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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sete diferenças entre gerir um Estado e gerir uma casa

Será que gerir um Estado é semelhante a gerir uma casa? A resposta evidente para quem pensa minimamente sobre a questão é um categórico não. Mas vale a pena refletir melhor sobre o assunto, para podermos mais eficazmente desmontar esta ideia abstrusa.

Entre os comentadores económicos defensores da austeridade, há uma ideia constante que guia a sua análise superficial e enviesada da realidade: gerir um Estado é como gerir uma casa. Não podemos gastar mais do que temos, explicam, porque teremos uma dívida crescente. Prosseguindo com um salto argumentativo de dimensões olímpicas, concluem então que teremos de cortar no Estado Social e nos serviços públicos, ignorando o prejuízo resultante de tantas despesas supérfluas ou do não pagamento de impostos pelas grandes fortunas.
O mais famoso e prolixo comentador austeritário é, como é sabido, Medina Carreira. Aquando do lançamento do seu último livro, teve a candura de nos explicar porque as donas de casa saberiam gerir melhor as contas do Estado que qualquer ex-Ministro das Finanças (como, por exemplo, ele):
“Há dois números muito fáceis de registar: a economia portuguesa dos últimos 20 anos (1990 - 2010) cresceu 1,8 (em média anual) e a despesa pública corrente primária cresceu 4,2. Qualquer dona de casa percebe que se o seu rendimento do lar crescer 1,8, a despesa não pode crescer 4,2. Teoricamente qualquer dona de casa teria feito melhor do que os governos que tivemos.”1
Portanto a boa gestão é a gestão doméstica. Mais concretamente, o modelo de gestão é Salazar, um “bom gestor”2, o “tipo que o país precisava”3. Mas Salazar, um bom dono de casa que até criava galinhas em casa, meteu-se em intrigas politiqueiras, uma pena. Portanto, explica Medina Carreira, o desafio de hoje é conciliar a democracia com a boa gestão, algo que se conseguia acabando com os partidos durante 15 a 20 anos e tendo um governo de iniciativa presidencial com técnicos não eleitos4.
Esta é a vantagem de Medina Carreira, a de conseguir explicar sem qualquer prurido o que entendem os austeritários por “democracia” e “boa gestão”. Mas voltemos ao ponto de partida. Será que gerir um Estado é semelhante a gerir uma casa? A resposta evidente para quem pensa minimamente sobre a questão é um categórico não. Mas vale a pena refletir melhor sobre o assunto, para podermos mais eficazmente desmontar esta ideia abstrusa.
Existirão imensas diferenças entre gerir um orçamento doméstico e gerir um orçamento de um Estado. Mas listarei apenas sete, centrando-me nas mais relevantes:
1. Um Estado gera a sua própria receita, uma família não. Isto é particularmente relevante porque o discurso austeritário aponta as suas baterias apenas para o lado da despesa pública, como se um Estado não pudesse financiar um aumento da despesa com o agravamento da carga fiscal. Agravamento que, entenda-se, se pode e deve fazer de forma justa, de forma a que quem ganha mais pague muito mais do que quem ganha menos.
2. As ações de uma família não afetam as outras famílias mas as ações do Estado afetam todas as famílias. Ou seja, se uma família decidir gastar menos e poupar mais, isso não afeta uma família que viva ao lado. Já se o Estado decidir gastar menos, essa decisão afeta toda a gente. Para o bem, se decidir gastar menos no BPN, ou para o mal, se decidir gastar menos na saúde.
3. Não há qualquer semelhança entre o grau de complexidade de uma economia familiar e o de uma economia nacional. Gerir uma casa passa basicamente por fazer contas de somar e subtrair, pouco mais. Não é algo fácil, como saberá qualquer pessoa que tenha de gerir um baixo salário, mas não é uma tarefa que exija ter profundas noções de gestão, finanças ou contabilidade. Já gerir um Estado implica gerir os serviços públicos, a segurança e defesa nacional, a segurança social, a administração pública, as empresas públicas, etc. Uma tarefa hercúlea, certamente não exequível por uma pessoa isolada mas antes exigindo o trabalho de uma grande equipa de peritos. Só quem não percebe rigorosamente nada sobre o funcionamento de um Estado pode pensar que a sua gestão se resume a contas de somar e subtrair.
4. As funções de uma família e de um Estado são completamente diferentes. Como a gestão se tem de adequar às funções, não faz qualquer sentido gerir da mesma forma duas entidades com funções diferentes.
5. Uma família gere o seu dinheiro, um Estado gere o dinheiro de todos/as. Isto é relevante do ponto de vista dos chamados problemas de agência, na medida em que interessa assegurar a existência de mecanismos de representação democrática que assegurem que o Estado gere o nosso dinheiro de acordo com os nossos interesses. Algo que obviamente não aconteceria com um governo de tecnocratas nomeado por um messias, como sonham os austeritários.
6. O rácio de dívida como proporção dos rendimentos considerado aceitável é muito diferente para uma família ou para um Estado. Note-se que não é possível determinar de forma técnica qual o rácio de dívida pública como percentagem do PIB que é aceitável. Podemos, contudo, aceitar que este rácio pode ser tão baixo quanto 60%, o valor fixado pelo Pacto de Estabilidade e Crescimento, e 120%, o valor para o qual a troika aponta como aceitável para a dívida grega. Mas uma família que peça um crédito à habitação pode ter um rácio dívida sobre rendimentos anuais de 500%5.
7. Uma família deve poupar e gastar menos quando tem menos dinheiro, um Estado deve gastar menos quando tem menos dinheiro. Esta ideia parece contra-intuitiva, o que explica a facilidade com que o discurso austeritário conquista a hegemonia no senso comum, mas é fácil de entender tendo em conta que um Estado gera a sua receita. A questão é que uma das funções do Estado é a estabilização do ciclo económico. Significa isto que, em período de recessão, não só o Estado deve apoiar quem fica no desemprego ou na pobreza, através das transferências sociais, mas também deve usar o investimento público como meio de recuperar a atividade económica. Naturalmente que isto implicará um aumento da dívida, mas esse aumento pode ser anulado facilmente quando o país sair da recessão, dado que a receita fiscal será superior e as despesas serão inferiores. Caso um Estado prescinda da sua intervenção contra-cíclica, as consequências de uma crise serão muito mais profundas e a sua duração será estendida. Por isso é que a austeridade nunca funcionou nem nunca funcionará.
Não é fácil de saber se os austeritários acreditam mesmo nas patranhas que nos tentam impingir ou se simplesmente não encontram melhor justificação para disfarçar o facto de que estão a implementar um programa de transferência massiva de rendimentos do trabalho para o capital, de quem trabalha para quem vive do excedente criado pelo trabalho de outrém. Mas esta análise psicologizante não é muito relevante para os nossos propósitos. Muito mais importante é conquistar o senso comum, da conversa na paragem do autocarro até à discussão de café. Fica aqui um contributo para esta tarefa.


1 Em http://livrosemanias.economico.sapo.pt/7716.html. Note-se que, tivesse Medina Carreira aprendido alguma coisa de Economia e já saberia que o que interessa não é a relação entre o crescimento económico e a despesa pública mas antes a relação entre o crescimento económico e o défice orçamental, como expliquei anteriormente: http://www.esquerda.net/opiniao/sim-%C3%A9-poss%C3%ADvel-termos-d%C3%A9fices-or%C3%A7amentais-eternamente.
