Artigos, ensaios, pesquisas de interesse geral - política, cultura, sociedade, economia, filosofia, epistemologia - que merecem registro
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
Política e Moral – uma lição aos moralistas Ou: Da impossibilidade de se eliminar o conflito, para a nossa sorte.
quinta-feira, 28 de outubro de 2021
O liberalismo na sua hora mais amarga - Raimundo Pereira
O ESPANTALHO DO ILIBERALISMO
A revista semanal britânica The Economist foi criada na Inglaterra, em 1843, em Manchester, cidade símbolo da Revolução Industrial: nela, pela primeira vez, foram usadas máquinas a vapor para mover teares mecânicos. O papel da revista, desde sempre, foi defender o liberalismo e os princípios do livre comércio. E seu estilo é, também, historicamente militante. Parece uma publicação de partido: ela tem posição e a expressa claramente. Começa com quatro ou cinco editoriais nos quais apresenta sua posição em relação aos principais fatos a serem apresentados na semana. E depois disso vem um briefing sobre o fato mais destacado - digamos assim, na linguagem jornalística, o artigo de capa da edição. No dia 4 de setembro, a Economist publicou, no seu primeiro editorial e no briefing, uma apaixonada defesa do liberalismo e uma estridente advertência sobre as ameaças representadas pela esquerda iliberal, que teria levado seu descosido conjunto de ideias radicais, dos campus universitários, para a vida política americana. E, logo a seguir, no dia 5, nosso mais antigo jornal liberal, O Estado de S. Paulo, fundado em janeiro de 1875, para combater a monarquia e a escravidão, deu curso à campanha. Publicou o editorial com destaque e com o mesmo título, traduzido, “A ameaça da esquerda iliberal”. E com uma apresentação na qual podem ser vistas referências ao problema brasileiro com o bolsonarismo e ao crescimento, na América do Norte, das chamadas correntes identitárias esquerdistas, no caso, feministas e antirracistas mais radicais: “Democracia sofre com populistas de direita, mas não subestime o perigo das políticas identitárias esquerdistas”
Na sua essência, diz a revista, a doutrina liberal descobriu que “o progresso humano vem dos debates e das reformas” e que “a melhor maneira de se navegar através dos contratempos desse mundo dividido é através de um compromisso universal com a dignidade de cada ser humano, com mercados livres e governos limitados”. E teria sido graças à aplicação desses princípios que, no mundo, “nos últimos 250 anos”, “o liberalismo clássico ajudou a promover um progresso sem paralelo”.
No momento, no entanto, essa doutrina formidável estaria sendo submetida a um duro teste, da mesma forma como teria acontecido a um século atrás, “quando os cânceres do bolchevismo e do fascismo começaram a comer a Europa liberal por dentro”. E, em nenhum lugar esse teste está sendo mais radical do que nos EUA onde o bloco liberal incluiria uma “esquerda iliberal”, “obcecada por uma visão estreita de como obter justiça para grupos identitários oprimidos”, como os de negros e mulheres. Essa corrente, diz a Economist, levou para a luta política táticas de “pureza ideológica” que lembram as ideias prevalecentes na Europa quando os reis governavam por supostos mandatos divinos. Na época, a igreja era encarregada de separar os puros dos infiéis, antes que o liberalismo clássico surgisse no final do século 18. Os liberais clássicos, diz a Economist, usam os debates para examinar os pros e contras das opções e definir prioridades numa sociedade pluralista. E usam as eleições para escolher o caminho a seguir. A esquerda iliberal, diz a revista, acredita que o mercado de ideias atual está tão viciado como os outros mercados capitalistas e o que se apresenta neles como argumento e evidência é, no fundo, mais uma manifestação do poder das elites. Por esse motivo, o campo de debate tem de ser inclinado contra os reacionários e privilegiados, o que significa restringir a liberdade de expressão dessas correntes com uma grande operação de justiça reparadora. Envolve tomar esses reacionários como exemplo negativo, afastando-os dos debates, negando-lhes espaços e palanques. Assim, conclui a revista, “a esquerda iliberal coloca seu próprio poder no centro das coisas, porque está convicta de que o progresso real só é possível depois de terem sido eliminadas hierarquias injustas, raciais, sexuais e outras. Os liberais clássicos também querem a eliminação dessas hierarquias. A diferença estaria, diz a Economist, no método: os liberais clássicos acreditam na disputa por meio da competição graças à fixação de condições iniciais justas como a eliminação dos monopólios corporativos e radicais reformas tributárias.
O problema atual, diz a revista, é que os governos liberais não fizeram nada disso. Depois do colapso da União Soviética suas elites tornaram-se arrogantes e perderam a humildade e a virtude da permanente dúvida características dos liberais. Eles manipularam a meritocracia americana a favor de seus pares. Ao invés de tratar sua elite operaria com dignidade, torceram o nariz para sua suposta falta de sofisticação.
Para agravar o problema, e em função do tratamento da questão racial na América, isso abriu espaço para os iliberais insistirem na avaliação de que o país está apodrecido desde sua origem. Os liberais clássicos argumentam que as mudanças exigem tempo. Mas, conclui a revista, “Washington está quebrada; a China dispara tempestuosamente à frente; e o povo americano está inquieto”.
CAPÍTULO 2.
AS VIRTUDES DO LIBERALISMO
O liberalismo é um dos produtos principais do chamado iluminismo, um movimento de ideias desenvolvido entre os séculos XVII e XVIII especialmente na França, Holanda e Inglaterra. Esses países viviam da economia agrária e comercial antiga. Seus produtos mais sofisticados vinham do trabalho de artesãos, como tecelões, ferreiros, carpinteiros, sapateiros em suas casas e com suas ferramentas. E a produção básica vinha do trabalho de camponeses que cultivavam as terras dos nobres, latifundiários articulados por um sistema político que tinha no topo reis consagrados pela igreja.
A novidade do movimento iluminista era a defesa das liberdades políticas e econômicas necessárias à burguesia, a classe dirigente do sistema econômico novo que surgia - o capitalismo, baseado no trabalho assalariado na indústria mecanizada das fábricas.
Uma dúzia de grandes pensadores podem ser citados como autores de obras que até hoje são usadas nas escolas para ilustrar as ideias formuladas nesse período. Destacamos quatro deles. Primeiro, dois ingleses, Adam Smith e John Stuart Mill.
