital, fato que se verifica na esfera produtiva com a depressão do comércio e queda das vendas e no ramo financeiro através da contração do crédito. As crises típicas do modo de produção capitalista são, por consequência, crises de realização, que decorrem da superprodução de capital.
Diferentemente do que ocorria nos modos de produção anteriores, como o feudalismo ou o escravismo, as crises que caracterizam o capitalismo, com manifestações cíclicas ao longo da história desde o início do século 19, são provocadas pela abundância e não pela escassez. A produção não é interrompida pela carência de capital, meios de produção e força de trabalho, mas pelo excesso desses fatores, pelo crescimento exagerado das forças produtivas em relação às relações sociais de produção. É a abundância de capital que origina a escassez de emprego e a carência de demanda. Parece paradoxal, mas é real.
A irracionalidade do sistema
“Em tempos de crise, a irracionalidade do capitalismo se torna evidente para todos”, assinala o geógrafo. “Capital e mão de obra excedentes existem lado a lado sem haver aparentemente uma forma de uni-los no meio de um imenso sofrimento humano e necessidades não realizadas. No meio do verão de 2009, um terço do equipamento de capital dos Estados Unidos esteve parado, enquanto 17% da força de trabalho estavam ou desempregados, forçados a trabalhar meio período ou ´sem ânimo´. O que poderia ser mais irracional do que isto?”
A necessidade de preservar a qualquer custo a circulação do capital esbarra em vários limites e barreiras que o sistema busca, incessantemente, superar. Entre essas barreiras destaca-se a eterna corrida entre lucro e salário, ou seja, a velha e controversa luta de classes. Reside aí também uma das contradições internas do sistema que levou Karl Marx a concluir que é no próprio capital que o capitalismo encontra os seus limites.
Neoliberalismo
Uma das expressões concentradas da luta de classes apontada por Harvey e também por outros críticos como uma causa relevante da crise atual é precisamente o neoliberalismo, que teve por marco os governos de Margaret Hilda Thatcher na Inglaterra (1979 a 1990) e Ronald Reagan (1981 a 1989) nos EUA e cujo fundamento, desde então, é uma impiedosa guerra de classes para derrubar salários e direitos da classe trabalhadora.
“As desigualdades de renda subiram nos Estados Unidos desde os anos 1970”, comenta Harvey, “ao ponto de os 90% mais baixos da pirâmide socioeconômica deterem agora apenas 29% da riqueza, deixando 10% das pessoas controlarem o resto, sendo que o 1% do topo tem 34% da riqueza e 24% da renda (três vezes mais do que tinham em 1970).”
Renda, consumo e dívida
A concentração da renda, cuja contrapartida foi a redução da participação dos salários no PIB (de 53% em 1970 para 46% em 2005), reduziu a capacidade de consumo do povo estadunidense, deprimindo a demanda por mercadorias e contribuindo, desta forma, para a recessão iniciada no final de 2007.
Durante certo tempo, lembra o escritor, “a lacuna entre o que o trabalho estava ganhando e o que ele poderia gastar foi preenchida pelo crescimento da indústria de cartões de crédito e aumento do endividamento. Nos EUA, em 1980 a dívida agregada familiar média era em torno de 40 mil dólares (em dólares constantes), mas agora é cerca de 130 mil dólares para cada família, incluindo hipotecas.”
A expansão do crédito, respaldada por uma política monetária frouxa, permitiu que o consumo descolasse da renda, subindo quando os salários estavam em baixa, fomentando a superprodução e a crise, um remédio natural para corrigir o desequilíbrio entre renda e consumo.
A tendência da taxa de lucros
O autor de “O enigma do capital” procura se guiar pela teoria marxista e apresenta idéias intrigantes e originais, ao analisar a geografia desigual do fluxo mundial de capitais, para a compreensão de um tema que continua a desafiar o pensamento econômico. Deve ser lido e digerido (como tudo o mais nesta vida) com atenção e espírito crítico, até porque se aventura por terrenos polêmicos.
Não penso que Harvey tenha razão quando sugere, na página 87, que a teoria de Marx sobre a tendência de queda na taxa média de lucros, associada à substituição de trabalho vivo (capital variável) por trabalho morto (capital constante), é “indevidamente simplista”. Mas faz falta um reexame das ideias sobre o assunto (expostas no livro 3 de “O capital”) à luz das transformações operadas pelo imperialismo (que Marx não viu nem analisou) no modo de funcionamento do capitalismo, com o preço ditado por monopólios, a exportação de capitais e a chamada “troca desigual” no comércio exterior.
Papel da classe trabalhadora
O geógrafo, que é professor em Nova York, também dilui o papel da luta de classes na atual conjuntura e é cético em relação à centralidade da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que exagera a importância dos movimentos ambientalistas e deposita esperança no movimento estudantil. “As lutas do trabalho não estão agora na vanguarda da dinâmica política, como foram nos anos 1960 e início dos anos 1970. Muito mais atenção está focada agora na relação com a natureza do que anteriormente.”
As greves e manifestações de massa que estão sacudindo a Europa em defesa dos direitos sociais e do chamado Estado de Bem Estar Social, com protagonismo óbvio dos sindicatos e dos trabalhadores, mostram que Harvey está equivocado a este respeito, o que não reduz a importância de suas observações sobre problemas relacionados à identidade e consciência de classe, além do predomínio de concepções estreitas acerca do proletariado (identificado exclusivamente com o operariado fabril).
Ao longo da sua já longa história, o capitalismo viveu inúmeras crises, algumas sumamente graves (como a Grande Depressão iniciada em 1929 e a atual crise mundial), mas sobreviveu a todas e renasceu das cinzas das duas grandes guerras do século 20. Harvey tem toda razão quando diz que “o capitalismo nunca vai cair por si próprio”. É preciso destruí-lo e esta missão, candente, ainda cabe à classe trabalhadora e a ninguém mais.
Ficha técnica
Título: O enigma do capital e as crises do capitalismo
Autor: David Harvey
Tradução: João Alexandre Peschanski
Páginas: 240
ISBN: 978-85-7559-184-0
Preço: R$ 39,00
Editora: Boitempo

