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quarta-feira, 19 de março de 2025
O QUE É A REALIDADE?
O QUE É A REALIDADE?
Em meus devaneios especulativos, que possivelmente têm a profundidade pouco mais acentuada que a de um pires, buscava há tempos uma metáfora adequada para me definir o que é a REALIDADE. Sim, metáfora, pois, não é possível definir O QUE É, senão indiretamente, por intermédio de outra coisa e, sendo coisa, já não é a realidade inteira que busco, pois a coisa, qualquer coisa, concreta ou abstrata (um conceito) é um recorte da realidade (banana não é laranja), um segmento da realidade, que, esta, sim, compreende todos os segmentos possíveis (O que existira fora dela?). A realidade compreenderia, então, todas as coisas, reais ou imaginárias, meu gato Gatozé e o Saci Pererê, a salsicha e a correspondência na paixão, A realidade deve ser dotada de uma extensão infinita, já que nunca acabamos de apreendê-la toda. Exemplo: a energia, que para Newton era a "capacidade de realizar trabalho", tornou-se em 1895 com o raio-X de Konrad von Röntgen (1845-1923) uma forma de energia aparentemente invisível, imperceptível aos sentidos, que podia atravessar corpos materiais, o que deixou os físicos atônitos. E não parou aí: Aventou-se que o átomo é indivisível, e se veio a saber depois de suas partículas; que a matéria/energia se propaga em ondas, contínuas, e depois que é constituída de corpos, os fótons, descontínuos, ao contrário das ondas. E hoje se admitem uma coisa e outra. E quem poderá afirmar que a inquirição científica não irá além?
Isso me leva à ideia de que a realidade não responde à indagação "o que ela é?" na sua inteireza. Haveria tantos modos de se chegar a ela quanto seja a nossa capacidade de reconhecê-los. Na pesquisa científica nada se descobre: reconhecem-se novas interfaces na realidade, que é sempre a mesma. Nós a enxergamos de um certo ponto de vista, e não é possível enxergá-la de todos os pontos de vista, que são infinitos, como o fariam os anjos ou Deus, entidades incorpóreos e atemporais. Nós pressupomos, conjeturamos sobre o que ela seja, mas o resultado não é plenamente satisfatório: ela se nos apresenta de forma DETERMINADA (delimitada): isto e não aquilo; ou isto e também aquilo, dupla determinação, que se delimitam reciprocamente, em conformidade com os respectivos segmentos da realidade indeterminada sobre cujo fundo se destacam para que possamos apreendê-los.
É por esse caminho que chego à metáfora do PONTO GEOMÉTRICO.
Assim como a realidade, o ponto geométrico, que é o ponto de todos os pontos, não se determina (não se delimita), pois não é dotado de propriedades determinadas e é graças às propriedades que se distinguem uma coisa de outra. O chão é duro e o doce de maria-mole, mole, entre outras propriedades respectivas. O ponto geométrico é um suporte formal ADIMENSIONAL de todas as formas e nessa condição não integra a constelação das formas geométricas, senão como assinalado por elas. Entende-se como linha reta a trajetória mais curta entre dois pontos: Do ponto partem todas as formalizações geométricas, sem que seja parte extensiva de alguma delas.
Sigo em frente em busca de minha metáfora e finalmente a encontro no ser humano, o SUJEITO, sobre quem não recai nenhuma determinação, assim como na lógica gramatical o predicado do SUJEITO não exaure a sua capacidade de predicação. O sujeito, assim como o ponto, é a sede originária da qual partem, como irradiações multidirecinais, todas as determinações, sem que se identifique com alguma delas, ele que pode assumir todos os papéis possíveis, pai, médico e marido, por exemplo, ao contrário de uma função, que é determinada e unívoca. Ou, como escreve Marx "O ser humano é o SUPORTE (formal) de relações sociais", relações que mudam no tempo/espaço cultural, de acordo com o contexto em que a sua existência social ocorre, ao seu próprio olhar ou ao olhar de outrem (a sociedade em que se encontra inserido).
Isso me tranquiliza por saber que, colado ao estado de mudança da realidade, como a enxergo (necessariamente em contexto), tudo é revogável e que nada é definitivo. Nivaldo Manzano
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