5 Por exemplo, uma família que ganhe 20000€ por ano e pede um crédito de 100000€ para comprar uma casa fica com um rácio dívida como percentagem dos rendimentos de 500%.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O renascimento do Estado-nação


Por Dani Rodrik
Um dos mitos básicos de nossa era é o de que a globalização condenou o Estado-nação à irrelevância. A revolução nos transportes e comunicações, costuma-se ouvir, pulverizou fronteiras e encolheu o mundo. Novas formas de governo, desde redes transnacionais de agências de regulamentação até organizações internacionais da sociedade civil e instituições multilaterais, vêm transcendendo e suplantando os parlamentares nacionais. As autoridades políticas domésticas, comenta-se, são impotentes ante os mercados mundiais.
A crise financeira mundial acabou com esse mito. Quem socorreu os bancos, injetou liquidez, empenhou-se em estímulos fiscais, proporcionou redes de segurança social para desempregados e evitou a escalada da catástrofe? Quem está reescrevendo as regras de supervisão e regulamentação dos mercados financeiros para impedir outra crise? Quem leva a maior parte da culpa por tudo que sai errado? A resposta é quase sempre a mesma: os governos nacionais. O G-20, Fundo Monetário Internacional (FMI) e Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, em geral, ficaram em segundo plano.
Quem socorreu os bancos e evitou a escalada da catástrofe? Quem está revendo a regulamentação dos mercados para impedir outra crise? Quem leva a maior parte da culpa por tudo que sai errado? A resposta é quase sempre a mesma: os governos nacionais
Mesmo na Europa, onde as instituições regionais são relativamente fortes, são os interesses nacionais e as autoridades políticas domésticas, em grande parte, na figura da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, que vêm dominando a definição das políticas. Se Merkel fosse menos apaixonada pela receita de austeridade passada aos países europeus assolados por dívidas e se ela tivesse conseguido convencer seu eleitorado doméstico da necessidade de uma abordagem diferente, a crise da região do euro teria se desdobrado de uma forma bem diferente.
Embora o Estado-nação ainda sobreviva, sua reputação está em frangalhos. A investida intelectual contra o Estado-nação assume duas formas. Na primeira, há a crítica dos economistas que veem os governos como um impedimento à livre circulação de bens, capital e pessoas pelo mundo. Se impedirmos os políticos de intervir com suas regras e barreiras, dizem esses economistas, os mercados mundiais tomarão conta de si próprios e, no processo, criarão uma economia mundial mais integrada e eficiente.
Quem, no entanto, determinará as regras e regulamentações dos mercados, senão os Estados-nações? O "laissez-faire" é uma receita para mais crises financeiras e maior retrocesso político. Além disso, exigiria delegar a política econômica a tecnocratas internacionais, figuras isoladas das pressões inerentes à política - uma situação que restringe seriamente a democracia e a responsabilidade política.
Em resumo o "laissez-faire" e a tecnocracia internacional não proporcionam uma alternativa plausível ao Estado-nação. Na verdade, enquanto não dispomos de mecanismos viáveis de governança mundial, a erosão do Estado-nação, em última análise, traz pouco de positivo para os mercados mundiais.
Na segunda forma, há os pensadores éticos cosmopolitas que condenam a artificialidade das fronteiras nacionais. Como o filósofo Peter Singer disse, a revolução das comunicações gerou uma "audiência global", que cria uma base para uma "ética global". Se nos identificamos com a nação, nossa moralidade permanece nacional. Se, no entanto, cada vez mais nos associarmos ao mundo em geral, nossas lealdades também se expandirão. De forma similar, o economista vencedor do Nobel, Amartya Sen, fala de nossas "identidades múltiplas" - étnicas, religiosas, nacionais, locais, profissionais e políticas - muitas das quais atravessam as fronteiras nacionais.
Não está claro quanto disso é mera expressão de desejo e quanto é baseado em mudanças reais nas identidades e afinidades das pessoas. Pesquisas mostram evidências de que a afinidade das pessoas com o Estado-nação continua bastante forte.
Há poucos anos, a Pesquisa Mundial de Valores consultou pessoas em vários países sobre sua afinidade com as comunidades locais, suas nações e o mundo em geral. Não foi nenhuma surpresa descobrir que os pesquisados que se viam como cidadãos nacionais superavam amplamente os que se consideravam cidadãos do mundo. Surpreendentemente, no entanto, a identidade nacional superava até a identidade local nos Estados Unidos, Europa, Índia, China e na maioria dos outros lugares.
A mesma pesquisa indica que os mais jovens, os que têm mais estudo e os que se identificam como sendo das classes mais altas são mais propensos a se sentir associados ao mundo em geral. É difícil, no entanto, identificar qualquer faixa demográfica em que a afinidade à comunidade mundial supera a ligação ao país.
Por maiores que tenham sido os declínios nos custos com transportes e comunicações, não foram suficientes para tirar a geografia de cena. As atividades políticas, sociais e econômicas continuam agrupadas em torno a preferências, necessidades e trajetórias históricas que variam ao redor do mundo.
A distância geográfica é um determinante de intercâmbio econômico tão forte quanto era há 50 anos. Mesmo a internet, no fim das contas, não é tão independente das fronteiras quanto parece: um estudo mostrou que os americanos são mais inclinados a visitar sites de países fisicamente próximos do que de lugares mais distantes, mesmo levando em conta o idioma, renda e muitos outros fatores.
O problema é que ainda estamos sob o domínio do mito do declínio do Estado-nação. Líderes políticos alegam impotência, intelectuais sonham com esquemas implausíveis de governança global e os que se veem como perdedores, cada vez mais, culpam os imigrantes ou as importações. Quando se fala sobre revigorar o Estado-nação, pessoas respeitáveis fogem assustadas, como se tivessem ouvido uma proposta de reinstituir a praga.
Naturalmente, a geografia de afinidades e identidades não é fixa: de fato, vem mudando ao longo da história. Isso significa que não devemos descartar inteiramente a probabilidade de surgimento de uma verdadeira consciência mundial no futuro, juntamente com comunidades políticas transnacionais.
Os desafios atuais, entretanto, não podem ser enfrentados por instituições que (ainda) não existem. Por enquanto, as pessoas ainda precisam recorrer a seus governos nacionais em busca de soluções, o que continua sendo a melhor esperança de uma ação coletiva. O Estado-nação pode ser uma relíquia que nos foi legada pela Revolução Francesa, mas é tudo o que temos.
Dani Rodrik é professor de Economia Política Internacional na Harvard University e autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy" (o paradoxo da globalização: democracia e o futuro da economia mundial, em inglês). 
publicado originalmente no jornal Valor Econômico
www.project-syndicate.org

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

El presidente, el gobierno y el Estado, por Fernando Mires


Por Fernando Mires | 22 de Febrero, 2012
Hay hechos históricos que resultan inexplicables sin previo conocimiento de las tradiciones en donde estos ocurren. Uno de estos hechos ha sido la caída del presidente alemán Christian Wulff. Para gran parte de los alemanes, la renuncia de Christian Wulff era ineludible. Por cierto, nadie esperaba –como han insinuado algunos comentaristas- que el presidente fuera un santo. Solo querían un digno representante del Estado. Nada más. Pero también, nada menos.
Una de las tarea primordiales del presidente es representar al Estado y en una república parlamentaria es, además, marcar la diferencia entre el gobierno y el Estado. O lo que es igual: demostrar, a veces con su simple presencia, que el Estado se encuentra por sobre el gobierno. Eso explica por qué la única función política que corresponde al presidente es la de disolver el parlamento cuando de ahí no surge una mayoría gubernamental, o cuando el parlamento otorga un voto de desconfianza al gobierno.