Irak - the end America’s great expectations

The U.S. withdrawal from Iraq marks the end America’s great expectations

In American history, every now and then we get a definitive ending. The crash of October 1929 ended the Roaring Twenties; VJ Day ended World War II. The withdrawal of U.S. forces from Iraq this month, while less dramatic, also marks the passing of an era.
Launched in 2003 amid assurances of a rapid victory, the war is ending nearly nine years later with the United States settling for considerably less. Undertaken to demonstrate our supremacy, the war has instead revealed the stark limits of American power. It has laid waste to the post-Cold War era of great expectations once thought to define the future.
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Remember the 1990s, which opened with the Soviet Union in its death throes and the United States riding high? The Cold War reached a peaceful conclusion, and a new historical chapter, seemingly rich with promise, dawned. Led by the United States — its preeminence affirmed in 1991 by Operation Desert Storm — the world was moving from darkness into light.
While preparing Americans for their first military encounter with Saddam Hussein, President George H.W. Bush heralded the approach of a “new world order.” Lacking poetry, his formulation never caught on. So in Washington, politicians and commentators were soon vying to provide a more vivid rendering of the age. This effort yielded three broad claims.
The first claim was ideological: The collapse of communism signified the triumph of liberal democracy, a victory deemed definitive and irreversible; viable alternatives for organizing society had ceased to exist. The second claim was economic: The end of the Cold War had unleashed the forces of globalization; with the unimpeded movement of goods, capital, ideas and people, previously unimaginable opportunities for wealth creation beckoned. The third claim was military: Advanced information technology was revolutionizing warfare; armed forces able to exploit that revolution would gain unprecedented effectiveness.
Americans took it for granted that their own approach to democracy should and would apply universally. They believed themselves better positioned than any would-be competitor to capitalize on the promise of globalization. As for high-tech military power, Desert Storm had already testified to American prowess; what some were calling the Revolution in Military Affairs would translate a clear edge into permanent supremacy.
These claims together fostered an exuberance bordering on the ecstatic. “America stands alone as the world’s indispensable nation,” President Bill Clinton declared in his second inaugural address. As the “world’s greatest democracy” and with an economy that was “the strongest on Earth,” the United States, Clinton predicted, would soon “lead a whole world of democracies.”
Newt Gingrich’s vision tracked neatly with Clinton’s. “No country has ever had the potential to lead the entire human race the way America does today,” the Republican speaker of the House pronounced in 1996. “No country has ever had as many people of as many different backgrounds call on it . . . for advice about how to create free government, free markets, and a military that can operate within the rule of law.” 
C

An insolvent and ungovernable United States

The future of the USA - 2012-2016: An insolvent and ungovernable United States

In this issue, our team therefore gives its anticipations regarding the future of the United States for the 2012-2016 period. We recall that since 2006 and the first GEAB issues, LEAP/E2020 described the global systemic crisis as a phenomenon characterizing the end of the world as we know it since 1945, marking the collapse of the American pillar on which this world order has rested for nearly seven decades. Since 2006, we had identified the period 2011-2013 as that during which the “Dollar Wall” on which the power of the United States sits would fall apart. Summer 2011, with the cut in the United States’ credit rating by S & P, marked an historic turning point and confirmed that the “impossible” (27) was indeed in the process of coming true. Therefore today, it seems essential to provide our subscribers with a clear anticipatory vision of what awaits the “pillar” of the world before the crisis at the point when the crisis moved into “top gear” in summer 2011 (28).