Smith, 1723-1790, é o autor de “Uma investigação sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações, obra depois popularizada como a da “mão invisível do mercado”, segundo a qual é o movimento de cada indivíduo em busca de seus interesses pessoais que promove o crescimento econômico e a inovação. E para Smith, “a ciência era o grande antídoto contra o veneno do entusiasmo e da superstição”.
Mill (1806-1873), economista e filósofo inglês, é o autor de Sobre a Liberdade, Sobre a Sujeição das Mulheres e Princípios de Economia. Era um pensador revolucionário. Dizia por exemplo: “Quem pode calcular o que se perde com a multidão de inteligências que coexistem com caracteres tímidos, que não se aventuram a incorporar-se em nenhuma corrente de opinião arrojada, vigorosa e independente, com o temor de que ela o leve a alguma coisa que possa ser taxada de irreligiosa ou imoral?”.
A seguir, destacamos um francês, Alexis de Tocqueville (1805-1859), e um suíço que viveu na França, Benjamin Constant (1767-1830). Tocqueville era de família nobre, tinha 15 anos em 1789, quando a Revolução Francesa eclodiu e viveu nos diversos períodos desse vasto movimento que se estendeu por mais de meio século. Sua grande obra é Da Democracia na América escrito a partir de sua viagem pelos Estados Unidos onde esteve entre 1831 e 1832 e onde viu o que lhe pareceu um exemplo para o mundo. Tocqueville era crítico das diversas formas de socialismo que começavam a ser propostas na época. Dizia que elas tinham em comum com o liberalismo, a defesa da igualdade. Mas, acrescentava, com uma diferença: os liberais a pretendiam a partir da liberdade; e os socialistas, a partir da escravidão. Como a maioria dos liberais de seu tempo, Tocqueville não quis ver que a grande nação americana estava sendo construída com a destruição das sociedades dos antigos moradores da terra, os indígenas, e pelo trabalho de negros trazidos da África como escravos.
Benjamin Constant, por sua vez, percebeu essas grandes diferenças e, nos seus escritos, com base nas observações de sua época e nos estudos das antigas sociedades grega e romana consideradas democráticas, definiu dois tipos de liberdade, a “dos antigos” e a “dos modernos”. A liberdade dos antigos era participativa, republicana, dizia ele, dava aos cidadãos o direito de influenciar diretamente as políticas através de debates e do voto de cada um em assembleias públicas. A cidadania era assim uma obrigação moral que exigia investimento de tempo e energia. Isso, de forma geral, nos tempos antigos, implicava na existência de sub-sociedades de trabalhadores, no caso, de escravos, que deixavam os cidadãos livres. para tratar das questões públicas. A Liberdade dos Antigos, dessa forma, era limitada a elites relativamente pequenas e homogêneas.
Benjamin Constant viveu na França revolucionária e era admirador da Inglaterra revolucionária. Não se pode dizer que os dois países eram o exemplo de nações que resolveram seus principais impasses da forma liberal apresentada no editorial do Economist já citado - ou seja, pacífica, pela discussão, o debate e o voto. É de seu tempo, 21 de janeiro de 1793, a decapitação em praça pública, pela guilhotina, em Paris, do rei Luiz XVI. No período conhecido como do Terror, que vai de daquele marco até 1794, os historiadores estimam que foram mortos cerca de 30 mil franceses.
Pode-se dizer que os defensores do liberalismo inglês, de certo modo, precederam os defensores do liberalismo francês nessa prática: o rei da Inglaterra, Carlos 1, foi decapitado em 1649 após uma guerra civil, a chamada Revolução Gloriosa que afirmou os poderes do parlamento e acabou dando origem à monarquia constitucional que sobrevive até hoje. Existe um rei, que representa o país, mas o governo é tocado por um parlamento no qual os representantes dos partidos – hoje são três, o Conservador, o Trabalhista e o Liberal – em eleições gerais, disputam o poder de formar o governo e ocupar os diversos ministérios.
CAPÍTULO 3.
MISTURANDO ALHOS COM BUGALHOS
Na defesa do liberalismo, a Economist comete erro grosseiro: põe socialistas e comunistas, neofascistas e neonazistas num mesmo balaio
A revista britânica diz que cem anos atrás o liberalismo europeu foi atacado por dois cânceres, o nazifascismo e o bolchevismo. É uma avaliação que despreza fatos básicos da história. A Segunda Guerra Mundial, o grande evento de cem anos atrás citado, começa com três grandes manobras. Pela ordem:
1. O líder da Alemanha nazista Adolf Hitler exige uma parte do território da Tchecoslováquia, numa reunião em 20 de novembro de 1938. O acerto, conhecido na história como o Pacto de Munique, cidade alemã na qual foi assinado, se dá entre os governos liberais da França e da Inglaterra de um lado e, de outro, o governo nazista alemão de Adolf Hitler e o governo fascista da Itália de Benito Mussolini. Não tem a concordância do governo checo nem de seus aliados, os comunistas russos, então no governo de Moscou, e cuja presença fora vetada por Hitler. E tem o apoio, nos bastidores, do governo americano de Theodore Roosevelt.
2 - A posição de neutralidade dos liberais diante da entrega de parte da Tchecoslováquia aos nazistas foi vista pelos comunistas como uma manobra para desviar a sanha de Hitler contra eles, contra a Rússia. O governo de Moscou negociou então um pacto com os alemães, assinado menos de um ano depois, em 23 agosto de 1939, que ficou conhecido como o Pacto Ribentrop-Molotov, em referência aos nomes dos ministros de relações exteriores alemão e russo e cujo conteúdo prático viria a se materializar dramaticamente logo mais.
3 – A 1 de setembro a Alemanha invade a Polônia. No dia seguinte, a França e a Inglaterra declaram guerra à Alemanha. Duas semanas depois, a 14 de setembro, o exército russo ocupa cerca de metade do território polonês, numa ação prevista no pacto com os alemães para delimitar sua área de defesa.
A II Guerra Mundial estava deflagrada. Após ocuparem a metade da Polônia nas suas vizinhanças, as poderosas divisões blindadas alemãs se voltam para o oeste. Ocupam a Holanda, cujo exército se rende a 15 de maio; depois a Bélgica, que se rende cinco dias depois. Encurralam a seguir cerca de 350 mil soldados franceses, ingleses e canadenses entre a cidade belga de Dunquerque e o canal da Mancha, braço de mar que separa a Inglaterra do continente.