A diferencia de algunos presidentes latinoamericanos o asiáticos, quienes imaginan ser propietarios del Estado, en una república parlamentaria el Estado representa a todos los miembros de una nación, algo que ningún gobierno podría –ni debería- representar jamás. El gobierno, a su vez, no es más que una parte del Estado, y no siempre la más importante. Por la misma razón, el presidente, una vez elegido –elección muy política por lo demás- no forma parte de la lucha por el poder. La presidencia es, digámoslo así, la representación simbólica de la existencia de “un poder sobre el poder”

En cierto sentido la presidencia en los sistemas parlamentarios puede ser comparada con el rol de las monarquías parlamentarias. Pero hay una diferencia. Mientras el presidente representa al Estado, en la monarquía lo reencarna. Esa es la razón por la cual un rey o reina no puede renunciar jamás pues lleva, por así decirlo, el espíritu del Estado tatuado en el cuerpo. Por esa misma razón la presidencia en una república parlamentaria no es condena perpetua, señalizándose así que ningún humano puede ser portador de la infinitud del poder. En Alemania la presidencia dura sólo cinco años con posibilidad de reelección por un igual periodo.
En fin, aunque es el cargo más alto de la nación, la presidencia es un puesto de trabajo que para ser ejercido requiere de algunas condiciones. Lo interesante del caso es que esas condiciones aparecen no cuando se cumplen sino cuando no se cumplen.
Las condiciones no son muchas: Tener una hoja limpia de vida, cierto conocimiento del juego político, aptitud retórica, prestancia para desenvolverse en ceremonias públicas y, sobre todo, ser respetado, o por lo menos reconocido, por quienes fueron alguna vez enemigos políticos. En breve: el presidente no es un mandatario; es un dignatario. Y la diferencia es importante. Por lo menos en el caso de Christian Wulff, lo fue.
Christian Wulff no había sido un mal político. Como muchos, sin ser corrupto -al estilo de un Berlusconi por ejemplo- mostraba ciertas tendencias a la corrupción. Desde su gobernación en la Baja Sajonia mantenía amistades influyentes, aceptaba obsequios, y recompensaba a sus clientes, aunque sin provocar escándalos. Ese pasado, ni sucio ni limpio, saldría a relucir -había que esperarlo- durante el ejercicio de su presidencia, y nadie pensó que por eso debía renunciar. El problema es que Wulff no supo defenderse desde y con la dignidad de su nuevo cargo. Al contrario, utilizó pequeñas triquiñuelas, mentiras y –algo imperdonable en una democracia- amenazas a la prensa. En breve, Wulff seguía actuando como el político provinciano que nunca había dejado de ser. Y ese no era el presidente que la ciudadanía quería.
En la vida de la Alemania de post-guerra han pasado diversos presidentes. La gran mayoría no ha dejado huellas. De algunos se cuentan anécdotas. Heinrich Lübke (1959-1969) por ejemplo, quien al llegar a un país africano saludó así: “queridos negros”. Algunos como Walter Scheel (1974-1979) no resistieron la tentación de entrometerse en política contingente. Karl Karstens (1979-1984) quien lo único que hizo fue emprender largas y románticas caminatas. Roman Herzog (1994-1999) reprendía a los políticos como un padre rudo y enojón. Johannes Rau (1999-2004) era imitado por un excelente cómico quien abría y cerraba la boca sin decir nada. Horst Kohler (2004-2010) que venía del mundo de la economía, se entrometió en la política internacional y hubo de renunciar. En fin, ha habido varios presidentes, pero un solo Gran Presidente en la historia democrática de Alemania: Richard von Weizsäcker.
Von Weizsäcker (1984-1994) será siempre recordado por su prestancia, su sencillez, su orgullosa humildad, y sobre todo, por sus memorables discursos. Fue el primer presidente que reconoció no sólo la culpabilidad sino también la responsabilidad en el Holocausto. Fue, además, el primero que se refirió al “8 de mayo”, día de la capitulación, como a la “liberación” y no como a la “derrota” de Alemania, algo que la ultraderecha alemana todavía no le perdona
Weizsäcker puso muy alto la vara presidencial. Nadie ha podido alcanzarla. Quizás esa fue otra de las razones que provocó la caída de Christian Wulff.
El nuevo presidente, Joachim Gauck, se encuentra, como pocos, en condiciones de mantener su cargo cerca de la vara de Von Weizsäcker. De todos es quien ha llegado portando consigo el más respetable pasado: Gauck fue un activo luchador en la resistencia en contra de la dictadura comunista en la desaparecida RDA. Si su nuevo presente no se aleja de la dignidad de su pasado, a Alemania espera, sin duda, otro gran presidente.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Keynes e a crise

Segunda, 12 Dezembro 2011 02:00
121211_keynesResistir - [Henry Houben] Três grandes teorias debatem a explicação das crises. A corrente liberal atribui-as à chegada brusca de um elemento perturbador (atentado, subida dos preços do petróleo, acontecimentos políticos e sociais...) que se torna necessário eliminar com urgência para que o mercado reencontre o seu funcionamento naturalmente são. Keynes não acredita neste mecanismo auto-regulador.

Para ele, o capitalismo conhece excessos que é necessário corrigir de forma indireta pela intervenção do Estado. Sem isto, não poderia produzir os seus efeitos benéficos. Por fim, a doutrina marxista analisa o sistema com maior profundidade para examinar a recessão. Esta é inerente ao capitalismo. Para a ultrapassar, é necessária uma outra economia, uma outra sociedade, o socialismo.
Com a amplitude dos problemas, a duração de um fraco crescimento e a existência de um desemprego elevado, as teses puramente liberais têm o chumbo na asa. Os governos menos intervencionistas tiveram de se precipitar em socorro dos bancos, sem o que seria a catástrofe financeira. Tal como escreveu um economista francês:" Na crise, somos todos keynesianos ". Uma maneira de dizer que não restam senão duas explicações convincentes: a proposta por Keynes e a do marxismo. E como " não se pode ser contra o sistema ", então é o keynesianismo.
Daí, a importância que tem para os marxistas interessarem-se por esta teoria concorrente de análise da crise. Será ela pertinente? Terá ela um valor científico? As soluções que ela propõe merecem que as analisemos?
1. A vida e obra de um burguês "esclarecido"
John Maynard Keynes nasceu em Cambridge em 1883, ano da morte de Karl Marx. Fazia parte das famílias burguesas relativamente desafogadas da Inglaterra vitoriana.
Isso iria facilitar-lhe o seu percurso escolar, que foi considerado como brilhante: em 1897, entra em Eaton, um dos colégios mais prestigiosos das ilhas britânicas, depois no King's College da Universidade de Cambridge, em 1902. Estuda matemática e acaba o curso coroado de sucesso. Em seguida dedicar-se-á à economia e tornar-se-á professor em Cambridge. Passa a fazer parte de numerosos clubes elitistas que reúnem jovens intelectuais um pouco críticos da sociedade capitalista e da sua moralidade muitas vezes hipócrita.