Thus, according to LEAP/E2020, the 2012 election year, which opens against the backdrop of economic and social depression, complete paralysis of the federal system (29), strong rejection of the traditional two-party system and a growing questioning of the relevance of the Constitution, inaugurates a crucial period in the history of the United States. Over the next four years, the country will be subjected to political, economic, financial and social upheaval such as it has not known since the end of the Civil War which, by an accident of history, started exactly 150 years ago in 1861. During this period, the US will be simultaneously insolvent and ungovernable, turning that which was the “flagship” of the world in recent decades into a “drunken boat”.

To make the complexity of the current process understandable, our team has chosen to organize its anticipations around three key areas:

US institutional deadlock and the break-up of the traditional two-party system
The unstoppable spiral of recession/depression/inflation
The breakdown of the US socio-political fabric

The unstoppable US economic spiral : recession/depression/inflation (extract)

In fact, the United States ends 2011 in a state of weakness unmatched since the Civil War. They practice no significant leadership at international level. The confrontation between geopolitical blocs is sharpening and they find themselves confronted by almost all the world’s major players: China, Russia, Brazil (and in general almost all of South America) and now Euroland (30). Meanwhile, they cannot control unemployment where the true rate stagnates at around 20% against the backdrop of an unabated and unprecedented reduction in the labour force (which has now fallen to its 2001 level (31)).

Real estate, the foundation of US household wealth along with the stock market, continues to see prices drop year after year despite desperate attempts by the Fed (32) to facilitate lending to the economy through its zero interest rate policy. The stock market has resumed its downward path artificially interrupted by two Quantitative Easings in 2009 and 2010. US banks, whose balance sheets are much more heavily loaded with financial derivative products than their European counterparts (33), are dangerously approaching a new series of bankruptcies of which MF Global is a but a precursor, indicating the absence of procedural controls or alarms three years after the collapse of Wall Street in 2008 (34).

Poverty is gradually increasing in the country every day, where one in six Americans now depend on food stamps (35) and one in five children has experienced periods of living on the streets (36). Public services (education, social, police, highways...) have been significantly reduced across the country to avoid city, county, or state bankruptcies. The success with which the revolt of the middle class and the young (TP and OWS) has met is explained by these objective developments. And the coming years will see these trends get worse.

The weakness of the 2011 US economy and society is, paradoxically, the result of the “rescue” attempts carried out in 2009/2010 (stimulus plans, QE ...) and the worsening of a pre-2008 “normal” situation. 2012 will mark the first year of deterioration from an already badly impaired situation (37).

SMEs, households, local authorities (38), public services,... have no more “padding” to soften the blow of the recession into which the country has fallen again (39). We anticipated that 2012 would see a 30% drop in the Dollar against major world currencies. In this economy, which imports the bulk of its consumer goods, this will result in a corresponding decrease in US household purchasing power against a backdrop of double-digit inflation.

The TP and OWS have, therefore, a bright future ahead of them since the wrath of 2011 will become the rage in 2012/2013.

O enigma do capital e as crises do capitalismo

O enigma do capital e as crises do capitalismo

19/12/2011 11:13,  Por Vermelho
No preâmbulo do livro O enigma do capital e as crises do capitalismo, lançado recentemente pela Boitempo, o geógrafo marxista inglês David Harvey observa que o fluxo de capitais, tema central da obra, é tão vital para o sistema capitalista quanto a circulação do sangue para o corpo humano.
Por Umberto Martins