Hitler não parte para esmagar esses adversários, como alguns historiadores acham que era possível. Reorienta o esforço de suas tropas para a tomada da França o que faz sem grande resistência. Entra em Paris a 14 de junho. E assina um armistício de não agressão com um governo francês comandado pelo marechal Pétain. Isso leva democratas e patriotas em geral a atacar o acordo e fortalecer a resistência ao nazifascismo. O general Charles de Gaulle, por exemplo, que se tornaria presidente dos franceses em 1959, vai para Londres e dali iria, pouco depois, para o norte da África comandar tropas aliadas em operações contra a ocupação alemã da Europa.
Mas, a grande derrota de Hitler viria de sua ofensiva contra a Rússia. Os nazistas tinham ocupado a França e obtido o governo de conciliação em Paris em menos de um mês. Hitler planeja então repetir o feito com um ataque direto a Moscou. Seus exércitos chegam às proximidades da cidade em outubro de 1941. Mas saem derrotados depois de quatro meses de terríveis combates. Hitler muda então de objetivo: busca uma vitória sobre os russos em Stalingrado, mais ao sul do país, tida como estratégica e em área de recursos naturais considerados importantes.
Suas forças cercam a cidade em julho de 1942. Mas a resistência ao ataque é extraordinária e passa a ser acompanhada no dia a dia pelos antifascistas do mundo inteiro que a cantam em prosa e verso. O poeta chileno Pablo Neruda compõe “Canto de Amor a Stalingrado”, traduzido no Brasil por Carlos Drummond de Andrade.
Os alemães deixam a região derrotados oito meses depois, em fevereiro de 1943. E o Exército Vermelho como que sai no encalço dos invasores, em direção a Berlim. Os americanos decidem, então, participar da operação de desembarque na Normandia, que teve início em 6 de junho de 1944 (desde o ano anterior as forças americanas já atuavam na Itália com outras forças aliadas; e desde dezembro de 1941 estavam em guerra contra o Japão após o ataque dos japoneses a Pearl Harbor) A 6 de junho, então, os americanos desembarcam no nordeste da França 55 mil soldados. E com mais um reforço de ingleses e canadenses partem também para Berlim.
O exército vermelho chega primeiro. Ocupa Berlin a 22 de abril de 1945. Uma semana depois, a 30 de abril, Hitler se suicida. E a 7 de maio, a Alemanha se rende incondicionalmente.
CAPÍTULO 4.
AS ARMAS DOS LIBERAIS E AS DOS SOCIALISTAS
A Segunda Guerra Mundial termina na Europa com a rendição alemã, mas continua na Ásia - onde adquirira características próprias e dimensões gigantescas. Num episódio anterior, o Japão invadira a China em 1937. Os americanos tinham apoiado os chineses. Em 1941 cortaram exportações de petróleo e aço para o Japão. Em represália, os japoneses atacam e destroem parte da frota americana do Pacífico estacionada em Pearl Harbour. Os americanos declaram então guerra ao Japão e aumentam sua ajuda aos chineses. È bom também lembrar igualmente que os EUA começaram a a fornecer armas e munições à URSS em 4 de dezembro de 1941, antes de entrarem oficialmente na guerra. Outro ponto que merece destaque: a URSS fez um acordo de não agressão com o Japão a 13 de abril de 1941, dois anos após conflitos entre suas forças e as dos japoneses na fronteira entre um Estado fantoche japonês conhecido como Manchuco e a Mongólia, pro-soviética.
A China fora a grande nação do mundo antigo. Enquanto o estado nacional dos americanos se consolida com a tomada de cerca da metade do atual México em 1848, o dos chineses, com seu território atual, incluindo o Tibet e Xinjiang, a província mais a oeste, é de 1750. Antes da revolução Industrial inglesa, com seus teares mecânicos, a China com suas sedas produzidas em teares manuais, era a grande nação exportadora e a maior economia do mundo.
E não foi passada para trás pela Inglaterra ao estilo liberal, digamos, porque seus produtos teriam sido preteridos pelos dos ingleses, na disputa de preços no mercado. Mas porque foi derrotada em quatro guerras de cunho imperialista – as duas chamadas Guerras do Ópio, a de meados do século 19, após as quais foi obrigada a ceder Hong Kong à Inglaterra por duzentos anos; e a duas invasões japonesas, no século 20, após as quais perdeu a influência que tinha na Coréia e cedeu Taiwan e ilhas adjacentes à soberania do Japão.
No início de agosto de 1945, a guerra contra o Japão termina de maneira assombrosa: Hitler estava morto; os alemães tinham se rendido; o exército vermelho ocupava Berlin. E os americanos cometem o maior atentado terrorista da história: ainda no início do mês, lançam duas bombas atômicas em cidades japonesas, uma no dia 6, sobre Hiroshima, outra no dia 9, sobre Nagasaki, com as quais matam, no ato, entre 150 mil a 250 mil pessoas e, estima-se mais outro tanto depois em função dos males da exposição à radiação nuclear. E, no dia 16, o Japão se rende.
A bomba tinha sido criada por um pequeno exército de cientistas e técnicos de vários países, chefiados pelo físico americano Robert Oppenheimer após carta de Albert Einstein ao presidente americano alertando para a possibilidade de criação e da necessidade de produzir a arma atômica antes que os alemães a fizessem. A equipe de Oppenheimer trabalhou em sigilo num laboratório em Los Álamos escondido na região montanhosa perto de Albuquerque, capital do estado americano do Novo México. A bomba foi testada em Álamo Gordo, um deserto da região, no dia 16 de julho. Os cientistas do grupo de Oppenheimer lhe pediram então para encaminhar ao presidente americano a proposta de usá-la numa exposição em uma ilha isolada para observadores entre os quais estivessem representantes dos japoneses. O então presidente, Harry Truman, disse que a decisão não estava mais nas mãos deles, mas com os chefes militares.
Oppenheimer era um liberal, de família rica, financiara organizações antifascistas, tinha amigos comunistas. Foi afastado do programa nuclear americano. E, no museu nacional da energia nuclear em Albuquerque, hoje, a referência a ele é minúscula e não elogiosa.