No início da guerra alistou-se no departamento do Tesouro. Foi nessa situação que participou na Conferência de Versalhes para discutir as compensações impostas à Alemanha, em 1919. Ficou horrorizado pela lógica seguida pelas potências aliadas que pretendiam esgotar o país vencido. Pediu a demissão e publicou um primeiro trabalho que se tornaria célebre: As consequências económicas da paz. Lénine utilizará o seu conteúdo para denunciar a rapacidade dos países imperialistas para aumentarem a sua pilhagem e as suas colónias. [1]
Keynes lança-se em seguida nos negócios. Depois de momentos difíceis, poderá constituir uma pequena fortuna que lhe permitirá comprar numerosas obras artísticas e culturais (como as memórias de Isaac Newton). Tornar-se-á por outro lado administrador e mesmo presidente de várias companhias de seguros.
Nos anos 20 liga-se essencialmente ao partido liberal, que está moribundo. A questão de aderir ao partido trabalhista chegou a colocar-se, mas ele rejeitou essa ideia, explicando: " Para começar, é um partido de classe, e essa classe não é a minha. Se tiver que reivindicar vantagens para uma fração da sociedade, será para aquela à qual pertenço. Se isto levar à luta de classes como tal, o meu patriotismo local e pessoal, como todo ou cada um de nós, fora certas exceções de um zelo desagradável, ligar-se-á ao meu próprio meio. Posso ser sensível ao que eu creio ser a justiça e o bom senso, mas a guerra de classes encontrar-me-á do lado da burguesia culta [2] ." De resto, ele mantém-se membro de vários grupos de reflexão do regime que debatem, em pequeno comité, as grandes orientações da sociedade.
No entanto, em 1929, torna-se conselheiro económico do governo trabalhista de Ramsay MacDonald. Foi aí que começou a interessar-se pela crise económica que começa com o crash de Outubro de 1929. Consagrar-lhe-á dois grandes trabalhos, o Tratado sobre a moeda e, sobretudo em 1936, a Teoria Geral do Emprego, do lucro e da moeda.
O que é que ele defende? É necessário que nos coloquemos no contexto da época. Não existe teoria macroeconómica que aborde as questões num plano nacional. O estudo da economia é essencialmente microeconómico, quer dizer baseado no jogo individual dos atores, tornando as estatísticas deficientes, o que coloca dificuldades aos governos. Keynes irá então propor conceitos que irão fundar a macroeconomia tal como se pratica ainda hoje (nomeadamente no plano estatístico).
Segundo ele, o produto nacional de um país (como de resto o seu rendimento) pode ser decomposto em duas partes: a que corresponde à procura do consumo e a que vai para o investimento. Nomeando Y o produto nacional (em inglês a primeira letra de yield , produto), C o consumo das famílias e I o investimento, obtém-se portanto Y=C+I. Como evoluem estes dois componentes? [3]
O consumo varia parcialmente com o rendimento nacional: consumir-se-á mais se os rendimentos aumentam. Em contrapartida, o investimento é imprevisível e difícil de determinar. É uma aposta a longo termo. Ora, há o que Keynes chama a preferência pela liquidez, a saber: que os intervenientes preferem ter os ativos líquidos para poderem dispor deles.
O investimento depende da poupança (designada pela letra S de savings em inglês). Ora, os capitalistas podem investir, mas também entesourar ou especular nos mercados financeiros. O mecanismo económico bloqueia-se quando demasiado dinheiro não é reinvestido no aparelho produtivo para que se reproduza e aumente a riqueza. Pode resumir-se isto sob a forma do esquema seguinte. Nós recuperamos uma forma mais marxista de apresentação, distinguindo os assalariados que consomem a totalidade dos seus rendimentos e os capitalistas vivendo dos lucros das empresas e podendo quer consumir, quer poupar.
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O funcionamento normal é que a poupança seja investida para aumentar o nível da produção e assegurar o crescimento económico que permite o desenvolvimento do emprego.
Somente, Keynes constata que as decisões capitalistas são cumulativas. Quando a conjuntura é boa, ela é para todos e portanto todos querem investir. Há sobreinvestimentos. Inversamente, quando ela é má, todos suspendem as suas despesas ao mesmo tempo. Há subinvestimento e bloqueio que perduram. Isto tem efeitos desastrosos ao nível do desemprego.
Ao mesmo tempo, o investimento tem um efeito multiplicador sobre o desenvolvimento nacional. Com efeito, engendra o contrato de efectivos suplementares que consomem, portanto geram novas atividades, impulsionadoras de novos investimentos, etc. Por outras palavras, se forem investidos 10 (milhões ou milhares de milhões de euros), o impacto global sobre o crescimento económico pode ser de 15, 20, 30...em função desse multiplicador.
Este terá consequências tanto mais benéficas quanto o consumo for mais elevado, proporcionalmente ao rendimento, dado que ele engendrará uma maior atividade derivada. Isto pode ser facilmente concebido. Se o consumo se situar a 25% do rendimento nacional, um investimento terá um efeito de consumo equivalente a estes 25% mais os efeitos que daí decorrem (pelo facto de que o consumo gera ele próprio atividades que elevam de novo o consumo e assim de seguida). Se o consumo representar 50%, o impacto atingirá os 50% (e ainda mais com as atividades que isso engendra).
Que é necessário fazer, segundo Keynes? Ele tem um programa em quatro pontos. [4]
Em primeiro lugar, é preciso consumir e aumentar a parte do consumo no rendimento, porque isso tem consequências positivas no crescimento. Keynes vai lançar às famílias numerosos apelos para consumirem mais.
Em seguida, é necessário organizar o afluxo de investimentos para uma política monetária adequada: taxas de juros baixas permitem recorrer ao crédito e favorecem portanto o investimento. Mas, reconhecerá Keynes no seu trabalho de 1936, a situação dos anos 30 é tal, que a política monetária de baixas taxas de juro se torna ineficaz. Hoje também, com taxas de 0% nos Estados Unidos e no Japão, de 1% na Europa, é difícil ir mais baixo para tentar um relançamento do crédito. É preciso outra coisa.
Por isso, Keynes enuncia a sua terceira proposta: investimento público. Se o privado falta, é necessário que os poderes públicos o substituam. A intervenção do Estado deve, no espírito de Keynes, atuar inversamente aos movimentos de investimento privados. Não se trata de substituir em permanência o público pelo privado. Este deve manter-se a dominar o jogo. Mas em presença de decisões capitalistas que conduzam seja a um sobreinvestimento e portanto a um sobreaquecimento da economia, seja a um subinvestimento e a uma crise, o Estado deve conduzir uma política contracíclica: multiplicar as despesas quando o privado estiver friorento; parar tudo e mesmo desinvestir quando os empreendedores forem muito ativos. Assim, esta intervenção permitiria estabilizar em maior grau os investimentos. É aquilo a que se chama uma regulação macroeconómica de tipo keynesiano.
Em quarto lugar, pretende Keynes, o Estado deve regulamentar os mercados financeiros para impedir que eles tenham um efeito perturbador. Escreve nomeadamente: " Os especuladores podem ser tão inofensivos como bolas de ar numa corrente regular de empresa. Mas a situação torna-se séria quando a empresa não for senão uma bola de ar no turbilhão especulativo. Quando num país o desenvolvimento do capital se torna o subproduto da atividade de um casino, arrisca-se a realizar-se em condições defeituosas". [5] Desde logo, a profissão de banqueiro deve ser controlada para que ele sirva a economia "real" e portanto o capitalismo.