Este fluxo corresponde ao que Marx identificava como circulação do capital. Compreende o processo de valorização e reprodução do capital em escala ampliada (ou a uma “taxa composta”, como prefere o autor) e não pode sofrer solução de continuidade, sob pena de crise. “A continuidade do fluxo deve ser mantida em todos os tempos”, sublinha Harvey. “Se interrompemos, retardamos ou, pior, suspendemos o fluxo, deparamo-nos com uma crise do capitalismo em que o cotidiano não pode mais continuar no estilo a que estamos acostumados”.
A abundância que gera escassez
Desta forma, uma característica central das crises do sistema, incluindo a atual, é a interrupção do processo de valorização do capital, fato que se verifica na esfera produtiva com a depressão do comércio e queda das vendas e no ramo financeiro através da contração do crédito. As crises típicas do modo de produção capitalista são, por consequência, crises de realização, que decorrem da superprodução de capital.
Diferentemente do que ocorria nos modos de produção anteriores, como o feudalismo ou o escravismo, as crises que caracterizam o capitalismo, com manifestações cíclicas ao longo da história desde o início do século 19, são provocadas pela abundância e não pela escassez. A produção não é interrompida pela carência de capital, meios de produção e força de trabalho, mas pelo excesso desses fatores, pelo crescimento exagerado das forças produtivas em relação às relações sociais de produção. É a abundância de capital que origina a escassez de emprego e a carência de demanda. Parece paradoxal, mas é real.
A irracionalidade do sistema
“Em tempos de crise, a irracionalidade do capitalismo se torna evidente para todos”, assinala o geógrafo. “Capital e mão de obra excedentes existem lado a lado sem haver aparentemente uma forma de uni-los no meio de um imenso sofrimento humano e necessidades não realizadas. No meio do verão de 2009, um terço do equipamento de capital dos Estados Unidos esteve parado, enquanto 17% da força de trabalho estavam ou desempregados, forçados a trabalhar meio período ou ´sem ânimo´. O que poderia ser mais irracional do que isto?”
A necessidade de preservar a qualquer custo a circulação do capital esbarra em vários limites e barreiras que o sistema busca, incessantemente, superar. Entre essas barreiras destaca-se a eterna corrida entre lucro e salário, ou seja, a velha e controversa luta de classes. Reside aí também uma das contradições internas do sistema que levou Karl Marx a concluir que é no próprio capital que o capitalismo encontra os seus limites.
Neoliberalismo
Uma das expressões concentradas da luta de classes apontada por Harvey e também por outros críticos como uma causa relevante da crise atual é precisamente o neoliberalismo, que teve por marco os governos de Margaret Hilda Thatcher na Inglaterra (1979 a 1990) e Ronald Reagan (1981 a 1989) nos EUA e cujo fundamento, desde então, é uma impiedosa guerra de classes para derrubar salários e direitos da classe trabalhadora.
“As desigualdades de renda subiram nos Estados Unidos desde os anos 1970”, comenta Harvey, “ao ponto de os 90% mais baixos da pirâmide socioeconômica deterem agora apenas 29% da riqueza, deixando 10% das pessoas controlarem o resto, sendo que o 1% do topo tem 34% da riqueza e 24% da renda (três vezes mais do que tinham em 1970).”
Renda, consumo e dívida
A concentração da renda, cuja contrapartida foi a redução da participação dos salários no PIB (de 53% em 1970 para 46% em 2005), reduziu a capacidade de consumo do povo estadunidense, deprimindo a demanda por mercadorias e contribuindo, desta forma, para a recessão iniciada no final de 2007.
Durante certo tempo, lembra o escritor, “a lacuna entre o que o trabalho estava ganhando e o que ele poderia gastar foi preenchida pelo crescimento da indústria de cartões de crédito e aumento do endividamento. Nos EUA, em 1980 a dívida agregada familiar média era em torno de 40 mil dólares (em dólares constantes), mas agora é cerca de 130 mil dólares para cada família, incluindo hipotecas.”
A expansão do crédito, respaldada por uma política monetária frouxa, permitiu que o consumo descolasse da renda, subindo quando os salários estavam em baixa, fomentando a superprodução e a crise, um remédio natural para corrigir o desequilíbrio entre renda e consumo.
A tendência da taxa de lucros
O autor de “O enigma do capital” procura se guiar pela teoria marxista e apresenta idéias intrigantes e originais, ao analisar a geografia desigual do fluxo mundial de capitais, para a compreensão de um tema que continua a desafiar o pensamento econômico. Deve ser lido e digerido (como tudo o mais nesta vida) com atenção e espírito crítico, até porque se aventura por terrenos polêmicos.
Não penso que Harvey tenha razão quando sugere, na página 87, que a teoria de Marx sobre a tendência de queda na taxa média de lucros, associada à substituição de trabalho vivo (capital variável) por trabalho morto (capital constante), é “indevidamente simplista”. Mas faz falta um reexame das ideias sobre o assunto (expostas no livro 3 de “O capital”) à luz das transformações operadas pelo imperialismo (que Marx não viu nem analisou) no modo de funcionamento do capitalismo, com o preço ditado por monopólios, a exportação de capitais e a chamada “troca desigual” no comércio exterior.
Papel da classe trabalhadora
O geógrafo, que é professor em Nova York, também dilui o papel da luta de classes na atual conjuntura e é cético em relação à centralidade da classe trabalhadora, ao mesmo tempo em que exagera a importância dos movimentos ambientalistas e deposita esperança no movimento estudantil. “As lutas do trabalho não estão agora na vanguarda da dinâmica política, como foram nos anos 1960 e início dos anos 1970. Muito mais atenção está focada agora na relação com a natureza do que anteriormente.”
As greves e manifestações de massa que estão sacudindo a Europa em defesa dos direitos sociais e do chamado Estado de Bem Estar Social, com protagonismo óbvio dos sindicatos e dos trabalhadores, mostram que Harvey está equivocado a este respeito, o que não reduz a importância de suas observações sobre problemas relacionados à identidade e consciência de classe, além do predomínio de concepções estreitas acerca do proletariado (identificado exclusivamente com o operariado fabril).
Ao longo da sua já longa história, o capitalismo viveu inúmeras crises, algumas sumamente graves (como a Grande Depressão iniciada em 1929 e a atual crise mundial), mas sobreviveu a todas e renasceu das cinzas das duas grandes guerras do século 20. Harvey tem toda razão quando diz que “o capitalismo nunca vai cair por si próprio”. É preciso destruí-lo e esta missão, candente, ainda cabe à classe trabalhadora e a ninguém mais.
Ficha técnica
Título: O enigma do capital e as crises do capitalismo
Autor: David Harvey
Tradução: João Alexandre Peschanski
Páginas: 240
ISBN: 978-85-7559-184-0
Preço: R$ 39,00
Editora: Boitempo

