terça-feira, 10 de novembro de 2020

Martinho Lutero, aquele que odiava o chão em que pisava, pisando no Gênesis. ("E Deus viu que tudo era bom")

 Martinho Lutero, aquele que odiava o chão em que pisava, pisando no Gênesis. ("E Deus viu que tudo era bom")

Nivaldo T. Manzano (09/11/2020)

Na data de hoje, faz 537 que Martinho Lutero nasceu. A propósito dele, escrevi um dia, inspirado na leitura de Lucien Febvre*:
Sob a cultural ocidental da abstração, de vocação universalista, lateja o pensamento único, necessariamente moralista. Em uma de suas faces, enxergam-se a pretensão e a arrogância; na outra, um abissal desprezo de si mesma, por suspeita da própria impotência. Certo dia, um anglo-saxão, que odeia o corpo, não gostou do odor de seu sovaco e inventou o desodorante, para proscrever da face da Terra o cheiro de gente. Martinho Lutero embriaga-se com o seu poema vivo da liberdade universal da fé cristã, para se proclamar um escravo do destino do Altíssimo. Arremete contra o dogma universal do poder temporal do papa, para converter os seus seguidores em súditos dóceis de um príncipe. Comporta-se como a raposa diante das uvas que não consegue apanhar. Incapaz de exercer a liberdade contextual sem culpa, cria a ficção da liberdade interior, sem contexto e, por isso, dispensada de engatar com a realidade. Perseguido pela incerteza de não ter seu lugar reservado na cidade celeste, entrega a cidade terrestre à desumanidade da própria sorte, desqualificando como coisa do Diabo todo desejo de melhorá-la ou piorá-la. É-lhe indiferente a aparente banalidade do quotidiano, feito de miudezas profanas. O impreciso, o pormenor, o eventual, o matiz, a novidade, um gesto humano, a diferença são iscas diabólicas lançadas no caminho do homem de fé, para confundi-lo. A cabeça enfiada no céu, onde se aninha a crença do gênio em delírio, e o corpo submerso na lama, na qual se emporcalha: extremos puritanos que não se tocam, como o zero e o um. Somente o absoluto o fascina — os assuntos da cidade são desprezíveis, assim como tudo o que ocorre sob a abóbada celeste. Martinho Lutero, explica-nos Lucien Febvre*, “não se perdia em sutilezas”*. Uma tal característica poderia ter feito dele também o criador da estatística.
• Febvre, L., "Martinho Lutero, um destino", Lisboa, Asa, 1994
Aqui uma boa resenha crítica do livro:
SCIELO.BR
www.scielo.br

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