Artigos, ensaios, pesquisas de interesse geral - política, cultura, sociedade, economia, filosofia, epistemologia - que merecem registro
segunda-feira, 10 de março de 2025
ARMESILLA O QUE É POLÍTICO SERIE BBB
https://www.youtube.com/watch?v=mbkD7ITr4Lc&list=PLEZarNjGjeTFNbk49oxZh2BSMu9xMrTtt&index=2
MARX E A FINANEIRIZAÇÃO BBB
Marx e a financeirização – o exuberante capital fictício
18/09/2024
O papel crucial da ciência e da tecnologia na economia capitalista do século XXI favorece a valorização das mercadorias-conhecimento gerando as chamadas renda-conhecimento
Neste artigo, centrado na categoria capital fictício e nos bancos, voltamos a discutir as possíveis pistas, os começos de elaboração, acerca da finança da lavra de Karl Marx na Seção V do livro III de O capital.
Em sua definição, Marx explicou: “A formação do capital fictício tem o nome de capitalização. Para capitalizar cada receita que se repete com regularidade, o que se faz é calculá-la sobre a base da taxa média de juros como o rendimento que um capital, emprestado a essa taxa de juros, proporcionaria”.[i]
Em certo sentido, a forma capital portador de juros, como valor transferido efetivamente, é uma forma distinta do capital fictício. Esse último é uma duplicação ilusória do valor-capital, mas tem incidência real no comportamento dos mercados financeiros, afetando a produção e o emprego. Para comprovar isso, basta dar uma olhadela na crise de 2008.
A forma capital portador de juros é a base para o surgimento do capital fictício, porque: “A forma de capital portador de juros é responsável pelo fato de que cada rendimento determinado e regular em dinheiro apareça como juros de algum capital, provenha ele de um capital ou não”.[ii]
Os títulos públicos, as ações, as hipotecas, por exemplo, não são capital real, mas aparecem para seus proprietários como direitos a receber parte da receita tributária, dividendos, renda fundiária, derivados de mais-valor futuro. Com a financeirização, priorizando a liquidez e o curto prazo, há oportunidades de transferência dos papéis e imediato resgate do valor para seus proprietários.
As fronteiras entre as formas “capital portador de juros” e “capital fictício” estão sendo borradas pelo capitalismo financeirizado. É nesse sentido que operam as assim chamadas inovações e a integração dos mercados das mais distintas formas de capital intercruzados, além da escalada financeira das corporações produtivas. Em seu movimento próprio, autônomo, descolado do ciclo efetivo do capital, o capital fictício é incrementado. São gerados lucros fictícios através da valorização desses papéis, acima de seu valor nominal, nos seus mercados secundários.
Em uma fase de conjuntura altista, com crescente especulação financeira, bolhas, os lucros fictícios são atração irresistível, oportunidade imperdível, para todos os capitalistas. Todavia, independentemente dos ganhos e perdas de transações individuais, o lucro global e efetivo na sociedade está limitado pelo mais-valor total. Nas crises, os títulos tornam-se produtos tóxicos, lixo, invendáveis. Os preços desabam e um grande estoque de capital fictício evapora, “se desfaz a aparência ilusória desse capital”, embora a crise resulte também em aguda “centralização de fortunas em dinheiro”.
A persistente centralidade dos bancos
Karl Marx caracterizava os bancos como “o produto mais artificial e refinado” do capitalismo. Constatava “o enorme poder de uma instituição como o Banco da Inglaterra sobre o comércio e a indústria”. Argumentava que o banco e o crédito eram “o meio mais poderoso” tanto para desenvolver a produção capitalista, além de seus limites, inclusive como um dos elementos na transição sistêmica da sociedade, quanto para fomentar crises e fraudes.[iii] Naturalmente, ao longo do tempo, muita coisa mudou no banco, mas sua natureza de centralização social do dinheiro no capitalismo persiste.
No tempo de Marx, concentravam-se nos bancos os fundos de reservas dos capitalistas em atividade, as poupanças da sociedade em geral, rendas para o consumo, as operações de cobrança e desembolso de dinheiro e o comércio de dinheiro. Os bancos centralizavam as transações entre prestamistas e prestatários do capital monetário emprestável. O conjunto de depósitos funcionava, para os bancos, como base para a multiplicação do capital portador de juros. Daí, nasce o poder monetário nas mãos dos banqueiros.