Jeito petista de governar é copiado por 65 países


Jeito petista de governar é copiado por 65 países
A estimativa é que 65 países já tenham se inspirado em ideias brasileiras, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida
19 de dezembro de 2011 | 3h 04
LISANDRA PARAGUASSU / BRASÍLIA - O Estado de S.Paulo
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lançou na última semana seu mais novo programa social, o Misión Hijos de Venezuela, em que famílias pobres irão receber o equivalente a US$ 100 mensais para manter até três filhos na escola. A semelhança com o Bolsa Família brasileiro não é apenas coincidência.
Chávez, assim como outros presidentes dos dois lados do oceano Atlântico, tem contado com o apoio do governo brasileiro para criar suas próprias versões dos programas sociais criados no Brasil.
Estima-se dentro do governo que 65 países usem algum dos programas brasileiros. Prestes a enfrentar sua terceira tentativa de reeleição, possivelmente a mais dura delas, Chávez aposta justamente nesses programas com viés popular para atrair de volta parte da população pobre que se afastou de seu projeto bolivariano.
Além da Misión Hijos de Venezuela, Chávez implantou uma versão local do Minha Casa, Minha Vida, o Gran Misión Viviendas, sua tentativa de resolver o crônico problema de moradias no país, especialmente na capital, Caracas.
Essa cópia detalhada do projeto brasileiro vai da urbanização das favelas até a forma dos contratos de financiamento, e conta com uma ajuda de peso: a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Maria Fernanda Coelho vai ao país uma vez por mês dar assessoria técnica aos venezuelanos. Ela atende a um pedido do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Apesar de recente, o Minha Casa, Minha Vida já entrou na pauta de cooperação externa do Brasil. Hoje há seis países africanos e latino-americanos que recebem ajuda brasileira para implantá-lo. Um deles é a Nicarágua, onde Daniel Ortega também enfrentou uma dura reeleição este ano. Seu chanceler, Samuel Santos, esteve no Brasil em julho tratando justamente dos projetos de cooperação.
"O Brasil é visto hoje como um laboratório de políticas sociais, tanto pelos países que vêm pedir cooperação como pelos desenvolvidos, que nos pedem para fazer mais projetos", justifica o presidente da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), embaixador Marcos Farani. "Temos hoje projetos de cooperação com 65 países. Eu diria que em todos existe algum programa social."
O próprio governo brasileiro oferece aos vizinhos e aos africanos suas experiências sociais. O Segundo Tempo, do Ministério dos Esportes, recentemente alvo de denúncias que mostraram o programa como um duto para desvio de dinheiro através de organizações não-governamentais de fachada, virou estrela das propostas de cooperação esportiva. O programa já foi iniciado em cinco países - entre eles Angola e Moçambique - e há outras propostas aguardando a resposta brasileira.
Transferência de renda. Um dos projetos mais pedidos é o fiador de boa parte da popularidade de Lula, o Bolsa Família. De acordo com Farani, os programas do Ministério do Desenvolvimento Social, com ênfase na transferência de renda para famílias pobres, só perdem para os da Agricultura, que vão desde o desenvolvimento de tecnologias pela Embrapa até os de compra local, passando por financiamento de agricultura familiar e alternativas para o produção de biocombustíveis.
Atualmente, pelo menos 14 países copiam ou planejam copiar o Bolsa Família. A procura pelo programa, no entanto, tem arrefecido. As dificuldades de implantação do projeto muitas vezes assustam os possíveis candidatos a "Lulas" locais. A promessa de popularidade nem sempre compensa os problemas que surgem.
"Não é fácil implantá-lo", explica Farani. "O Bolsa Família necessita não apenas de recursos financeiros, mas de uma estrutura. É um processo complexo, exige uma enorme capilaridade para atender os beneficiários, exige uma rede bancária eficiente. Eles querem entender, mas nem sempre vão adiante."
Investimento. Normalmente, o lado brasileiro da cooperação não custa muito. São apenas os recursos para enviar e manter técnicos no país que recebe o projeto. No caso do Gran Misión Vivienda, na Venezuela, a projeção é de pouco menos de US$ 270 mil.
Há casos, no entanto, em que o Brasil participa mais ativamente. Em Moçambique e Angola, a criação do Pintando a Liberdade - projeto do Ministério do Esporte em que presos fabricam material esportivo - contou com a doação de matéria-prima por empresas brasileiras.
Outro projeto ao qual o ex-presidente Lula dava muita atenção, o dos biocombustíveis, também teve mais investimentos brasileiros. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi a responsável por estudos de viabilidade em pelo menos 12 países latino-americanos e africanos.