O efeito das políticas preconizadas pelo economista britânico pôde parecer extremamente importante. Estas políticas estão associadas às medidas decididas pelo presidente Roosevelt e reagrupadas sob o nome de New Deal. Na realidade, a influência não foi senão parcial e é recíproca. À partida, os planos de Roosevelt servem sobretudo para salvar o sistema da bancarrota. Não existe um projeto levado a bom termo que tivesse sido realizado com conhecimento de causa. É um processo de tentativas e de erros.
Em contrapartida, o impacto dos escritos de Keynes será mais importante depois da Segunda Guerra mundial. Foi ele quem definiu em parte a arquitetura financeira internacional quando dos acordos de Bretton Woods, em 1944. Ele representou o governo britânico e elaborou as principais disposições a levar a cabo: conversão em ouro de uma moeda central internacional, o bancor ; estabelecimento de uma taxa de câmbio fixa de todas as moedas em bancor ; impossibilidade de desvalorização (salvo acordo dos parceiros); ajuda às nações em dificuldade por um organismo criado especialmente para isso, o FMI (Fundo Monetário Internacional). A Casa Branca aceitará tudo, salvo o conceito do bancor , que ela substituirá pelo dólar.
Neste quadro, os diferentes Estados aplicam políticas macroeconómicas abertamente keynesianas de intervenções para estimular o crescimento. Esta situação continuará até aos anos 70... quando os acordos de Bretton Woods são rasgados por Richard Nixon.
Quando desta conferência internacional, Keynes estava já doente. Morreu de uma crise cardíaca, em 21 de Abril de 1946. A sua origem, o seu percurso, a sua vida mostram que é como ele escreveu de si mesmo, um membro da burguesia. O que ele quer é perpetuar o capitalismo e eliminar o que é excessivo no seu funcionamento. Tem um desprezo profundo pelas massas populares e pelos sistemas que se apoiam nelas. Quando de uma viagem à URSS, [6] escreveu: " Como poderia tornar meu um credo que, preferindo a lama aos peixes, exalta o proletariado grosseiro acima dos burgueses e da intelectualidade que, sejam quais forem os seus erros, encarnam o bem-viver e transportam neles os progressos futuros da humanidade? [7] "
2. Subinvestimento ou sobreinvestimento?
Para Keynes, o elemento central da crise situa-se ao nível do investimento. Se os capitalistas adotassem um plano racional a longo prazo de aumento das capacidades de produção, talvez não surgissem problemas. Mas as decisões não seguem nenhum plano racional e é isso que engendra a recessão, segundo Keynes. Não haveria crise se os empreendedores continuassem a investir. O problema vem de um subinvestimento privado relativo.
É incontestável que a crise surge com o bloqueio do processo de investimento. A produção é assim parada e os assalariados considerados como excedentários são lançados no desemprego. Mas tudo isto não diz nada de preciso sobre as razões profundas destes disfuncionamentos. Keynes refere-se, quer às incertezas que surgem nos mercados, quer aos excessos financeiros que abrem perspectivas de lucros desmesurados.
O problema é que é muito difícil de provar empiricamente as alegações keynesianas. Pode mesmo demonstrar-se o contrário. Esse é o objetivo do seguinte gráfico, que compara a evolução anual [8] do PIB real (portanto corrigido do efeito da subida de preços) e do stock real de ativos fixos nos Estados Unidos, desde 1960. Estes últimos são constituídos por todo o aparelho de produção (terrenos, construções, máquinas, ferramentas...). Uma variação anual positiva destes representa portanto um investimento real efectuado na base produtiva, o que permite efetivamente aumentar o conjunto da produção do país.
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É o PIB que sofre flutuações importantes e o investimento que surge como relativamente estável. Mais interessante ainda é notar que os investimentos seguem a evolução da atividade e não que a precedem. Nos anos 60, o crescimento do PIB não desenvolve senão progressivamente a taxa de acumulação dos ativos fixos à alta. Nos anos 70, apesar dos resultados em dentes de serra da produção, o stock progride em níveis recorde (4,3 % em média, entre 1964 e 1981, inclusive). Baixa sempre que a economia se endireita, nos anos 80.
A evolução em seguida é mais paralela. Mas há sempre crescimento da atividade antes do aumento dos investimentos. É o caso dos anos 90. Em seguida, em 2000, o PIB começa a contrair-se antes que o stock de ativos fixos evolua da mesma maneira. Ele retoma desde 2002, enquanto o investimento só chega em 2004. Com a crise de subprimes [9] este não começa a subir senão em 2008, enquanto a produção só se lança desde 2007.
Nestas condições, parece-nos arriscado pretender que a recessão vem essencialmente da falta de investimentos. É um facto que, quando da crise, os capitalistas reduzem ou param as suas despesas em ativos fixos. Não há dúvida de que é porque eles compreendem que não podem vender mais e que é impossível continuar a esse ritmo.
Há por outro lado um ligeiro atraso de adaptação, porque certas operações precisam de uma longa imobilização que é difícil impor brutalmente. Entre a decisão de construir uma fábrica automóvel e o primeiro carro que sai efetivamente das cadeias de produção decorre por vezes um período de dois a três anos. Não se pode parar este processo ou mesmo abrandá-lo se não for verdadeiramente necessário, portanto quando a crise estiver mesmo lá e se apresente como suficientemente longa.
É necessário portanto compreender, não porque razão os capitalistas cessam os seus investimentos, mas porque é que eles não conseguem escoar as suas mercadorias. Podemos retomar o pequeno esquema que permite explicar onde Keynes situava o problema, simplificando-o ao máximo.
A produção reparte-se em rendimentos, quer dizer em salários e lucros, que servem para o consumo e para o investimento. Parece-nos inútil estabelecer aqui uma distinção entre poupança e investimento.
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Os investimentos servem para aumentar a produção e portanto para assegurar o crescimento económico. É esse esquema que Keynes considera perfeitamente são e que é pervertido, segundo ele, pelo entesouramento ou a especulação.
Para nós, é este funcionamento que, num quadro capitalista, está fundamentalmente viciado. Porquê? Porque a produção é dirigida pelos capitalistas cujo objetivo é, ao mesmo tempo, aumentar os seus lucros e acumular capital para ganhar ainda mais no futuro.
A partir daí, os dirigentes das empresas não deixarão nunca de, nos rendimentos, aumentar a parte dos lucros em relação à parte recebida pelos assalariados. Isto é o objeto de uma luta (de classes). Eles nem sempre o conseguem, mas o seu objetivo é esse. Da mesma forma, com um lucro aumentado (ou mesmo sem isso), eles terão tendência para aumentar a proporção que vão consagrar ao investimento, porque esse é um meio de crescerem e tornarem-se poderosos e, se não o fizerem, a concorrência obrigá-los-á a isso.
Tomemos um exemplo em números. A produção de 100 é repartida em 60 para os salários e 40 para os lucros. Nestes, 20 são consagrados ao consumo dos capitalistas e 20 ao investimento. Isto corresponde, grosso modo, a uma situação estável da economia num dado momento. Vende-se portanto 80 em bens de consumo e 20 em bens de produção. Mas os 20 investidos aumentam a produção que passa, digamos, para 140. Os empresários irão ficar com uma parte maior e apropriar-se, por exemplo, de 63 e os assalariados do resto, ou seja, 77. A parte de cada um, que era de 60 % para os trabalhadores e de 40 % para o patronato, passa para uma relação menos elevada, de 55 contra 45 %, sem que os assalariados vejam os seus rendimentos diminuídos. Pelo contrário, eles ganham globalmente 77 em lugar de 60. Os dirigentes decidem aumentar ligeiramente o seu consumo para 23 e reservar 40 para o investimento. Assim, a massa de dinheiro destinado ao consumo sobe a 100 (77+23).