As cédulas bancárias, ou seja, o dinheiro de crédito que ainda eram emitidos legal e diretamente por alguns bancos, no tempo de Marx, em vez do monopólio emissor de um banco central, configuravam “uma espécie de combinação peculiar de bancos públicos e privados e, como tais, encontram-se na realidade respaldados pelo crédito público”.[iv] Os descontos das letras de câmbio, principal base das transações comerciais, eram “um privilégio de criação do dinheiro” pelos bancos.
Karl Marx cita James William Gilbart, em seu livro História e princípios dos bancos: “O objetivo dos bancos é facilitar os negócios, e tudo que facilita os negócios facilita também a especulação. Negócios e especulação estão, em muitos casos, tão intimamente unidos que é impossível dizer onde de fato acabam os negócios e onde começa a especulação […]”.[v] Assim, eram feitos adiantamentos fáceis sobre mercadorias não vendidas, crédito para a febre acionária em ferrovias em 1846 e 1847 etc.
Com a abertura do mercado da China pela guerra do ópio, então se cogitou sobre uma produção massiva, que no final se tornou apenas um mecanismo para arrancar adiantamentos sucessivos de crédito bancário. Se o crédito está barato e as cotações na bolsa dispararam, “que razão haveria, portanto, para desperdiçar tão bela oportunidade?”. Da superprodução e das especulações foram colhidas crises, desvalorização de títulos públicos e ações, paralisação de pagamentos, falências de empresas importantes.
As crises eram agravadas ainda pela estupidez da lei bancária de 1844, que restringia a emissão de moeda, em certa proporção, ao lastro em ouro no Banco da Inglaterra. Marx fustigou sem cessar Lorde Overstone, principal líder dos banqueiros e inspirador da lei de 1844. Ridicularizou suas manobras em depoimentos no Parlamento para justificar a restrição dos meios de circulação, erroneamente equiparados a capital produtivo, para colher seus objetivos inconfessáveis, isto é, juros altos, como todo banqueiro.
Na verdade, na crise, quando os juros se elevam, o capitalista industrial demanda dinheiro para pagamento de letras vencidas, sem qualquer cogitação de capital para expansão produtiva. Ao contrário, na crise, há abundância de capital, ocioso, desocupado. Não é, como Overstone tentava justificar os juros altos por conta de escassez do capital produtivo. Essa lei bancária de 1844 é o ancestral, digamos assim, do monetarismo contemporâneo de Milton Friedman e seus discípulos, conforme a falsa teoria quantitativa da moeda em que os preços das mercadorias são determinados pelo volume de moeda em circulação.
No processo de financeirização, houve na década de 1980 um grande movimento de desintermediação bancária. Aumentou o acesso direto das corporações aos mercados financeiros, no ambiente de desregulação e globalização da esfera financeira. Contudo, os bancos transformaram-se em bancos universais, incorporando as funções especializadas, antes segmentadas, de bancos de investimentos, seguradoras, fundos financeiros diversos.
As corporações continuam lançando seus bônus nos mercados financeiros, mas a colocação dos papéis é feita pelas mãos dos bancos e depende da centralização financeira da sociedade também operada principalmente pelos bancos. Eles influenciam decisivamente na avaliação e precificação dos papéis financeiros. Os bancos ampliaram as suas receitas com comissões, tarifas, prêmios etc. dos seus múltiplos tentáculos na sociedade.
Efeitos contraditórios dos bancos
Karl Marx explicava que o avanço das forças produtivas e a constituição do mercado mundial eram acelerados pelo crédito. Para isso, contribuem diversas funções do crédito. Os créditos alavancam a concorrência e mobilidade dos capitais no processo de equalização da taxa de lucro. Impulsionam o aumento da velocidade da metamorfose das mercadorias. Favorecem a criação de sociedade por ações. Incitam a aceleração do processo de reprodução em geral.
O mercado financeiro no tempo de Marx ainda era restritivamente o que ele chamava de sistema de crédito. Havia basicamente o crédito bancário, afora o crédito comercial recíproco entre capitalistas industriais e comerciais, sobretudo através de letras de câmbio, sem falar na dívida pública. Afora os tradicionais corretores da Bolsa e de mercadorias, havia os bill-brokers, que eram corretores de letras de câmbio e de dinheiro.