No caso da guerra na Ásia um elogio da postura liberal é totalmente descabido. A recuperação da soberania da China começa com a intervenção de militares republicanos e nacionalistas que fundam, em 1911, o Kuomitang, Partido Nacionalista da China, e proclamam a República em 1912. Pouco depois passa a ter papel central na vida da China o PCCh, partido comunista chinês, fundado em 1921. Com a invasão do Japão de 1937 nacionalistas e comunistas se unem em defesa da soberania do país. E, com a derrota do Japão, em 1945, os nacionalistas se unem às forças americanas contra os comunistas e são derrotados na guerra civil que termina em 1949, com a vitória dos comunistas liderados por Mao Zedong, que proclamam a República Popular da China, no continente, com sede em Pequim, e a internação dos nacionalistas na ilha de Taiwan, sob a proteção dos americanos.
Os chineses são, também, os responsáveis pela renovação do movimento comunista após a crise ideológica decorrente das denúncias de Nikita Kruschev. Ele tinha sido o mensageiro de Stalin para o comando político dos chefes militares em Stalingrado. E, após a morte de Stalin em 1953, torna-se primeiro-ministro e denuncia seu ex-chefe como responsável por um regime de terror.
Os chineses seguem outro caminho. Denunciam Krushev publicamente abrindo uma cisão no movimento comunista internacional. E passam a realizar grandes operações internas em defesa do caminho socialista. Duas dessas operações conduzidas por Mao: a de 1956-1965, conhecida como “O grande salto à frente” e a de 1966-1976, a da “Revolução Cultural”. Com a primeira, a China criou as comunas rurais, estatizou toda a terra e estabeleceu sistemas de produção e distribuição mais coletivos para o trabalho camponês, espalhou estatais por todo interior e transformou praticamente toda a propriedade industrial chinesa em empresas estatais e de propriedade coletiva. Com a revolução no campo da cultura Mao procurava manter a pureza do partido diante da degradação que teria sido observada no partido soviético. Dois anos depois da morte de Mao, em setembro de 1976, então sob o comando de Deng Xiaoping, o PCCh iniciava uma profunda correção de rumo. O Grande Salto passou a ser tido com 50% de erros e 50% de acertos; e a Revolução Cultural, basicamente um desastre. Deng comanda o partido noutra direção até sua morte em 1997. A tese de que a “luta de classes” seria a chave para a política é trocada pelas das “reformas para liberar o desenvolvimento das forças produtivas”, para utilizar os mecanismos de mercado, despertar a iniciativa individual, abrir o país para o exterior em busca de tecnologia moderna e implantar nas empresas estatais mecanismos de gestão considerados científicos. Os contratos com a remuneração vinculada à produção assinados com as famílias camponesas rapidamente se estenderam por toda a China. No final de 1984, 180 milhões de domicílios rurais – 98% do total – tinham adotado o sistema.
Mudou-se também a posição em relação à empresa privada. Em 1983 a posição do partido em relação à empresa capitalista industrial era a dos três nãos: 1) não defender; 2) não fazer propaganda; 3) não eliminar a possibilidade apressadamente. Em 1987, o partido e o governo passaram a incentivá-las moderadamente. Nesse ano, uma Emenda à Constituição permitiu o desenvolvimento das empresas privadas como “um complemento” da economia socialista pública. Ainda em 1989, o partido publicou documento que dizia: “Proprietários de empresas privadas não podem ser membros do Partido Comunista”. Dois anos depois, no entanto, outro documento corrigia, dizendo: “os proprietários de empresas privadas não podem ser igualados ou tidos como análogos aos industriais e comerciantes do passado de uma maneira super simplificada”. E em agosto de 2001 empresários foram admitidos no partido. Os resultados dessa liberação de iniciativas foram espetaculares. Em 1978, a China tinha 348 mil empresas industriais, excluindo as empresas dirigidas pelas vilas e as oficinas individuais. No final de 1995, o número total de empresas industriais tinha chegado a 7,26 milhões. Do total de novas empresas criadas, a grande maioria eram pequenas e médias, de empresários privados, nas pequenas cidades e vilas rurais. Cerca de 100 milhões de pessoas que deixaram o trabalho agrícola nesse período acharam emprego nessas novas empresas, espalhadas pelo interior. E tudo isso se fez sem que o sistema básico de poder na China fosse desmontado. De acordo com algumas estatísticas divulgadas na Duma, o congresso russo, a terapia de choque que desmantelou o sistema socialista soviético a partir de 1989 fez com que 10% da população russa se transformasse, por meios legais e ilegais, numa nova elite; 60% tiveram uma grande deterioração no seu padrão de vida e 30% foram lançados na miséria extrema. Estima-se que o total das perdas do país com esse tratamento foram equivalentes a 2,5 vezes os danos causados na Rússia pela Segunda Guerra Mundial.
O LIBERALISMO NA SUA HORA MAIS AMARGA
Epílogo:
Epílogo:
NO BRASIL - E NÃO APENAS AQUI, COMO SE SABE - SENHORES DE ESCRAVOS SE CONSIDERAVAM LIBERAIS
O Brasil é um país de “ideias fora do lugar” como lembra bem em sua obra clássica o crítico Roberto Schwarz ao falar da aceitação da doutrina liberal por nossos senhores de escravos. Nesse sentido não é muito diferente dos americanos: em 32 dos seus primeiros 36 anos de vida os americanos que ocuparam o cargo de presidente foram proprietários de escravos na Virgínia. Tanto a colônia como o Estado nacional, fundados sobre a escravidão, são os fornecedores dos seus estadistas mais ilustres; só para lembrar, George Washington, grande chefe militar e político da revolta contra a Inglaterra; James Madison e Thomas Jefferson autores, respectivamente, da Declaração de Independência e da Constituição Federal em 1787, os três são proprietários de escravos”. Sobre os nossos liberais, parte dos inconfidentes, assim como os chefes americanos citados, eram proprietários de escravos, inclusive o herói nacional Tiradentes.
Os americanos, como mostra Domenico Losurdo, no livro Contra-História do Liberalismo, levaram quase um século após a independência para abolir a escravidão, por meio de uma guerra civil, na qual os “liberais sulistas” taxavam Lincoln de ditador, e outro meio século para acabar com os resquícios legais da discriminação racista, graças ao movimento dos direitos civis, da década de 1960.
Algo semelhante se poderia dizer de muitos de nossos liberais de hoje que assistiram a fúria repressiva sem controle da Operação Lava Jato e ficaram satisfeitos com a prisão de Lula que o afastou do pleito. Muitos deles, hoje, se arrependeram, alguns publicamente, de não terem votado em Fernando Haddad no segundo turno das eleições quando estava evidente que isso poderia contribuir para a eleição do protofascista Jair Bolsonaro.