O que é que as firmas podem propor? Maiores quantidades. Porquê? Porque, se na situação de origem os bens de produção de 20 podem fornecer um montante de 80 em produtos de consumo e se os primeiros passam a 40, pode considerar-se que normalmente as mercadorias de consumo final deveriam atingir o nível de 160. Ou seja, bastante mais do que a população pode comprar. Chama-se a isto a sobreprodução.
Estes números não são senão exemplos. Mostram simplesmente um mecanismo que decorre permanentemente. Por um lado, as forças para aumentar a produção manifestam-se para gerar os rendimentos das empresas, os lucros dos acionistas, os prémios dos dirigentes, de maneira cada vez mais importante. Mas, ao mesmo tempo, elas provocam uma baixa relativa dos meios consagrados ao consumo, e isto em dois tempos: primeiro, comprimindo o mais possível os salários que servem para o consumo, mas também – e isto é frequentemente esquecido – reduzindo os montantes relativos do consumo dos capitalistas. É o conjunto dos meios destinados ao consumo que é reduzido, enquanto as capacidades de produção são forçadas constantemente a aumentar. Daqui decorre necessariamente um grande desvio: a sobreprodução.
Pode acontecer que os capitalistas entesourem ou especulem e que o dinheiro investido nos mercados financeiros não retorne ao circuito habitual. Isto engendrará ainda maiores problemas. Mas, fundamentalmente, é no coração do sistema e no seu funcionamento que se situa a crise, como Marx o tinha analisado no seu tempo.
3. A tendência marginal do Estado a endividar-se
A análise de Keynes é essencialmente baseada em considerações de curto prazo. É de facto a partir do ciclo económico que ele considera o efeito do investimento privado e a necessidade de substituí-lo, num determinado momento, pelo do Estado. A recessão prolongada é, segundo ele, uma derrapagem infeliz, ligada a um excesso do capitalismo, mas ao qual os poderes públicos podem opor-se directamente por meio de uma política chamada contracíclica. O investimento que falta será fornecido momentaneamente pelo Estado, o que permitirá sair do impasse e relançar a máquina económica. É isto que Keynes escreve.
Somente, se o abcesso for mais profundo e não puder resolver-se a curto termo, se a questão não for simplesmente a de uma falta de investimento temporária, a autoridade investe a partir de recursos que diminuem por causa dos lucros em baixa (por causa da crise), endivida-se, abre défices orçamentais, e aumenta a amplitude da dívida pública. Vemos que é isto que se passa em cada grande crise.
Já nos anos 30, foi o efeito das medidas decididas pelos diferentes governos, em primeiro lugar o de Hoover, que estava longe de ser não intervencionista, depois o de Roosevelt. Retomámos numa primeira fase a subida das despesas estatais comparadas com o PNB (produto nacional bruto [10] ) entre 1920 e 1940, no gráfico seguinte.
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Depois de uma primeira crise, em 1920, para reconverter a economia de guerra saída do período 14-18, as despesas governamentais voltam a descer ao nível de 3% do PNB. As primeiras medidas do presidente Hoover reconduzem a proporção a 8% e o programa do New Deal leva-as a cerca de 10 %. É pouco, se tomarmos em conta a situação atual (45 % do PIB antes do início da crise dos subprimes ). No entanto, o montante utilizado triplica em relação ao PNB e igualmente em valor absoluto (sendo o PNB de 1940 sensivelmente o mesmo que em 1929).
Consequentemente, a dívida pública aumenta. É o que mostra o gráfico seguinte. Relacionámo-lo com o PNB para ter um termo de comparação.
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A dívida pública que tinha tendência a abater nos anos 20, cresce de maneira vertiginosa entre 1929 e 1933. Na realidade, é a conjunção de dois fenómenos: por um lado, o PNB cai para metade entre essas duas datas; por outro lado, a dívida pública aumenta um terço. Entre 1929 e 1940, esta última terá duplicado em valor absoluto. O que se teria passado em seguida? Não o saberemos nunca com precisão. A maior parte dos economistas reconhecem que o que permitiu aos Estados Unidos sair desta situação foi a guerra mundial.
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Nota: A União Europeia é composta por quinze países da Europa ocidental: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal, Suécia, salvo entre 1970 e 1976, anos para os quais nos faltam dados para a França, Holanda e Portugal.
A progressão das despesas públicas é quase contínua a partir de 1977 para a Europa e desde 1979 para os Estados Unidos, apesar de Reagan e Thatcher. Isto mantém-se até ao início dos anos 90, com Clinton na América e o pacto de estabilidade e de crescimento na Europa (ou acordos de Maastricht, em 1991), visando impedir as ultrapassagens da dívida pública acima de 60 % do PIB. Mas a nova crise a partir de 2007 levou a uma subida vertiginosa dos défices públicos.
Os keynesianos podem argumentar que os programas governamentais apontam objetivos errados. É sem dúvida verdade, em particular no período atual. O que não impede que o impacto das medidas keynesianas, em caso de recessão, tenha impacto imediato sobre as despesas públicas, portanto sobre a dívida, enquanto é totalmente incerto sobre a atividade económica, dado que elas não incidem senão no relançamento e não na resolução dos problemas fundamentais do processo económico. É um pouco como se déssemos uma droga a um doente, afirmando que isso o vai fazer sair do seu inferno.
Mas, como todo o produto dopante, uma política keynesiana tem efeitos secundários não desejáveis. A dívida estatal é uma criação monetária: coloca no mercado meios monetários que não existiam anteriormente. Ora, a uma dada produção (que não aumente senão fracamente com a recessão), mais dinheiro em circulação traduz-se por uma subida geral de preços, o que quer dizer inflação. De facto é o que acontece nos anos 70. Ao mesmo tempo, a procura de capitais pelos poderes públicos (o que significa endividamento), absorve uma parte destes à custa das empresas que também necessitam deles. Ora, no mercado, se a procura excede a oferta, o seu preço aumenta. Esse preço, aqui, é a taxa de juros. Uma série de razões para os capitalistas estarem descontentes.
Foram os bancos americanos que, em 1979, pediram à Reserva Federal, banco central americano, e ao seu presidente, Paul Volcker, que paralisasse a inflação. Ele elevou tão fortemente as taxas de juros, que provocou uma importante recessão no início dos anos 80. Isso fez parar a subida de preços, mas à custa dos assalariados que, ou ficaram no desemprego, ou viram bloqueadas as suas remunerações. Hoje, são as sociedades financeiras que atuam na compra das dívidas públicas, degradando a classificação dos países, por receio da falta de pagamento, e obrigam estes a pedir empréstimos com taxas de juro cada vez mais proibitivas.
As políticas keynesianas podem portanto ser uma solução de curto prazo, face aos problemas de bloqueio económico. Mas se tiverem de prolongar-se constituem soluções que podem ser piores que a doença, porque não atacam a sua raiz. Assim, os Estados Unidos optaram, nos anos 80, por compensar pelo endividamento o défice da procura e a estagnação dos rendimentos da maioria da população. Ao fazer isto, puderam relançar a máquina produtiva pelo consumo. É o que Keynes apelava para ser feito em 1931.