Os bill-brokers representavam uma espécie de combinação primitiva do que na financeirização atual se organiza como shadow banking e algumas operações a termo. Marx diz que eles eram “na realidade, meio banqueiros”. Eles tomavam empréstimos dos bancos em troca de letras de câmbio, que eles já tinham descontado e eram resgatáveis diariamente ou nos mais diversos prazos, com forte flutuação dos juros em um mesmo dia. Nesse âmbito, havia letras sacadas sobre mercadorias que ainda não existiam, podendo representar “apenas vento”.
Em certos momentos, os bancos descarregavam seus saldos disponíveis e ociosos com os bill-brokers, seus corretores de dinheiro, influenciando o volume do crédito e a flutuação da taxa de juros, lembrando as operações fora do balanço dos shadow banking de hoje.
As possibilidades de colapsos gigantescos estavam de prontidão: “Os bill-brokers de Londres […] efetuavam suas enormes transações sem nenhuma reserva em dinheiro vivo, confiando nas entradas pelas letras que venciam sucessivamente, ou caso necessário, em seu poder de obter adiantamentos do Banco da Inglaterra, garantidos pelo depósito das letras já descontadas por eles”. [vi] Ou seja: tudo a ver com as alavancagens dos esquemas Ponzi dos fundos administrados pelo Bear Stearns, Lehman Brothers, BNP Paribas, Stanford International Bank, Northern Bank, o fundo de Bernard Madoff etc. desmascarados na crise de 2007-2009.
O crédito bancário do século XIX, como se viu, também favorecia a especulação e as fraudes. O próprio surgimento das sociedades por ações trazia “todo um sistema de especulação e de fraude” e “uma nova aristocracia financeira”. Assim, as ações, que representam a propriedade, têm seu movimento como “puro resultado de um jogo em que os tubarões da Bolsa devoram os peixes pequenos […]”.[vii] Ocorre a diminuição contínua do “número de poucos indivíduos que exploram a riqueza social”.
Marx enxergava os impulsos do crédito e das sociedades por ações para o aumento da riqueza, avanço industrial e mercado mundial, por um lado, e para o acirramento e esgotamento violento dos estreitos limites históricos do modo de produção capitalista, por outro. “O crédito acelera ao mesmo tempo as erupções violentas dessa contradição, as crises e, com elas, os elementos da dissolução do antigo modo de produção”. [viii]
Desse ponto de vista, a financeirização, infinitamente mais poderosa, que o assim chamado sistema de crédito do tempo de Marx, está em consonância com a atual gigantesca riqueza e desenvolvimento industrial. Está em consonância também com as contradições extremas do trabalho, do meio ambiente, da democracia etc. Impõe uma espécie de barbárie para a maioria da população.
Indispensáveis categorias marxianas à luz da financeirização
O excedente de capital é parte constitutiva central da financeirização. Já no tempo de Marx, a dívida pública e depois a constituição de grandes empresas, demandantes de muito capital, tornaram-se necessárias para ancorar e escoar a riqueza excedente e ociosa da Inglaterra. Neste mesmo sentido, as assim chamadas exportações de capital alimentaram o imperialismo britânico.
É claro que as formas do dinheiro e da finança hoje estão longe e muito diferentes das formas do século XIX. Por exemplo, o ouro não é o “dinheiro verdadeiro”, confirmado no mercado mundial, como dizia Marx. Mas as elaborações desse autor sobre signos de valor, dinheiro de crédito e capital fictício tornaram-se categorias econômicas de imensa profundidade científica e atualidade material no capitalismo contemporâneo, sem prejuízo da ideia do dinheiro como equivalente geral e da vigência da teoria valor-trabalho.
Hoje, com a financeirização, campeia a securitização das mais diversas dívidas. Trata-se de universalização de criação de títulos, como massa de ativos, contraparte das dívidas. Complexos instrumentos, com riscos distintos e financiados com créditos alavancados, são empacotados e transacionados. Acumulam-se montanhas de contratos, como os derivativos. A riqueza financeira, assim, cresce muito mais rápida do que a riqueza real.