Uma nova eleição se aproxima. É tempo de nossos liberais acertarem a cabeça para ajudar o Brasil a acertar o passo.
- Com colaboração de Armando Sartori
segunda-feira, 18 de outubro de 2021
Round 6 é uma alegoria do inferno capitalista
Round 6 é uma alegoria do inferno capitalista
Tradução
Cauê Seignemartin Ameni
Como Parasita, a nova série de sobrevivência da Netflix, Round 6, dramatiza os horrores da desigualdade e da exploração contemporânea na Coreia do Sul – e destrói o mito capitalista de que o trabalho árduo garante a prosperidade.
Embora o mundo conheça a indústria do entretenimento sul-coreana principalmente por sua prolífica produção de K-Pop, um punhado de filmes e séries de TV também tem atraído atenção internacional nos últimos anos. As exportações de filmes do país são muito mais sombrias e abordam direta e alegoricamente a dura realidade da vida na Coréia sob o capitalismo.
A última entrada neste gênero é o drama distópico de sobrevivência da Netflix, Squid Game [Round 6 no Brasil], que está a caminho de se tornar a série de streaming mais assistida de todos os tempos. Como o filme vencedor do Oscar 2019 de Bong Joon-ho, Parasita, e o drama Extracurricular de 2020 da Netflix, Round 6 reflete o crescente descontentamento com a desigualdade socioeconômica coreana.
Apelidado como um dos quatro “tigres asiáticos”, a economia sul-coreana passou por grandes mudanças nos últimos sessenta anos, após a rápida industrialização após a Guerra da Coréia. Em 1960, a renda per capita da Coreia do Sul de US$ 82 a colocava atrás de uma longa lista de países economicamente explorados e empobrecidos, como Gana, Senegal, Zâmbia e Honduras. Foi somente com a chegada ao poder do ditador Park Chung-hee em 1961 que a Coréia começou a experimentar um enorme crescimento econômico. Conhecida como o “Milagre do Rio Han”, a Coreia do Sul passou de um país de baixa renda a uma das principais economias do mundo em poucas décadas.
Embora o crescimento econômico da Coreia tenha elevado o padrão geral de vida, muitas pessoas foram deixadas para trás. A taxa de suicídio na Coreia do Sul é uma das mais altas do mundo, um problema especialmente prevalente entre os idosos, quase metade dos quais vive abaixo da linha da pobreza. Os jovens têm suas próprias tretas, como o recrutamento militar, o acirramento da pressão acadêmica e o desemprego (em 2020, a taxa de desemprego juvenil era de 22%). Eles cunharam um termo para essa sociedade de alta tensão e oportunidades limitadas: “O Inferno Joseon”, uma referência satírica à dinastia Joseon rigidamente hierárquica que a Coréia moderna teve de deixar para trás.
Enquanto milhões de coreanos comuns lutam para sobreviver, as elites do país mantêm um controle rígido sobre a economia. A economia coreana funciona com base nos chaebol, conglomerados empresariais pertencentes a um punhado de famílias ricas e poderosas que são apoiadas pelo governo. Antes elogiados por tirar a nação da pobreza, eles agora agem como o epítome do capitalismo monopolista na Coréia do Sul, cheia de escândalos de corrupção sem sofrerem consequências. Entre os maiores chaebol do país está a Samsung, cujo CEO Lee Jae-yong foi libertado da prisão em agosto de 2021 depois de cumprir apenas metade de sua sentença de 2 anos por suborno e peculato. Para justificar sua libertação, o governo sul-coreano citou a importância de Lee para a economia do país.
A extrema desigualdade da Coréia é o tema central de Round 6. No programa, um grupo de jogadores endividados competem numa variação de jogos infantis, para ter a oportunidade de ganhar 38 milhões de KRW (aproximadamente, 38 milhões. Só há um problema: todo jogo é jogado até a morte. Os jogadores que falham são mortos no local e o risco de eliminação aumenta a cada rodada. Cada vez que um jogador é morto, dinheiro extra é adicionado ao prêmio, exibido na forma de um cofrinho gigante que levita no dormitório dos jogadores.
Enquanto isso, um grupo de elites mundiais muito ricas assiste e se deleita nas miseráveis tentativas dos jogadores de ganhar o prêmio em dinheiro. Eles apostam na vida dos jogadores da mesma forma que o protagonista da série, Gi-hun, apostou em uma dívida que arruinou sua vida tempos atrás: uma ilustração criativa de como a sociedade capitalista funciona com dois conjuntos de regras, um para os ricos e outra para os pobres.
O que diferencia Round 6 de outros conteúdos distópicos, como Battle Royale e The Hunger Games, é o foco explícito da série na classe e na desigualdade, especialmente no contexto da Coreia do Sul contemporânea. No segundo episódio, os personagens voltam ao seu cotidiano após terem votado pela descontinuação do jogo no primeiro episódio, mas as péssimas condições de suas vidas, atoladas com esmagadoras dívidas, inevitavelmente os fazem retornar. Se eles vão sofrer com o capitalismo apesar de tudo, eles também podem provar o prêmio em dinheiro que o jogo promete e que pode mudar suas vidas. Talvez em referência à natureza inevitável do Inferno Joseon, o episódio é intitulado “Inferno”.
A descrição da Coréia do Sul na série Round 6 ressalta como as circunstâncias econômicas para a classe trabalhadora coreana não lhes dão escolha a não ser jogar os jogos supervisionados pelos governantes da sociedade. A história gira em torno de Gi-hun, cujo vício em jogos de azar e o desemprego o deixaram endividado. Ela opta por jogos na esperança de ganhar dinheiro suficiente para pagar as contas médicas de sua mãe moribunda e para sustentar sua filha na tentativa de impedi-la de se mudar para os Estados Unidos com sua mãe.
Conforme a série avança, é revelado que os problemas financeiros iniciais de Gi-hun podem ser rastreados até a perda de seu emprego dez anos antes. O roteirista e diretor da série, Hwang Dong-hyuk, disse que modelou o personagem de Gi-hun após os organizadores da greve da fábrica da Ssangyong Motors em 2009, que terminou em derrota após sucessivos ataques na fábrica da Ssangyong Motors. Em flashbacks, aprendemos que depois que Gi-hun e um grupo de seus colegas foram demitidos, ele e seus companheiros sindicalistas se barricaram no depósito da Dragon Motors durante a noite. Os fura-greves arrombaram as portas e espancaram os trabalhadores com cassetetes, batendo em um colega de Gi-hun até a morte diante de seus olhos. Enquanto essa cena de violenta repressão se desenrola, Gi-hun se sente mal por não estar presente no nascimento de sua filha que estava nascendo.
