segunda-feira, 24 de março de 2025

O SUPRASSUMO DO TRUMPISMO

O SUPRASSUMO DO TRUMPISMO O que me surpreende na reação ao trumpismo é a SURPESA e o ATURDIMENTO como ele foi recebido por muita gente por toda parte. Não há razão para isso. Mal comparando, assim como ocorre na crisálida, que é a fase de pupa dos insetos lepidópteros em que a lagarta se transforma em adulta, o trumpismo seria um arremate histórico em linha reta do Iluminismo na sua vertente racionalista de Kant, que, na boca de seus críticos, veio a chamar-se etnocentrismo, na antropologia cultural; ou eurocentrismo, no sentido de que a cultura europeia ainda se ache o umbigo cultural do mundo. Eurocentrismo ou etnocentrismo é a flexão linguística negativa da proclamada SOBERANIA da razão sobre os demais valores humanos, a saber, além da razão, a ética, a intuição, os sentimentos e a estética, uma jabuticaba genuinamente europeia, pois não há registro que tenha ocorrido alguma HIERARQUIA entre valores em outra cultura na história da humanidade. O Iluminismo é o delírio civilizacional ou cultural do EU, um Eu que brota no Renascimento e desabrocha na contemporaneidade do liberalismo, no "time is money", segundo a brilhante síntese de Benjamin Franklin (1706 - 1790). O Eu eurocentrista desconhece o Outro, o outro localizado para além do Continente Europeu, um Eu branco, anglo-saxão e macho - como consagrado na sua carta de princípios, que é a DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM E DO CIDADÃO, da Revolução Francesa, tão apreciada pelo alemão Kant, da qual estão excluídos os indígenas, os negros, os amarelos, as mulheres. Daí as dúvidas teológicas e filosóficas, levantadas anteriormente quando da rapina colonialista, sobre saber se negros e indígenas tinham alma. Soube-se depois por decisão do Papado que sim, tinham alma, tanto mais que os povos sob o jugo do colonialismo lhes era funcional à espoliação de suas riquezas naturais e à escravidão. Prestavam-se mais que a alimária de carga, como disso é testemunho a diferença pecuniária entre uns e outros. Mas, ainda que com alma, não são brancos, anglo-saxões e machos. Isso é o sumo do trumpismo, ou do Iluminismo na sua contrafação universalista, que o caracteriza. Observação: Opor-se à SOBERANIA da razão não significa que se advogue o irracionalismo. Na axiologia entende-se que os valores são equivalentes, distintos, porém, não separáveis. Nivaldo Manzano

DEMOCRACIA PARLAMENTAR DA ELITE À MÁFIA: NÃO HÁ MOTIVO PARA PESSIMISMO

DEMOCRACIA PARLAMENTAR, DA ELITE À MÁFIA: NÃO HÁ MOTIVO PARA PESSIMISMO As críticas à democracia têm a idade da democracia. Os discursos da retórica democrática são usados pelos donos do poder para justificar o comando da maioria pela minoria. "Essa aristocratização do poder e seu corolário de desmandos ocorre em todos os tempos e lugares". escreve o italiano Luciano Canfora (muitas palestras no YouTube), historiador especialista no período clássico da Grécia e de Roma, em seu livro "Crítica da retórica democrática"). A olhos vistos, a democracia na atualidade "avança da elite à máfia", na expressão do italiano Fábio Armao, em "Dalle economia-mondo al domínio locale (Turim, Italia, Bolatti, B. 2000). Leiam-se, entre outros livros "A ditadura do grande capital", de Octavio Ianni; "O mito do capitalismo", de Tepper, J; "A ditadura do capitalismo", de Luttwak; e mais recentemente, Tecnofeudalismo", de Yanis Varoufakis, um best selller mundial, em razão de sua abordagem surpreendente e inovadora. A lista não tem fim. Fiquemos no seguinte: O sistema democrático de REPRESENTAÇÃO PARLAMENTAR ajusta-se, máxime no capitalismo, como mão e luva à corrupção pelo dinheiro, com o que mina as bases em que se legitima e se sustenta a democracia. Não apenas no capitalismo. A democracia ateniense, berço do sistema democrático no Ocidente, ruiu por dentro, em que pese o seu declínio por força da intervenção estrangeira e da decadência do poder imperial de Atenas como cidade-estado. Quase todos os historiadores, políticos e filósofos gregos criticaram a Democracia. Aristóteles, que criou o neologismo "democracia", advertiu que a maior ameaça à democracia era a acumulação do dinheiro pelos poderosos. "O governo do povo, pelo povo e para o povo" tornou-se uma ficção risível, máxime em países como o Brasil, em que a maioria dos eleitores não sabe sequer o nome do candidato em quem votou meses depois do pleito. Isso é motivo para pessimismo? Não. Dentre as centenas de milhares de movimentos sociais, com centenas de milhões de participantes mundo afora, os que mais crescem à velocidade acelerada são os de caráter AUTOGESTIONÁRIO, nos quais quem elege é também quem participa DIRETAMENTE da implementação e gestão do programa por ele aprovado, com o direito ad nutum de destituir os encarregados da executar tarefas ou missões específicas. Tais movimentos levam o nome de "COMUM", ou "COMUNS", como evocação do episódio histórico dos servos feudais expulsos das terras comunais (de uso comum) pelos SENHORES, que delas se apropriaram mediante o emprego da violência, apoiados pela monarquia e pela Igreja (séculos XIII - XVIII na Europa). O movimento do COMUM visa a retomar para o espaço público o que foi privatizado, como o acesso à terra, a água, a energia, a saúde, a educação, as ondas hertzianas etc., dentro dos limites constitucionais. No Brasil, o maior deles é o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que é também um dos maiores do mundo ocidental. Dentre outras iniciativas, o MST destaca-se como produtor de alimentos orgânicos e agroecológicos e pelas ações de solidariedade na doação de alimentos. Criado há 40 anos em Cascavel-PR, o MST conta com 450 mil famílias, 160 cooperativas, 120 agroindústrias e 1900 associações em todo o Brasil (2023). A sua capacidade de realizar grandes projetos autogestionários tornou-o conhecido em outros países. A convite do governo da Venezuela, o MST apoiou a organização de 4500 comunas, com cerca de 5 milhões de associados, em atividade há uma década. Em março (2025) o presidente Nicolas Maduro anunciou entendimento entre o seu governo e o MST para a implantação de 180 mil hectares para produção agropecuária, de base ecológica, numa das maiores iniciativas autogestionária no mundo ocidental. Assim como o MST, outros movimentos do COMUM conquistam ampla adesão por toda parte, de que são exemplos mais conhecidos o e-commons, o wikipedia, o soFtware livre, o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto), os movimentos comunitários em geral, como o movimento dos QUILOMBOLAS e muitos outros. Em países da África Ocidental, recém-libertos do jugo colonialista francês, predominam iniciativas do tipo COMUM na agricultura e agroindústria, tendo como modelo o MST. Qual o segredo do sucesso? Realização desde já de um tira gosto do espírito comunitário, que caracteriza o avanço para o socialismo. Nivaldo Manzano

POESIA

Que dias há que na alma me tem posto um não sei que, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê." Luís Vaz de Camões " Dissolvendo a cortina de palavras, tua forma abrange a terra e se desata a maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas." Carlos Drummond de Andrade