Há um importante ramo da financeirização que consiste nas assim chamadas mercadorias-conhecimento, que são objeto dos chamados “novos cercamentos”, isto é, a monopolização das patentes e os direitos de propriedade intelectual, gerando um novo tipo de rentismo. O papel crucial da ciência e da tecnologia na economia capitalista do século XXI favorece essa valorização das mercadorias-conhecimento no sentido de gerar as chamadas renda-conhecimento.[ix]
Aqui, neste artigo, buscou-se resgatar a contribuição de Marx, nos limites da famosa seção V do livro III de O capital. Eram pistas, “começos de elaboração”, legados pelo autor, sobre as finanças, com a permanência da teoria do valor-trabalho. Constatou-se a atualidade teórica de suas formulações básicas sobre o dinheiro, o crédito, o capital portador de juros e o capital fictício. Com esse resgate, como ponto de partida, pode-se buscar a caraterização do capitalismo contemporâneo. Trata-se de nova fase, construída nas duas últimas décadas do século XX e aprofundada neste século XXI, com transformações profundas na produção, na finança e no papel do Estado.
A recriação e o transplante das condições econômicas, financeiras, políticas e sociais do capitalismo pós-Segunda Guerra é uma componente que não faz parte da perspectiva do capital nesta fase hoje. Em vez de políticas de regulação e compromisso social, a financeirização impõe sistematicamente a subordinação do Estado, inclusive do seu orçamento e da sua dívida, aos desígnios da pura e exclusiva valorização do capital. A punção sobre o trabalho leva também sistematicamente à negação de direitos trabalhistas e previdenciários, com incremento da exploração do trabalho.
A sobreacumulação de capital, constituída em razão das dificuldades de sua valorização, na década de 1970, reclamou, exigiu a saída através da financeirização. As mudanças no capitalismo contemporâneo não são anomalia. São desdobramentos orgânicos, imanentes e necessários, do ponto de vista do capital, em resposta às novas condições de acumulação e crise. São motivados por múltiplos fatores, especialmente pelo curso dos lucros.
Por fim, vale registrar que a financeirização não vingaria sem a dominação ideológica burguesa, tão avassaladora hoje. Como falava Marx sobre o papel, como dinheiro de crédito, “[…] é a fé que salva. A fé no valor monetário como espírito imanente das mercadorias, a fé no modo de produção e sua ordem predestinada, a fé nos agentes individuais da produção como meras personificações do capital que se valoriza por si mesmo”. [x] A financeirização, com suas formas insanas e fetichistas, tornou-se o centro e o polo dominante. Os processos financeiros tornaram-se onipresentes, invasivos, normais e gerais na economia e na sociedade.
Adotou-se aqui a expressão “capitalismo financeirizado” para designar a lógica dominante e o estado geral do sistema capitalista no século XXI. A adjetivação, através do verbo no particípio, resultando em financeirizado, em vez do simples adjetivo financeiro, pareceu mais adequado.
O capitalismo, que é o substantivo, não é financeiro apenas, continua sendo modo de produção, dependente da exploração do trabalho alheio. Continua o mesmo sistema, mas agora se apresenta desdobrado em financeirização de toda a vida na sociedade. Daí, “capitalismo financeirizado”.[xi]
*Renildo Souza é professor de economia e de relações internacionais na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Autor, entre outros livros, de A China de Mao e Xi Jinping (Editora da UFBA).
Para ler o primeiro artigo da série, clique em https://dpp.cce.myftpupload.com/marx-e-a-financeirizacao/
Para ler o segundo artigo da série, clique em https://dpp.cce.myftpupload.com/karl-marx-e-a-financeirizacao-a-categoria-juros-como-fenomeno-geral/
domingo, 9 de março de 2025
CARTEIS
Há quase 50 ANOS, kurt Mirov, um suíço que vveu no Brasil e depois se fez eleger deputado em seu país, escreveu o clássico "A Ditadura dos Cartéis - Anatomia de um Subdesenvolvimento" (1978), a proposito do que vivenciou como empresário nestas terras. Desde então, se soube que a ditadura dos carteis só fez piorar, e muito, no Brasil, país cuja economia é controlada quase inteiramente por carteis em setores-chave da economia doméstica e nas exportações de produtos primários de caráter estratégico: alimentos, minérios e serviços de geração e distribuição de energia hidrelétrica e, agora, geração de energia verde, eólica e solar. Na contracorrente do que estão a fazer países da África, que se libertam do jugo neocolonial, o Brasil intensifica a sua dependência do antigo jugo COLONIAL, mediante, principalmente, as parcerias PPPs (parceiras público-privadas) apoiadas e em parte FINANCIADAS com dinheiro público via BNDES. Nivaldo Manzano
sábado, 8 de março de 2025
POR QUE A ÁFRICA ESTÁ FORA DO RADAR DO EXCEPCIONALISMO PLANETÁRIO DE DONALD TRUMP (EUA)?