Somente, o crédito privado das famílias aumentou de tal modo que se tornou hoje impossível de gerir. Atinge à volta de 100% do PIB americano: isto quer dizer que os habitantes já consumiram o PIB que será produzido no próximo ano. É insustentável e os bancos exigem os reembolsos, daí as expropriações em massa de casas, daí o aumento da pobreza, daí uma economia marginal. Ganhou-se um pouco de tempo. Mas a que preço? A crise regressa inexoravelmente e com uma força infinitamente superior.
4. Depois dos déspotas iluminados, eis os capitalistas preocupados com o interesse geral
Keynes tem um último trunfo na manga: a moralização do capitalismo. Evoluindo num meio intelectual e crítico, integrou a noção do interesse geral. É difícil censurá-lo. Isso leva-o às noções de honestidade, de integridade, de dever, etc. É incontestavelmente melhor do que os autores que fazem louvores à rapacidade dos capitalistas.
Somente a sua ideia do interesse geral é a do capitalismo. É necessário, portanto, que este funcione em condições normais; com a procura do seu interesse próprio, mas em "harmonia" com o peditório dos outros; com a motivação do ganho, mas não desprezando a situação dos seus assalariados e dos seus concorrentes. Assim, escreve ele em 1923: "A doutrina económica dos lucros normais, doutrina vagamente apercebida por todos e cada um, é indispensável à justificação do capitalismo. O homem de negócios não é tolerável senão enquanto os seus ganhos possam ser considerados como tendo uma certa relação com o que corresponde grosseiramente à utilidade das suas atividades para a sociedade [11] ".
Isto conduz, como o fazem muitos keynesianos hoje, a distinguir no seio dos capitalistas duas categorias: grosseiramente, os bons e os maus. Os primeiros são aqueles que investem, os industriais que se preocupam com a legalidade dos seus atos, e que eventualmente introduzem códigos éticos. Os segundos são os especuladores, os patrões ávidos, que não recuam perante nada por um ganho, desdenhando as leis, os outros, a moral. Portanto, é preciso conceder vantagens aos primeiros. É um dos papéis do Estado, composto, ele próprio, por homens íntegros e movidos por este interesse geral. Em termos que Keynes não utilizou, mas que outros avançam: favorecer o capitalismo industrial em relação ao capitalismo financeiro. Desta maneira, deveria poder ser assegurado o crescimento perpétuo.
De novo, podemos pôr em dúvida a pertinência de uma tal análise. Em primeiro lugar, a questão da moralidade é muitas vezes apanágio de uma sociedade bem estabelecida. Com efeito, é quando se está instalado no cume, que se pode pensar em ser generoso. É mesmo uma estratégia inteligente, porque é uma maneira de fidelizar clientes que poderão ser úteis numa ou noutra ocasião (em caso de contestação do seu poder, por exemplo). Em contrapartida, aqueles que querem subir na escala social, têm todo o interesse em meter no armário os seus escrúpulos e a sua eventual ética, porque precisarão provavelmente de caminhar sobre cadáveres para vencer.
Portanto, são sobretudo as circunstâncias e a posição sócio-económica que determinam a maneira positiva ou não de funcionar, e não as ideias pessoais (embora elas possam também influenciar). O capitalismo é antes de tudo um sistema fundado sobre a razão do mais forte, como o eram antes dele o esclavagismo, o feudalismo ou outras sociedades de classe. O que é específico, é que o poder não provém do poderio individual, do renome da família ou do luxo exibido, mas sim da capacidade de acumular dinheiro, quer dizer, do capital. Um tal regime não pode ser moral, ético, generoso por essência.
Não pode haver aí normalidade. Não há benefício aceitável, É aquele que acumula mais que dita a sua lei, pouco importa a maneira como ele adquiriu a sua fortuna (salvo se um concorrente puder acionar o aparelho judicial para lhe contestar a legalidade). Se ele tiver vantagem em precarizar o trabalho, ou, até, em externalizar, em deslocalizar para o México, a Europa de Leste ou um Estado asiático, cuidado com os capitalistas que não se conformam com isso! Se o capital colocado na Bolsa render mais do que na indústria, desgraçadas das empresas que não tiverem um departamento financeiro para aproveitar esse maná!
Os keynesianos podem reconhecer estes factos e este lado ávido inexorável sob o capitalismo, mas eles chamam o Estado para controlar, regular e impedir que seja a rapacidade que domina o mundo. O problema é que não se consegue fugir à situação em que é o banqueiro que fiscaliza as sociedades financeiras. Os dirigentes políticos saíram do mesmo viveiro onde foram gerados os capitalistas. São educados da mesma maneira. Têm uma ideologia similar e, hoje, encontram-se nos mesmos think tanks [12] onde se discutem e mesmo se elaboram as grandes orientações para a sociedade de amanhã. Do mesmo modo Keynes, no seu tempo, fazia parte de numerosos clubes privados em que se encontravam a alta sociedade ou os membros da elite mais influentes. Por outro lado, numerosos homens do governo passam, depois da sua carreira " ao serviço do Estado ", para o conselho de administração de uma ou outra grande companhia.
Enfim, é cómodo designar os maus capitalistas, os rapaces, como responsáveis das crises. Os keynesianos não vão tão longe que nomeiem os culpados. Eles pensam antes que é um sistema. É uma especulação desenfreada nos anos 20 que provoca o crash de 1929. É um frenesim imobiliário que leva ao afundamento dos subprimes.
O problema é que, com esta interpretação, não se compreende porque é que toda a atividade produtiva se encontra paralisada. Se fosse um fenómeno somente da Bolsa, bastaria fechar as praças financeiras e fazer com que as empresas fossem financiadas pelos bancos públicos. Se não fosse senão uma catástrofe imobiliária, deveria ser possível limitá-la e impedir que ela gangrene o resto da economia. Seria sem dúvida necessário enfrentar interesses particulares opostos a este género de medidas. Mas isso seria no interesse geral do capitalismo...
É aí que se compreende que se deve inverter a perspectiva. A finança e a especulação não se desenvolvem como derivações do capitalismo "normal", mas porque satisfazem os objetivos ou necessidades desse sistema num determinado momento. Hoje, vê-se que os Estados Unidos funcionaram a crédito desde o princípio dos anos 80 e que este endividamento privado engendrou todo um mecanismo financeiro cada vez mais complexo, mas indispensável para gerar os capitais e a liquidez do país. Se isto não tivesse existido, o consumo americano teria sido muito menos forte e portanto o crescimento teria sido fraco ou mesmo negativo.
É verdade que a crise estalou na esfera mais especulativa. Nem pode ser de outra forma, pois é lá que os riscos são mais elevados. Somente, a recessão repercute-se sobre os outros setores, porque a especulação tinha uma função específica no sistema, a de assegurar os empréstimos às famílias para o seu consumo. Assim, se ela estala, não é a explosão de uma simples bolha que vai empanar as finanças por causa de alguns investimentos infelizes. É todo um mecanismo que cai em parafuso e, portanto, também as condições do funcionamento do capitalismo atual. O capital que se arrisca é todo o conjunto do sistema e não um qualquer excesso, mesmo se, para além disso, os excessos existem.
Isso conduz-nos à nossa explicação ligada ao segundo esquema acima. Se a crise for engendrada pelas duas tendências sublinhadas – a saber: a de aumentar relativamente os lucros em relação aos salários e a de investir mais do que consumir –, vemos os limites de um capitalismo controlado, jugulado, desembaraçado dos seus desvios de rumo. Poder-se-á, com efeito, agir sobre as duas tendências naturais do capitalismo? É caso para duvidar.