Desfinaciarizar a economia; em fr

Définanciariser l'économie ? La véritable révolution intellectuelle

Point de vue | LEMONDE.FR | 19.12.11 | 09h12
par Joël Decarsin, membre de l'Association internationale Jacques Ellul

"Il faut définanciariser l'économie", affirme André Orléan dans Le Monde du 6 décembre, au motif que si la fameuse thèse de l'efficience des marchés est recevable sur le papier, ses effets s'avèrent désastreux dans la réalité.

Cette thèse, précise-t-il, est contre-productive du fait que l'on applique aux marchés financiers un principe qui structurait jusqu'alors les marchés de biens ordinaires : "de même que les prix des marchandises sont censés refléter leur rareté objective, nous dit l'économiste, les prix financiers sont supposés proposer une image juste du futur et de ses risques." La crise provient donc à ses yeux pour l'essentiel du fait que le principe qui préside au fonctionnement de la finance est contraire à celui qui assure la régulation des marchés de biens tandis que les acteurs procèdent exactement comme s'il était le même.
La démonstration nous semble séduisante, moins toutefois que dans le Manifeste des économistes atterrés, dont André Orléan est l'un des co-auteurs. Rappelons-la donc textuellement.

"L'erreur majeure de la théorie de l'efficience des marchés financiers consiste à transposer aux produits financiers la théorie habituelle des marchés de biens ordinaires. Sur ces derniers, la concurrence est pour partie autorégulatrice en vertu de ce que l'on nomme la loi de l'offre et de la demande : lorsque le prix augmente, alors les producteurs augmentent leur offre et les acheteurs réduisent leur demande. Le prix baisse et revient donc près de son niveau d'équilibre. Autrement dit, quand le prix d'un bien augmente, des forces de rappel tendent à freiner puis inverser cette hausse. La concurrence produit des feed-backs négatifs. (…) L'idée d'efficience naît d'une transposition directe de ce mécanisme à la finance de marché. Or pour cette dernière, la situation est radicalement différente. Quand le prix augmente, il est fréquent d'observer, non pas une baisse mais une hausse de la demande ! En effet, la hausse du prix signifie un rendement accru pour ceux qui possèdent le titre, du fait de la plus-value réalisée. La hausse du prix attire donc de nouveaux acheteurs ce qui renforce encore la hausse initiale. Les promesses de bonus poussent les traders à amplifier encore le mouvement. Jusqu'à l'inci-dent, imprévisible mais inévitable, qui provoque l'inversion des anticipations et le krach."
Nous n'avons personnellement rien à redire à ce constat qui nous paraît des plus clairs. C'est l'analyse, en revanche, qui nous semble un peu superficielle. Car pourquoi, en fin de compte, ce phénomène perdure-t-il dans le temps ? Pourquoi les agents économiques ne s'aperçoivent-ils pas qu'ils roulent sur le verglas comme ils font du surf sur les plages ensoleillées ? Qu'est ce qui explique ce qu'Orléan appelle la "forte myopie" des marchés ? "Un homme averti en vaut deux", dit le dicton. Qu'est-ce donc alors qui peut nous permettre de comprendre l'attitude panurgique des marchés ? Après avoir rappelé que "la théorie de l'efficience financière a accompagné la dérégulation financière, qui y a puisé ses justifications les plus fortes", Orléan avance lui-même une réponse : après avoir rappelé "les marchés boursiers véhiculent, depuis une dizaine d'années, des exigences de rentabilité, le fameux ROE (return on equity), qui pèsent fortement sur l'investissement et la croissance".
Les "exigences de rentabilité". Nous y voilà. Tel est, en termes savants, le motif si souvent décliné dans l'opinion de manières moins élégantes : le monde est en désordre parce qu'une poignée de malpropres s'en mettent plein les poches sur le dos de millions d'autres. Nous serions prêts à admettre une telle explication si l'appât du gain était une chose nouvelle, ce qui n'est pas le cas. L'argument invoqué ne suffit pas à expliquer pourquoi la crise que nous traversons est, comme l'affirme Orléan, "sans précédent depuis la crise des années 1930". Il existe selon nous un facteur "accélérateur" qu'il ne prend pas en considération dans sa démonstration, pas plus du reste – à notre connaissance – que bien d'autres experts.