Em uma retomada inexorável da ACUMULAÇÃO DO CAPITAL, na atualização do conceito de Marx por Rosa de Luxemburgo (1871-1919) - processo recorrente que foge à queda tendencial na taxa de lucro mediante fuga para a frente com a apropriação de mais recursos -Trump, em poucos dias, anunciou o que resta do Planeta a ser apropriado pelos EUA - Groenlândia, Canal do Panamá, Golfo do México, Lítio (Argentina, Bolívia e Chile), Palestina, Amazônia (países amazônicos, incluído Brasil de Lula e governos anteriores). Trump não menciona a Europa e a África. A Europa, sem mais recursos a explorar, nada significa praticamente; e a África, por saber que o Continente é o OUTRO DO OUTRO. O Outro, na visão de Trump, é a China, que precisaria ser eliminada do caminho da acumulação do Capital, e o OUTRO DO OUTRO é, como a mulher negra, o outro de sua discriminação, a mulher branca, ou seja, o outro DEPOIS DA CHINA. E como se deve eliminar o inimigo principal por vez, a África ficaria para depois. Eis por que deve ser mantida na penumbra, longe da visão imediata do mapa geopolítico e geoeconômico: a África, associada ao Brics (o Sul-Global) é a resposta definitiva às ambições inexoráveis da acumulação do Capital, ASSIM COMO encenada na atualidade por Trump. A seguir um apanhado do que é a África, colhido em sítios do youtube:
Ao contrário do que ocorre no resto do mundo, a população da África cresce exponencialmente. Esse gigantesco Continente, o terceiro em área territorial, com 30,330 milhões de km2, supera a Rússia (17, mi ki2), Europa (10,53 mi km2) e Estados Unidos (9,8 mi km2). O Continente Africano perde em área total apenas para a Ásia (44,58 mi km2) e Américas (42,50 mi km2).
As projeções indicam que a população da região vai dobrar até 2050, chegando a 2,5 bilhões de pessoas. Na prática, isso significa que em menos de 30 anos um quarto da humanidade poderia ser potencialmente africana.
O crescimento populacional da África ocorre duas vezes mais rápido que o do sul da Ásia e quase três vezes mais do que o da América Latina. O que impulsiona esse crescimento é uma característica peculiar dessa região: na maioria dos países africanos, pelo menos 70% dos habitantes têm menos de 30 anos. Isso contrasta fortemente com a situação no resto do mundo, onde a população envelhece rapidamente. A Europa precisaria repor a sua queda de natalidade com 2 milhões de imigrantes. América Latina e Caribe registram "o envelhecimento populacional mais célere do mundo".
A explosão demográfica da África levou a ONU a concluir que o Continente "vai desempenhar um papel CENTRAL na formação do tamanho e distribuição da população mundial nas próximas décadas"
É fácil entender a correlação positiva estreita entre população e desenvolvimento econômico e social, ao se olhar para a atualidade da China e da Índia. Nivaldo Manzano
sexta-feira, 7 de março de 2025
GUERRA CULTURAL
GUERRA CULTURAL
TEXTO DE Ivanisa Teitelroit Martins
que analisa em profundidade inédita a realidade que vivemos.
“As lógicas discursivas e a guerra cultural
vivo daquilo que o outro não sabe sobre mim. (Peter Handke, Nobel da literatura em 2019), vivo daquilo que nem eu mesmo sei de mim.