A primeira tendência está ligada à luta de classes. Ora esta é muitas vezes, no capitalismo, vantajosa para os patrões. Eles dispõem de mais meios, entre os quais o aparelho do Estado (governo, justiça polícia, exército...) para atingir os seus fins. No entanto, em certas circunstâncias, é possível que os trabalhadores obtenham vitórias, mesmo importantes.
Foi assim a seguir à Segunda Guerra mundial. A situação era tal que a burguesia da época aceitou, em numerosos Estados, um sistema de segurança social muito avançado, mecanismos de progressividade de impostos muito desenvolvidos, medidas de nacionalização de empresas e de planificação da economia nunca vistos anteriormente. Resultou daí uma estabilidade bastante longa na repartição dos rendimentos entre assalariados e capitalistas. Isto favoreceu certamente o mais importante crescimento da história da humanidade na maior parte dos países, nomeadamente na Europa, na Ásia e na América.
Esta experiência mostra portanto que é possível, mas somente em condições excepcionais, dominar um pouco este aspeto. Mas, desde que a relação de forças se incline de novo para o patronato, como no fim dos anos 70, vemos que este compromisso precário vacila imediatamente e a desigualdade volta naturalmente a dominar a situação.
Em contrapartida, é extremamente difícil, para não dizer impossível, manter uma regulamentação da segunda tendência, a saber: a de aumentar sem cessar o investimento, e portanto as forças produtivas, a um grau que ultrapassa largamente o que as populações podem comprar. Assim, um jornalista de Trends-tendances realça essa vontade, na indústria automóvel, de cada construtor aumentar as suas partes de mercado e, portanto, adaptar em consequência a sua produção. " Ora, escreve ele, basta atualmente adicionar todas as capacidades na praça, para compreender que seria necessário que o mercado atingisse 115 % ou 120 % em relação ao que é hoje, para satisfazer todo o mundo ". E pergunta como é possível enfrentar esta situação ao presidente da Ford Belgium da época, Allain Batty, que lhe responde: " Esse problema de sobrecapacidade pode também ser abordado de outra forma. Se nos mantivermos ao nível da capacidade global, podemos fazer este cálculo e dizer que dez fábricas terão que fechar as suas portas. Mas dez fábricas significa também a envergadura de um grande construtor! Portanto, isso não acontecerá desta forma. A noção de sobrecapacidade não é uma fatalidade. O futuro di-lo-á, e sobretudo os clientes o dirão, comprando o que lhes parece de melhor. Se você tem um produto que agrade, e aí está o verdadeiro desafio, deixará de falar em sobrecapacidade e poderá mesmo perspetivar aumentos de produção " [13] .
É interessante ver como este patrão dá a volta à questão macroeconómica da existência de sobrecapacidades globais, transformando-as num desafio individual de produzir ainda mais. E aí atingimos o fundo da justificação da anarquia capitalista: a produção não é justificada senão pela procura individual do produto (por empresa), pouco importando as consequências societárias como as sobrecapacidades, as recessões que elas podem engendrar, as perdas de emprego que elas podem gerar. É isso que não pode ser controlado, regulado, jugulado e é por isso que as crises são inevitáveis e aparecem periodicamente no capitalismo.
5. Conclusões
John Maynard Keynes tem, incontestavelmente, méritos. A sua análise é uma das mais finas e mais ricas da teoria económica. Se for necessário promover um programa de relançamento imediato no quadro do capitalismo atual, a sua obra contém numerosas soluções adequadas e frequentemente justificadas. É uma fonte de inspiração, mas que merece também críticas.
Com efeito, aí termina o interesse que podemos dedicar-lhe. Se quisermos ir mais longe, examinar em profundidade as causas e origens da crise e encontrar soluções que curem verdadeiramente, o keynesianismo mostra-se mais limitado. Ora, parece-nos que é nessa direção que seria necessário dirigir-nos face à presente crise, tal como em relação à dos anos 30.
Não há verdadeiramente solução à atual recessão, senão numa saída do sistema e na sua substituição por uma sociedade fundada na base da igualdade e da solidariedade, cuja economia seja gerida por um Estado que garanta os interesses da maioria da população – os que trabalham, a partir de uma planificação relativamente centralizada, o que quer dizer o socialismo. Se não for este o caminho que a humanidade tomar, resultarão meias medidas, soluções que poderão talvez melhorar temporariamente os efeitos mais dramáticos da recessão, mas que arriscam agravar ainda o mal, como acontece hoje com as políticas de competitividade, que permitirão eventualmente àqueles que as levam à prática que se saiam melhor, mas em detrimento dos outros. Isto não pode senão agudizar ainda mais as tensões, as contradições e portanto as possibilidades de conflito.
Socialismo ou barbárie! Nesta perspectiva, Keynes tenta evitar o caos, sem recorrer ao socialismo. Mas tudo mostra que a sua teoria, mesmo se está mais perto da realidade do que a da corrente liberal, não permite aquilo que ele pretende. Mesmo com Keynes, o capitalismo corre para o caos e a guerra.

Notas
1. "Informe sobre a situação internacional e as tarefas fundamentais da I.C." 19 de julho de 1920, em Lénine, (Obras, vol. 31, p.226 e seguintes)
(http://www.marxists.org/francais/lenin/works/1920/07/vil19200719.htm )
2. John Maynard Keynes, A pobreza na abundância, Gallimard, Paris, 2002, p.18.
3. A contabilidade nacional acrescentou dois elementos: as despesas governamentais (G) e a balança comercial (se o X designar as exportações e M as importações, a balança comercial pode ser representada pela diferença X-M). Assim, o produto interno bruto (PIB, designado ainda pela letra Y) pode decompor-se em: Y = C+I+G+ (X-M).
4. Fomos nós que resumimos assim o seu programa. Keynes não o formulou tão claramente.
5. John Maynard Keynes, Teoria Geral do Emprego, do juro e da moeda , Payot, Paris, 1979, p.171.
6. Que ele não considera negativamente no conjunto.
7. John Maynard Keynes, A pobreza na abundância, ob. cit., p.39.
8. Não é possível conseguir dados mais detalhados para o stock de ativos fixos.
9 Créditos imobiliários negociados com as famílias que não tinham meios de reembolso.
10. Não há cálculos do PIB senão a partir de 1929. A diferença reside em poucas coisas: o PIB é uma estimativa da riqueza mercantil e monetária de um território (os Estados Unidos); o PNB da riqueza dos habitantes de um país (os americanos). Assim, o lucro de uma filial estrangeira repatriada na nação de origem será compatibilizado no PIB do país onde se encontra a filial, mas para o PNB no país da casa mãe.
11. John Maynard Keynes, Ensaios sobre a moeda e a economia , Payot, Paris, 1972, p. 28.
12. Um think tank (literalmente reservatório de ideias) é um conjunto mais ou menos informal de pessoas, muitos dos quais decisores, para debater problemas em comum. É a Trilateral, o grupo de Bilderberg, o fórum de Davos...
13. Trends-tendances , 6 mai 1993, p. 22.
[*] Doutor em economia, pesquisador no GRESEA e no Instituto de estudos marxistas, especializado no estudo das multinacionais, das estratégias europeias do emprego e da crise económica. (henri.houben7 (arroba) telenet.be)
O original encontra-se na revista Études Marxistes, nº 93, 2011/07/13, publicado em http://www.marx.be/FR/em_index.htm . A tradução para português encontra-se em http://www.pelosocialismo.net .