A Coreia do Sul tem uma longa e contínua história de práticas anti-trabalho, muitas vezes extremas e às vezes violentas. No mês passado, o presidente da maior confederação sindical do país foi detido e encarcerado sob o pretexto de violar as normas de segurança da COVID-19 em uma manifestação trabalhista em Seul. Muito provavelmente, seu objetivo de elevar o grau da militância trabalhista intrigou o governo.
Embora Round 6 acene para a greve mais recente da Ssangyong Motors em 2009, a violenta luta de classes atravessou a história coreana por décadas. Em 1976, por exemplo, as trabalhadoras da fábrica têxtil Dong-Il iniciaram uma luta por eleições sindicais justas e democráticas que durou quase 2 anos, durante as quais enfrentaram uma imensa brutalidade policial e ataques de fura-greve. A luta culminou em um ataque de anti-sindicalistas apoiados pela CIA, que despejaram excrementos humanos nas trabalhadoras que tentavam votar nas eleições sindicais. Dong-Il sintetiza várias passagens da história trabalhista coreana ao mesmo tempo: a política anti-operária do governo, a guerra corporativa contra os trabalhadores, a violência contra as mulheres e o sindicalismo da empresa ligada à União Federal Coreana (FKTU). Os últimos 50 anos da história do trabalho coreano desde então não foram menos brutais.
No 4º episódio de Round 6, “Um mundo justo”, um competidor é pego trapaceando. Ele e seus cúmplices são escrachados rapidamente. O mestre do jogo então faz um discurso apaixonado no qual descreve o processo como uma meritocracia e a si mesmo como um provedor benevolente de oportunidades. “Essas pessoas sofreram desigualdade e discriminação no mundo real”, diz ele, “e estamos dando a elas uma última chance de lutar de forma justa para vencer”.
Embora talvez seja um aspecto universal nas sociedades capitalistas, a meritocracia tem ressonâncias particulares na cultura coreana, que remonta ao confucionismo. A ideia de que o trabalho duro valerá a pena continua sendo um slogan comum na Coréia, mesmo quando mais e mais jovens coreanos que seguiram o rígido caminho do sistema educacional coreano altamente competitivo enfrentam desemprego, dominação chaebol e desigualdade.
Para muitos, “O Milagre do Rio Han” se tornou “O Inferno de Joseon”. E, como Parasita antes dele, Round 6 mostra que o mito capitalista do país está sendo perfurado por rachaduras cada vez mais profundas.
quarta-feira, 13 de outubro de 2021
Pessoa a noção de bbb
Uma Categoria do Pensamento Antropológico: A Noção de Pessoa 1
https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/111620/109658
terça-feira, 5 de outubro de 2021
Lukács - varias obras https://gyorgylukacs.wordpress.com/
Lukács - varias obras https://gyorgylukacs.wordpress.com/
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
Richard Levins Living the Eleventh Thesis
Living the Eleventh Thesis
—Karl Marx, Theses on Feuerbach, No. 11
When I was a boy I always assumed that I would grow up to be both a scientist and a Red. Rather than face a problem of combining activism and scholarship, I would have had a very difficult time trying to separate them.
Before I could read, my grandfather read to me from Bad Bishop Brown’s Science and History for Girls and Boys.1 My grandfather believed that at a minimum every socialist worker should be familiar with cosmology, evolution, and history. I never separated history, in which we are active participants, from science, the finding out how things are. My family had broken with organized religion five generations back, but my father sat me down for Bible study every Friday evening because it was an important part of the surrounding culture and important to many people, a fascinating account of how ideas develop in changing conditions, and because every atheist should know it as well as believers do.
On my first day of primary school, my grandmother urged me to learn everything they could teach me—but not to believe it all. She was all too aware of the “racial science” of 1930s Germany and the justifications for eugenics and male supremacy that were popular in our own country. Her attitude came from her knowledge of the uses of science for power and profit and from a worker’s generic distrust of the rulers. Her advice formed my stance in academic life: consciously in, but not of, the university. I grew up in a left-wing neighborhood of Brooklyn where the schools were empty on May Day and where I met my first Republican at age twelve. Issues of science, politics, and culture were debated in permanent clusters on the Brighton Beach boardwalk and were the bread and butter of mealtime conversation. Political commitment was assumed, how to act on that commitment was a matter of fierce debate.
As a teenager I became interested in genetics through my fascination with the work of the Soviet scientist Lysenko. He turned out to be dreadfully wrong, especially in trying to reach biological conclusions from philosophical principles. However, his criticism of the genetics of his time turned me toward the work of Waddington and Schmalhausen and others who would not simply dismiss him out of hand in Cold War fashion but had to respond to his challenge by developing a deeper view of the organism–environment interaction.
My wife, Rosario Morales, introduced me to Puerto Rico in 1951, and my eleven years there gave a Latin American perspective to my politics. The various left-wing victories in South America were a source of optimism even in those grim times. FBI surveillance in Puerto Rico blocked me from the jobs I was looking for and I ended up doing vegetable farming for a living on the island’s western mountains.
As an undergraduate at Cornell University’s School of Agriculture, I had been taught that the prime agricultural problem of the United States was the disposal of the farm surplus. But as a farmer in a poor region of Puerto Rico, I saw the significance of agriculture for people’s lives. That experience introduced me to the realities of poverty as it undermines health, shortens lives, closes options, and stultifies personal growth, and to the specific forms that sexism takes among the rural poor. Direct labor organizing on the coffee plantations was combined with study. Rosario and I wrote the agrarian program of the Puerto Rican Communist Party in which we combined rather amateurish economic and social analysis with some firsthand insights into ecological production methods, diversification, conservation, and cooperatives.