A cultura não é um elemento acessório na luta e nos conflitos políticos; ela é o campo onde se constroem as bases da hegemonia. Quem controla a cultura não apenas domina narrativas, mas define os limites do possível, orienta valores e molda a percepção da realidade. Enfrentar a guerra cultural, portanto, exige mais do que reação ou denúncia: é necessário um esforço estratégico e de longo prazo que trate a cultura como o principal território de disputa política. Apenas ao disputar a cultura de forma propositiva e estruturada será possível reverter a hegemonia conservadora e resgatar a capacidade de a cultura funcionar como uma ferramenta crítica, capaz de ampliar os horizontes do debate público e transformar a sociedade.
A guerra cultural não é um desvio da política real, mas uma de suas formas mais sofisticadas de disputa pelo poder. Ela opera no longo prazo, reconfigurando percepções, deslocando termos do debate público e redefinindo o que é socialmente aceitável ou inaceitável. Enquanto a direita utilizou esse mecanismo para consolidar sua influência, a esquerda demorou a reconhecer a cultura como um território central na luta política.
O resultado é um cenário onde o debate público foi capturado por discursos que naturalizam desigualdades, reforçam hierarquias e deslegitimam o pensamento crítico. A guerra cultural não se limita ao enfrentamento direto de ideias políticas; ela transforma valores e comportamentos em campos de batalha permanentes, onde o que está em disputa não é apenas a argumentação, mas os próprios limites do que pode ser imaginado, dito e aceito na sociedade.
Com isso, a política cede à administração de necessidades sociais que não podem modificar o quadro das relações socioeconômicas já existentes e que continuam perseverando.
O hipercapitalismo dissolve a existência humana em uma rede de relações comerciais. Hoje não há mais domínio da vida que não se despoje de um aproveitamento comercial. O hipercapitalismo faz com que todas as relações humanas se tornem relações comerciais. Toma da pessoa sua dignidade e a substitui por valor de mercado. Vivemos em uma sociedade orientada completamente pela produção, pela positividade. Ela suprime a negatividade do outro, do estrangeiro, para acelerar a circulação de produção e de consumo. O que se permite são apenas as diferenças consumíveis. O outro, a quem foi retirada a alteridade, não se pode amar, apenas consumir.
Na hipercomunicação digital tudo se mistura com tudo. Os limites entre o interno e o externo se tornaram cada vez mais permeáveis. Pessoas tornam-se interfaces de um mundo totalmente conectado. Essa desproteção digital é estimulada e explorada por um excesso do discurso do capital.
Um grau maior de informação não cria, sozinho, uma renovação ou modificação sistêmica. A busca pela transparência da “verdade digital” desencadeou um exercício de exame permanente entre o que é verdadeiro e o que é falso. A chamada “verdade digital” constantemente manipulada é um fator que estabiliza o sistema conservador ao invés de questioná-lo. Falta à transparência a negatividade que coloca em questão o sistema político-econômico preexistente, o status quo.
A sociedade da transparência é uma sociedade do positivo. Há transparência quando as coisas ficam transparentes quando se despojam de toda e qualquer negatividade, quando se tornam lisas, niveladas, quando se inserem sem resistência na corrente lisa do capital, da comunicação e da informação. As ações se tornam transparentes quando se subordinam ao processo contável, governável e controlável. As coisas se tornam transparentes quando perdem suas particularidades e se expressam apenas por seu preço. As imagens se tornam transparentes ao se alijarem de toda e qualquer profundidade hermenêutica chegando à perda de sentido.
Há uma fenda aberta no eu que impede que o sistema psíquico concorde e coincida consigo mesmo. Essa fenda se situa no lugar da não transparência e faz com que a transparência do eu seja impossível. Também entre as pessoas há uma fenda aberta. O isso que fica oculto ao eu passa pela fenda psíquica. A iluminação total, a transparência total leva a um tipo de esgotamento do sujeito. O ser humano precisa de esferas em que possa estar em si mesmo sem se preocupar com a opinião dos outros. Apenas a máquina é inteiramente transparente. O psiquismo não é uma máquina. A interioridade, a espontaneidade e a capacidade de gerar acontecimentos são opostas à transparência. O outro é que me questiona, que me arranca de minha interioridade narcísica. Temos a capacidade de ver o outro em sua alteridade se não estivermos inundados pela nossa intimidade. Por outro lado devemos preservar nossa intimidade da sociedade da transparência.