Ce facteur, nous le voyons dans le développement exponentiel des techniques. Ce qui caractérise foncièrement le capitalisme contemporain, ce n'est plus l'accumulation du capital, comme au temps de Karl Marx, mais les capacités immenses de le faire circuler en des temps absolument inégalés, du fait même des moyens ultra sophistiqués dont disposent les agents économiques, tous quels qu'ils soient, tant ces moyens se sont démocratisés.
Nous n'avons pas ici la prétention de nous attribuer la paternité de cette explication ni celle d'affirmer qu'elle est nouvelle. Elle est en effet celle d'un penseur français disparu depuis près de vingt ans mais qui est passée quasiment inaperçue en son temps. Dès 1954, Jacques Ellul, affirmait : "Il est vain de déblatérer contre le capitalisme, ce n'est pas lui qui crée ce monde, c'est la machine", précisant en 1981 : "Le capitalisme est une réalité déjà historiquement dépassée. Il peut bien durer un siècle encore, cela n'a pas d'intérêt historique. Ce qui est nouveau, significatif et déterminant, c'est la technique." Nous affirmons ici que les épreuves que nous traversons actuellement lui donnent raison.
Nous faisons d'abord remarquer une chose : tous les commentateurs (qu'ils se prononcent depuis le camp libéral ou dans le camp adverse) parlent communément des "marchés" au point que l'expression est passée dans le langage usuel sans que, véritablement, l'on prenne le soin de décrypter qui sont ces marchés, quelle réalité effective ils recouvrent.
La thèse que nous défendons est celle-ci : la théorie de l'efficience des marchés postule que tout un chacun peut interpréter les informations qui lui parviennent et y réagir correctement. En réalité, celles-ci sont si nombreuses qu'elles se contredisent et rendent impossible, à terme la moindre rationalité, a fortiori la moindre prévisibilité en termes macro-économiques. Contrairement à une opinion plus ou moins formulées mais largement répandue, les "marchés" ne constituent nullement le repère de spéculateurs se concertant pour faire valoir une quelconque "logique" libérale mais rien d'autre que d'immenses réseaux informatiques, empruntés par des millions de citoyens qui, du coup, en justifient l'existence et le rendent incritiquable.
La technique serait-elle donc coupable ? Faudrait-il "retourner à la bougie", comme la plupart des commentateurs se plaisent ironiquement à le rétorquer à ceux qui se risquent à critiquer les notions de progrès et de croissance ? Certainement pas. Ellul prenait un soin particulier à arguer que "ce n'est pas la technique qui nous asservit mais le sacré transféré à la technique".
Le sacré… quel est aujourd'hui l'économiste qui introduit cette notion dans le cadre de ses diagnostics ? Qui aujourd'hui est prêt à prendre au sérieux l'idée que "l'homme moderne" puisse sacraliser quoi que ce soit ? Même un Marcel Gauchet (l'un des rares penseurs d'aujourd'hui à inscrire ses analyses du présent dans le temps long et à penser le politique comme participant d'une continuité avec le religieux) conclue au désenchantement du monde.
En définitive, ce n'est pas le monde dans sa globalité qui est désacralisé mais seulement la nature (notre environnement pollué en est la preuve) tandis que c'est l'instrument même de cette désacralisation, la technique, qui – au fil d'un jeu de chaises finement décrit par Ellul à travers son œuvre – est devenu l'objet tabou par excellence : incritiquable donc immaîtrisable.
Nous ne pouvons ici, par manque de place, développer plus avant la notion de sacré telle que l'entendait Jacques Ellul. Tout au plus pouvons-nous ouvrir le débat de la toute puissance de la technique par l'une de ses citations (qui date elle aussi de 1954) : "Le phénomène technique est la préoccupation de l'immense majorité des hommes de notre temps de rechercher en toutes choses la méthode absolument la plus efficace." Cette obsession de l'efficacité conduit au chaos actuel, du seul fait que les moyens techniques se sont démocratisés.
L'influence énorme qu'exercent les agences de notation sur les gouvernements marque le primat de la technique non seulement sur la politique mais aussi sur l'économie toute entière.
Lorsque, par conséquent, André Orléan affirme que "la définanciarisation repose sur la constitution de pouvoirs d'évaluation hors des marchés (entrepreneurs, syndicats, pouvoirs publics, associations), aptes à proposer des finalités conformes à l'intérêt collectif", nous pensons à la fois qu'il a raison et qu'il ne mesure pas à sa juste valeur l'ampleur du "vaste chantier" et de la "véritable révolution intellectuelle" qu'il appelle de ses vœux.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

