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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O renascimento do Estado-nação


Por Dani Rodrik
Um dos mitos básicos de nossa era é o de que a globalização condenou o Estado-nação à irrelevância. A revolução nos transportes e comunicações, costuma-se ouvir, pulverizou fronteiras e encolheu o mundo. Novas formas de governo, desde redes transnacionais de agências de regulamentação até organizações internacionais da sociedade civil e instituições multilaterais, vêm transcendendo e suplantando os parlamentares nacionais. As autoridades políticas domésticas, comenta-se, são impotentes ante os mercados mundiais.
A crise financeira mundial acabou com esse mito. Quem socorreu os bancos, injetou liquidez, empenhou-se em estímulos fiscais, proporcionou redes de segurança social para desempregados e evitou a escalada da catástrofe? Quem está reescrevendo as regras de supervisão e regulamentação dos mercados financeiros para impedir outra crise? Quem leva a maior parte da culpa por tudo que sai errado? A resposta é quase sempre a mesma: os governos nacionais. O G-20, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, em geral, ficaram em segundo plano.
Quem socorreu os bancos e evitou a escalada da catástrofe? Quem está revendo a regulamentação dos mercados para impedir outra crise? Quem leva a maior parte da culpa por tudo que sai errado? A resposta é quase sempre a mesma: os governos nacionais
Mesmo na Europa, onde as instituições regionais são relativamente fortes, são os interesses nacionais e as autoridades políticas domésticas, em grande parte, na figura da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que vêm dominando a definição das políticas. Se Merkel fosse menos apaixonada pela receita de austeridade passada aos países europeus assolados por dívidas e se ela tivesse conseguido convencer seu eleitorado doméstico da necessidade de uma abordagem diferente, a crise da região do euro teria se desdobrado de uma forma bem diferente.
Embora o Estado-nação ainda sobreviva, sua reputação está em frangalhos. A investida intelectual contra o Estado-nação assume duas formas. Na primeira, há a crítica dos economistas que veem os governos como um impedimento à livre circulação de bens, capital e pessoas pelo mundo. Se impedirmos os políticos de intervir com suas regras e barreiras, dizem esses economistas, os mercados mundiais tomarão conta de si próprios e, no processo, criarão uma economia mundial mais integrada e eficiente.
Quem, no entanto, determinará as regras e regulamentações dos mercados, senão os Estados-nações? O "laissez-faire" é uma receita para mais crises financeiras e maior retrocesso político. Além disso, exigiria delegar a política econômica a tecnocratas internacionais, figuras isoladas das pressões inerentes à política - uma situação que restringe seriamente a democracia e a responsabilidade política.
Em resumo o "laissez-faire" e a tecnocracia internacional não proporcionam uma alternativa plausível ao Estado-nação. Na verdade, enquanto não dispomos de mecanismos viáveis de governança mundial, a erosão do Estado-nação, em última análise, traz pouco de positivo para os mercados mundiais.
Na segunda forma, há os pensadores éticos cosmopolitas que condenam a artificialidade das fronteiras nacionais. Como o filósofo Peter Singer disse, a revolução das comunicações gerou uma "audiência global", que cria uma base para uma "ética global". Se nos identificamos com a nação, nossa moralidade permanece nacional. Se, no entanto, cada vez mais nos associarmos ao mundo em geral, nossas lealdades também se expandirão. De forma similar, o economista vencedor do Nobel, Amartya Sen, fala de nossas "identidades múltiplas" - étnicas, religiosas, nacionais, locais, profissionais e políticas - muitas das quais atravessam as fronteiras nacionais.
Não está claro quanto disso é mera expressão de desejo e quanto é baseado em mudanças reais nas identidades e afinidades das pessoas. Pesquisas mostram evidências de que a afinidade das pessoas com o Estado-nação continua bastante forte.
Há poucos anos, a Pesquisa Mundial de Valores consultou pessoas em vários países sobre sua afinidade com as comunidades locais, suas nações e o mundo em geral. Não foi nenhuma surpresa descobrir que os pesquisados que se viam como cidadãos nacionais superavam amplamente os que se consideravam cidadãos do mundo. Surpreendentemente, no entanto, a identidade nacional superava até a identidade local nos Estados Unidos, Europa, Índia, China e na maioria dos outros lugares.
A mesma pesquisa indica que os mais jovens, os que têm mais estudo e os que se identificam como sendo das classes mais altas são mais propensos a se sentir associados ao mundo em geral. É difícil, no entanto, identificar qualquer faixa demográfica em que a afinidade à comunidade mundial supera a ligação ao país.
Por maiores que tenham sido os declínios nos custos com transportes e comunicações, não foram suficientes para tirar a geografia de cena. As atividades políticas, sociais e econômicas continuam agrupadas em torno a preferências, necessidades e trajetórias históricas que variam ao redor do mundo.
A distância geográfica é um determinante de intercâmbio econômico tão forte quanto era há 50 anos. Mesmo a internet, no fim das contas, não é tão independente das fronteiras quanto parece: um estudo mostrou que os americanos são mais inclinados a visitar sites de países fisicamente próximos do que de lugares mais distantes, mesmo levando em conta o idioma, renda e muitos outros fatores.
O problema é que ainda estamos sob o domínio do mito do declínio do Estado-nação. Líderes políticos alegam impotência, intelectuais sonham com esquemas implausíveis de governança global e os que se veem como perdedores, cada vez mais, culpam os imigrantes ou as importações. Quando se fala sobre revigorar o Estado-nação, pessoas respeitáveis fogem assustadas, como se tivessem ouvido uma proposta de reinstituir a praga.
Naturalmente, a geografia de afinidades e identidades não é fixa: de fato, vem mudando ao longo da história. Isso significa que não devemos descartar inteiramente a probabilidade de surgimento de uma verdadeira consciência mundial no futuro, juntamente com comunidades políticas transnacionais.
Os desafios atuais, entretanto, não podem ser enfrentados por instituições que (ainda) não existem. Por enquanto, as pessoas ainda precisam recorrer a seus governos nacionais em busca de soluções, o que continua sendo a melhor esperança de uma ação coletiva. O Estado-nação pode ser uma relíquia que nos foi legada pela Revolução Francesa, mas é tudo o que temos.
Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na Harvard University e autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy" (o paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial, em inglês). 
publicado originalmente no jornal Valor Econômico
www.project-syndicate.org