Temos que lidar hoje com uma técnica do poder, o poder smart, que não nega ou oprime nossa liberdade, mas que a esgota. É nisso que consiste a crise atual da liberdade. A avaliação algorítmica de uma pessoa contradiz a ideia da dignidade humana. Nenhuma pessoa deveria ser degradada a um objeto de avaliação. Por outro lado, se forem mantidos mistérios, segredos, estranheza ou outridade serão criados obstáculos que venham a subverter uma comunicação ilimitada, uma hipercomunicação, seus excessos e seus efeitos sobre o sujeito.
A cultura institui o sujeito como humano. Sem o aparato do campo social o sujeito não sobrevive. O sujeito é constituído a partir do campo da linguagem, do simbólico. O sujeito só́ é possível porque entra na ordem social. A constituição do sujeito está atrelada ao campo social o que é uma condição para sua existência.
Para Dessal, psicanalista argentino, o indivíduo pós-moderno é aquele que se vê obrigado a buscar soluções biográficas para problemas sistêmicos. O recurso à biografia torna-se insuficiente diante de uma lógica e de um discurso que hegemonizam uma cultura no contexto nacional e que se mostra em franca expansão no contexto internacional. O recurso à biografia se torna paliativo, sem conseguir se opor à força e a penetração do discurso do capital através da hipercomunicação, tendo como força paradoxalmente solidária o que há de mais temível e que nos espreita dentro de nós mesmos, a pulsão de morte.
Giorgio Agamben, filósofo italiano, ao longo dos anos, adverte que o estado de exceção tende cada vez mais a se tornar o paradigma predominante dos governos na política contemporânea.
Para Bauman que retoma os escritos de Freud o domínio da massa por uma minoria como a imposição coercitiva do trabalho cultural tem sido adotada pela tecnologia cumprindo o papel de neutralizar e anular o pensamento crítico.
Aparelha-se pela coação por transparência que não é um imperativo ético ou político, mas econômico. A superexposição de uma pessoa maximiza a eficiência econômica. Big Data sugere e induz um conhecimento absoluto. Na realidade coincide com o não saber absoluto. É impossível se orientar no Big Data. Uma falha na comunicação nos parece insuportável. Manifesta um vazio que deve ser contornado que compele à compulsividade por mais comunicação, mais informação.
Para a psicanálise, se isso tem efeito sobre o sujeito é devido a não admissão da falta em que o contorno somente poderá ser bordeado pela palavra singular de cada um, permitindo que se retome o pensamento crítico de um a um e coletivamente. A política enquanto esfera da coletividade e da democracia deve recuperar os princípios da solidariedade, justiça e dignidade humana e repelir a hegemonia do capital.
Para Michael Foessel, filósofo francês, a história nos convida a superar os atalhos político-midiáticos que opõem, por exemplo, o liberalismo e o fascismo. A história nos convida a uma leitura mais acurada de nossa época, frequentemente deformada por slogans. A história nos estimula a prestar atenção às diferentes lógicas discursivas.
Deste ponto de vista a força da extrema-direita traduz a gramática da insegurança cultural que causa sofrimentos cuja origem é econômica e social. É urgente repolitizar a questão da extrema-direita no momento em que esta se beneficia ao máximo da ilusão de despolitização característica de uma época supostamente pós-ideológica. No momento em que um sentimento se torna ressentimento coletivo contra estrangeiros e enquanto política de governo americana. O efeito é o surgimento de uma hostilidade crescente a qualquer alteridade.
É importante ter ciência de que a extrema-direita dispõe de um corpo coerente de referências que se baseiam em um imaginário voltado para a desigualdade. A penetração do discurso da extrema-direita no espaço público intelectual e midiático se deve a um certo estágio de nossas economias, mas também a uma infraestrutura material que se apoia em novas tecnologias e no esquecimento da história.