I first went to Cuba in 1964 to help develop their population genetics and get a look at the Cuban Revolution. Over the years I became involved in the ongoing Cuban struggle for ecological agriculture and an ecological pathway of economic development that was just, egalitarian, and sustainable. Progressivist thinking, so powerful in the socialist tradition, expected that developing countries had to catch up with advanced countries along the single pathway of modernization. It dismissed critics of the high-tech pathway of industrial agriculture as “idealists,” urban sentimentalists nostalgic for a bucolic rural golden age that never really existed. But there was another view, that each society creates its own ways of relating to the rest of nature, its own pattern of land use, its own appropriate technology, and its own criteria of efficiency. This discussion raged in Cuba in the 1970s and by the 1980s the ecological model had basically won although implementation was still a long process. The Special Period, that time of economic crisis after the collapse of the Soviet Union when the materials for high-tech became unavailable, allowed ecologists by conviction to recruit the ecologists by necessity. This was possible only because the ecologists by conviction had prepared the way.
I first met dialectical materialism in my early teens through the writings of the British Marxist scientists J. B. S. Haldane, J. D. Bernal, Joseph Needham, and others, and then on to Marx and Engels. It immediately grabbed me both intellectually and aesthetically. A dialectical view of nature and society has been a major theme of my research since. I have delighted in the dialectical emphasis on wholeness, connection and context, change, historicity, contradiction, irregularity, asymmetry, and the multiplicity of levels of phenomena, a refreshing counterweight to the prevalent reductionism then and now.
An example: after Rosario suggested I look at Drosophila in nature—not just in bottles in the laboratory—I started to work with the Drosophila in the neighborhood of our home in Puerto Rico. My question was: How do Drosophila species cope with the temporal and spatial gradients of their environments? I began examining the multiple ways that different Drosophila species responded to similar environmental challenges. I could collect Drosophila in a single day in the deserts of Gúanica and in the rain forest around our farm at the crest of the cordillera. It turned out that some species adapt physiologically to high temperature in two to three days, and show relatively little genetic differences in heat tolerance along a 3,000-foot altitude gradient (about twenty miles). Others had distinct genetic sub-populations in the different habitats. Still others adapted to and inhabited only a part of the available environmental range.
One of the desert species was not any better at tolerating heat than some Drosophila from the rain forest, but were much better at finding the cool moist microsites and hiding in them after about 8 a.m. These findings led me to describe the concepts of co-gradient selection, where the direct impact of the environment enhances genetic differences among populations, and counter-gradient selection where genetic differences offset the direct impact of the environment. Since on my transect the high temperature was associated with dry conditions, natural selection acted to increase the size of the flies at Guánica while the effect of temperature on development made them smaller. The outcome turned out to be that the flies from the sea-level desert and the rain forest were of about the same size in their own habitats, but that Guánica flies were bigger when raised at the same temperature as rain forest flies.
In this work I questioned the prevailing reductionist bias in biology by insisting that phenomena take place on different levels, each with their own laws, but also connected. My bias was dialectical: the interaction among adaptations on the physiological, behavioral, and genetic levels. My preference for process, variability, and change set the agenda for my thesis.
The problem was how species can adapt to an environment when the environment was not always the same. When I began thesis work I was puzzled by the facile assumption that, faced with opposing demands, for example when the environment favors small size some of the time and large size the rest of the time, an organism would have to adopt some intermediate state as a compromise. But this is an unthinking application of the liberal bromide that when there are opposing views the truth lies somewhere in the middle. In my dissertation, the study of fitness sets was an attempt to examine when an intermediate position is truly an optimum and when is it the worst possible choice. The short answer turned out to be that when the alternatives are not too different, an intermediate position is indeed optimal, but when they are very different compared to the range of tolerance of the species, then one extreme alone or in some cases a mixture of extremes is preferable.
Work in natural selection within population genetics almost always assumed a constant environment, but I was interested in its inconstancy. I proposed that “environmental variation” must be an answer to many questions of evolutionary ecology and that organisms adapt not only to specific environmental features such as high temperature or alkaline soils but also to the pattern of the environment—its variability, its uncertainty, the grain of its patchiness, the correlations among different aspects of the environment. Moreover, these patterns of environment are not simply given, external to the organism: organisms select, transform, and define their own environments.
Regardless of the particular matter of an investigation (evolutionary ecology, agriculture, or more recently, public health), my core interest has always been the understanding of the dynamics of complex systems. Also, my political commitment requires that I question the relevance of my work. In one of Brecht’s poems he says, “Truly we live in a terrible time…when to talk about trees is almost a crime because it is a kind of silence about injustice.” Brecht was of course wrong about trees: nowadays when we talk of trees we are not ignoring injustice. But he was also right that scholarship that is indifferent to human suffering is immoral.
Poverty and oppression cost years of life and health, shrinks the horizons, and cuts off potential talents before they can flourish. My commitment to support the struggles of the poor and oppressed and my interest in variability combined to focus my attention on the physiological and social vulnerabilities of people.
I have been studying the body’s capacity to restore itself after it is stressed by malnutrition, pollution, insecurity, and inadequate health care. Continual stress undermines the stabilizing mechanisms in the bodies of oppressed populations making them more vulnerable to anything that happens, to small differences in their environments. This shows up in increased variability in measures of blood pressure, body mass index, and life expectancy as compared to more uniform results in comfortable populations. In examining the effects of poverty, it is not enough to examine the prevalence of separate diseases in different populations. Whereas specific pathogens or pollutants may precipitate specific named diseases, social conditions create more diffuse vulnerability that links medically unrelated diseases. For instance, malnutrition, infection, or pollution can breach the protective barriers of the intestine. But once breached for any of these reasons it becomes a locus of invasion by pollutants, microbes, or allergens. Therefore nutritional problems, infectious diseases, stress, and toxicities cause a great variety of seemingly unrelated diseases.
The prevailing notion since the 1960s had been that infectious disease would disappear with economic development. In the 1990s I helped form the Harvard Group on New and Resurgent Disease to reject that idea. Our argument was partly ecological: the rapid adaptation of vectors to changing habitats—to deforestation, irrigation projects, and population displacement by war and famine. We also focused on the equally rapid adaptation of pathogens to pesticides and antibiotics. But we also criticized the physical, institutional, and intellectual isolation of medical research from plant pathology and veterinary studies which could have shown sooner the broad pattern of upsurge of not only malaria, cholera, and AIDS, but also African swine fever, feline leukemia, tristeza disease of citrus, and bean golden mosaic virus. We have to expect epidemiological changes with growing economic disparities and with changes in land use, economic development, human settlement, and demography. The faith in the efficacy of antibiotics, vaccines, and pesticides against plant, animal, and human pathogens is naïve in the light of adaptive evolution. And the developmentalist expectation that economic growth will lead the rest of the world to affluence and to the elimination of infectious disease is being proved wrong.