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Letônia prova o veneno neoliberal (em inglês)

Latvia’s Economic Failure Has Important Lessons for Eurozone, New CEPR Paper Concludes

Record-Breaking Income Decline, Loss of Jobs and Citizens, Slow Recovery Show Downside of "Internal Devaluation"

For Immediate Release: December 8, 2011
Contact: Dan Beeton, 202-239-1460
Washington, D.C. - A new paper from the Center for Economic and Policy Research finds that Latvia’s deep recession and slow recovery holds important lessons for other eurozone countries that may rely on an “internal devaluation” in an attempt to boost their economies through exports.

“The case of Latvia has important implications for the current debate on the eurozone crisis, since similar pro-cyclical policies are being implemented in a number of countries,” CEPR Co-Director, and lead author of the paper, Mark Weisbrot said. “It provides further evidence that ‘internal devaluation’ – keeping unemployment high, and lowering wages to make the economy more internationally competitive - can be a very costly strategy, and one that does not work.

“The risks in the eurozone are even greater because of the enormous size of the European banking system, and the financial crisis that has resulted from these pro-cyclical policies.

“The risks from the continuation of failed macroeconomic policies in the eurozone are very high for the global economy, which has already slowed as a result of this policy failure,”  Weisbrot added.

The paper, "Latvia's Internal Devaluation: A Success Story?" finds that Latvia lags well behind other countries that have experienced large, crisis-driven devaluations in recent decades. Most of these were considerably above their pre-devaluation level of GDP three years later, by an average of 6.5 percent. Argentina – which notably pursued policies counter to the kinds of pro-cyclical measures adopted by Latvia – had passed its pre-devaluation GDP by 25.8% three years after the devaluation. Latvia, by contrast, is down 21.3 percent of GDP three years after its crisis started.

The paper also describes the significant, negative impact that Latvia’s internal devaluation has had on the country’s workforce. The official unemployment rate rose from 5.3 percent at the end of 2007 to 20.1 percent at peak in early 2010.  Even after more than a year of recovery, unemployment remains devastatingly high at 14.4 percent.

However, taking into account those who are involuntarily working part-time, and those who have given up looking for work, peak unemployment/under-employment was 30.1 percent in 2010, declining to 21.1 percent in the third quarter of 2011. And this does not include all the people who have left the country in search of work since the crisis began – an estimated 120,000 people in 2009-2011, or 10 percent of the labor force. Had these people not left the country, unemployment/underemployment could have been as high as 29 percent in the third quarter of 2011, instead of 21.1 percent.

“The economic and social costs of Latvia’s economic strategy since the global financial crisis and world recession of 2008-2009, of ‘internal devaluation,’ have been enormous for the people of Latvia,” said Weisbrot.

The paper also finds that Latvia’s net exports contributed little or nothing to the economic recovery over the past year and a half. This means that “internal devaluation” cannot have succeeded in bringing about the recovery. Rather, it appears that the recovery resulted from the government not adopting the fiscal tightening for 2010 that was prescribed by the IMF, and also from an expansionary monetary policy caused by rising inflation. The data contradict the notion that Latvia’s experience provides an example of successful internal devaluation.
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The Center for Economic and Policy Research is an independent, nonpartisan think tank that was established to promote democratic debate on the most important economic and social issues that affect people's lives. CEPR's Advisory Board includes Nobel Laureate economists Robert Solow and Joseph Stiglitz; Janet Gornick, Professor at the CUNY Graduate Center and Director of the Luxembourg Income Study; and Richard Freeman, Professor of Economics at Harvard University.






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