É urgente reconhecer a técnica e a lógica do discurso da extrema-direita, analisar sua base ideológica para repolitizar o discurso, recuperar o protagonismo em defesa da estabilidade e do fortalecimento da democracia, voltar a reconhecer a origem da desigualdade socioeconômica e desenvolver políticas públicas que se voltem à igualdade e à equanimidade. Além de criar condições a todo e qualquer sujeito de viver a alteridade e a diferença no enlaçamento amoroso social contrário à pulsão de morte que inadvertidamente pode se associar à ilusão do discurso do capital, à compulsão à hipercomunicação e ao imperativo econômico da transparência absoluta.”
Ivanisa Teitelroit Martins em
17 de fevereiro de 2025
quinta-feira, 6 de março de 2025
Fernando Pessoa o guardador de rebanhos
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
“O Guardador de Rebanhos”, de 08/03/1914, In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.
DA COISA E DO PROCESSO
DA COISA E DO PROCESSO
Alvin Toffler (1928 - 2016) , estadunidense, escritor e doutor em letras e ciência, de pendores futuristas, maravilhava-se ante o progresso das ciências, cada vez mais analítica na dissecação da realidade em partes cada vez menores. Ao que a opinião contrária vê nisso um retrocesso, ao impulsionar a tendência da pesquisa científica a saber cada vez mais de cada vez menos. Essa visão de mundo de dividir a realidade em partes de um todo que não se estuda, na observação do Prêmio Nobel de Fisiologia, o francês François Jacob, opõe-se frontalmente à sabedoria da Grécia Clássica (e também da sabedoria oriental), que começa pelo todo, a partir do qual estudam-se os seus desdobramentos, não em partes estanques, mas na sua CONTINUIDADE e na sua DESCONTINUIDADE, ao mesmo tempo. É nesse curto circuito da lógica binária do sim x não, do certo x errado que os gregos antigos enxergavam o DEVIR do Cosmos. Ou seja, há uma continuidade descontínua nas manifestações do Cosmos, dos Titãs aos deuses do Olimpo, destes às divindades menores, aos semideuses, aos heróis míticos, aos homens, aos animais, às plantas e às pedras. De acordo com a mitologia grega, tais manifestações engendram-se umas às outras num ciclo recorrente do nascer e do perecer, assim como ocorre na metamorfose dos insetos de ciclo completo, o da borboleta, por exemplo. Da mitologia os gregos retiraram a inspiração de sua filosofia, segundo o historiador francês Jean-Pièrre Vernant, dentre outros. Tem-se, então, do lado dos gregos o PROCESSO e do lado de Alvin Toffler a COISA, na modernidade dos modelos usuais de pesquisa científica. Entendam-se como "coisa" também os conceitos, coisas mentais, abstrações, que se caracterizam por suas DELIMITAÇÕES distintivas, ao passo que o PROCESSO, sem começo nem fim, não se delimita em segmentos, reais ou conceituais. Assim, por exemplo, a criança, que não é uma coisa, não é divisível na sua transição para a adolescência, à diferença de um queijo, divisível em pedaços. É verdade que a arte macabra que tornou célebre Jack Estripador, o bandido londrino que esquartejava as suas vítimas, ao tratá-las como coisa, perde força nos modelos da pesquisa científica, cada vez mais inclinados a tratar a realidade como processo, ou seja, partindo da consideração do todo. Ao entrar em contato, por leitura, com um novo autor por mim desconhecido, intento saber, em primeiro lugar, como ele trata a realidade, se coisa ou se processo. Identifico, assim, um número pequeno, porém, crescente, de autores voltados à ideia de processo, mais consentânea com o modo como experimento minha existência, um desenrolar de mim mesmo rumo à incompletude, graças à qual entrevejo possibilidades de caráter exponencial de permanecer como sou, diferentemente, ao escandir as modalidades lúdicas de papeis que venha a desempenhar. COISA é com Alvin Toffler e seus amigos da dissecação anatômica da existência. Tudo isso para dizer que me é difícil compartilhar do entusiasmo avassalador pela Inteligência Artificial, uma COISA tecnológica, que assusta mais do que empolga. A IA capta fragmentos de minhas manifestações nas redes informáticas e me devolve na forma de um todo vicário, ajambrado estatisticamente, que pretende me convencer de que sou eu, convertido em COISA. Não seria esse o sentido profético da metáfora da barata em Kafka, ou em Clarice Linspector? Nivaldo Manzano
Assinar:
Postagens (Atom)