The resurgence of infectious disease is but one manifestation of a more general crisis: the eco-social distress syndrome—the pervasive multilevel crisis of dysfunctional relations within our species and between it and the rest of nature. It includes in one network of actions and reactions patterns of disease, relations of production and reproduction, demography, our depletion and wanton destruction of natural resources, changing land use and settlement, and planetary climate change. It is more profound than previous crises, reaching higher into the atmosphere, deeper into the earth, more widespread in space, and more long lasting, penetrating more corners of our lives. It is both a generic crisis of the human species and a specific crisis of world capitalism. Therefore it is a primary concern of both my science and my politics.
The complexity of this whole world syndrome can be overwhelming, and yet to evade the complexity by taking the system apart to treat the problems one at a time can produce disasters. The great failings of scientific technology have come from posing problems in too small a way. Agricultural scientists who proposed the Green Revolution without taking pest evolution and insect ecology into account, and therefore expecting pesticides would control pests, have been surprised that pest problems increased with spraying. Similarly, antibiotics create new pathogens, economic development creates hunger, and flood control promotes floods. Problems have to be solved in their rich complexity; the study of complexity itself becomes an urgent practical as well as theoretical problem.
These interests inform my political work: within the left, my task has been to argue that our relations with the rest of nature cannot be separated from a global struggle for human liberation, and within the ecology movement my task has been to challenge the “harmony of nature” idealism of early environmentalism and to insist on identifying the social relations that lead to the present dysfunction. At the same time my politics have determined my scientific ethics. I believe that all theories are wrong that promote, justify, or tolerate injustice.
A leftist critique of the structure of intellectual life is a counterweight to the culture of the universities and foundations. The antiwar movement of the 1960s and 1970s took up the issues of the nature of the university as an organ of class rule and made the intellectual community itself an object of theoretical as well as practical interest. I joined Science for the People, an organization that started with a research strike at MIT in 1967 as a protest against military research on campus. As a member I helped in the challenge to the Green Revolution and genetic determinism. Antiwar activism also took me to Vietnam to investigate war crimes (especially the use of defoliants) and from there to organizing Science for Vietnam. We denounced the use of Agent Orange (used as defoliant in the Vietnamese jungle) that was causing birth defects among Vietnamese peasants. Agent Orange was one of the worst uses of chemical herbicides.
The Puerto Rican independence movement gave me an anti-imperialist consciousness that serves me well in a university that promotes “structural reform” and other euphemisms for empire. My wife’s sharp working-class feminism is a running source of criticism of the pervasive elitism and sexism. Regular work with Cuba shows me vividly that there is an alternative to a competitive, individualistic, exploitative society.
Community organizations, especially in marginalized communities, and the women’s health movement raise issues that academia prefers to ignore: the mothers of Woburn noticing that too many of their children from the same small neighborhood had leukemia, the hundreds of environmental justice groups that noted that toxic waste dumps were concentrated in black and Latino neighborhoods, and the Women’s Community Cancer project and others who insist on the environmental causes of cancer and other diseases while the university laboratories are looking for guilty genes. Their initiatives help me maintain an alternative agenda for both theory and action.
Within the university I have a contradictory relationship with the institution and with colleagues, a combination of cooperation and conflict. We may share a concern about health disparities and persistent poverty, but we are in conflict about corporations funding research for patentable molecules and about government agencies such as USAID (Agency for International Development) promoting the goals of empire.2
I never aspired to what is conventionally considered a “successful career” in academia. I do not find most of my personal validation through the formal reward and recognition system of the scientific community, and I try not to share the common assumptions of my professional community. This gives me wide freedom of choice. Thus when I declined to join the National Academy of Sciences and received many supportive letters praising my courage or calling it a difficult decision, I could honestly say that it was not a hard decision, merely a political choice taken collectively by the Science for the People group in Chicago. We judged that it was more useful to take a public stand against the Academy’s collaboration with the Vietnam-American War than to join the Academy and attempt to influence its actions from inside. Dick Lewontin had already tried that unsuccessfully and resigned, along with Bruce Wallace.
I have always enjoyed mathematics and see one of its tasks as making the obscure obvious. I regularly employ a sort of mid-level math in unconventional ways to promote understanding more than prediction. Much modeling now aims at precise equations giving precise prediction. This makes sense in engineering. In the field of policy, it makes sense to those who are the advisors to the rulers who imagine they have complete enough control of the world to be able to optimize their efforts and investments of resources. But those of us who are in the opposition have no such illusion. The best we can do is decide where to push the system. For this, a qualitative mathematics is more useful. My work with signed digraphs (loop analysis) is one such approach. Rejecting the opposition between qualitative and quantitative analysis and the notion that quantitative is superior to qualitative, I have mostly worked with those mathematical tools that assist conceptualization of complex phenomena.
Political activism, of course, attracts the attention of the agencies of repression. I have been fortunate in that regard, having experienced only relatively light repression. Others did not fare as well, with lost careers, years of imprisonment, violent attacks, intense harassment even of their families, and deportations. Some, mostly from the Puerto Rican, African-American, and Native American liberation movements, as well as the five Cuban anti-terrorists arrested in Florida, are still political prisoners.
Exploitation kills and hurts people. Racism and sexism destroy health and thwart lives. Studying the greed and brutality and smugness of late capitalism is painful and infuriating. Sometimes I have to recite from Jonathan Swift:
I row by and call them names.
Like the ever-laughing sage
In a jest I spend my rage
But it must be understood
I would hang them if I could.
For the most part scholarship and activism have given me an enjoyable and rewarding life, doing work I find intellectually exciting, socially useful, and with people I love.
Notes
- ↩John Montgomery Brown had been a Lutheran Episcopal bishop of the Missouri Synod, excommunicated when he became a Marxist. In the 1930s he published the quarterly journal Heresy.
- ↩USAID supports health and development in strategically chosen third-world countries. Its separate programs are sometimes helpful and participants are motivated by humanitarian concerns. But the agency is also a terrorist organization, supporting counter-revolutionary groups in Venezuela, Haiti, and Cuba. It once supported LEAP (Law Enforcement Assistance Program) that taught torture to Uruguayan and Brazilian police.