O outro Steve Jobs ; em esp

El otro Steve Jobs



La muerte de Steve Jobs, fundador y dirigente de la empresa Apple, ha sido el espectáculo mediático empresarial más teatral vivido este año. Durante las últimas semanas hemos visto una enorme movilización de los mayores medios de información internacionales, bajo la batuta del establishment empresarial estadounidense (lo que se llama en EEUU la Corporate Class), para celebrar la vida del que ha sido canonizado unánimemente por tales medios. Uno de los mayores rotativos del país aseguró incluso que había tenido “una vida ejemplar o extraordinaria”, que mostraba el enorme potencial que un ser humano puede alcanzar bajo el capitalismo estadounidense. En esta construcción mediática se ha presentado a Steve Jobs como una persona de orígenes humildes que alcanzó por su propio mérito la cumbre del mundo empresarial, creando nuevos productos que han beneficiado a toda la humanidad. En esta proyección mediática, Steve Jobs es el self-made man, emprendedor por antonomasia que, a base de genio y ambición, llegó a unos niveles de grandeza que pocos alcanzan en nuestro mundo.
Para no ser menos, los rotativos de mayor difusión e influencia en España utilizaron también adjetivos superlativos para describirlo. Le definieron como “ejemplar”, “extraordinario”, “inspirador”, “magnífico” o “un hombre que quiso dar amor en su dedicación a satisfacer a las masas”, “pionero”, digno de “admiración”, “respeto” y “agradecimiento”, “fuente de inspiración para los emprendedores españoles”, “un gran creador de puestos de trabajo”, y así un largo etcétera. Podría continuar y continuar con una larga lista de cantos y alabanzas a la figura del emprendedor cuyo genio supuso el éxito del capitalismo.
En esta divinización (y no creo exagerado este término para definir el clamor unánime de alabanzas) se ignoran varios hechos de su biografía que dan otra versión del personaje. En realidad, Steve Jobs era muy representativo del emprendedor que ha hecho una enorme fortuna a base de utilizar y explotar para beneficio propio bienes comunes sin los cuales no hubiera alcanzado su éxito. Es más, su fortuna se basó, en parte, en una enorme explotación de otros seres humanos. Veamos los datos, comenzando por sus características como empresario empleador. Apple, la empresa de Steve Jobs, no fabrica sus productos en EEUU. Lo hace en Shenzen, una ciudad de China conocida como el Silicon Valley chino, donde trabajan 420.000 trabajadores en condiciones miserables. El grupo empresarial Foxconn dirige tal conglomerado de industrias que producen aparatos electrónicos. En este lugar, incluidas las fábricas de Apple, se explota brutalmente a sus trabajadores (no es extraño que trabajen seis días a la semana 16 horas al día) en condiciones militares en sus cadenas de montaje. Existe un ambiente de terror bien documentado por la obra de Mike Daisey (The agony and the ecstasi of Steve Jobs) en ninguna parte mencionada en la bacanal de elogios escritos a razón del homenaje a su figura.
Su fortuna personal (estimada en 8.500 millones de dólares) y los enormes beneficios de su empresa se basaban, en parte, en esta súper explotación de otros seres humanos. El número de suicidios, consecuencia de las horribles condiciones de trabajo, ha sido denunciado en varios medios internacionales. Según el diario londinense Daily Mail, a los trabajadores de las fábricas de Apple en China se les fuerza a firmar un contrato en el que se comprometen, ellos y sus familias, a no denunciar y a no llevar a la compañía a los tribunales en caso de accidente, daño, muerte o suicidio. La insensibilidad hacia las condiciones de trabajo en sus empresas reflejaba una actitud muy representativa del gran emprendedor del siglo XX. Su antagonismo, casi hostilidad, hacia la clase trabajadora, era bien conocido. Como señala Eric Alterman en su artículo titulado Steve Jobs. Una vergüenza americana (Steve Jobs. An American Disgrace publicado en The Nation. 28-11-11), Steve Jobs había aconsejado al presidente Obama a imitar a China y permitir a las empresas estadounidenses hicieran, no sólo en China, sino también en EEUU, lo que quisieran, sin ningún tipo de protección a los trabajadores ni al medio ambiente.
Su obsesión era acumular dinero, sin ningún freno en ello. Era el “perfecto emprendedor” de la Corporate America, que se nos quiere presentar como modelo y ejemplo. No se conoce que diera dinero a actos sociales benéficos, como los súper ricos suelen hacer en aquel país como estrategia de marketing para mejorar su imagen. En realidad, ridiculizó a Bill Gates por crear una fundación que lleva su nombre, atribuyendo un supuesto retraso tecnológico de las empresas de Bill Gates (la hostilidad de Steve Jobs hacia Bill Gates era bien conocida) al “excesivo interés de Bill Gates en ayudar a los pobres”. Steve Jobs era un personaje que pertenecía al mundo definido por Charles Dickens.
Una última observación. Las empresas Apple y la gran mayoría de “inventos de la industria electrónica” se basan en el conocimiento de la investigación básica producida en otras instituciones, frecuentemente centros académicos financiados públicamente por el Gobierno federal de EEUU, especializados en temas militares o aeroespaciales. Internet es un claro ejemplo de ello. El conocimiento que produjo Internet, por ejemplo, procedía de las inversiones públicas. Parece ignorarse que el Gobierno federal de EEUU tiene una de las políticas industriales más desarrolladas en la OCDE, invirtiendo enormemente en investigación y desarrollo. La industria electrónica ha explotado tal conocimiento público para sus fines privados. Sin desmerecer la importancia de la investigación aplicada y de la creación intelectual, hay que señalar que la escalera que les permite subir ha sido construida por otros, punto también olvidado en esta biografía de un personaje representativo de lo que significa el capitalismo sin guantes y sin límites.
http://blogs.publico.es/dominiopublico/4388/el-otro-steve-jobs/